domingo, 19 de março de 2017

O Porto do século XII

Continuando a mostrar algumas descrições da cidade do Porto, a desta postagem é talvez a mais difícil (por se encontrar em latim) se bem que a mais sucinta pois quem a escreveu não estava propriamente de visita "turística" e não se desprende muito em falar no burgo, aliás parcas palavras lhe proporciona. Contudo considero-as muito importantes dado que é a primeira vez na história escrita que se fala da cidade sem ser nas fugidias notícias dos cronicões antigos asturo-leoneses (onde portucale urbe se confunde muitas vezes com a região que lhe tomou o nome) ou no foral de D. Teresa (cuja autenticidade embora aceite pelos modernos historiadores, é-o sem provas irrefutáveis) ou mesmo a sua confirmação por Afonso Henriques (este mais tendente a ser considerado falso, não obstante a importância que tem para a toponímia existente aquando da suposta falsificação).

Com efeito, esta descrição vem já desde os século XII! Foi escrita pelo célebre Osberno e está incluída na sua De expugnatione Lyxbonensi de 1147 que relata a conquista de Lisboa. A armada que transportava este nobre até à Terra Santa passou pela costa de Portugal e aportou ao Porto sem dúvida para se abastecer de mantimentos e proceder a reparações nas embarcações, se necessário.
Afonso Henriques terá enviado emissários ao Porto com uma carta para ser lida aos cruzados por forma a que estes o ajudassem na conquista daquela que é agora a nossa capital. O bispo do Porto, D. Pedro Pitões, pediu aos cruzados que subissem lá acima perto da sua igreja a ouvir missa, não perdendo a oportunidade para lhes brindar com um sermão que se traduziu para o Portugal da época como crucial. Dizia ele, mas afinal para quê irem à Terra Santa, em risco de ficar pelo caminho, quando podiam recuperar terras aos infiéis já ali, quase às portas de suas casas? O valor que Deus lhes daria seria o mesmo pois os mouros de lá não eram diferentes dos daqui! Dito e feito assim conseguiu levar Pedro Pitões a água ao moinho do nosso primeiro rei...

Capitel pré-românico em depósito no Museu de Arte Sacra do Seminário Maior do Porto. Possivelmente originário da primitiva igreja da Sé de origem asturiana (foto: Revista de Arqueologia, nº 10)

Eis o excerto referente à nossa cidade (as explicações seguem mais abaixo):

« Habet littus maris ab insula usque ad Portugalam fluvius Ovier, super quem civitas Tude; post hunc fluvius Cadivia, supra quem civitas Braccara; post hunc fluvius Ava, supra quem ecclesia Beati Tyrsi Martyris; post hunc fluvius Leticia; post hunc fluvius Doyra, supra quem Portugala, ad quam ab insula venimus circiter horam diei nonam. Dicta autem a portu Gallorum, habens jam annos reparationis suae circuiter octoginta; desolata ab introitu Maurorum, et Moabitorum. habet autem portus a meridie arenas salubres, a prima rupe in introitu usque ad aliam rupem infra, habentes in latitudine passus duodecim ab extremi recessus margine, in quibus involvuntur aegroti, donec mare superveniens eos abluat, ut sic sanentur. Ibidem vero testatus est episcopus praedecessorem suum sanatum a livore simili leprae. De hujusmodi arenis, quod sint in Hispania, in historiis Romanorum invenitur.

Cum autem pervenissemus ad portum, episcopus una cum clericis suis nobis obviam factus est (...).

His auditis, cum esset jam hora decima, usque in crastinum distulimus respondendum, ut pariter qui in navibus erant omnes mandata regis audirent, et ab episcopo absolutionem peccatorum et benedictionem susciperent. Reliqua diei pars cura rerum familiarium consumpta est. Summo mane, ex omnibus navibus in summitate montis in coemeterio episcopii, coram episcopo omnes convenimus; nam ecclesia, pro quantitate sui, omnes non caperent. Indicto ab omnibus silentio, episcopus sermonem coram omnibus lingua Latina habuit, ut per interpretes cujusque linguae sermo ejus omnibus manifestaretur (...)»

O núcleo primitivo da cidade do Porto atual, a quantidade e altura dos torreões é sem dúvida fantasiosa. A porta que se vê é a porta das Verdades que antes se chamava porta das Mentiras. Este núcleo viria posteriormente a ser conhecido como O Castelo. (foto: pormenor de uma foto da História da Cidade do Porto, Portucalense Editora).

Do discurso do bispo:
«(...) Ista enim nostra, quam cernitis, olim inter celebres, nunc ad instar parvuli reducta viculi, jam nostra memoria multoties a Mauris spoliata est. Verum enim ante hoc septennium ab eis adeo afflicta est, ut ab ecclesia Beatae Mariae Virginis cui, Dei gratia, qualiscunque deservio, signa, vestes, vasa, et omnia ecclesiae ornamenta, captis clericis aut occisis asportarent. Sed et ex civibus captivus, et ex circumquaque jacentibus territoriis, usque ad ecclesiam Beat Jacobi Apostoli, innumeros fere in patriam suam secum transtulere, non sine nobiliorum nostrorum sanguine; igne et gladio caetera consumentes omnia. (...)»

As naus com os cruzados chegaram a 16 de junho de 1147 ao Douro. O bispo logo lhes foi apresentar cumprimentos, lendo-lhes a carta de D. Afonso Henriques. Na manhã do dia seguinte subiram todos ao alto do monte da Penaventosa onde existia a igreja e o Paço Episcopal.
Notar que nesta época a igreja não era a românica que agora lá vemos e o Paço estava a séculos de ser o atual. Tratar-se-ia de uma quase ermida pré-românica (talvez do tamanho da antiga igreja de Cedofeita) sendo que, como eram muitos os cruzados, o sermão foi proferido no "cemitério do bispo", que alguns autores creem não se referir propriamente a um cemitério, mas a uma espécie de claustro onde bispo e cónegos viviam ainda que nele devessem existir os enterramentos dos prelados.

O claustro velho da Sé do Porto, local do antigo "cemitério do bispo"? (foto: Monumentos).

O cruzado não levou do Porto recordações pormenorizadas em boa parte porque não existia matéria para tal, pois o Porto do século XII era apenas um humilde burgo do tamanho de uma aldeia muralhada como muitas que ainda subsistem no nosso país. Na sua memória reteve apenas os banhos medicinais nas areias das margens do rio e do discurso de Pedro Pitões:
«Esta nossa cidade, que tendes diante dos olhos, famosa outrora e hoje reduzida a humilde lugarejo, lembramo-nos de que foi muitas vezes saqueada pelos mouros. Ainda há sete anos eles a invadiram e roubaram da igreja da Virgem Santa Maria, em que Deus me colocou, os sinos, paramentos, vasos e ornamentos sagrados, além de cativarem ou matarem os clérigos.» (in História da cidade do Porto da Portucalense Editora).

