segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Barredo (segundo Pinho Leal)

É, segundo o autor, o bairro mais imundo do Porto. Está todo iluminado a gás, é bastante povoado e quase exclusivamente por Vareiras, Regateiras, Vendilhões e Carrejões.

Escreve ainda Pinho Leal:

“Não há muito que o autor destas linhas, com sol claro, e por mera curiosidade, atravessou este bairro, só para poder falar dele; e creiam os leitores que nunca vi no Porto, nem na capital, uma série de ruas(?), vielas, escadas e barracões, que se assemelhassem àquilo. Tudo transudando água e imundice, obrigando-me o fétido a acelerar o passo, e arrepiando-se-me o cabelo o imaginar-me metido em semelhante labirinto, em uma noite de inverno, mesmo no actual século, antes de montar-se a iluminação pública.
É este bairro um montão de lixo e um sorvedouro de vidas, quando pesa a mais leve epidemia sobre a cidade, e por todas estas considerações façamos votos por que a câmara abra sem demora as ruas em projecto.
Pinho Leal in Portugal Antigo e Moderno (1875), Vol. VI, verbete S. Nicolau

NOTA: as ruas de que fala Pinho Leal nunca foram abertas; dai resultando que, por mais de um século, ficou sendo o Barredo - juntamento com a Sé - os locais de pior fama do Porto. Esses mesmos, agora classificados património mundial.
O contrário aconteceu precisamente no outro lado desta freguesia, no Bairro dos Banhos, onde toda a podridão de casas e de almas desapareceu. Tudo levando, um furacão de demolições e aterros que em pouco mais de um ano destruiu o que séculos de vida da cidade levara a criar. O que poderia esse bairro ser hoje?...

domingo, 29 de novembro de 2009

A Capela dos 3 Reis Magos

No antigo palacete onde se encontrava a Câmara Municipal do Porto, até 1915, existia uma capela privada para uso das gentes da casa mas com abertura para a rua. Esta capela teve também que ser demolida aquando da abertura da Avenida dos Aliados. Ela encontrava-se sensivelmente onde hoje começa a faixa de rodagem ascendente da mesma avenida. No entanto, e ao contrário da hecatombe que tudo ou quase tudo levou, a pedra desta capela foi comprada por um indivíduo e foi deslocada (em carros de bois com certeza) para Cantanhede, mais precisamente para uma terra chamada Pocariça, onde ainda pode ser admirada. Eis em baixo uma foto dessa mesma capela que já estava no local mais central da nossa cidade, mas que agora prossegue a sua vida - e ainda bem - num ambiente algo mais calmo. Não há, infelizmente, muitos exemplos desses.


Imagem extraida de: www.cm-cantanhede.pt

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mercado do Peixe

"Foi ontem colocado na fachada principal do Mercado do Peixe o brazão da cidade, que era o que faltava para concluir aquela parte do edifício.
Como já dissemos, o referido brasão está muito bem trabalhado, sendo feito em duas peças separadas, uma das quais compreende o escudo e o colar da Torre Espada e a outra a Coroa e o Dragão.
A imagem da Virgem padroeira, o Colar da Torre Espada e todos os outros lavores são de apurado trabalho.
Esta peça foi executada por 5 discípulos do Instituto Industrial (...)."

O Commércio do Porto, 5 de Janeiro de 1871


O Mercado do Peixe foi demolido em 1952 para dar lugar ao actual Palácio da Justiça. Terá esta pedra sido destruída? Ou levada para o Museu nacional Soares dos Reis onde se encontram outras pedras deste género? A quem o souber, agradecesse a informação do seu paradeiro.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ainda a Porta Nobre...

"Ao chegar-se perto do rio, próximo do lugar de Miragaia, abria-se outra porta, a que chamavam Porta Nobre ou Porta Nova, que devia erguer-se perto do ângulo formado pelo sector descendente da muralha com a porção que depois seguia, quase horizontalmente, ao longo do Douro.

Parece que no seu lugar existiria, primeiramente, um postigo, o Postigo da Praia, ou Postigo de Miragaia; e terá sido D. Manuel quem o transformou em verdadeira porta, porta ampla, majestosa, para que, por ela, entrassem no Porto, solenemente, pomposamente, os senhores graúdos - os Príncipes de sangue e os Príncipes da Igreja, os grandes Magistrados da Governação. Impossível dizer quantos figurões terão atravessado aquela Porta, com a solenidade inerente às coisas e às figuras solenes, ao correr dos seus três séculos de existência.

Qual terá sido a anatomia desta aparatosa porta, a anatomia que lhe deram os mestres de pedraria manuelinos?

Das duas imagens que aqui se reproduzem, pode concluir-se que os artistas desta obra manuelina não a marcaram com nenhum dos sinais característicos do seu estilo: nem cordas, nem esferas, nem cruzes, nem nada. Nem sequer ameias específicas, dado que, pelo menos as de Pedro Vitorino, são retintas medievais.

Nesta versão, desenhada por Gouveia Portuense "segundo dados fornecidos" pelo Mestre arqueólogo, trata-se de um torreão perfurado na base pela porta (...)



