domingo, 23 de dezembro de 2012

O Armazém do Sr. Forrester

(30 de Agosto de 1854)
Sabendo que o Sr. Forrester tinha estabelecido no seu armazém da Ermida em Vila Nova de Gaia um caminho-de-ferro por onde girava um carro acelerado construído convenientemente para o serviço das vasilhas, levado pela curiosidade que nos promovera objecto tão novo, fomos à morada do Sr. Forrester; e seguro da dignidade que caracteriza este cavalheiro solicitamos de S.Sª o mostrar-nos o seu armazém e a permitir-nos presenciar o trabalho pelo seu novo sistema.

Não tinhamos a honra de contar-nos na tratabilidade do Sr. Forrester, e o nosso título de apresentação não passava do desejo, que assistia a uma pessoa, quase desconhecida deste patriótico comerciante. Faltavamos a um rigoroso dever se deixassemos de patentear como foramos recebidos pelo Sr. Forrester, e pelo seu digno filho, da maneira que mais podia lisonjearnos. Ss.Sª tiveram a nobre franqueza de mostrar-nos todo o seu estabelecimento, dando-nos civilizada e agradavelmente as necessárias explicações tendo nós a ocasião de ver que o novo mecanismo, que o Sr. Forrester apropriara ao seu armazém, aponta a passagem para o progresso naquela qualidade de trabalho.

O armazém  de um comprimento de perto de 500 palmos, é cortado no centro por uma linha férrea das dimensões usadas nos caminhos de ferro ordinários. Por esta linha, que separa os seis rumos, que comporta a capacidade do armazém, percorre o carro acelerado pelo impulso, que pode dar-lhe a força de um ou mais homens conforme a necessidade o exija. Este carro mandado construir de propósito na Inglaterra debaixo da inspecão do Sr. James, filho do Sr. Forrester, compoem-se de dois corpos, estando num deles colocado um guindaste, que levanta as pipas ou para o 2º ou 3º corpo, a fim de serem transportadas para o ponto que se queira ou para a altura do lote, a que seja necessário elevalas. O serviço assim feito substitui o trabalho pelo menos de três quartas partes dos homens, que se empregavam e empregam no sistema antigo. As lotações e os benifícios fazem-se com tal celeridade que a grande a conveniencia do carro e do guindaste se torna evidentemente palpável. Para quem nos outros armzéns presencia a fadiga dos trabalhadores para fazer rolar as pipas levando-as a qualquer ponto determinado através do custoso impulso das mãos, vendo-as rojar pelo pavimento térreo com manifesta deteriorção de todos os elementos, que as compõem, além dos grandes balaços, que o líquido sofre dentro da vasilha, estorvando a sua pronta depuração, não pode deixar de maravilhar-se que o Sr. Forrester achasse o segredo de acabar com estes inconvenientes tornando o serviço mais suave e reconhecidamente mais proveitoso para as vasilhas e líquidos armazenados. Para mais satisfazermos nossa curiosidade quisemos experimentar a impressão do movimento do carro através do carril de ferro, e com os nossos companheiros fizemos a carreira de toda a linha e foramos perfeitamente surpreendidos, podendo fazer ideia, se bem que aproximada, do trânsito das locomotivas nas vias férreas, de que só temos visto a descrição. (1)

Seria bem para desejar que os comerciantes de vinhos seguissem o exemplo do Sr. Forrester, aproveitando os grandes resultados, que a ciência da máquina oferece ao trabalho, dando assim uma prova de que os adiantamentos daquela ciência não passam infrutíferos para nós.

Além da inovação do caminho-de-ferro, e do carro, que por ele percorre, que não pode alcançar todo o serviço a fazer no armazém, o Sr. Forrester introduziu no trabalho, que dirige, pequenos carros de mão adquados aos misteres. Os hoptrucks servem especialmente para transportas os cascos vazios, demandando apenas a pequena força de um rapaz. Uns de quatro rodas baixas, que se empregam na condução das pipas cheias para qualquer dos pontos dos terceiros rumos pelas diferentes coxias do armazém: e outros mais pequenos, que servem unicamente no trânsito ao vinho engarrafado, tendo a vantagem, além de se moverem com facilidade, serem construidos de modo tal, que a quebrar-se alguma das garrafas o vinho é recebido num depósito e aproveitado.

