domingo, 27 de janeiro de 2013

Fundição de Massarelos

Sempre que obtenhamos informações para poder falar de qualquer estabelecimento de industria nacional, o faremos com tanto mais prazer, que somos nós de acreditar que a nossa industria tem elementos para prosperar e habilitar-se a competir com a manufactura estrangeira.

As fábricas de fundição entram nessa primeira linha de conta a que tem de atender quaisquer pais que queira iniciar-se nos grandes resultas industriais, por onde nos últimos tempos tantas nações se tem elevado. Depois dos maravilhosos efeitos produzidos pelas máquinas, e pelo vapor, as fabricas de fundição colocaram-se na posição de matéria prima para quase todas as industrias. Persuadido desta verdade, o génio industrial do Porto cuidou de há tempos em levantar fundições de que tanto necessitava a indústria e fabril das províncias do Norte. O resultado tem correspondido perfeitamente ao emprego de capitais que para elas se voltaram. A todos os estabelecimentos de fundição desta cidade sobram encomendas de máquinas, e o consumo abrange todos os demais artefactos por elas fabricados.

Ocupar-nos-emos hoje da Fundição de Massarelos, pois que a isso nos desperta a satisfação que sentimos diante do prelo que a empresa deste Jornal encomendara naquela fundição e que sairá tão primorosamente acabado, que o vemos rivalizar com os outros que a Empresa mandou vir de Inglaterra, por não saber ainda que tinha de casa obra igual e por menos dinheiro.

Fundição de Massarelos fora realizada pela empresa de uma companhia, que denominando-se Alliança fizera aprovar os seus estatutos em 3 de Novembro de 1852. As acções emitidas no começo, acham-se actualmente, com pequena excepção, em poder dos quatro primeiros fundadores. É director geral o Sr. Gaspar da Cunha Lima, e director prático o Sr. William Hawke.
A posição do estabelecimento é a mais adequada aos seus misteres. Situado nas proximidades do rio Douro, tem a grande vantagem de fácil condução das matérias primas de que faz uso. A casa da moldação e fundição, e as oficinas de forjas, serralharias e tornos, tem muito maior espaço que as dos estabelecimentos de igual natureza e primeira ordem no país. Conta além de uma máquina de vapor da força de dezasseis a dezoito cavalos, que faz mover dous tornos mecânicos, um dos quais é talvez o maior que existe em Portugal, e mais quatro ordinários; uma máquina de aplanar, duas de broquear e furar, um ventilador que alimenta oito forjas; outro que fornece os fornos de fundição e finalmente duas mós de desbastar e amolar, e um polidor.

O estabelecimento encarrega-se da fabricação de qualquer ferragem para os diversos misteres da indústria, e especialmente para a de que necessitam os navios; como belinetes, guinchos, bombas, e a obra de bronze. Apronta máquinas para diferentes usos, como são os moinhos para farinha, azeite, arroz, e que tenham de ser movidos a água ou a vapor. Fabrica as máquinas de vapor de alta e baixa pressão; prensas hidráulicas, as para óleos, copiar cartas, carimbar, e outras operações; as calandras; e as grades de ferro fundido.

Como amostras do aperfeiçoamento desta fundição, ela já pode apresentar consideráveis artefactos que aviara e se acham espalhados por algumas localidades do pais. Os guindastes da Alfândega desta cidade; a máquina de vapor de baixa pressão, e os moinhos do Sr. Eugénio Ferreira, a máquina de vapor de alta pressão da serraria que se está montando em Miragaia; outra de igual natureza que vai aplicar-se á descascação do arroz; uma outra que há-de servir para um grande moinho de farinhas; um moinho para azeite, encomendado pelo Sr. Adriano de Magalhães, para Trás-os-Montes, os prelos para Braga, Aveiro, Viseu e Coimbra; são outras tantas obras pelas quais se recomenda já o estabelecimento, e mostram o proveitoso resultado da ideia que o levantara.

Observando-se a economia interna do estabelecimento depara-se só com motivos de bem dizer a sua criação, pelo bem estar de cento e tantos operários, que tantos são os moldadores, forjadores, serralheiros, ferreiros, carpinteiros, a quem dá trabalho. Aos aprendizes, que são em grande número, é-lhes permitida a frequência das aulas na Sociedade Industrial, sem abatimento no salário; e efectivamente oito frequentam o desenho linear, ornato, francês, geometria, e outras disciplinas; não embaraçando o bom animo dos directores a ingratidão dos aprendizes, que a troco de um leve aumento de salário, tem abandonado o estabelecimento. O operário que adoece, ou por qualquer motivo se inutiliza, pelo trabalho da fábrica, tem botica e facultativo á custa da companhia, conservando-se-lhe no todo ou em parte o salário.

Estabelecimentos por tal ordem montados, que honram o país, e a industria nacional, sendo uma fonte de prosperidade, merecem um público testemunho de louvor de todos aqueles que devidamente apreciam as cousas pátrias.
De o Commércio de 11 de Janeiro de 1855

domingo, 13 de janeiro de 2013

O Castelo de Gaia

Pese embora o tema desta postagem já não se situe na área geográfica da cidade do Porto, historicamente ele é bem portuense. De facto, o Castelo de Gaia situava-se em Gaia, que por doação de D. João I foi anexada ao termo do Porto em 1384 juntamente com Vila Nova. Atualmente e desde 1834 formam o núcleo histórico do município de Vila Nova de Gaia.

Não existe grande informação sobre este castelo. Para além da Crónica de D. João I, escrita por Fernão Lopes, quase que apenas nos resta, para sua memória, a toponímia do local.