A outra imagem, que dizem ter sido copiada do natural pelo professor de desenho Francisco José de Sousa, ainda com ela convivente, em carne e osso, essa é de estrutura muito diferente.



Antes de mais, enquanto que a porta de Vitorino se abre num corpo saliente do torreão, a de Sousa é, ao contrário, num corpo bastante reentrante que ela está aberta. Em ambos os desenhos, a pedra de armas (...) encima o vértice das portas. Mas, ao passo que a pedra vitoriniana não tem, para cima dela, mais que paramento de silharia seguida, ininterrupta, a do outro exibe dois andares de janelas, com seus arcos apontados, janelas que ainda se repetem nas faces diedras da reentrância.

E é tão engraçado aquilo, que apetece pensar existir ali, um recantozinho bem adequado à bisbilhotice entre vizinhas desocupadas; e ainda adequado ao desdobramento festivo de colgaduras damasquinas, na hora do desfile de cortejos introdutores dos senhores conspícuos. Acontece, porem, que todas as fenestras estão reticuladas de fortes grades de ferro, que nem consentiriam o apoio regalado dos cotovelos mexeriqueiros, nem a fácil exposição dos estofos orientais. Para quê, portanto, aquelas tão lindas janelas?

Diz-nos o descritor deste desenho que "Sobre esta porta se construiu uma casa para a guarda[...]", e então as janelas gradeadas seriam as da moradia do mini-alcaide daquele torreão. Mas, o mesmo cicerone acrescenta ainda que "sobre o arco da Porta Nova estava uma ermida dedicada a N.ª Senhora do Socorro, templo de grande luxo pela grande devoção que o povo tinha à sua padroeira[...]"

Vê-se, assim, que estas janelinhas, destinadas, pela nossa fantasia, à coscuvilhice das comadres e ao cromatismo dos panos de Damasco, pertenciam afinal, a uma modesta alcaidaria e a Nossa senhora do Perpétuo Socorro. Acontece ainda que, segundo Rebelo da Costa, era por ali o Presídio dos Soldados, e, por isso, é de perguntar: como se arrumariam e como conviveriam habitantes tão heteróclitos, naquele torreão da Porta Nova? Como poderia, espaço tão exíguo, como aquele que a gravura denúncia, conter os aposentos do castelão com seus familiares, conter uma ermida, "um templo de grande luxo", a que concorriam multidões de peregrinos, e ser ainda prisão militar?

Também se sabe, ou se julga saber, que, quando o Rei-Venturoso ampliou, de postigo a porta, a abertura de Miragaia, mandou igualmente construir, entre ela e o rio, um baluarte extra-muros, um reforço da fortificação antiga. Luxo apenas, ou prevenção contra qualquer ataque fluvial à Muralha? Ataque de quem? Sabe-se lá...

Esse baluarte ameado, de configuração circular, está presente na gravura vitoriniana que se reproduz (...)

A Porta Nova e seu Baluarte, desapareceram, como todas as portas da muralha fernandina, sob o tufão do Progresso. (...)

Aqui, porém, o desaparecimento foi efectuado, segundo se diz, por um método diferente do, até então, habitual - a bota-de-elástico demolição a camartelo: foi feito pelo sistema, verdadeiramente percursor na época, da soterração.(...)

(...) Mas, não se diz que a técnica, então encarregada de fundamentar a actual Rua da Alfândega, para não arcar com as despesas da demolição daquelas construções castrenses, preferiu soterra-las no entulho do aterro, assim mesmo, inteirinhas, como estiveram, ao correr dos séculos, no exercício das suas funções?

Este soterramento não se nos afigura de uma possibilidade material muito persuasiva. Soterrar aquele alteroso bastião, com seus três andares, suas janelas alcaçarenas, sua Ermida do Perpétuo Socorro, tudo assim, de pé, integro e intocado, - é coisa custosa de engolir... Para mais o solicito informador acrescenta, ainda, que a engenharia da obra teve o amorável cuidado de mandar obturar, de pedra e cal, o vão da Porta Nobre, antes de, para sempre a abafar sob os acervos entulhantes!... Como que veste o pálio-rico ao morto querido que vai a enterrar."

in' O Tripeiro, série VI, Ano XII, nº 2; pela pena de Mário de Menezes.

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NOTA: A pedra de armas desta porta encontra-se no museu Soares dos Reis. Infelizmente quem lá for muito provavelmente não a verá. Isto porque ela ou se encontra em armazém, ou no jardim maior do museu; jardim esse vedado ao público.
O escudo desta pedra tem a particularidade bastante interessante de possuir 13 castelos, sendo por isso de uma altura de indefinição quanto ao número destes no escudo real.

domingo, 22 de novembro de 2009

"Tem a palavra o nosso velho Porto"