Não há só a notar no armazém do Sr. Forrester  as inovações, que deixamos mencionadas: além delas, a regularidade na colocação de todos os objectos para que apareçam de pronto quando necessários, concorre também muito para a singularidade do estabelecimento. As ferramentas e demais utensílios são todos no possível esmero do trabalho, não podendo deixar de promover um vantajoso resultado nas operações. Os utensílios, que se destinam à depuração das borras, são tão engenhosamente concebidos que produzem uma notável disparidade, comparados com os do sistema nos outros armazens seguido.

Os armazéns de Vila Nova não sendo de construção subterrânea, como o são em outros paises para ministrar aos líquidos a frescura de que necessitam, precisam de ser contínuamente refrescados com água. Para esse refresco mandou o Sr. Forrester vir e emprega no seu armazém a bomba chamada force-pump, que o refresca e ao mesmo tempo as vasilhas que nele se acham, servindo também para bomba de incêndio.

Para estimular os sentimentos dos trabalhadores e infundir-lhes os preceitos da moralidade, que devem guiar o homem em qualquer posição, que se encontre, o Sr. Forrester mandou escrever na porta do armazém os dois preceitos que devem dirigir a conduta dos operários - O mérito será premiado - o vício será punido - Praticando estas duas saudáveis máximas, o Sr. Forrester todos os sábados recompensa monetáriamente o trabalhador ou trabalhadores, que de recompensa se tornem dignos durante a semana.

Ao lado do armazém está a tanoaria, descobrindo-se nela o mesmo sistema de regularidade. O alimento dos trabalhadores é preparado em comum a troco de uma diminuta parte do salário a qual não excede a vinte réis diários, tendo assim aqueles por uma insignificante quantia um rancho excelente, muito mais barato e abundante do que o teriam feito por conta de cada um em particular, resultando, além desta vantagem do trabalhador a do Sr. Forrester que nos disse não prejudicar-se e conseguir para o trabalho o tempo que cada trabalhador perdia com o seu arranjo particular de comida, que pelo sistema adoptado se faz convenientemente por dous aprendizes da tanoaria ou do armazém. Os aprendizes não concorrem para o rancho, que o Sr. Forrester lhes manda ministrar gratuitamente, concedendo-lhes de mais quatro horas por dia para poderem ir à escola. O Sr. Forrester leva tanto a empenho de interessar os operários no seu estabelecimento que ele próprio vigia a cozinha, procurando por todos os modos que o rancho seja tanto quanto ser possa agradável aos trabalhadores. O vinho dado de bebedagem é dado regradamente; mas na precisa abundância, não sendo negado de modo algum, quando o exige o cansaço do trabalho.
A economia na despesa é um feliz resultado de todas as combinações, em que a experiência do Sr. Forrester assentou o seu novo sistema. É assim que a boa práctica de administrar pode reunir as reciprocas vantagens do trabalhador e do dono do armazém. Parece-nos que deviamos a nossos leitores a descrição do que viramos, pois que ela não será indiferente a parte deles, que na especialidade se empregam no importante ramo do comércio do vinho.

(1) - Ainda não existia caminho-de-ferro em Portugal, em 1854...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Planta da reedificação do Convento de S. Francisco

O Arquivo distrital do Porto é possuidor de um acervo documental imenso, como não poderia deixar de ser; mergulhando e pesquisando nele poderemos encontrar autênticas relíquias. Da minha parte já "descobri" coisas que nunca imaginaria poder um dia encontrar e sobretudo visualizar.

Esta postagem trata de uma planta com que me deparei pesquisando na versão on-line do mesmo arquivo, referente à reedificação do Convento de S. Francisco do Porto. Segundo a legenda na ficha :

Contém a planta da linha oriental da elevação do dormitório do convento reedificado e respectiva legenda. A reedificação do convento foi iniciada a 2 de Abril de 1764. A primeira pedra foi lançada a 10 de Maio do mesmo ano, sendo provincial o Pe. Frei Lourenço de Santa Teresa e guardião o Fr. Luís da Soledade Estrela e síndico Geraldo Belens. As obras foram concluídas em Junho de 1802. 

Muito pouco tempo portanto, se manteve esta estrutura na paisagem portuense.

Abaixo coloco a descrição, e mais abaixo ainda a planta com a fachada do dormitório, que corresponderá à fachada Norte, onde hoje corre a fachada do Palácio da Bolsa sobre a Rua da Bolsa.

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DECLARAÇÃO DA PLANTA
A Linha das Letras  A e A' é a linha oriental da elevação do dormitório, que é o melhor do convento. Dobrado este pela dita linha ficando em ângulo recto, mostra a figura, que faz o Dormitório, com as dispensas, e o terreno, que fica junto à cozinha ; o que tudo se expressa pelos seguintes.

