terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Se as pedras pudessem falar...

Em Novembro passado, fazendo um passeio solitário de fim de tarde pelos jardins do Palácio de Cristal, detetei, encostadas a um muro, quase no limite norte do mesmo, a uma cota inferior à Biblioteca Almeida Garrett, umas pedras que me deixaram intrigado e a pensar para de mim para comigo de onde proviriam.

Logo avancei a hipótese de serem do antigo palacete da Praça da Liberdade, que serviu de Câmara Municipal durante cerca de uma centena de anos.. Mas hoje, tirando as teimas, ao comparar as minhas fotos com as excelentes e GRANDES do livro Porto Desaparecido, cheguei à conclusão que não. Não são! São com certeza de um palacete, uma casa senhorial do tempo do romantismo, mas não daquele palacete.

As pedras estão lá, meias cobertas de vegetação para quem as quiser estudar. Temos 2 grandes blocos, por assim dizer, que constituem a entrada de um antigo portão para carros e depois, dispersas pelo chão e encostadas a um muro, várias peças ornamentais que já encimaram janelas e platibandas.

Quem conseguirá descobrir este mistério? Seria de algum palacete existente no local? Não seria de uma outra casa e levada para ali com a finalidade de serem colocadas no Jardim (como outros ornamentos) o que nunca chegou a acontecer?

Quem souber para mais e estiver disposto a partilhar, peço o favor de comentar!







terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O relógio da Praça do Comércio do Porto

D’ O Jornal do Porto

Possui o Porto uma meridiana que da mais alta das varandas da torre dos Clérigos, lhe anuncia pelo tiro de um morteiro, a passagem do sol pelo seu meridiano, isto é, o seu verdadeiro meio dia.
Mas esta máquina, com quanto muito útil, e como necessária, por nos advertir o fenómeno que se deu – não obstante a sua exactidão, por isso que se baseia na regularidade dos movimentos do planeta que habitamos – a terra - movimentos que são conhecidos e estão calculados na tabela da equação do tempo; porque é uma só vez que diáriamente funciona, e isto quando o sol se nos deixa ver ao meio dia; porque o espaço de tempo que decorre de um a outro meio dia não é igual: e, finalmente, porque todos esses relógios que por ai há, satisfazem mal ao seu fim – nos faziam sentir a falta que o Porto tinha, de um bom relógio, que à vista e ao ouvido, nos indicasse as divisões do tempo médio, ou tempo igual.

Compenetrou-se a ilustrada direcção da Associação Comercial desta verdade, e coube-me a mim a sua concepção e execução.

Ai está colocado um tal relógio no torreão do edifício da Praça do Comercio: e ai está ele regulando com a insignificante diferença de bem poucos segundos diários, e suposto haver eu já conseguido aproximá-lo á de um segundo em 5 dias, penso, não obstante o adicionamento que depois lhe fiz de mais 9 rodas, para o movimento dos ponteiros, e algum estremecimento que sofre, quando bate os quartos os as horas, que em breve tempo, terei conseguido a aproximação que já obtive.

Não é o mencionado relógio uma maquina de complicados cálculos de movimentos de figuras ou planetas, para recrear a vista; mas também não é um relógio que muito tenha de comum com todos os outros. É uma verdadeira pêndula de precisão e astronomicaI, segundo o sistema de Graham,  como Parkinson de Londres, e Kessel de Altona, têm fabricado ultimamente, para numerosos observatórios da Europa e da América, compensada pelo mercurio, de cujo metal tem aproximadamente 60 libras – que por um cutelo se suspende em uma pedra, fazendo-se o escapamento em duas engastadas, e o giro dá quatro eixos, nelas brocadas, ao todo sete pedras finas.

As três máquinas do relógio, tem corda para 7 ½ dias. A do regulamento, que produz as oscilações da pêndula, que põe em movimento a que bate os quartos, ou que bate as horas: também indica os minutos e os segundos em mostradores internos. Para o público são indicadas as horas e os minutos, em dous mostradores de cristal de 1,2m de diâmetro ( 5 ½ palmos aproximadamente) que de dia se vêem pretos, com as letras e ponteiros brancos, mas que de noite, pela iluminação do gás, se mostram claros, com as letras e ponteiro transparentes.