"Estamos no Palácio de Cristal para cumprir as ordens de S. Majestade, El-Rei D. Pedro IV, que nos encarregou de falar ao Sr. Porto, guerreiro reformado, sem vencimento, e que vive por esmola num lugar triste, feio e ignorado dos jardins do mesmo Palácio.
- Quem anda aí? - perguntou o senhor Porto, quando nos sentiu os passos.
- Sou eu meu velho e querido amigo.
- Ah, logo vi. Parece que és a única pessoa que sabe o sítio do meu desterro.
- Desterro?! - repetimos nós a palavra, num arrepio confrangedor.
- Desterro, sim. Que é isto, senão a expatriação, o exílio, o degredo? Sou um exilado original, não achas? Desterrado dentro da minha própria terra... Tem graça!
- Vim em má ocasião. O senhor Porto está hoje muito pessimista.
- Pessimista? O que eu estou é desiludido. Transformaram-me num ceptro de pedra, com um escudo de papelão e uma lança de madeira. Que mal fiz eu aos meus filhos - ai queridos tripeiros da minh' alma - para receber a negra afronta de me sepultarem em vida? Olha para o triste cenário que me cerca. Por detrás, as grades de uma prisão; na frente, quase sempre, uma barraca de comes e bebes, e aos lados, troncos de árvores que, em noites de invernia, estendem para mim os seus tentáculos de insónia e desespero, fustigando-me com as folhas secas, amarelas, apodrecidas - tapete de lama e lodo, que me rodeia de humidade, de desconforto e de miséria. Porque me colocaram neste sítio, num sequestro de vilipêndio e de escárnio? Queriam trazer-me para o Palácio? Pois bem: colocassem-me no largo espaçoso e belo da entrada, ao centro, num pedestal elevado, rodeado de arbustos e flores, onde eu os visse a todos e todos pudessem ver este velho guerreiro que, desde 1819, é o símbolo sagrado desta antiga, muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto.
Sabes lá o que eu tenho sofrido durante a minha longa vida de 132 anos!
- Não esperava vir encontrá-lo tão azedo e revoltado senhor Porto.
- Eu logo vi! Até tu acompanhas a ladainha dos outros. Quando em me lastimo das afrontas que me fazem, quando eu exijo, com dignidade e razão, que me coloquem no sítio onde devo estar, atiram-me logo com o epíteto de revoltado. Irra, já é mania! Todas as outras minhas irmãs são tratadas com mimos e carinhos e rodeadas de mil atenções e obséquios. Nada lhes falta, é só pedir por boca. E eu, que sou o único homem da família, eu, que trabalho dia e noite para angariar o meu sustento e o delas, tenho de ver calar e sofrer. Ah, meu velho amigo, quando estava na Praça Nova, em cima do Edifício da Câmara, altivo, varonil, enérgico, senhor do meu valor e da minha força, as coisas corriam de maneira bem diferente.
Mas, em 1916, puseram-me fora de casa, deram-me ordem de despejo, e aí principiei a correr o meu calvário afrontoso, até chegar a esta situação triste e desoladora. Eu, que devia estar sempre mais alto que todos os outros, vejo-me aqui metido neste jazigo, nesta cova, para onde quem me visita tem de descer, quando devia subir, e subir muito, para poder chegar até mim. Verdade seja que ninguém me vem visitar. Nas noites de S. João, quando o picadeiro da Avenida se agita num mostruário de beleza e de encanto, aparece de longe a longe um parzinho que troca furtivamente um beijo, ou, então, alguma senhora que aproveita o esconderijo das árvores para repuxar a meia nylon e desembaraçar-se da cinta que a oprime e magoa, apertando-lhe o estômago e obstruindo a circulação do bacalhau cozido e da costeleta de porco. Nas noites de Feira Popular, as visitas são outras. Há muito ruído, mais alegria , mais vinho. E, por isso, à vontade, sem cerimónia, surgem fantasmas por todos os lados, que imitando os cães, e mesmo sem alçarem a perna, se entretém a humedecer-me o pedestal, cantando e rindo, numa atitude franca de irreverência de de alivio! Mas, quer seja a menina chique, ou simples gente do povo, o que é certo é sofrerem todos da mesma incultura, da mesma falta de educação e da mesma ignorância. Não sabem quem eu sou! Quem conhece o velho Porto? Ninguém!