NÚMEROS
1- Chaminé; 2- Cozinha; 3- Despensa; 4- Porta; 5- Terreiro aonde se desfaz a lenha; 6- Terreno da Horta; 7- Paredes; 8- Caminho que vai do convento para o Hospital; 9- Outra Parede; 10- Porta para entrar no Hospital; 11- Oito janelas do refeitório; 12- Ministra por onde passa o comer para o refeitório; 13- Porta da cozinha; 14- Janela da enfermaria; 15- Janela da Enfermaria; 16- Janela regral; e todas as mais deste feitio são janelas iguais e as pequenas são janelas das celas.; 17- Casa das privadas; 18 e 19- Dista um número do outro 50 palmos; 20 e 21- Dista um número do outro 85 palmos; 22 e 23-Dista um número do outro 17 palmos


Atente-se nestas curiosas notas:


E para não ficarem distantes as privadas novas assinadas pelos irmãos terceiros, como se mostrou no mapa, que por ordem deles se mandou fazer; que vão 25 palmos, é necessário que fique como se mostra neste. E havendo de ficar na conformidade do mapa dos terceiros, não tem mais que 17 palmos do número 22 ao número 23 e no mapa dos mesmos terceiros se mostram 25 não tendo o terreno mais que dezassete palmos. E a ver desta forma, ficam muito próximas às Dispensas do Convento e podem facilmente inficionar os víveres, legumes e tudo o mais que existir nelas. E por cima da mesma cozinha, e dispensa está um eirado com figuras aonde os religiosos tem várias flores. aonde vão recrear-se a cada passo, e tomar o fresco no tempo do Verão. E fazendo-se as privadas no sítio assinado pelos terceiros, não só causam os referidos bem atendíveis detrimentos; mas até chegam a tirar-lhe alguma vista. E não fica só aqui o detrimento; pois como em quase todo o ano sopram os ventos do Norte e Noroeste, infalivelmente hão-de introduzir péssimo e pestilento cheiro pelas janelas do refeitório, e das celas, e até na enfermaria; com grande dano e detrimento dos religiosos sãos; e com grande perigo dos religiosos enfermos que constantemente existem na enfermaria.





É confusa esta planta, que não está desenhada de uma forma moderna. De facto encontram-se aqui debuxados a fachada (elevação) e as restantes estruturas, que lhe ficavam à frente (plano), por forma a dar uma percepção das distâncias.

Notar que a fachada representada é norte e não a oriental. A linha sim, é que é a oriental; pois corre de oriente para poente! Outra forma de o comprovar é através das estruturas que vemos como referentes às latrinas, dispensa, etc. Onde se encontravam estas estruturas? Precisamente no local onde hoje temos a rua da Bolsa e parte do terreno do Hospital. Basta atentar às plantas da cidade existentes anteriores à abertura da Rua de D. Fernando (hoje Rua da Bolsa) para verificarmos o desenho de forma geometrica idêntica a elas (ver a planta de 1813 ou a de 1824 por exemplo).

Atualmente, do convento propriamente dito resta-nos ainda a portaria, virada a sul e "ensanduichada" entre a Capela dos Terceiros e a Igreja gótica; portaria essa praticamente inalterada pelas obras de adaptação ao Palácio da Bolsa e que ainda apresenta a sua Torre Sineira. Dentro do edifício atual temos ainda o magnífico claustro, se bem que bastante transformado e uma escadaria conventual de acesso aos dormitórios, etc.

O chafariz, que ainda em tempos do Palácio da Bolsa permanecía no meio do claustro, foi infortunadamente remetido ao exílio forçado no Passeio Alegre; chafariz esse todo em cantaria e pedra lavrada e que é, sem dúvida, dos mais bonitos e que o Porto possuí.

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Postagem reformada em 2016-12-22

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Capela do Rei Carlos Alberto (2)

Pedro de Oliveira respondeu uns dias depois, num longo comunicado que o Jornal publicou na integra ocupando quase uma página completa, isto numa altura em que os jornais tinham geralmente quatro. Apesar da extensão do mesmo, penso que terá interesse "histórico" para nos apercebermos como aquele singelo monumento foi erguido, vai para 160 anos...