Assim verificamos que a nossa cidade, se valor tem por ser a segunda cidade do país, mais valor lhe devemos dar ainda pois subiu a pulso: de um quase apagado lugarejo transformou-se na segunda cidade mais importante do país, fruto do seu suor, que é como quem diz do comércio do trato marítimo e onde não jogava a seu favor uma barra adversa e hostil que só com a construção do porto de Leixões já quase na nossa época, deu tréguas a tanta gente, mercadoria e cascos, que foram engolidos pelo mar e pelas pedras da foz do Douro. A grandeza da cidade do Porto deve-se a ela própria, como sobressai do contraste entre o Portugala de Osberno e a cidade moderna de hoje.

domingo, 12 de março de 2017

João de Barros e a sua descrição do Porto

Creio que a maioria das pessoas desconhece a obra Geografia de Entre Douro e Minho... de João de Barros, que nos dá talvez a mais antiga descrição da cidade do Porto, muito antes de Manoel Pereira de Novaes ou Agostinho Rebelo da Costa. Esta obra sobrevive em 4 cópias manuscritas, uma das quais a original do autor que se encontra em depósito na biblioteca portuense. Bem mais sucinta do que os dois outros nomes referidos, ainda assim é uma pequena janela para o Porto do início do século XVI, numa época em que a cidade se esforçava por urbanizar o restante da sua área intra muros; fosse com novas ruas, fosse com novas construções do clero regular ou edifícios públicos.

Notar que este João de Barros foi escrivão da câmara de el rei D. João III e do seu Desembargo e não deve ser confundido com um outro João de Barros celebrado pela sua Gramatica da Língua Portuguesa e as Décadas da Ásia.

A ortografia do texto foi atualizada na sua maioria, deixei apenas como no original as divergências face à moderna que possam indicar pronúncia diferenciada da nossa (mas tendo presente que no português falado daquela época existiam bastantes diferenças que não transparecem na ortografia). Em relação às afirmações de João de Barros, embora algumas delas sejam menos exatas, quis-me imiscuir de as corrigir dado o objetivo desta postagem: dar a conhecer a um maior número de pessoas este texto.

As imagens que acompanham o texto são extraídas da gravura de Pier Maria Baldi, de época posterior mas ainda assim as mais chegadas a João de Barros.

§§

«E começo na cidade do Porto, que é cabeça da comarca, e digo que é uma cidade mui notável e das principais deste reino, pelas cousas insignes que tem, a qual está junto ao rio Douro, hua légua do mar, onde chegam todas as naus e navios que vem de toda a parte a ela. Esta cercada de muro de cantaria mui forte, que se fez em tempo de el-rei D. Fernando, deste reino, no qual há trinta torres fortes e altas e doze portas e postigo por onde se serve. Tem também, onde está a See, outro muro velho que a cerca, onde primeiro soía ser a cidade. A See foi começada pela rainha D. Tareja, mulher do Conde D. Anrique, e ali fez uma doação ou instituição em latim, onde se chama filha do glorioso Afonso, emperador das Espanhas, o qual, posto que assi se chamasse, não se fez dele eleição nem coroação. Depois, a rainha Dona Mafaldra, sua nora, mulher de el-rei Dom Afonso Anriques, acabou aquela See e lhe dotou muitas rendas, onde ela tinha singular devação, porque achara, ali, em hu silvado, hua fermosa imagem de Nossa Senhora, a que ora chamam, por esta causa, Nossa Senhora da Silva, e no tesouro da See estão muitos atavios, que esta rainha aí deixou, de sua pessoa, assim como toucados, lenços, camisas, que não são assi sumptuosos como os de agora.

Tem esta cidade preeminência e excelência que pode fazer os homens fidalgos e nobres; porque os reis passados lhe concederão previlégio que os que fossem cidadãos dela tivessem os previlégios que naquele tempo tinham  os Infanções e ricos homens, os quais, segundo a mais certa interpretação, eram senhores de terras, de conselho do rei, sem título de duques nem de condes, porque ainda naquele tempo se não costumavam tanto na Espanha.
O belo monte e o morro da Vitória: 1- a porta do Olival, 2- a porta Nova ou Nobre, 3- os conventos de S. Francisco (esq.) e S. Domingos (dir.).

Em Trás-os-montes há hu conselho que chamam Aguiar, e tem hua aldea junto ao rio Tâmega, em hu bosque, e, como quer que os reis dessem tão grandes previlégios aos que povoaram terras hermas, diz o foral daquela aldea que, quando o rico homem for ao rio fazer troviscada, que eles lhe dem hua merenda de porretas com vinagre; sem mais outro foro; assi, que rico homem he senhor das terras cujo previlégio os cidadãos do Porto tem. Outro previlégio tem esta cidade muito grande, o qual é que nenhu grande senhor possa nela viver nem menos pousar, senão três dias, do qual previlégio pesou muito aos senhores que naquelas cidades tem suas terras, porque desejaram muito viver aí em tanto que alguns clérigos fidalgos procuravam haver benefício na See para com isso poderem aí viver, os quais cidadãos, consentem enquanto bem vivem e não alvoroçam a terra. E foi esta boa consideração dos antigos conforme ao que diz Aristóteles nas Políticas, o que também el rei D. Fernando mandou em seu tempo que se guardasse em Lisboa, como se contem em sua corónica. É cidade enobrecida de muitos e mui nobres templos, assi como a See, que é de abóboda mui forte, com torres altas que a cidade tem por divisa, com Nossa Senhora no meio, porque as scripturas antigas lhe chamam de Santa Maria, tem nobres claustras e é melhor aposento para o bispo que pode haver em outra parte. Está na See o corpo do mártir São Pantaleão, que, maravilhosamente, de Grecia por mar ali aportou. Está em uma caxa de prata dourada, de muito preço, e a cabeça anda apartada para visitar os enfermos. Está também ali hu braço de São Vicente, que se trouxe de Lisboa, e assi outras muitas relíquias.

O mosteiro de S. Domingos edificou a rainha Dona Mafaldra, não a mulher del rei Dom Afonso, que edificou a See, mas hua sua filha, que se chamou também assi; e naquele tempo chamavam rainhas às filhas dos reis e não ifantes, como agora se chamam. E esta mesma fundou o mosteiro de Arouca, onde ela jaz. É este mosteiro de São Domingos de nobre templo e grandes capelas, alpendres e jardins, com tanta água que pode bastar a hua vila. Têm os frades muitas relíquias e hua parte do lenho da cruz; não tem muita rendas, mas tem muitos religiosos.
O núcleo original da cidade (morro da Penaventosa e Ribeira): 1- A Sé Catedral, 2- A porta da Ribeira.

Outro mosteiro há de Santo Eloi, que há quarenta anos que ali se fundou e tem trezentos mil reis de renda. Tem bons jardins e fonte que dentro nasse.

O mosteiro de São Francisco é hu edifício muito singular, grande, claro, aprazível, com grandes hortas e pomares, com muita água que de fora lhe vem.