Aproveitei aquele trágico "ninguém!" do Frei Luis de Sousa, para interromper o velho Porto e desempenhar-me da missão que me tinha incumbido Sua Majestade o Rei-Soldado.
-Ora bem! Essa reclusão, esse exílio, esse degredo vão terminar. O Senhor D. Pedro IV pretende abandonar o lugar que ocupa na Praça Nova. Trespassa o estabelecimento sem luvas e para qualquer negócio. E, como velho amigo e confidente do Sr. Porto, teria muita honra que fosseis vós quem o substituísse, encarregando-me de vos participar o seu desejo.
- Ah! Ah! Ah! - riu, com vontade, o nosso guerreiro - Quer ver-me no seu lugar, e para quê? Se não fazem caso de um rei, muito menos se dignarão reparar num pobre diabo como eu! Ele ainda tem o grande reclamo do bucéfalo, que é o maior atractivo do monumento; agora eu, que figura posso fazer, sem cavalo, sem patas, sem rabo e sem ter a carta na mão?! Nada, diz-lhe que não aceito. E tenho pena, porque ali, no centro da nossa querida Praça Nova, é que é o meu verdadeiro lugar. Quando o D. Pedro para lá foi, já eu estava à 47 anos em cima do edifício da Domus, vendo, analisando e presidindo a todas as manifestações de dor e de alegria, de amargura e de entusiasmo, de fracassos e de vitórias, de rebeldia e de perdão!
- Perdão! É o que peço por vos interromper, mas que pretendo saber é a resposta que hei-de dar ao senhor D. Pedro IV.
- Que ele continue na praça, ou que deixe o emprego, pouco me importa. Para lá é que eu não vou. E para onde tenciona ir sua Majestade?
- Não mo disse.
- Certamente irá para o Brasil. Foi de lá que ele veio, é de lá que ele deve voltar. Nas margens do Ipiranga, soltou o grito de: "Independência ou morte!"; depois, veio para as margens do Douro, gritar: "Liberdade e Constituição!"; e agora, com certeza, ao chegar ao Rio de Janeiro soltará outro grito qualquer, visto ser essa a especialidade de Sua Majestade. Diz que está desgostoso... Que hei-de dizer eu? Entre mim e ele há uma grande distância. O senhor D. Pedro IV foi uma figura que passou, eu sou uma figura eterna. O Rei-Soldado deve-me a mim, ao Porto liberal, o estar colocado no pedestal da fama e da glória. Custou-me muito. Perseguições, guerra, miséria, fome, tudo sofri para que ele subisse e triunfasse, alcançando a vitória que tantas vezes sentiu escapar-se e fugir-lhe para as hostes contrárias. Se não fosse eu, a minha indomável energia, a minha espartana coragem, quem estava na Praça, em cima do mesmo cavalo, com a mesma farda, com a mesma espada e com o mesmo chapéu era o mano Miguel, cuja falange de combatentes era também aguerrida e com muitos simpatizantes.
- O senhor D. Miguel estaria lá com isso tudo, como o senhor Porto diz, mas o que nunca podia, ter na sua mão direita, era a Carta Constitucional, verdadeira cartilha de regalias de um povo.
- Sim, é verdade. - confirmou o velho Porto - Não tinha essa tal carta, cartinha ou cartilha, como tu dizes, mas podia segurar na mão um livro de missa e um rosário, armas que ao senhor D. Miguel, serviam para conquistar a terra e o céu. E, agora, deixa-me em paz. Prefiro viver a minha dor a sós comigo. Passo horas e horas a relembrar o meu glorioso passado e, quantos mais recordo, mais choro o meu negro e amargurado presente. Para que havia eu de voltar para a Praça Nova se, como já te disse, ninguém sabe quem sou e ninguém me daria a esmola de um olhar!...
- Está o senhor Porto enganado. Eu não lhe vinha falar, se não tivesse dentro do cérebro uma ideia genial, um projecto maravilhoso que me garante a certeza de que toda a população da cidade o vai olhar com respeito e admiração.
- Isso é lá possível!
- É. O meu querido Porto vai figurar na Praça em substituição do senhor D. pedro IV, tal qual como está aí, com esse capacete, com essa clâmide, com essa lança, com esse escudo e...
E nada! - berrou o simbólico guerreiro, algo irritado - Se apareço tal qual como estou, continuo a ser um ilustre desconhecido.
- Confie em mim. Há só uma pequena alteração a fazer. É a seguinte: o escudo que o meu velho amigo tem à sua esquerda, e que está em branco e nada diz, será utilizado para publicarem nele as sensacionais notícias desportivas. E, quando aos domingos, o povinho tripeiro, no meio de intensa e febril curiosidade pudesse ler, nesse escudo glorioso: - "Porto, 5; Benfica, 2", o senhor verá com que alegria, com que entusiasmo, com que delírio o aclamam aos gritos de:- "Viva o Porto! Viva o Porto! Viva o Porto!"
- Olhe lá, ó menino, isso é verdade?
- Acredite no que lhe digo. Eu conheço a gente da minha terra.
- Se assim é, conta comigo. Vai dizer ao senhor D. Pedro IV que aceito a transferência e lhe agradeço a lembrança. Ah! E, já agora, pedia-te o favor a ver se conseguias mudar o nome à Praça. Como sabes, tem-se chamado muita coisa - Praça Nova das Hortas, Praça da Constituição, Praça de D. Pedro, Praça da República (só meia dúzia de dias) e, finalmente, Praça da Liberdade. Tudo títulos velhos, gastos e fora de moda.
- Tem razão. Eu já tinha pensado nisso. E arranjei um título bestial - "Praça da Bola"! Hein, que tal? Está contentinho?
- Se te parece! Isto é que se chama andar com sorte! - exclamou, sorridente, o nosso sempre amado Porto.
E, logo, numa reviravolta súbita, mostrando na face austera um ricto de amargura imensa, suspirou entre soluços de dor e lágrimas de sangue:
- Passei de guerreiro a guarda-redes!..."
Arnaldo Leite in O Tripeiro, 5ª Série, Ano VII (1951)