"29 de Setembro de 1854
Srs. Redactores,
Um comunicado que VV. transcreveram no seu periódico de 14 do corrente, relativo à Capela que se está construindo no Largo da Torre da Marca, em memória do Rei Carlos Alberto e no qual figura o meu nome, me obriga a dar algumas explicações, a fim de repelir de mim toda a responsabilidade pela sua arquitectura o gosto adoptado para as quatro faces da Capela tanto exterior como interiormente. Principiarei narrando o que comigo se passou a tal respeito.

Logo que chegou a esta cidade a Princesa, parente do Rei Carlos Alberto, fui convidado para comparecer em casa de Sua Alteza a fim de ser ouvido e consultado relativamente à construção de uma Capela, que em memória ao mesmo Rei ela pretendia mandar fazer, e sendo apresentado pela mesma pessoa que em nome de S.A. me tinha convidado, tive a honra e satisfação de falar com a Princesa e de ouvi-la a tal respeito. Nesta ocasião mostrou-me S.A. um risco, que tinha sido feito em Lisboa, porém não o achando a seu gosto convidou-me a que eu fizesse um novo risco, dando-me para isso todas as instruções que julgou precisas, e todas aquelas que lhe exigi.

Passados alguns dias e quando me achava tratando dos riscos da capela, recebi de sua alteza uma pasta com uns riscos feitos à lápis por S.A. acompanhados de uma carta da pessoa que me havia apresentado, na qual se me pedia o orçamento da despesa da Capela, cujas dimensões eram as mesmas da que se está construindo, segundo os riscos que se me enviaram. Posto que os mesmos nada mais fossem do que uma ideia geral da frente da Capela - planta baixa, secção transversal e longitudinal, ou por outra uns esboços, nem por isso deixei de satisfazer ao que se pedia, remediando as omissões, ou falta dos ditos riscos, segundo melhor me pareceu e julguei conveniente, tendo em vista que os lados exteriores da Capela, e frente da trazeira ou costas da mesma, deviam estar em harmonia com a frente principal indicada no risco, pois que para os outros tres lados não havia risco algum. Neste sentido orcei toda a obra da Capela, excepto a da tribuna, que talvez tivesse de ser de mármore, e remeti a Sua Alteza o orçamento.

Quatro dias depois disto compareci em casa de Sua Alteza com o projecto da Capela riscado por mim na melhor forma, que entendi, e segundo as instruções que de sua Alteza tinha recebido, apresentando planta da frente principal, planta das costas da Capela, e lado, planta baixa e secção transversal e longitudinal da mesma. Nessa ocasião estava também presente o Vice-Cônsul da Sardenha o Illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa, o qual viu que a Sua Alteza não desagradou o meu projecto, e que, somente observou as maiores dimensões que ele tinha em relação ao que ela pretendia, no que respondi,- que tinha riscado a Capela como entendi, porem que se alguma coisa não agradava a Sua Alteza, que se lhe fariam as alterações que quisesse, e que quanto às maiores dimensões era isso fácil de remediar, reduzindo o projecto ao tamanho que se quisesse, no que S.A. concordou.

Apesar do risco da frente da Capela, que eu tinha riscado, não ser um trabalho perfeito e definitivo, contudo juntou-se ao requerimento, em que S.A. pedia licença à Câmara Municipal para a construção da Capela no largo da Torre da Marca, sendo o illm.º Sr. Paulo Rodrigues Barbosa encarregado de o apresentar à Câmara para ser aprovado e ver o que a Câmara decidia a tal respeito, o que me consta logo fizera pois que neste mesmo dia era o da sessão ordinária da Câmara. Combinou-se por fim que S.A. iria, um dia ao local da Torre da Marca para ver se preferia o terreno público para a edificação da Capela, ou o terreno particular que por certa pessoa lhe fora oferecido para o mesmo fim; dizendo Sua Alteza que eu seria avisado para comparecer, quando fosse designado o dia. Nesta inteligência, e tendo concluído o fim a que fui a casa de S.A, retirei-me, esperando o aviso do dia em que havia de comparecer.

