quinta-feira, 28 de março de 2013

Preferia assim...

A Praça do Infante D. Henrique em 1993

Foto: SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitectónico)

domingo, 24 de março de 2013

O (quase) desastre do vapor Porto

Conhecido de todos os portuenses que amam a história da sua cidade, o desastre do vapor Porto é talvez segunda maior tragédia marcada na história da cidade logo a seguir à da Ponte das Barcas. Este vapor desfez-se completamente ao entrar na barra do Douro no ano de 1852, com a perda da quase totalidade das almas que seguiam a bordo.

No entanto, já em 1845, o mesmo vapor fora protagonista de um episódio bastante terrível, onde esteve na eminência de se perder. Contudo não foi na entrada da barra do Douro mas sim do Tejo, o outro extremo das suas carreiras regulares.

Vejamos o que uma breve notícia publicada no Periódico dos Pobres de 1845 de 13 de Novembro nos conta, seguido de uma carta de uns dos seus passageiros a um amigo, onde o mesmo relata momentos tenebrosos. Momentos eventualamente iguais aos de 1852 mas do qual, desse desastre, ninguém sobreviveu que os relatasse.


O vapor Porto depois de uma viagem tormentosa em que veio sempre aberto de mar e tendo levado muitas horas para andar apenas 3 milhas na altura do Cabo da Roca, esteve perdido sem esperança alguma de salvação, ao entrar a barra  do Tejo: se não fora um tufão de vento que o arremaçou para fora dos cachopos,  não havia já salvação, perdidos dous ferros, duas velas, uma amarra, e um cadeado, e não dando pelo leme. O capitão aproveitou este arrojo de temporal que lhe foi favorável para mandar dar toda a força à máquina e consegui-se mete-lo dentro do Tejo. O barco precisa de bastantes reparos. E avalia-se em 600$ reis as perdas que sofreu, alem da avaria da carga. Queixam-se de que a admnistração fizesse sair o vapor da barra do Porto, ameaçando o tempo mudança e prognosticando os pilotos da Foz próximo temporal.