Ontem fui eu mesmo visitar o velho Porto. Encontrei-o, penso, mais triste e amargurado do que Arnaldo Leite à 58 anos atrás.
Deu-me dó ver o desprezo e o abandono a que votaram o Porto. Ali está ele, virado para uma parede de vidro, suja; uma casa(?!) fechada, onde nada se descortina lá dentro. Onde não há vida, não há movimento, não há nada!
Sempre era melhor o terem posicionado ao contrário, para poente. Pelo menos, quem passasse na rua de S. Sebastião poderia contempla-lo ali, altivo, mostrando com orgulho o seu peito pétreo! Fazendo com isso o que Arnaldo Leite tão bem evocou, dando-lhe, "a esmola de um olhar!"
Eu, confesso, não me atrevi sequer a dirigir-lhe a palavra! Notava-se na sua cara que ele estava revoltado. Revoltado com a cidade? Revoltado com as pessoas que a dirigiram, dirigem e... dirigirão? Com quem põe e dispõe em nome de um povo que na maioria das vezes está contra essas decisões arbitrárias, parciais e egocêntricas?... Cansado e farto desse tipo de gente estará já, certamente, este ancião de 190 primaveras. Imagino quanta vezes já não lhe deve ter passado pela cabeça que estaria em melhor lugar se armazenado no Museu Soares dos Reis, junto às outras suas irmãs não expostas... Ou, do mal o menos, voltar para os jardins do Palácio, a fazer companhia às carrancas da extinta fonte da Natividade; também elas habitantes despejas da Praça Nova...
Vim-me embora, mas não sem me aperceber de um leve sussurro. Como que um lamento ou queixume... Talvez fosse apenas o vento, roçando na pedra e produzindo aquele seu som tão característico e fantasmagórico... Ou talvez o velho fantasma de uma estátua a soluçar pelo seu fado forçado... Talvez...

Faço no entanto o apelo aos portuenses, os de coração ou de nacionalidade: Vão vê-lo! Revoltem-se! Ajudem o pobre Porto a poder de novo ser colocado em alguma praça, largo ou avenida. Enfim, num local digno do que aquela estátua já viveu e do que ela representa. Mas não ali de castigo, onde só lhe falta encaixar umas orelhas de burro na cabeça!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O hotel Francfort

«Já não existe, como todos sabemos. Também não ficou a fazer falta aquele casarão inestético exteriormente, e que só se tornou célebre por durante muitos anos ser o hotel preferido pelos estrangeiros, pelas celebridades de todos os géneros e pelos endinheirados. Frequentar o Francfort dava tom e civilisava os que desejavam adquirir maneiras distintas.

Talvez o leitor desconheça que, antes de ser construído aquele prédio, a área por ele ocupada, uma nesga lateral do excesso do terreno, aonde foi aberta a rua do Bispo (depois D. Pedro e agora Elias Garcia[1]), foi destinada pela Câmara, em 1849, para cemitério dos cães. V. Ex.ª fica admirado por ter o Porto precedido várias cidades europeias e americanas na invenção de um local destinado à sepultura da população canina, o que talvez fosse motivado por haver aqui cães em abundância e não existir ainda fabrica de guano, ou congéneres, para onde se lhes removesse a carcaça, depois de mortos.

Esse destinou findou em 1851, ano em que o negociante Luiz Domingos da Silva Araújo requereu à Câmara a venda do terreno, para ali edificar o prédio, há dois anos demolido. Está portanto devoluto o terreno do antigo cemitério dos cães, provisoriamente sentina pública, ao natural, enquanto não se integrar na Avenida(2), por onde estadeiam o seu luxo e elagância os janotas e as gentis descendentes dos novos ricos.

Apenas se concluiu o edifício, logo se montou o hotel, em cujos baixos Paulo Podestá, falecido ai por 1869, instalou a sua livraria e tipografia Internacional, sendo aquela a mais bem organisada do Porto. Depois conheci ali a Cervejaria Schreck, e o café Chaves, que de anos a anos muda de poiso.

Pelo hotel passaram inúmeros forasteiros de nome, em especial gente de teatro, e muitas celebridades líricas, como a Ida Benza, a Isabella Schwichner, a gloriosa Ristori, a Darclée, a Elisa Hensler, que depois casou com o rei D. Fernando, a Chiaramonte, a Dealberti, etc., pois o Porto em tempos foi grande apreciador de bom teatro lírico, não se contentando com artista de segunda plana.

O penúltimo dos seus proprietários, François Babel, muito culto e de bastante iniciativa, quis torna-lo um hotel moderno, dotando-o até de balneário, mas a casa não se prestava a isso. Ainda assim, para o tornar conhecido fora do Porto, estabeleceu ali jantares de réclame, às quintas-feiras, bem servidos, e relativamente baratos, que lhe deram nome. A custo se ia tenteando, se não fosse o advento da república, que deslocou os políticos para o Grande Hotel do Porto, conservando-se-lhe apenas fiel, enquanto viajava, o Sr. Dr. António José de Almeida.

A morte do Conde de Alves Machado, que ali viveu durante cerca de 40 anos, produziu nele um imenso vácuo.