É certo que nunca recebi tal aviso, mas também é certo que alguns dias depois desta última entrevista com Sua Alteza - foi a Câmara Municipal com S.A. em vistoria ao local indicado, acompanhada, segundo me consta, de S. Exc  o Sr. Barão de Valado, Governador Civil, Cônsul francês e outras pessoas, e por essa ocasião designaram para a colocação da Capela o terreno em que a mesma se está construindo  também é certo que depois da minha última entrevista com Sua Alteza, em que se passou o que referi, foi convidado o meu amigo e colega o Sr. Joaquim da Costa Lima Júnior, para falar com sua Alteza e fazer um plano da Capela projectada. Sei que ele tratou disso e apresentou a Sua Alteza o que julgou conveniente e acertado, porem quando justamente se tratava de resolver sobre o definitivo plano da obra ou de discutir o plana do Sr. Costa Lima foi contratada a obra da Capela pelo mestre pedreiro Lopes, que a anda construindo  pela quantia que, de certo, e a estas horas o público não ignorará sobre as condições que se apresentaram e assinaram de parte a parte.

Em vista, pois, do que se passou, depois da minha última entrevista com Sua Alteza,  e não se me tendo dito mais coisa alguma a tal respeito, pelo que me constava, fiquei na persuasão,de que a Capela, que fora logo principiada, era construída segundo o risco apresentado pelo Sr. Costa Lima,e nesta ideia vivi por bastantes dias, e até às vésperas da saída de Sua Alteza para a Foz para embarcar no primeiro paquete, quando então certo de que mais não se incomodariam comigo para tal fim, recebi um recado para ir de novo falar com Sua Alteza, o que apesar de todos os pesares, não deixei de fazer. Disse-me então Sua Alteza que pretendia que eu lhe fizesse um orçamento de certas obras da Capela, que não tinham entrado no contracto feito com o mestre Lopes; como eram a tribuna, o passeio de pedra que deve circuitar a Capela, e outras mais; - ao que me prontifiquei, pedindo me fosse dada uma relação por escrito dessas obras, o que Sua Alteza fez, satisfazendo eu pela minha parte como me foi pedido. Depois de largamente conversarmos a respeito da Capela, disse-me Sua Alteza se eu teria dúvida em aceitar a fiscalização da obra da Capela pela sua parte, e surpreendendo-me tal proposta, observei a Sua Alteza que nenhuma dúvida teria, mas que era melhor encarregar disso o Sr. Costa Lima, visto ser ele o autor do plano, que se estava seguindo. S.A respondeu-me que o plano não era o dele, e que se eu não tinha dúvida em aceitar a proposta, no dia em que eu fosse entregar o orçamento que me pedia das obras, me falaria a tal respeito definitivamente. Justamente no dia em que Sua Alteza foi para a Foz, esperando ai embarcar no próximo paquete, fui entregar o orçamento pedido, e então me perguntou Sua Alteza definitivamente se eu estaria concorde em aceitar a fiscalização da obra da Capela pela sua parte; respondi que aceitava a proposta, mas que era conveniente que Sua Alteza por escrito me indicasse quais as obrigações que eu tinha a cumprir e me pusesse ao facto do contracto da obra, para poder conhecer até onde a mesma obra satisfazia ou apresentava vício ou defeito, sendo aquele o documento com o qual eu devia apresentar-me ao mestre pedreira, exigindo dele o cumprimento do que tratara.

S.A. disse que eu me devia entender com o Cônsul francês, a quem informaria de tudo, sabendo ele já que eu ficava encarregado de fiscalizar a obra, e que independentemente do papel que eu exigia e que me iria mandar, diria ao mestre pedreiro o mesmo que tinha dito ao Sr. Cônsul francês. Ora., sem querer saber se S.A. disse ou não a tal respeito alguma coisa aos indivíduos referidos (que me parece e consta que dissera), o que é certo é, que esse documento que eu exigi não o recebi. Pelo criado de S.A., que viera a minha casa entregar um livro de sua parte, lhe mandei eu dizer que estava esperando pelo documento que ficara de me mandar.

S.A. embarcou e o papel que eu exigi não apareceu; por tanto entendi que não devia ir fiscalizar a obra da Capela sem um documento passado pela devida pessoa que me autorizasse a fiscalização.