Pode o relógio adiantar-se, ou atrasar-se, por mecanismo próprio, sem que se altere a uniformidade das oscilações da pêndula. Não pára quando se lhe dá a corda: e sendo indispensável empregar 16 rodas dentadas na máquina do regulamento, que move as duas sonerias(?), os quatro ponteiros, etc; tem por peso motor 4 ½ ?, 9 pendentes em uma roldana! – peso este que não posso aumentar porque as oscilações excederiam a 10 centímetros.

Os entendedores a quem convido para verem, que verifiquem, que comparem, aquele resultado, com o de outros relógios e avaliem se será fácil obter melhor efeito.

Não obstante muitas pessoas me advertirem de que os sinos se não houvem bastante, direi, que eles sendo maiores que o da Bolsa de Paris, não são tão grandes como os de outras torres, e que ambos pesam de 36,  37 arrobas, mas ainda assim, as horas são batidas com um martelo de 26 ? tendo por peso motor 6 arrobas pendentes em roldana, por corda de seda, vindo portanto a fazer mover esta máquina 3 arrobas. E a máquina que bate os quartos nos dous sinos, afinados em terceiras, tem dous martelos, um de 18, outro de 22 ?, com um peso motor de 7 @.

Finalmente, este relógio que em nada buscou as exageradas proporções ou calculo dos outros relógios públicos, tem de comprimento 65cm, largura 55 ditos, altura 26 ditos, não incluindo o da pêndula.

Porto, 21 de Setembro de 1860 – Esquina das Hortas e de D.Pedro

NOTA: os dois ? que aparecem a seguir a números de peso representam um simbolo que, infelimente, ainda não achei equivalente. Contudo, assim que o faça esta nota será removida e o símbolo colocado no seu devido lugar.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cinco relíquas das Congostas

A rua das Congostas era uma artéria íngreme que partindo da Rua do Infante subia o declive que ainda hoje se apresenta a quem inicia a subida da Rua Mouzinho da Silveira; indo desembocar junto à encruzilhada da Rua de S. João, Biquinha (hoje também ela desaparecida) e Largo ou Calçada de S. Crispim (nome dado à rampa que sobe para S. Domingos).

Esta rua era possuidora ainda de muito do seu carácter medieval na tortuosidade e estreiteza que a caracterizava - sendo provavelmente a dos Mercadores um bom exemplo de comparação.
No entanto, aquando da grande revolução urbana promovida no casco histórico da cidade à época de Pinto Bessa, ela foi inteiramente sacrificada, por forma à cidade ficar melhor equipada de acessibilidades à Nova Alfândega de Miragaia, recém inaugurada.





Mas nem toda a rua desapareceu... ou melhor dito, nem todos os edifícios que a compunham desapareceram.
Com efeito, o projecto levado a cabo para a Rua das Congostas expropriou quase todos os proprietários dos prédios nela sitos, uma vez que o seu alinhamento iria ser completamente diferente do existente, em face do novo arruamento que se queria mais amplo e desafogado.
Mas alguns sobreviveram... Tendo-se eventualmente mostrado desnecessário demolir cinco prédios do lado nascente.
Esses cinco edifícios constituem como que uma relíquia do arruamento que por séculos ali existiu e que desde cerca de 1875 desapareceu para sempre.
Na foto acima, colhida ontem no local, pode-se ver em destaque os edifícios em questão.
(Fonte: Porto Vivo, Projecto Base de Documento Estratégico, para o quarteirão da Feitoria Inglesa)

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Observação pessoal: O projecto original previa a manutenção do nome Congostas, o que, se virmos bem faria todo sentido, uma vez que a parte sul da Rua Mouzinho da Silveira parece, ao turista ou transeunte que nada saiba de toponímia, um arruamento independente do grande troço que vai de S. João a Almeida Garret.
Não deixaria de ser bem mais pitoresco e quem sabe mais "verdadeiro" ter mantido aquela nome, no entanto a edilidade da altura assim não o entendeu.