Há mais, dos muros da cidade para dentro, o mosteiro de Santa Clara, de freiras, que é casa de muita relegião e grande convento de Donas de nobre gestação, ao qual vem muita água, e terá seiscentos mi reis de renda. Este mosteiro foi primeiro fundado onde chamam Entre ambos os Rios, (onde o Tâmega se mete no Douro), nos anos de mil e duzentos, seis légua do Porto, e depois as freiras, por parte de terem e conservarem melhor a relegião, se mudaram ao Porto (…).

E tornando à cidade do Porto, donde afastei o propósito, digo que tem outro mosteiro no arrabalde de Vila Nova, ou banda de além, que é de freiras da ordem de São Domingos, que não há muito que foi edificado por hua duquesa de Bargança que aí jaz. É mosteiro de muitos jardins e águas, e lugar muito fresco, salvo que lhe chega às vezes o Douro, quando vai grande.

Outro mosteiro de freiras da Ordem de São Bento se fez aí, pouco há, por mandado del rei Nosso Senhor, com autoridade do papa para se trasladarem nele quatro mosteiros da mesma Ordem que estavam pelos montes e não pareciam honestos para mulheres, scilicet Vila Cova, Tarouquela, Tuias e Rio Tinto; e este que se fez está dentro na cidade e é casa nobre e de muita água dentro e que tem muitas religiosas e muita renda.
Vila Nova, a serra do Pilar com os Guindais/Codeçal em fundo: 1- o monte onde se estabeleceu o convento da Serra, 2- Vila Nova, 3- Convento de Santa Clara no local dos Carvalhos do Monte.

No cabo do arrabalde de Miragaia [Monchique] fundou outro mosteiro de observância da Ordem de Santa Clara dona Brites de Vilhena, no aposentamento que fez com seu marido, Pero da Cunha, e certo que é hu edifício e assento que cuido que há poucos anos daquela sorte, assi na igreja e retábulo, como nas casas, jardins, pomares e muitas fontes, e tem duas claustras mui singulares e em cada hua sua fonte no meio levantada, afora outras que dentro estão. E certo que esta senhora ornou tanto este mosteiro que com isso deixou de sua grande vertude.

Outro mosteiro mandou tresladar aí, pouco há, el-rei Nosso Senhor, que é o de Grijó, que estava daí duas léguas e é isento imediato ao Papa, que tem muitas igrejas de sua representação, e, por estar mais conjunto à cidade se pôs da banda de além, para o meio dia, em hu lugar alto, de muita vista, por indústria do muito reverendo padre Dom Brás, que hora é bispo de Leiria, que fundou, redondo de arte mui nova, e em lugar donde se vê o mar e a cidade, e o reformou e fez da observância e parece muito melhor e mais próprio a serviço de Deus estar hu tão insigne mosteiro antes ali que em hua aldea, que assi deviam fazer a outros que há na comarca. Valerá a renda deste mosteiro hum conto com a dos cónigos, que são Regrantes da Ordem de Santo Agostinho.

Tem a cidade o arrabalde de Vila Nova, que já disse, cuja parróquia é Santa Marinha, e junto dela está o castelo de Gaia em hu lugar alto e mui aprazível, porque todo aquele monte ao redor é cheio de arvoredos frescos onde há muitas laranjeiras, loureiros e outras árvores que fazem aquele monte muito fermoso, com muitas águas e fontes ao redor. Este castelo é já derribado, que a cidade derribou estando nele hu alcaide que fazia agravos na terra. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César e daí tomou o nome, e ali estavam alguas pedras com o nome de Caio César.

Há outro arrabalde a que chamam Miragaia, porque está defronte de Gaia, de que é parróquia São Pedro, onde está hu hospital do Spirito Santo, com parreiras, jardins e grande fonte.

Outro arrabalde está mais afastado, a que chamam Massarelos, cuja parróquia é o mosteiro de Cedofeita, que é de cónegos seculares da Ordem de Santo Agostinho, que é mosteiro assás deleitoso, de muitas frutas, jardins e fontes, que tem conezias, chantre, mestre-escola e prior, e terá por tudo quinhentos mil reis de renda com a dos cónigos. Haverá trezentos anos que este mosteiro é fundado.
Gaia e Miragaia: 1-uma nesga de Gaia onde no topo existiu o seu castelo, 2- A torre da Marca onde agora temos os jardins do Palácio de Cristal, 3- o arrabalde de Miragaia e bem mais ao fundo o de Massarelos.

Em todos estes arrabaldes e ao redor deles há muitos vales com jardins de laranjeiras, limoeiros e árvores desta nação, em grande número, e outros arrabaldes há menores – da Porta do Olival e de Santo Ildefonso, onde está outra parróquia.

Tem esta cidade muitos hospitais e ermidas de muita devação e terá por todo quatro mil vezinhos. Haverá nela e em os arrabaldes mais de cinquenta chafarizes e fontes e muitas delas tamanhas que hua abastara a hu grande povo.

Duas ruas tem principais – a primeira é a rua Nova, spaciosa e comprida, mais larga que a de Lisboa, e no cabo tem o mosteiro de São Francisco., e aí, logo junto, a praça. Dezia por ela el rei Dom Afonso o quinto que a rua era a sala e as casas eram as câmaras, o mosteiro era a capela e a praça o Jardim. A outra rua mui nobre é a rua nova de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o mosteiro de São Domingos com hu fermoso chafariz de muita água, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Eloi, com outra fonte muito grande, e afora estas há pela rua e junto dela outras cinco ou seis fontes. As casas destas ruas tem todas quintais e jardins mui frescos e hortas que quasi todas tem água com que se regam, e a mor parte destas casas são boas e nobres.

Não achei qual fosse o fundador desta cidade, mas parece que é mui antiga e do tempo dos romanos, assi como disse de Gaia, que também eu vi alguas pedras nesta cidade que tem estas letras: IVLIVS.

Mas que fosse havida por cidade o não acho, salvo do tempo del rei Dom Afonso Anriques para cá.

Tem o termo de nove léguas em comprido, desde Grijó tee cima de Arrifana de Sousa, onde há muitos julgados e coutos de diversas pessoas, e principalmente dos mosteiros. Assi como o couto de Grijó, Pedroso, Avintes, São João da Foz, Rio Tinto, Vairão, Leça, Santo Tirso, Roriz, Bostelo, Paçoo, Vilela, Ferreira, Moreira, que todos são coutos de mosteiros e tem honras de senhores, que são Lourosa, Louredo, Baltar, e tem no termo os julgados da Maia, Aguiar, Penafiel, Gondomar, Bouças e Refojos.»

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ainda na peugada de Sousa Viterbo

Logo a seguir a ter colocado o post anterior, vim a "descobrir" no 1º volume da 5ª série de O tripeiro, um artigo do Dr. Magalhães Basto sobre Sousa Viterbo onde é feita referência ao conto Judas Vingador que em parte transcrevi.