Em escavações arqueológicas efetuadas desde meados do século XX para cá, têm vindo a ser descobertos restos de construções e bem assim artefactos de várias épocas: desde a castreja à baixa idade média (precisamente a época do castelo).

É quase certo que o morro do Castelo, nos seus 76m de altura, tem uma ocupação tão antiga quanto o da Penaventosa, onde se ergue forte, altaneira e senhora do seu domínio, a Sé do Porto. A sua evolução foi, contudo, bem diferente.... ao que parece, foi a população portuense que pôs fim a este depois de lhe atear fogo, revoltada contra o seu alcaide Aires Gomes de Sá.

Até ao final da idade média, sem dúvida, lá se erguia um castelo; provavelmente com o aspecto idêntico aos muitos que ainda existem espalhados pelo nosso pais (que não tenham sido tocados pelas "reintegrações" do Estado Novo...). Ou mesmo quem sabe, com características defensivas/atacantes mais antigas, uma vez que a esmagadora maioria dos que hoje existem datam do período gótico. Foi por essa altura, aliás, que D. Dinís deu foral a Vila Nova - situada na marginal ribeirinha em frente à Ribeira do Porto; numa atitude de desafio direto com os domínios senhoriais dos bispos, que por essa época eram ainda senhores do Porto.

Em relação ao castelo, aparentemente nada sobrou, nem pedra, para perpetuar a sua memória. Para isso apenas nos ficou, como já referido, a toponímia e os parcos registos escritos. Mas..será assim? Será que durante a Guerra Civil os últimos vestígios deste foram destruídos aquando do arrasamento da bateria dos miguelistas?...

Pesquisando um pouco na internet, deparei com duas fotos curiosas no Monumentos, de uma estrutura aparentemente medieval, atrás de uns armazéns situados naquela zona (ver abaixo).





As mesmas estruturas estão representadas, em "3D" AQUI(1).

As fotos datam de 1966. Segundo nos informa o Vila Nova de Gaia on line(1): Mais recentemente, e após um desmoronamento de terras, foram descobertas as ruínas da porta sul do castelo, na rua do Rei Ramiro, junto dos armazéns "Fonseca Gimaraens".
Serão a estas fotografias que se reporta a observação? O que é certo é que atualmente, o lugar se encontra soterrado, inclusive com estruturas por cima, como se pode comprovar na imagem abaixo.





Desde que entre nós a arqueologia urbana se desenvolveu, foram efetuadas centenas de escavações e sondagens, quer a pedido de instituições quer de particulares que as são obrigadas a fazer sempre que querem mexer na estrutura das suas propriedades. Infelizmente, as mesmas nunca, ou raramente, são tornadas públicas! Bem certo que a maioria delas tem um interesse muito escasso ou mesmo nenhum, mesmo para quem, como eu, valoriza bastante a componente histórica.

Tive o privilégio de ter acesso a um desses relatórios, sobre um acompanhamento efetuado no Porto, e acreditem, havia muita mais informação (e de interesse relevante) do que aquele que estava disponibilizado no site da empresa de arqueologia que fez esse mesmo acompanhamento. Não queremos com isto, de forma alguma, acusar a empresa, uma vez que a mesma se limita a cumprir o que o cliente lhe pede e é a ele que tem de prestar contas e entregar o relatório.

Mas o cliente, esse sim, quando falamos de uma Câmara Municipal do Porto ou Gaia, Porto Vivo, GaiaUrb, etc.esses teriam o dever de divulgar, mesmo que de uma forma simplificada, as descobertas que se lhes apresentam, quando relevantes. Sobretudo quando a futura ocupação do lugar as não permita preservar.

É por essas e por outras que pouco ou nada se sabe do que se encontrou, por exemplo, do Convento dos Loios e onde foi parar o que quer que se tenha preservado (visto lá estar atualmente mais um parque de estacionamento) e me parece que vão por esse caminho as descobertas que se tem feito na revitalização do eixo Mouzinho-Flores que mexe com uma grande percentagem do centro histórico do Porto.

É também por essas e por outras que nada se sabe acerca das estruturas que eventualmente subsistem do castelo de Gaia; resta-nos ir para o parque de estacionamento da alfândega e olhando para o morro do castelo, imaginar que um dia, há muito tempo atrás, ele ali estava, também altaneiro, forte e imponente; em competição com o seu vizinho da banda do norte. Competição essa que, quiseram as gentes de trezentos, viesse a perder.

NOTA: O boletim do Gabinete de Arqueologia da CMP era um excelente meio para divulgar ao público em geral, os achados que se iam fazendo por esta cidade fora. Mas este deixou de ser publicado!

(1) - estes links infelizmente já não se encontram ativos. ___
Reformado em 22/03/2017

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O Convento de Vale de Amores

Começo o ano com uma pergunta aos leitores d' A Porta Nobre.

Será o edifício que se vê na fotografia (tirada por mim no início de Novembro passado), o que resta do Convento de Santo António de Vale da Piedade, em frente a Miragaia?

Pergunto isto pois ainda não consegui obter uma localização certa de onde era esse convento, e confrontando a foto com o desenho que existe da igreja do mesmo - ver mais abaixo - o rés-do-chão parece ser sensivelmente o mesmo. E a seu lado, praticamente invisível na foto, existe um outro corpo quadrangular que transmite a ideia de ser um antigo claustro, actualmente bastante transformado (o que se pode verificar por exemplo no Google Maps  ou no Bing Maps).



A quem me poder informar mais em pormenor onde se localizava este convento, desde já o meu obrigado.

NOTA: A imagem de baixo foi "puxada" do blog Do Porto e não só.