quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Avenida dos Aliados antes de o ser...

Esta foto retrata o progresso das demolições do "Bairro do Laranjal" para abertura da Avenida dos Aliados e que creio terá sido tirada ai por 1916...
Do lado direito podemos ver o famoso (à época) Hotel Francfort, que mesmo com o camartelo à Porta ainda laborava(!).


Na imagem abaixo feita com a ajuda do BingMaps e do Paint, tento ilustrar a minha ideia de onde a foto terá sido tirada. Não estando elas localizadas com a precisam de um GPS, seria contudo naquele local que as antigas estruturas se encontravam.


LEGENDA:
X vermelho > local da foto
Azul > Rua do Laranjal
Verde > Rua Elias Garcia (anteriormente R. de D. Pedro)
Amarelo > Hotel Franqcfort

Note-se que desta visão de "avião" podem-se ver que algumas casas que antes da construção da nova avenida davam para a Rua (de Elias Garcia) e que estão agora escondidas, meras traseiras dos imóveis que as substituíram na fachada da actual avenida.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A apanha dos cães no Porto (conclusão)

"Às vezes acontecia, o cão, ao ser perseguido pelos "homens da rede", refugiar-se no primeiro estabelecimento que encontrava. Se o dono do dito era pessoa humanitária, não consentia que os "caça-cães" pusessem os pés dentro da sua casa de negócio para o aprisionarem. Estes, perante a atitude assumida pelo comerciante, enfureciam-se, reclamavam em altos berros a entrega do "mais fiél amigo do homem" e, depois de muito esperarem e para fugirem aos apupos revoltados do povo, lá se iam embora, resmungando um português pouco decente.

Mas casos piores, mais ridículos se davam, e estes terminavam quase sempre em desagradáveis conflitos, porquanto o público não podia deixar de intervir energicamente a favor do possuidor do cão. Aconteceu, muitas vezes, senhoras da alta sociedade portuense levarem ao colo lindos cachorros de pura raça, pelos quais tinham grande estimação. Mas, porque estes não trouxessem coleira, e não viessem açamados, os zelosos empregados deixavam de ter a indispensável urbanidade para com elas, e de uma maneira brusca, selvagem mesmo, chegavam a tirá-los das suas próprias mãos. As senhoras, furiosas, protestavam contra tal violência, os transeuntes aglomeravam-se e criticavam asperamente o acontecimento, barafustavam também e dirigiam impropérios aos empregados por se terem excedido demasiadamente no cumprimento das suas obrigações e, dentro em pouco, o mantedor da ordem via-se embaraçado para dispersar o povo, tendo de por o comprido e pesado chanfalho em acção para acalmar os ânimos, quando não levava aos empurrões, para as fétidas prisões do Aljube, sito à Rua de S. Sebastião, à Sé, os indivíduos que se tinham manifestado contra o incorrecto procedimento dos "caça-cães".



Terminadas as horas de serviço, os cães apanhados durante o dia eram levados para casotas reservadas, existentes nos serviços de limpeza pública, ao tempo na Rua do Visconde de Bóbeda e traseiras da Biblioteca Pública Municipal do Porto, os quais podiam ser libertados por seus donos mediante uma multa e depois de cumpridas outras formalidades. No caso de não serem procurados eram abatidos.

O código de posturas de há cinquenta anos não permitia que os habitantes do burgo tripeirinho possuíssem cães sem a devida licença da Câmara; e os cães, cujos donos tivessem a respectiva licença, tinham de trazer, sempre que saíssem à via pública, uma coleira com a designação do nome e morada do dono e número da licença, sob pena de ter de pagar o triplo da multa.

Além da coleira mencionada, os cães tinham de andar sempre açamados, sob pena de 2$ooo réis de multa. Se fossem encontrados na rua sem coleira nem açamo, eram considerados vadios, e como tal, abatidos.

Nunca é demais relembrar o passado. E a estudiosa juventude hodierna fica a ter conhecimento, por intermédio d' O Tripeiro, das mudanças a que se têm sujeitado os hábitos do Porto antigo."

Texto escrito por Manuel Pedro e publicado n' O Tripeiro, Série 5, ano VII (Março de 1952), página 249/250.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A apanha dos cães no Porto

"Na velha e gloriosa cidade do Porto, todos os antiquados costumes têm passado por uma metamorfose completa, dando lugar a outros mais modernos, mais dinâmicos e económicos.

Vamos, pois, em sucintas palavras, explicar à mocidade de hoje como eram apanhados em tempos decorridos os cães que vagueavam de dia e de noite por todas as artérias da cidade invicta.


Dois funcionários municipais, de inferior categoria, deselegantemente uniformizados, conduziam pelas ruas da acidentadas da urbe, num passo vagaroso, sonolento, um carro de duas rodas e, sobre o eixo destas, poisava um grande e alto caixão de madeira, de figuração rectangular, interiormente dividido em compartimentos, onde se recolhiam os cães. Mais dois funcionários do município, de igual classe e indumentária, a par, com os olhos fixos em todos os vultos que se mexiam, seguiam por um dos passeios laterais, levando um deles uma rede de corda delgada aos ombros. Os primeiros que enxergassem um cão desaçamado, davam sinal, assobiando, e os que puxavam o carro logo paravam, pegavam na rede que geralmente ia sobre o tejadilho do do pequeno carro celular e apressadamente, não fosse o cachorro escapulir-se pela demora, estendia-na de lés a lés da rua, chegando por vezes a impedir todo o trânsito.

Os modestos funcionários, ou melhor dizendo, na gíria popular da época, os "caça-cães" que seguiam pelo passeio, com receio de que fossem notados pelo cão, escondiam-se por detrás das costas das pessoas que passavam e, após o canino ter tomado a direcção dos empregados que já tinham a rede preparada, avançavam na cauda deste e uns e outros iam-se juntando até que o animal ficava envolvido nas redes.

Agarrado espectacularmente o cão - espectáculo este que não deixava de ser cómico, triste e irritante, desagradavelmente comentado pelas pessoas de coração, pois a liberdade não foi somente dada ao género humano -, era depois enclausurado numa das divisões do supracitado carro.

Porém, nem sempre os referidos funcionários eram bem sucedidos no seu ingrato modo de vida, pois os cães mais espertos, desconfiados - em virtude dos grandes saltos que formavam -, conseguiam transpor as redes, fugiam e punham-se a olhar para trás, como quem diz: "ainda não foi desta vez".

Quando isto acontecia, o rapazio endiabrado, principalmente, que não deixava de acompanhar atentamente e encolerizado as evoluções desenhadas em ziguezagues dos "caça-cães", batia palmas de contente, saltitava entusiasmado e não poupava a respectiva zombaria.

Conflitos, questões sérias se travavam de quando em vez entre os empregados e o povo, por este, quando via o carro da rede, dar-se ao cuidado de afugentar os cães. Para terminar com a caçoada dos garotos e com as desordens originadas pela apanha dos cães, que se tornavam em espetáculos vergonhosos e aviltantes para a cidade do trabalho, o carro dos cães começou a andar acompanhado por um polícia civil.

A história da apanha dos cães no burgo tripeirinho de à meio século, ficaria incompleta se deixássemos de descrever os casos deveras extraordinárias que vamos passar a expor."

in O Tripeiro, Série V, Ano VII, pág. 249
(continua)