Nestas circunstâncias foi correndo a obra, até que há pouco mais de um mês recebi um recado para que me dirigisse ao Sr. Cônsul francês, que tendo recebido instruções de S.A. a respeito da obra, nas mesmas se mencionava o meu nome como encarregado por S.A. da fiscalização, e que ela exigia que, procedendo o Sr. Cônsul a uma visita à obra na minha companhia, ela fosse informada circinstânciadamente do andamento e estado da obra, na persuasão de que eu, apesar da falta de autorização por escrito para fiscalizar a obra, ainda assim a fiscalizara. Por esta ocasião expus à pessoa que se dignou dirigir-me o recado o que comigo e S.A. se tinha passado nos últimos dias da sua estada aqui. Apesar de tudo, disse-me essa pessoa, que ainda assim S.A. estava certa, segundo o conteúdo das cartas que tinham vindo, de que eu fiscalizava a obra, e que por isso apesar de não ter ido à mesma obra, fosse falar com o Sr. Cônsul francês para se combinar no dia da visita. Assim o fiz, e por esta ocasião expus ao Sr. Cônsul as razões referidas, que me tinham impedido de fiscalizar a obra por parte de S.A., ao que s.sª respondeu que embora assim sucedesse devíamos fazer-lhe uma visita para informar S.A. do estado da obra da Capela, na forma de sua exigência, ao que prontamente anuí. Marcamos o dia da visita para uma sexta-feira às 6 horas da tarde, e nesse dia ai fomos, indo também o Illmo. Sr. Padre Peixoto, convidado pelo Sr. Cônsul, e o mestre pedreiro. Foi então que vi o verdadeiro estado e andamento da obra e o plano que servia de regulamento para a mesma que é, sem dúvida alguma, feito por S.A. e por ela está assinado, compondo-se só de um risco no gosto gótico, para a frente principal, planta baixa e secção transversal e longitudinal da Capela, tudo feito à lápis. É mais um esboço ou ideia geral, do que um rico definitivo para uma obra de tanta circunstância come aquela.

Encontrei a obra em quanto à frente principal feita até à altura de dez palmos com mui pequena diferença, em quanto às faces laterais, em maior altura; quanto à frente das costas da Capela, achava-se já feita a pequena porta de entrada e pequenas janelas de luz do pavimento térreo, e montados os peitoris das janelas do pavimento superiro, que ha-de ficar sobre a sacristia da mesma, e quanto ao interior achavam-se já assentes algumas bases da colunas que tem de formar as naves, e principiada a parede que deve dividir o corpo da capela da sacristia.

Nesta ocasião observei que, não havendo risco que regulasse a forma da frente das costas da capela, fora esta imaginada, ou feita ad libitum e a gosto do mestre pedreiro, assim como as frentes laterais da mesma capela, não havendo tanto entre estas como entre a frente das costas da mesma, nenhuma semelhança ou harmonia com a frente principal, e são mais um contrastre do que outra coisa; além da frente das costas da capela ser de um gosto muito ordinário e muito vulgar.

Quanto ao interior é certo também que as proporções das colunas e mais peças da obra, são da mão do mesmo mestre, que neste caso, vista a falta de esclarecimentos, obrou como quis ou entendeu.

Achando-se pois a obra neste estado, e vistas as circunstâncias expostas, entendi que a minha missão se limitava a examinar a segurança, e boa construção da obra, e quanto ao mais, como os riscos não supriam a falta de explicação no contracto nem este as omissões dos riscos, nenhuma observação fiz a tal respeito, naquela ocasião, mas nem por isso deixei de o observar a certa pessoa, que bastante interessa tem tomado neste negócio da capela, a qual à minha observação respondeu: Que isso agora era mau, que iria levantar uma grande poeira, e que melhor seria entender-me com o mestre pedreiro; eu entendi de outra forma, que foi calar-me, e nada dizer a tal respeito: porque se tal observação fizesse ao mestre pedreiro, ele decerto se oporia a demolir a obra para a fazer de outra forma, e em relação com a frente principal, dando às colunas e bases as devidas proporções, sobretudo quando o risco de uma obra o deixa variar a sua vontade, como agora acontece, e o contracto não supre alguma falta.

Instigado pelo comunicado que VV. transcreveram no seu periódico, sou obrigado, para credito meu, a mostrar que nada tenho com o bom ou mau risco da capela que se está construindo; para prova do que, faço a referida exposição singela e franca de tudo que comigo se tem passado, a tal respeito, a pedindo a VV. se serviam mandá-la transcrever no seu periódico.
 Setembro, 27 1854      Pedro d'Oliveira "

Com este comunicado, pretendia Pedro de Oliveira "Limpar" o seu bom nome de profissional de um projecto que a julgar pelo que descreve, foi mal conduzido desde o início, acabando, como por dar origem a um "patinho semi-feio". Não se entende o pedido a dois arquitectos da cidade para elaborarem o projecto da mesma e posteriormente ambos serem descartados a favor dos primitivos esboços que deveriam apenas servir de base de maturação para um traçado estruturado e capaz da mesma. Em relação à contrução desta capela, houve aqui qualquer coisa muito mal contada....