Babel faleceu, A casa ia em decadência. A freguesia foi-se retraindo e não primava pela generosidade; às vezes nem pontual era no pagamento das contas. Ainda nas vesperas do seu encerramento teve de penhorar as malas de uma conhecida actriz, que passava por trazer a carteira bem recheada. Já por vezes acontecera outro tanto com vários fregueses.

As obras da cidade vieram dar-lhe o golpe de morte: o prédio era necessário, a fim de melhor se desenhar o bacalhau(3), adoptado para modelo da sua planta.

Custou-lhe, porém, a deixar-se entregar ao município. Ainda lá havia hospedes e já o camartelo municipal lhe esmoucava os telhados e as cantarias. Parece que algo de saudoso lhe custava a desprender-se dali.; talvez os vários suicidas, que nos seus leitos se despediam da vida, como o espírito delicerado da noiva do filho de Urbino de Freitas, vinda do Alentejo ali amortalhar-se., para a colocarem, no jazigo da Lapa, ao lado da alma gémea da sua, que tanto sofrera, em tão curta idade!

O último cadáver que de lá saiu, foi o Dr. Teixeira de Sousa, o derradeiro chefe do Partido Regenerador e presidente do conselho, à queda da monarquia: não se suicidou, mas morreu torturado pelos caprichos do destino!»
António Lança in O Tripeiro, nº 109 (nº7 da 2ª série), 1 de Abril de 1919


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1) Rua demolida para abertura da actual Avenida dos Aliados.
2) a dos Aliados é claro.
3) refere-se obviamente ao formato da nova avenida vista de cima.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Bairro dos banhos - demolição em curso

Desta feita, e para variar da palavra escrita, trago um pormenor de uma foto que mostra parte das obras para a abertura da rua da alfândega nova, depois baptizada Rua Nova da Alfândega. Ajudando assim a ilustrar algumas das notícias que aqui tenho divulgado surgidas no Comércio do Porto da época.



Aqui podemos ver, por exemplo, um pouco à esquerda em baixo o Forno Velho, onde ainda se consegue descortinar pequenas ruas e escadas (vielas cujas casas do lado do rio foram já demolidas). Parte dessas casas ainda existe... é só subir as escadas do Recanto e eis que damos com um singelo mas bonito edifício que funciona agora como escola primária, precisamente um dos que aparece nesta foto.

Também à esquerda mas agora em baixo vamos o fortim da Porta Nobre. Fortim esse que foi parcialmente demolido e o restante entulhado para elevar a cota para o novo arruamento, estando hoje mesmo por baixo da entrada para o parque de estacionamento da alfândega, no antigo terminal ferroviário. A seu lado a porta que lhe dá nome, ou o que resta dela...

Correndo pela muralha (também ela soterrada, sendo aquela área todo um fóssil da cidade do século XIX) vemos uma reentrância na mesma; e nela uma outra abertura: é o postigo dos Banhos, tendo o pequeno areal que se formou na zona usado como cais para embarcações mais pequenas mas também para cargas e descargas de produtos (aquela parte de muralha fernandina que apareceu aquando das sondagens no cais da alfândega em 2004 são precisamente desta área). Toda este correr de muro ia ligar ao denominado Muro dos Bacalhoeiros. E, mesmo antes da parte desse muro que sobreviveu à hecatombe ficava o Postigo da Lingueta ou do Pereira (que não aparece na foto).

Também desaparecidos, vemos em segundo plano uma capela, dedicada a Santo Elói, que se encostava à igreja do convento dos Franciscanos, cujas pedras foram levadas para a Foz e em 1884 usadas na edificação da capela de Gondarem.

Na rua do Infante, reparemos na escuridão que a ensombra. Isso dever-se-á eventualmente à luz da altura do dia em que foi tirada a fotografia, mas também porque a clareira proporcionada pela Praça do Infante ainda não existia, sendo o espaço ocupado por casas que corriam de São Francisco até à esquina com a também desaparecida rua das Congostas.

Em terceiro plano, muito daquele casario que vemos na parte superior esquerda da foto foi também ele já derrubado, sendo agora ocupado o espaço por parte da rua Mouzinho da Silveira e suas respectivas edificações do lado nascente, com frente para o Infante e mercado Ferreira Borges...

E mais se calhar se poderia dizer. Fica em aberto para os comentários, observações e eventuais rectificações que haja a fazer a este breve comentário a uma fotografia que é em si mesma, um documento histórico de grande valor.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

da Praça de D. Pedro

Ainda na sequência do post anterior, eis uma pequena notícia referente a uma modificação "urbanística" da Praça de D. Pedro, actualmente Praça da Liberdade.

Embora singelas, estas notícias são sempre interessantes para quem se interessa - perdoem a redundância de palavras - pela evolução e modificação das ruas, praças e edifícios notáveis da cidade; desde as intervenções de grande vulto até aquelas que quase passariam despercebidas. Como é o caso desta.

