domingo, 4 de dezembro de 2011

Tentativa de Reconstituição

As preciosíssimas imagens que nos legou Villa Nova em 1833, mostra-nos um Porto que na maioria delas já faz parte do passado.
Nesse passado inclui-se a Igreja de S. Domingos cujo aspecto da fachada conhecemos graças a ele, bem como a entrada principal do edifício do convento; felizmente ainda existente se bem que muito modificada.

A imagem que abaixo apresento é uma montagem desses dois desenhos, uma vez que igreja e edifício estavam geminados e por isso é perfeitamente aceitável tentar uma reconstituição de como seria para um transeunte da época estar naquele local.
Poderá a escala da Igreja não estar de acordo com a do convento e vice versa, esta montagem é alias muito rudimentar, simples e relativamente rápida. De certeza que alguém com mestria de desenhador saberia compor uma imagem única a partir desta ideia.. fica aqui lançado o desafio para quem o quiser agarrar!

Acerca da época em que as imagens foram debuxadas, note-se que o Banco de Lisboa (futuro banco de Portugal) já se encontrava alojado no 1º andar do edifício, estando as restantes lojas arrendadas pelos frades a diversos tipos de comércio... Onde dormiam os frades propriamente? Bem, presumo que no segundo andar (é que naquele tempo, ao contrário da actualidade o edifício estava dividido em mais do que rés-do-chão/primeiro andar o que aliás se pode constatar olhando com atenção ao desenho). A entrada para o convento fazia-se pelas 3 primeiras arcadas do lado encostado à Igreja (veja-se o gradeamento de ferro em todas elas). Na do meio ficava a escadaria íngreme que levava ao piso superior. Em 1870 o Banco de Portugal operou bastantes transformações no edifício, mudando com isso a escadaria para o centro, onde ainda hoje se encontra...

Embora esta igreja se denomine de S. Domingos, na realidade e originalmente ela pertencia à Ordem Terceira de S. Domingos. A Igreja do convento era por trás do edifício que se vê, à época já reduzida a escombros depois de no ano anterior as tropas de D. Miguel terem bombardeado o convento e pegado fogo a um armazém de linho alojado dentro da igreja.
Os frades dominicanos começaram a usar esta igreja ainda no século XVIII depois dela vagar aquando da extinção dos seus confrades terceiros.

Ao lado da Igreja vemos um edifico que penso será a famosa "Casa do Patim". Aqui era o início da rua da Ferraria de Baixo (actual Comércio do Porto). Antes de existir a rua de Ferreira Borges, a rua da Ferraria de Baixo iniciava por uma viela - que presumo é a que se vê na imagem - dobrando a 90º à direita e seguindo o percurso que todos conhecemos e que mantém até hoje.

No extremo esquerdo da imagem penso que Vila Nova não seguiu a realidade da época, tendo usado um pouco de expressão artística, uma vez que ali encostado ao edifício do convento situavam-se dois edifícios de habitação, ambos propriedade do mesmo convento.
Estes edifícios eram conhecidos como as "casas da cantinho" em 1866: altura em que o governo já mandara demolir a parte arruinada do convento mas à boa maneira portuguesa ainda não o fizera em relação a estes últimos, atrasando assim a abertura da Rua Nova de S. Domingos (actual Sousa Viterbo) para desespero dos arrematantes dos terrenos da cerca do convento que não eram acessíveis pela lado de Ferreira Borges e que tinham de esperar para saber qual o correto alinhamento da nova rua, de forma a poderem iniciar a construção dos seus prédios que hoje lá se encontram.