Há ainda um outro trecho deste texto com bastante interessante, mas que numa primeira análise decidira não incluir por se tratar já da parte de ficção.
Ainda assim, sugerido pelo facto de a loja do ficcionado capitão do cantinho ser precisamente na casa onde Henrique de Sousa - o pai de Sousa Viterbo - tivera a sua loja de sirgueiro e retroseiro; e pelo pitoresco da descrição que por ventura não será completamente ficcionada... creio que vale a pena também a incluir neste blogue.

Que foi naquela casa que nasceu esta distinta personalidade não há dúvida pois isto nos diz de punho próprio em tom de gracejo numa carta escrita em 1870:
«Nasci nesta cidade do Porto, largo de S. Domingos, freguesia de S. Nicolau. Se algum dia a minha popularidade chegar a tanto que a câmara da invicta cidade queira mandar colocar uma lápide na frontaria da casa onde nasci, já não o poderá fazer, porque foi deitada abaixo, para se abrir nova rua!!»

(in Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. 29 p. 139)

Local onde se ergueram as casas do cantinho, encostadas ao (agora) Palácio das Artes. A fachada atual não é a original do edifício pois foi necessária reconstruí-la respeitando o alinhamento da nova rua em 1872.
De facto já não havia casa para colocar lápide. Mas a rua que Sousa Viterbo refere em 1870 ainda não estava aberta ao trânsito não obstante todas as demolições já se encontrarem efetuadas incluindo a da casa em que nasceu bem como a sua companheira do lado, que se encostavam ao edifício do Banco de Portugal e conhecidas como casas do cantinho.
Quem comprara lotes de terreno para edificar na nova rua exasperava desde 1865 com a demora do governo (o terreno era nacional pois fizera parte dos Bens Nacionais graças à extinção das ordens religiosas) Apenas em 1871 se tomaram providências nesse sentido e só em 1872 a rua foi finalmente aberta.

Mas a memória de Sousa Viterbo não saiu a perder. Mal sabia ele que em 29 de Dezembro de 1913 a Câmara Municipal, após iniciativa do Ateneu Comercial do Porto, fez descerrar a placa que dava, doravante e para o futuro, o seu nome à artéria que até ali se chamara rua Nova de São Domingos, estando presentes sua viúva e filha. Foram por isso duas as "lápides" e não uma que a Câmara colocou em sua memória.

E desta forma termino, para dar lugar ao segundo excerto do conto de Sousa Viterbo Judas Vingador, onde a loja do capitão do cantinho e seus frequentadores é descrita. Este trecho vem imediatamente na sequência já colocada no post anterior e é, também ele, delicioso de ler, e como o próprio autor diz, não foge muito à realidade do tempo, não obstante se tratar de ficção:

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«Tal é, ligeiramente esboçado, o tablado onde se vão passar algumas cenas desta nossa narrativa, que, embora singela e despida de atavios, se poderá muito bem considerar histórica e quase autêntica.

Descrevamos agora os personagens principais, a começar pelo protagonista, o Sr. Lourenço Dias, mocetão de 28 anos, robusto, sadio, mas sentindo vibrante a paixão do amor, como se o seu organismo tivesse a complexão delicada e nervosa de um pálido Antony.

Lourenço Dias era natural das proximidades de Santo Tirso, donde aos 12 anos viera para o Porto para marçano numa loja de sirgueiro de vestimentas sacras na rua das Flores. Aos 17 anos terminava o seu curso e era investido nas insígnias de caixeiro; uma farpela completa de pano preto, uma gravata e um chapéu alto. Não se imagina o delírio que este acontecimento produzia na alma do neófito, que assim via transformado o balcão na ara da sua liberdade. Por gravata ao pescoço era o mesmo que usar um símbolo de alforria. O escravo, como se ainda estivéssemos na idade média, tornava-se homem livre, como que adquiria a sua dignidade social. Quasi sempre era pelo Natal que este facto se realizava, e o novo caixeiro, despida a sua larva de marçano, lá ia à terra celebrar a sua iniciação, consoar com a família, escaldar o piolho, como vulgarmente se dizia.

Lourenço era de uma humilde família de lavradores, cuja propriedade não lhes dava para o sustento, tendo o pai de empregar-se muitas vezes, para adquirir o indispensável, no amanho da terra dos outros. Não tinham outro filho e toda a sua ambição era que ele fosse para a cidade, onde faria fortuna, onde enriqueceria como um brasileiro. Os pobres pais já não eram crianças quando o filho lhes apareceu pela primeira vez de cartola. Imagina-se facilmente a sua alegria. Eram, todavia, achacados e os rudes trabalhos tinham-nos consumido. Não duraram muitos anos e não conseguiram ver o filho subir às alturas que tanto haviam sonhado. No entanto o filho auxiliou-os quanto possível e não lhes faltou nada na doença e à hora da morte.

Aos 25 anos o Lourenço estava órfão, cheio de mocidade, de saúde e rico de esperanças. Era trabalhador, de bons modos para com todos, bemquisto, simpático. Tendo vendido os pequenos bens que possuía na terra, com algumas economias mais, resolveu estabelecer-se, tomando uma loja de sirgueiro e retrozeiro no largo de S. Domingos. Um amigo emprestara-lhe uns centos de mil reis que lhe faltavam para efetuar a transação e para o giro mercantil.

Era modesto o estabelecimento de Lourenço, e se estava um pouco decadente ao tomar conta dele, em breve lhe soube readquirir o crédito, de modo que era uma das lojas a retalho do sítio que fazia mais negócio. Lourenço ora estava à banca, como sirgueiro, ora vendendo ao mostrador.  A sua freguesia era sobretudo das aldeias circunvizinhas, num raio de duas a três léguas. Ás terças-feiras a concorrência de mulheres do campo era extraordinária, vindo muitas deixar ali em depósito as boroas de milho, que os parentes, geralmente carpinteiros e pedreiros, vinham depois buscar para consumo de toda a semana. À noite a gaveta vergava sob o peso da patacaria. O apuro não era inferior a dez moedas.
A loja do Lourenço podia servir a um curioso de folklore de interessantíssimo observatório etnográfico. Ali se viam os mais variados trajos, que em volta do Porto quasi diversificam de aldeia para aldeia. O principal fornecedor de Lourenço era um negociante do mesmo largo, de alcunha o Carinha de Santo, mas à loja vinham oferecer grande variedade de produtos das industrias caseiras, muitas das quais se extinguiram ou estão em completa decadência. As sanjoaneiras, ou habitantes da Foz e Matosinhos, traziam camisolas de algodão, luvas grosseiras e outros artefactos idênticos. De outras terras, fabricadas por homens ou mulheres, vinham linhas brancas e tingidas, fitas de linho, botões de osso, cordas de tripa ou de arame para viola, colchetes de arame batidos a martelo, etc. Podia formar-se um pitoresco museu industrial de todos estes produtos, que quasi desapareceram por completo, graças à concorrência implacável das máquinas.