Praça de D. Pedro (28 Fevereiro1871)
Principiou ontem a remoção dos pilares de pedra que circuitavam a praça de D. Pedro e que sustentavam as grades de ferro que há tempo também foram tiradas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Apontamentos para a história da Rua Nova da Alfândega

Notícias coligidas do Jornal O Comércio do Porto de 1871, sendo breves mas interessantes para a história desta rua.

Desmoronamento (28 Fevereiro)
Pelas 2 horas da manhã de ontem desmoronou-se parte do muro de suporte de algumas casas do Forno Velho, que deitam para a nova rua da Alfândega. O estrondo foi grande assustando bastantes pessoas.
Não houve desgraça alguma e ontem já os operários da Exma. Câmara trataram de fazer as obras necessárias para que as casas que estão superiores nada sofram com a falta de apoio que lhes causou o desmoronamento.

Arrematação de materiais (26 Abril)
No dia 2 do próximo mês terá lugar a arrematação de todos os materiais, excepto a pedra, das casas sitas na rua da Ferraria(1) com os números 6 e 8, 10, 12, 14 e 16, 18 e 20, 22, 24, 26, 28, 30 e 32 e da casa da rua de S. Francisco nº 71, 73 que têm de ser demolidas para a abertura da rua da nova Alfândega.
A arrematação verificar-se-há no próprio local dos prédios.

Cais da Porta Nobre (26 de Abril)
Principiaram os estudos para o cais que deve ligar a alfândega de Miragaia com a Porta Nobre (...)

Rua da nova Alfândega (1 Março)
Já principiaram os trabalhos por parte da respectiva comissão, para as expropriações dos prédios da rua do Forno Velho de Baixo, que têm de ser demolidos para a abertura da rua da nova Alfândega. Segundo nos informaram, alguns casos já estão ajustados.
As obras na rua continuam com actividade e o aqueduto(2) que se anda a construir, e que deve desaguar na Porta Nobre, está muito adiantado.
Continua a demolição de alguns prédios na antiga rua dos Banhos, do lado de Cima do Muro, e no grupo de casas denominadas de São Francisco apenas falta demolir completamente a que pertenceu ao Sr. Conde de Azambuja. Esta, porém, está já mais de metade demolida.

Arrematação de materiais (3 Maio)
Conforme estava anunciado procedeu-se ontem de manhã à arrematação dos materiais, excepto a pedra, das casas que tem de ser demolidas para a abertura da rua da nova Alfândega, sitas na rua da Ferraria, Reguinho e São Francisco (...)


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(1) Actual Rua do Comércio do Porto
(2) Será este o aqueduto que encanou o rio Frio? É que, me parece, o jornal entende como Porta Nobre o lugar e não propriamente a dita porta. Aliás, ainda hoje temos na Rua Nova da Alfândega uma mercearia denominada Porta Nova - nome pela qual também era conhecida esta abertura na muralha fernandina - que se encontra sensivelmente no local original da Porta (se bem que a uma cota superior)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Os americanos do Porto (2)

«Fazia gosto no Inverno visitar essas estâncias, pois ouvia-se cantar o mar num sossego terreal, sem a sineta dos eléctricos, o barulhos das fábricas, o sinal acústico dos autos, o movimento intensivo comercial ou industrial. Vivia-se a vida do marítimo, quando em terra a cuidar das suas rêdes.

Com que saudade me lembro de ir até Cadouços com meus pais, almoçando-se no restaurante que havia no edifício que se encontra em tal largo, em meia-laranja, agora habitação de empregados da Companhia, infelizmente deterioradissimo(1). Num sossego paradisíaco, via-se o oceano, ouvindo-e o seu marulhar!
Esperava-se a vinda do americano que tinha ido a Matosinhos.

Para dar facilidade aos passageiros, como não dispunham de uma ponte de pedra no términus, como os da Carril, a Carris estabeleceu uma rampa de madeira até ao rio; aí, uma barcaça à vara, com assentos ao comprido, laterais e centrais, transportava os passageiros à outra margem, onde se subia uma escada para o areal, unicamente coberto nas marés; depois é que a ponte se ligou, fazendo-se o percurso seguido e em plano horizontal. Um grande melhoramento!

A colónia balnear de Leça e Matosinhos era limitada a gente quase toda cá do Porto, de modo que pela manhã, principalmente nos comboios das 8 horas e meia, 9 horas, de Matosinhos, (pois eram de meia em meia hora), viajavam sempre as mesmas pessoas, que, constituindo assim um agrupamento conhecido, vinham a esta cidade aos seus negócios ou empregos. Nesses comboios formados por três ou quatro carros, era em Matosinhos logo tomado o carro da frente, por ser o único que vinha à Praça. Regressava-se pelas três, quatro horas da tarde. Viver feliz em que se jantava às três, quatro horas - pois às cinco era luxo de que se desconfiava ou causava admiração!... A colónia inglesa é que jantava mais tarde.

Os americanos eram de várias cores, sem a uniformidade dos actuais eléctricos; iluminados a estearina aos cantos superiores direitos, tais luminárias davam uma luz mortiça para dentro; para fora, a luz era coada por vidros de cores, que deslizavam entre dois encaixes metálicos e horizontais, e combinavam as cores que indicavam os destino, lembrando-me que vermelho e verde era Matosinhos; tais cores condiziam com as das tabuletas, indicando o mesmo destino, embora tivessem o nome do lugar para onde os carros seguiam.