Francisco Marques de Sousa Viterbo ( da Wikipedia )

A loja do Lourenço era frequentada continuadamente por três indivíduos, que se diziam seus amigos, e que efetivamente lhe eram dedicados, e que nas longas noites de inverno, faziam dali o seu club ou soalheiro. Lourenço estava à banca trabalhando, tecendo cordões ou fabricando qualquer outra obra da sua especialidade; os marçanos e o caixeiro arrumavam a loja. A cena era alumiada por velas de cebo, ou por alguns candeeiros de azeite, porque o gás só fizera a sua entrada no Porto na aclamação de D. Pedro V, e o petróleo, o gás liquido, como lhe chamavam, só se vulgarizou mais tarde. Tinha o quer que fosse de fantástico aquela comesinha e burguesa Valbruga. Um dos personagens mais salientes, pela sua figura e pela sua idade, era o Francisquinho cego, cujo apelido lhe viera de um defeito visual, que quasi lhe obscurecera completamente a vista. Victor Hugo, se o houvera conhecido pessoalmente, tomara-o para modelo de Quasimodo. Como se não lhe bastara a cegueira, manquejava de uma perna. Apoiado a um bordão, conhecia-se de longe o seu andar característico pelo bater rítmico do pau. Era alto, de uma estatura avantajada, e quando se espreguiçava e se estendia de encontro à ombreira da porta, tomava as proporções de um gigante. Dir-se-ia que era elástico. Trazia quasi sempre não mão um lenço vermelho, que sacudia de um modo peculiar. Quando o agitava com mais violência e rufava na caixa de rapé, era sinal de cólera; a tempestade estava eminente. Era empregado na alfândega, onde batia o selo e nas quartas-feiras cantava no Lausperenne dos Terceiros de S. Francisco. Um artista e um filósofo.

O outro era um carvoeiro, o Hermenegildo da rua das Congostas, tortuosa e sombria rua que desembocava, por um lado na rua dos Ingleses, e por outro entre a rua de S. João e o largo de S. Domingos. Foi nesta rua que nasceu e residiu por muitos anos o honrado e saudoso fundador do Comércio do Porto, Manoel de Souza Carqueja. Hoje, das  Congostas só resta o nome.

O carvoeiro havia servido no exército de D. Pedro e fora condecorado, pela sua intrepidez, com a Torre e Espada. Era corneteiro e gabava-se de ter concorrido para se ganhar a vitória da Lixa. Ferido, não desanimava e continuava a tocar a avançar, incitando os seus companheiros. Era outro corneteiro de Badajoz, de mais lendária que autêntica memória.

O terceiro, finalmente, era um tamanqueiro, o S. Gens, que morava aos Caldeireiros e viera estabelecer-se na rua de S. João. Não sabia ler nem escrever, mas recitava de cor as profecias do Bandarra, as do pretinho do Japão e toda a literatura messiânica portuguesa. Era um crente, um fanático, que esperava com entusiasmo a vinda de D. Sebastião, e que não perdia a fé, apesar das manhãs de nevoeiro se sucederem sem lhe trazerem o desejado Encoberto. Os motejadores troçavam-no, mas perdiam o seu tempo, porque ele respondia-lhes triunfante, com a interpretação genuína das tesouras e outras figuras não menos simbólicas e convincentes do profeta de Trancoso.

As conversas versavam quasi sempre sobre episódios da guerra do cerco e da patuleia, contados pelo carvoeiro, que o Francisquinho escutava com prazer intenso, porque era constitucional exaltado, não podendo ouvir falar em miguelistas – esses burros, como ele, no seu intransigente ódio político os qualificava sempre.

Às vezes o terceto transformava-se em quarteto quando aparecia um alfaiate da rua de Belomonte, muito devoto, que andava sempre pelas igrejas e que tinha um filho de dez anos, a quem pegou a monomania religiosa, sendo todo o seu empenho fazê-lo padre, o que pode conseguir finalmente. O pequeno já pregava sermões e quando vinha com o pai, lá impingia o seu panegírico a Santo António, cuja imagem se ostentava num pequenino oratório ao fundo da loja. Servia de púlpito, um banco de madeira, em que se empoleirava aquele Vieira em miniatura.

Naquele tempo poucos eram os lojistas que não reverenciavam o taumaturgo português, acendendo-lhe todas as noites a sua lamparina. No dia 13 de junho era de ver qual deles ostentava mais vistoso trono, coberto com a mais rica toalha, cheios de degraus de castiçais de prata e de jarras de porcelana. As leiteiras e as lavadeiras do Candal, de Oliveira, e de outras povoações dos arredores contribuíam com molhos de cravos e ramos de outras flores.

Lourenço também era devoto do Santo; em mais de uma ocasião crítica, nos transes difíceis da sua paixão amorosa, se apegou a ele, mas como não fizesse o milagre que desejava, nunca mais lhe acendeu a lamparina nem tornou a fazer festa. Pouco faltou para o atirar ao poço!»

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Estou ciente de que se tornou um post bem longo; mas digam lá meus caros leitores se não valeu a pena esta agradável viagem a Porto dos meados de XIX, pela pena de um seu filho quase esquecido na atualidade?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Largo de S. Domingos (quase) inédito

Foi com alegre surpresa que encontrei no O Comércio do Porto Ilustrado um conto de Sousa Viterbo de 1899, onde o mesmo refere a sua cidade berço e mais especificamente o seu lugar berço, o largo de S. Domingos. Francisco Marques de Sousa Viterbo foi um portuense ilustre mas que viveu a maior parte da sua vida na capital. Tendo nascido em 1845 na freguesia de São Nicolau, veio a falecer em 1910 em Lisboa e aí se encontra sepultado no Cemitério dos Prazeres. Mesmo quando a partir 1879 foi perdendo progressivamente a visão, nem por isso deixou de ser um trabalhador incansável legando-nos várias obras de elevada qualidade e erudição (algumas podem ser lidas aqui).

Este singelo conto que nos legou nas páginas da revista do jornal O Comércio do Porto creio que não se encontra editado em mais lado algum. O interesse especial que ele encerra, a um nível pessoal, é a descrição maravilhosa que o autor faz do local da cidade que mais profundamente tenho estudado.

Abaixo transcrevo a parte inicial desta obra, precisamente aquela que nos pinta o quadro do palco onde se desenrola grande parte da ação e que por conseguinte precede a parte ficcionada. Grande parte da ortografia foi atualizada. Incluo também alguns comentários em rodapé, sobre pormenores que encontre pertinentes.

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JUDAS VINGADOR
(Quadro de costumes portuenses)

« O largo de S. Domingos era, há 50 anos um dos mais íngremes e tortuosos da cidade da Virgem. Era e é, porque, apesar de todas as modificações que tem sofrido, ainda hoje é irregularíssimo, cheio de esquinas e de cantos, de modo que bem se lhe poderá aplicar o ditado – quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita(1).

Ao centro ornava-o um chafariz, que foi demolido, construindo-se, em seu lugar, uma fonte ao lado, em arco, sob umas casas do Sr. Araújo, que tem loja de papel, o mais antigo estabelecimento deste local. Na casa que confina com esta, ao canto, havia uma loja de droguista, de que era proprietário um sujeitinho magro, bom homem, Manoel António Figueira, apaixonado amador de livros, que competia com os mais afamados bibliófilos portuenses, o Souza Guimarães, o Vieira Pinto, o Carlos Lopes e o visconde de Azevedo, que morreu com mais um grau no seu título.

Uma das imagens que ilustra este conto e que mostra o chafariz ainda no largo (que hoje se encontra atrás da Câmara Municipal). É pouco provável que o chafariz tenha co-existido com o edifício à esquerda.

Contíguo com o extinto convento dos frades, que deram o nome ao largo, havia uns prédios que foram demolidos para abertura de uma rua e que formavam um dos mais afamados recantos do sítio. Era ali a loja do capitão do cantinho(2). Ás vezes, à porta, em manhãs estivas, sentava-se a tomar o refresco o Lobo da Reboleira, um dos mais curiosos e excêntricos tipos de ricaço portuense. Rico e avaro. Era todavia dotado de certa ilustração e perspicácia natural. Contam-se dele, até anedotas e ditos engraçados, mais do que engraçados, de uma ironia mordente. Uma ocasião, indo ele da praça com uma pescada, encontrou-se com um titular de fresca data que lhe disse:

- Ó Sr. Lobo, então não tinha quem lhe servisse de moço?
- Que quer V. Exa.? Desde que os moços de esquina se fizeram fidalgos, não temos outro remédio senão servir-nos a nós próprios!(3)

Defronte, à direita, quem vinha da rua de S. João, havia um renque de casarias de madeira, que foram deitadas a terra e substituídas por outras de pedra, de boa aparência.

Àquele tempo, o largo de S. Domingos quasi se poderia dizer o coração da cidade, porque nele vinham desembocar as duas artérias de mais movimento: a rua das Flores e a rua de S. João(4). Em dias de mercado, sobretudo às terças-feiras, a animação ali era extraordinária, de um pitoresco indescritível, de um ruído insurdescente, de um aparato deslumbrante, pela mistura e confusão dos ruídos, das vozes, dos pregões, dos costumes, dos animais e dos homens. Poucos animatógrafos apresentariam um quadro de mais sensacional impressão.

O largo de S. Domingos, se era um dos focos mais ativos do comércio portuense, era também o ponto obrigado de todas as grandes cerimónias. Os cortejos reais, nas entradas da cidade, as cavalgadas carnavalescas, as procissões mais solenes, tudo desfilava por ali. Pelo tempo das romarias nada mais curioso que ver passar os ranchos dos devotos campesinos, com os seus trajos peculiares, variadíssimos segundo as localidades. Os ricaços, a cavalo nas suas mulas, levando as mulheres ao peito ostentosas tabuletas de ourives; os monstruosos corações de filigrana e os crucifixos de ouro, pendentes de grilhões. Os pobres, a pé, numa alegria doudejante, bailando sempre, ao som das violas, das rebecas e dos clarinetes, levando às vezes, no centro do grupo, uma extensa vara, no extremo da qual um bonifrate fazia os seus exercícios acrobáticos. A filarmónica acompanhava-se então de um coro de gargalhadas, soltado pelo rapazio que acudia ao espetáculo.

Antigamente o largo era calçado por enormes lajeas (sic) de granito como lapides sepulcrais de túmulos de gigantes. Um dia de madrugada, os moradores acordaram com um ruído estranho e com uma visão sinistra. Era o batalhão dos grilhetas, isto é, dos encarcerados da Relação, que vinham levantar o lajeado, brita-lo, e reduzir o piso ao novo sistema de macadam. Então eram os condenados que trabalhavam nas obras públicas, de onde lhe vinha o nome vulgar de calcetas. Se no dia de hoje presenciássemos outra vez aquelas cenas repugnantes, se víssemos chegar o grupo dos miseráveis, algemados de pés e mãos, evocados como números e não como homens, tratados como animais inferiores, que nunca tivessem tido a noção de dignidade, por certo que soltaríamos um brado de indignação ou uma frase de tédio pelo menos, e não trautearíamos saudosamente, na melopeia da tristeza, na melancolia das cousas santas, a chanson du bon vieux temps! »


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(1) - A irregular regularidade que agora tem foi obtida em 1845 após a demolição do murinho de S. Domingos e a remoção do chafariz de S. Domingos. Algumas das pedras do murinho foram usadas na construção de uma fonte na rua do Bonjardim, esquina com a de Sá da Bandeira (agora Sampaio Bruno).

(2) - Eram duas casas conhecidas como casas do cantinho pois que estavam ali como que aconchegadas à parede do edifício do Banco de Portugal (antigo convento dominicano) e ligeiramente mais recuadas que as restantes. Essas casas encontravam-se no local onde existira o lado norte do transepto da igreja dominicana e também a sacristia de uma antiga capela da mesma igreja bem como a capela de Nossa Senhora das Neves. A rua a que Sousa Viterbo se refere é a rua agora com o seu nome que até 1913 se chamou rua Nova de São Domingos, que atravessa solo anteriormente ocupado pela igreja velha, a sacristia velha, o claustro e outras dependências do convento dominicano.

(3) - Nas séries mais antigas de O Tripeiro encontram-se outras versões desta história, bem como outras relacionadas com o mesmo personagem.

(4) - Mouzinho da Silveira só foi rasgada entre 1875-1877.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Onde era o Sério?

Confesso que embora esta questão volta e meia pairasse na minha mente, só recentemente procurei responder a ela a mim mesmo. Mas não foi difícil de lá chegar.

Curiosamente todas as referências que consultei sobre o local apontavam o mesmo como sendo na rua Antero de Quental, todavia sempre me pareceu muito vaga e inexata esta designação: um lugar não é uma rua, sobretudo uma rua grande como a referida. As ruas são posteriores aos lugares e serviam, quando o automóvel não era omnipotente neste planeta, para pôr em contato sítios, lugares, póvoas, casais, enfim aldeolas ou "micro urbanidades" que nos arredores do Porto não faltavam! Mas é verdade que o local ficava algures ao longo daquela rua, ou seja, na estrada para Braga.

Esta designação de lugar do Sério ou sítio do Sério apenas surge referenciada, segundo creio, a partir dos inícios do século XIX para deixar de se ouvir falar dela aí pelos finais do mesmo século. Mas deve ser seguramente anterior, embora não existam nos arquivos da Câmara Municipal muitas plantas que nos mostrem este lugar: apenas uma anterior (1823) e outra posterior (1839) ao cerco do Porto. Contudo é de uma planta disponível no sítio da B.N.D. - excelente para conhecer os arredores do Porto naquela época - que podemos melhor localizar aquele local, tal como era por alturas do cerco do Porto.
Ei-la:
Parcial de uma planta feita a partir da de Balck de 1813, mas acrescentada com os arredores do Porto nos anos trinta do mesmo século [para norte da linha escura ficavam os miguéis (absolutistas), para sul os malhados (liberais)].
Imagem do googlemaps da mesma área na atualidade.
Por razões de simplificação, coloco aqui a legenda:
1 - Monte Pedral, atualmente do monte resta o local do quartel dos Bombeiros e as Piscinas da Constituição por trás deste (a);
2 - Rua do Capitão Pombeiro;
3 - Rua do Vale Formoso;
4 - Rua Antero de Quental (antigamente rua da Rainha)
5 - Quinta do Lindo Vale, agora Parque do Covelo onde estão as ruínas do edifício da quinta e sua capela anexa.