Foi um sucesso o novo carro 58, pintado a vermelho e branco e que apareceu iluminado a petróleo. Até parecia dia, lá dentro! Nem o bico Auer, quando surgiu nos candeeiros de iluminação pública, na rua de Santo António!(2) Que saudosos tempos!

A municipalização dos transportes(3) levou-me a recordar o passado e a pensar no que será o futuro. Pelo menos, o aumento populacional exige que os carros se multipliquem, pois ao presente é um incomodo neles andar, especialmente a certas horas; não satisfazem as necessidades públicas. Devem-se prolongar para Ramalde, Barreiros, Oliveira do Douro, igreja de Paranhos, Boa-nova e Lavadores; devem descongestionar-se as linhas usadas por eléctricos na mesma direcção, e que podem servir outras ruas alcançando o seu destino, pois os transportes colectivos são para servir o público - e por isso se municipalizam.»
Dr. Wendel dos Reis in O Tripeiro Série V, ano I, pág. 197 (Jan/1946)

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(1) Esse edifício já não existe
(2) Actual 31 de Janeiro
(3) Ver nota 1 do post anterior

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Os americanos do Porto (1)

«A municipalização dos transportes eléctricos, que está em curso(1), trás-me à lembrança o que foram tais serviços já que tão velho sou, e que não fujo à regra de a minha amnésia ser dos factos de ontem - não dos da infância.

Eu sou do tempo das duas companhias de americanos: Carril do Porto à Foz e Matosinhos, e a actual Carris. A primeira tinha a via desde os Ingleses à Alameda de Matosinhos, com um ramal de Massarelos à Cordoaria; a segunda desenvolvia-se pela cidade sem os longos percursos que hoje tem, mas já ia a Matosinhos, pelo antigo Juncal de Baixo, até ao rio Leça. o salgado, hoje, substituído nesse ponto, pela doca.

Da Cordoaria partia o americano para Massarelos; a ordem de partida era dada com uma corneta, que era usada no percurso como sinal acústico.

A Carris usava o apito.

Os trilhos das duas não se ligavam; eram vias independentes, a certa altura as Companhias fusionaram-se.
O serviço era perfeito. Punha-se então em contraste com o péssimo da capital. Não havia o movimento de passageiros que hoje há, o povo não utilizava os carros; a vida decorria sem pressas.

Na linha de Circulação e Ingleses a Costa Cabral, faziam serviço uns americanos pequenos, que ainda hoje, aumentados nas plataformas , se vêem rebocados como bagageiros(2).

O acidentado da cidade impunha os sotas em diversos sítios, até para subir a pequena rampa da Carvalhosa, havendo mudas de muares no Bolhão, onde hoje está a continuação de Sá da Bandeira, cujo lado ocidental era quase todo ocupado por cocheiras.

Mas tudo era perfeito, matemático.

Naqueles americanos pequenos parecia ir-se em família! Levavam a subir da Praça até ao Marquês de Pombal uma boa meia hora - só esta enormidade! - mas porque os carros eram frequentados por pessoas que tinham residência para tais lugares, então considerados muito afastados, viajava-se com satisfação em companhia amiga.

A dificuldade de tiragem dos americanos grandes, com dez pessoas em cada bancada lateral, pelos Clérigos e Carmelitas, exigia três e quatro sotas em parelha. Não obstante, o serviço, era pontual, e da Praça de D. Pedro a Matosinhos era uma hora precisa e só custava 120 rs.

Na Rotunda, sede da Companhia, ligavam-se os carros, pois outros partiam do Carmo; formava-se o comboio, rebocado por uma máquina, que no Inverno só ia, nesses longínquos tempos, até Cadouços; aqui, a um carro engatava a parelha de muares que o levava a Matosinhos, enquanto a máquina esperava. Depois, com o desenvolvimento populacional de Matosinhos e Leça, seguia o comboio até ao final.

Que beleza a das Carmelitas, com o túnel formado pelos ramos de árvores! Um céu de folhas! Era a cerca do Recolhimento do Anjo. Beleza que a civilização repeliu...

Foz, Matosinhos, e Leça não eram os aglomerados populacionais de hoje; antes constituíam lugares tranquilos, de pouca gente, que se não deslocava como agora, mas só por uma absoluta necessidade. Os meios de transporte e o tempo perdido a tal não convidavam...»
Dr. Wendel dos Reis in O Tripeiro Série V, ano I, pág. 197 (Jan/1946)

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(1) - Aquando da escrita destas linhas a Câmara Municipal efectuava o resgate da concessão de exploração das linhas de eléctricos à CCFP (Companhia Carris de Ferro do Porto), passando esta a ter a designação que perdura de STCP. Só em 1948 é que a STCP introduziu autocarros no seu serviço.

(2) - No Museu do Carro Eléctrico podemos ver um desses carros, o 22, se bem que restaurado na sua traça original.