Hoje este local está reduzido a mero cruzamento urbano, regulado pelos muito reguladores semáforos, muitas vezes um caos nas horas de ponta. Enfim, nada de novo aqui... (Mas qual é o lugar, que nunca mais o mostras, pergunta o leitor já um pouco "em pulgas"! Calma... Como referi é um cruzamento banal).

Ecce Loco:
Imagens da tarde de hoje, que nos mostra o cruzamento da rua Antero de Quental, Capitão Pombeiro e António Cândido: o sítio ou lugar do Sério!
Foi durante o cerco do Porto que o Sério teve os seus quinze minutos de fama na história de Portugal. Aqui existiam duas baterias liberais: a de D. Maria II a poente da estrada e a de D. Pedro a nascente. No local terão existido também dois aquartelamentos de tropa, mas tudo estruturas de caráter provisório. Comparando a planta acima com as fotos do local na atualidade, podemos verificar que era sobretudo no lado nascente, onde estão os edifícios da residencial e do toldo vermelho, que se encontrava o descampado de uma dessas baterias.

No dia 9 de Abril de 1833 as tropas miguelistas tentaram ocupar o monte do Covelo, que naquela altura ficava em "terra de ninguém", contudo foram obrigados a abandonar aquele sítio por uma ação comandada pelo Coronel Pacheco auxiliado pelo Major Pimentel, que fez dividir em duas colunas cerca de 400 a 500 homens: uma aproximando-se pela estrada da Aguardente (estrada para Guimarães, agora rua Costa Cabral e rua do Lindo Vale) e outra pela estrada do Sério (Antero de Quental?). Postos os migueis em fuga, os barris e ferramentas ali encontrados que estavam a ser usados para montar o reduto, foram logo usados pelos liberais para o mesmo efeito.

Muro que aparenta ser a secção mais antiga da rua Capitão Pombeiro (coevo da guerra civil?). Todas as edificações novas desse lado da rua estão recuadas por forma a alargar os passeios (uma exigência da Câmara sem dúvida) mas ainda um punhado delas permanecem neste alinhamento.
Recordo-me de algures num jornal dos anos 70 do século XIX ter lido uma notícia que referia o Sério como sendo um "caso sério" de negligência por parte da Câmara face ao terrível estado em que aquela estrada, atravessada por inúmero trânsito inclusive diligências para Braga, se encontrava. O macadam deveria estar mesmo num desmazelo total.

Mas quando morreu verdadeiramente este micro-topónimo? E quantos como ele já "pereceram"?

domingo, 19 de fevereiro de 2017

As eleições para o Colégio Eleitoral e o vapor Porto

Não, não estou a falar das eleições americanas, coisa despropositada e descabida neste blogue! Este Colégio Eleitoral refere-se às eleições no nosso país. A título de exemplo e para os curiosos destas matérias embora não querendo fazer qualquer ensaio sobre história da política, aqui vão uns parcos dados de como se efetuavam as eleições, nomeadamente no segundo semestre de 1845 em plena vigência do cabralismo.

Com efeito, em 26 de junho a Câmara publicou um edital dividindo a cidade em quatro assembleias municipais da seguinte forma:

1ª Assembleia: Igreja da Sé Catedral - compreendendo as freguesias da Sé, São Nicolau e São Pedro de Miragaia;

2ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora do Carmo - compreendendo as freguesias de Nossa Senhora da Vitória e quase toda a de Cedofeita e parte da freguesia de Massarelos;

3ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora da Lapa - compreendendo as freguesias de Paranhos, Bonfim e Campanhã, várias ruas de Santo Ildefonso e a parte restante da freguesia de Cedofeita;

4ª Assembleia: Igreja Matriz de São João da Foz - compreendendo as freguesias da Foz e Lordelo e parte da de Massarelos.

Vem agora o tal "colégio eleitoral". Ora este dar-se-ia, segundo um decreto publicado em 28 de abril no seu n.º 28, da seguinte forma: toda a assembleia que compreender mil fogos dá um eleitor, e a que tiver dous mil dará dous e assim progressivamente pelo que no caso do Porto a 1ª assembleia daria quatro eleitores, a 2ª daria cinco eleitores, a 3ª daria quatro eleitores e a 4ª daria dois.

Como referi no início, isto são apenas uns apontamentos soltos para dar uma ideia ao caro leitor de um sistema atualmente caído em desuso no nosso país, mas que era pelo menos à época em que me reporto, o vigente.

E que época! Bernardo de Costa Cabral era já em 1845 muito contestado! De facto para uma pessoa que iniciara a vida política como um humilde advogado, vira o povo a sua riqueza aumentar a olhos vistos, para além das acusações de nepotismo, entre outras... (ver aqui)
Para dar uma ideia do montante gasto pelo seu partido para estas eleições a ocorrer em agosto, refira-se que nada menos do que o vapor Porto foi fretado até ao fim do processo eleitoral. O correspondente do jornal A Coalisão em Lisboa, de onde extraio estes excertos, afetado é claro pela sua "partideirite" escreve desta forma:
António Bernardo da Costa Cabral (via http://www.tcontas.pt/pt/ )
«Amanhã ou depois parte [o vapor Porto] com o José dos Cónegos: o Tibúrcio talvez não vá por impedimento reumático, que se acastelou nos ossos do ilustre pai da pátria; mas vão outros heróis de honrada fama; e honradissimos costumes; até se diz que vai o Ferrugento, e uma chusma de espiões. [O] Porto deve recebe-los bem; que são os seus salvadores. Quem vier ao desembarque, acautele as algibeiras, que nos apertos é que os tais exercitam a sua ligeireza.

Diz-se que o vapor é também destinado ao transporte de tropas; porque no dia das eleições há-de ser necessário esclarecer algumas opiniões obstinadas com o lume das baionetas: para responder a qualquer orador da oposição, serve melhor um granadeiro, do que todos os Cíceros do ministério.

Este serviço do vapor custa mais de três mil cruzados por viagem. Nisto se gasta o dinheiro da nação: e ainda gastam com a mão mais larga: para certo colégio eleitoral oferecem-se até 20 contos de reis por cada eleitor.»

Com efeito, uns dias depois o mesmo periódico anuncia a chegada do Sr. Silva Cabral desta fria forma:

«Ontem ás 10 horas e meia fundeou no rio Douro o vapor Porto, conduzindo a seu bordo o Sr. Cabral (José).

A entrada do barco, o desembarque de sua Exa., e o seu trânsito foram anunciados por foguetes, e repiques de sinos. A receção foi muda, não houve vivas, nem mesmo dos de encomenda.

Se houvesse de ajuizar-se da importância da receção pelo número de carruagens, poder-se-ia dizer que não foi má; porém como a popularidade se julga pelo cortejo pessoal, e não pelo aparato, ou asseio de berlindas, é força confessar que ainda nenhuma pessoa importante (como é hoje pelo cargo que exerce o Sr. José Cabral) teve no Porto uma receção mais chocha. De toda a gente que o acompanhou não nos apontaram, com verdade, seis pessoas que não sejam empregados, que mais ou menos diretamente estejam debaixo da ação do governo.

Fizeram um mau serviço a sua Exa. uns poucos de indivíduos que se lembraram de ornar as suas janelas com cobertores no ato da sua passagem; porque por seu diminutissimo número fizeram realçar mais o dos que olhavam com indiferença ou desprezo a chegada de S. Exa. Consta-nos que apenas haviam três casas com cobertores na rua de S. João, outras três na rua das Flores, e duas na rua do Almada. (...) »

No ano seguinte, em 10 de junho, já após a revolução da Maria da Fonte e da queda em desgraça do cabralismo pela bancarrota do país, o jornal O Nacional pedia à Comissão Municipal liderada por José Passos simplesmente isto:

mudar «... o nome da rua que do largo da Aguardente vai à da Rainha [ou seja a rua 9 de julho, agora rua da Constituição que naquela época ia apenas do Marquês a Antero de Quental] por nos recordar um dia em que Portugal viu a mais infame e vil traição de um valido da coroa - e assim também o nome que se deu à nova rua que no dito largo principia a estrada de Guimarães, que nos mostra quem foi o traidor. Esperamos o deferimento, pois que o povo já mostrou quanto lhe era repugnante a denominação da rua Costa Cabral derrubando o pilar em que se lia essa denominação.»

Obviamente que esse deferimento não veio pois que a rua manteve o seu nome...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sacos de café dependurados na Torre dos Clérigos?

Conforme prometido na postagem sobre a Meridiana, coloco aqui algumas palavras que portuenses de há um século atrás (1908) nos arquivaram nas páginas d' O tripeiro sobre um outro mecanismo também ele dependente da Torre dos Clérigos. Tudo começou com uma pergunta colocada por um leitor no n.º 10 deste secular periódico que diz:

«Possuo uma gravura antiga onde se vê a Torre dos Clerigos com dois saccos de café, salvo seja, pendurados fóra da varanda superior, como indicadores de qualquer coisa. Em pequenito ouvi dizer que estava installada uma meridiana da Torre.»

Ora, em relação à Meridiana tem só o leitor que reler o ante-penúltmo post; agora trata-se de dar a conhecer as respostas que a este leitor para que também nós cem anos depois possamos ouvir a explicação por quem ainda conheceu o tema. Para isso recolho parte de três respostas que surgem no número imediatamente a seguir ao da pergunta d' O Tripeiro:

«Não eram saccos de café o que o snr. B. S. vê na antiga gravura que possue, representando a Torre dos Clerigos.
Eram bandeiras, como poderiam ser balões de folha de flandres, ou de zinco pintado. Eu explico:
Até 1856, pouco mais ou menos, o unico meio de transporte para a correspondencia do Porto com a Gran-Bretanha, eram os paquetes da companhia ingleza P. & O. (Peninsular and Oriental), que appareciam á vista da nossa barra de quinze em quinze dias. Os vapores, n'aquella epoca, eram de pequenas dimensões e pouca força, comparados com os que se empregam actualmente na navegação transatlantica; por isso, não se podendo contar, senão approximadamente, com o dia e hora da chegada, e para obtemperar ás conveniencias do commercio, que tinha interesse em receber a correspondencia no dia da chegada, foi combinado, entre a direcção da Associação Commercial e o director do correio, com consentimento da Irmandade dos Clerigos que, logo que, pelo telegrapho commercial, houvesse noticia de estar á vista o paquete, fosse colocado um signal na Torre dos Clerigos, que era avistada de quasi todos os pontos da cidade, avisando os commerciantes para mandarem buscar a correspondencia ao correio, que era então no extincto convento das Carmelitas [...].
A torre numa imagem já posterior à época aqui descrita (pormenor de postal antigo)
Aquelle signal consistia, para os dias de bom tempo, em duas bandeiras com as côres da Companhia P. & O. pendentes de um travessão de cada lado ( norte e sul) do varandim superior da Torre; e, para os dias de chuva, em dois balões de lata, pintados com as mesmas côres.
Os caixeiros, a quem competia o serviço de ir ao correio esperar pela distribuição da correspondencia para a levarem a casa dos patrões, tinham ordem de estar attentos á collocação do signal, nas proximidades da chegada dos paquetes, que principalmente de inverno, demoravam um ou mais dias, o que os fazia arreliar, porque os privava de algumas horas de descanso ou de recreio.
Os paquetes, apesar de pequenos, não podiam entrar a barra do Porto; por isso havia uma catraia do sota-piloto Manoel Francisco, encarregada de ir fóra da barra levar e receber as malas de correspondencia e alguns passageiros, que houvessem de embarcar ou desembarcar e que, n'aquelle tempo, eram raros: pois com o mar agitado era muito arriscada a entrada ou saida da catraia.
Muitas vezes sucedia a catraia entrar ao fim da tarde, obrigando os empregados do correio a irem fazer a separação de noite, serviço esse que algumas vezes levava até ás 10 ou 11 horas.»

De facto nos vários jornais que já consultei na Biblioteca Municipal muitas vezes se vê uma pequena notícia referindo a passagem do paquete. E algumas vezes este nem parava porque o tempo estava mau. Seria a correspondência desembarcada em Lisboa? Tempos muito diferentes, os que hoje vivemos...

Mais duas resposta aqui coloco, não tão completas, mas deveras interessantes:

«O que o snr. B.S. julga ser dois saccos de café, não o são, pois que n'essa epoca a Christina, da Cancella Velha, era a unica que tinha o monopolio do saboroso e aromatico producto, não tendo como rival o café da Brasileira, e por essa razão não precisava de réclame para chamar a freguezia ao seu estabelecimento bem conhecido na cidade e até nas provincias.
São, sim, dois signaes com bandeiras, indicando a entrada ou o estar para entrar vapor ou, como hoje se diz, paquete trazendo correio.»

E para finalizar:

«(...) Os taes dois saccos de café, salvo seja, que era costume exhibirem-se ás vistas do publico, já então respeitavel, dependurados nas extremidades de duas pequenas varas, ou páus, collocadas horizontalmente na ultima varanda da torre dos Clerigos, serviam para annunciar que era dia de paquete, isto é, para prevenir quem tivesse de mandar correspondencia pelo paquete para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, que devia entregal-a n'esse dia no Correio Geral, que então era no largo do Correio.»
O "Iberia" de 1836, um dos primeiros paquetes da P & O. (via http://www.pandosnco.co.uk/iberia.html)
Como se vê esta última resposta e a primeira não são propriamente coincidentes. Haverá alguma que fuja à verdade? Ou simplesmente reportar-se-ão a épocas diferentes?