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(carta particular)
Pego imediatamente na pena para dar parte a V. Exa da minha feliz chegada, depois da minha infeliz e fatal viagem.
Não posso descrever-lhe os sustos e perigos contínuos em que sempre iamos, porque nem há palavras que o digam, nem o curto espaço de uma carta eram bastante para dize-los; com tudo para que V…. saiba que é um homem ressuscitado que lhe escreve, sempre lhe direi em resumo, que tivemos uma viagem de 48 horas debaixo de céu escuro e temeroso, por cima de um mar de serras e profundos abismos de água, e açoitados por um sudoeste e aguaceiros que em cada minutos nos davam mil mortes.
O barco rangia todo e parecia querer desconjuntar-se  a cada golpe de mar que lhe batia; a máquina, com uma das rodas quase sempre debaixo de água, e com a outra trabalhando em seco, não só nos não deixava navegar com a força inteira, senão que os vagalhões á proa mais nos retardavam o termo da nossa infeliz viagem.
Depois de tão calamitoso acontecimento, já V…. vê quão pouco venceriamos naquela noite de 4ª feira, porque na madrugada de 5ª apenas teríamos vencido um 3º da viagem. porém, se a noite de saída nos foi tão trabalhosa, quanto e quanto mais não foi de assustar, todo o dia imediato, e a noite e manha de 6ª feira!! – chegamos na 5ª feira pelas 8 horas da noite ao Cabo da Roca, e quando eram 6 da manhã seguinte ainda estávamos no mesmíssimo ponto, sem ter avançado uma polegada.
Finalmente viemos á barra pelas 11 da manhã do dia 7, e depois de ter entrado pela do norte, muito junto da Torre de S. Julião, veio um aguaceiro tão forte com tufões de vento, cerração, trovões e grande mar pela proa, que a nossa perda tornou-se inevitável sem esperança de salvação. O barco não deu mais por leme nem a máquina o movia, só o mar o levava para trás como à matroca, acima de uns cachopos que lhe ficavam na popa, onde o mar se quebrava em serra de água; ao lado, uma grande laje que nasce da Torre e entra muitas braças pelo mar dentro.
Neste estado aterrador já as caixas das rodas estavam quebradas pelo mar, e os varões de bronze da escada vergados sobre a borda, como rolos de cera. Pintar-lhe o meu estado e o de todos os os passageiros não posso; soube-o sentir, mas não dizê-lo.
O barco, tendo lhe caído a carga a um lado já tinha um bordo e uma roda debaixo de água, e neste último desamparo de todo o socorro, ainda veio um golpe de mar quebrar um bocado da popa justamente por trás do beliche de L….que caiu para o meio da câmara com um neto nos braços, toda alagada em água e dando um grito de terror, como quem se julgava submergida. – nisto manda o capitão lançar dous ferros à proa, mas isto que ainda nos daria dous minutos de vida, enquanto o mar não nos submergia, ia sendo a nossa perdição imediata, porque os ferros puxaram tanto pelo navio que logo abriu uma grande brecha ao lume d’agua, por onde nos íamos alagar e todos ao fundo sem remédio.
Neste lance, imagine V… como eu teria o meu espírito, vendo-me ali acabar com minha mulher, meus filhos, e meu neto!!! Todos fazíamos actos de contrição, e pedíamos salvação para as nossas almas, que para o corpo ninguém contava com ela. Como os ferros fizeram abrir o navio, picaram-se logo as amarras, foi tudo dar à bomba, e ficamos a Deus misericorda, para ali terminarmos nossos dias. Porém, quis Deus acudir-nos neste perigo extremo, logo que o navio ficou solto dos ferros, um grande mar do lado que estava deitado o levantou, e como assim desgovernado tinha posto a proa à barra do sul, e ficou um pouco mais desafrontado: o Figueiras gritou – toda a força na máquina -, e o vapor começou a navegar, posto que lentamente, pela barra do sul, e nos salvamos. – é um homem ressuscitado que lhe escreve, e que ainda se lembra da promessa que fez de ir a A. quando vivia da outra vez.



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Uns dias depois, o armador do Porto vinha repor a verdade quanto á acusação que lhe fora feita de autorizar o navio a sair da barra quando se prenúnciava mau tempo, dizendo: tendo alguém tratado de acusar a Adminstração dos Vapores por mandar sair o Porto quando os pilotos da barra prognosticavam temporal, podemos afirmar que vimos cartas do piloto da barra que autorizavam a dita saída.

Apesar dos eventuais grandes estragos provocados no navio, poucos dias depois, ainda no mesmo jornal, se vê o anúncio da saida do porto de Lisboa, em mais uma das suas viagens regulares. Foi assim ultrapassado este incidente de uma forma mais rápida do que se nos aparenta pelos atrás ficou descrito.

Sete anos depois, o mar não seria tão clemente com este navio, soçobrando ele à entrada da barra do Douro com desfecho trágico que todos conhecemos.




domingo, 3 de março de 2013

Um Edital controverso em 1845

Em Julho de 1845, a Câmara Municipal do Porto afixou um edital que se tornou, como quase tudo que é novo, um assunto polémico. Definia onde se poderiam carregar e descarregar os diversos tipos de géneros, ao longo das várias linguetas do cais.

Esse edital determinava:
- que a passagem de gente para Vila Nova [de Gaia] e a estação dos barqueiros para esse efeito seja nas escadas em frente á Ribeira;
- que o desembarque de lenhas, tabuado e mais objectos, seja na lingueta em frente ao postigo da forca e cais da Ribeira até à lingueta da extinta Ponte das Barcas;
- que o desembarque de pão cozido, hortaliças, frutas, cereais, e mais comestíveis, seja desde a dita lingueta da extinta Ponte das Barcas a seguir até as escadas acima, servindo também este local para carregamento dos mesmos géneros;
- para carregamento e descarga dos barcos do Douro destinou a lingueta do cais dos Guindaes até ao assento[?];
- para desembarque das lanchas e barcos do pescado as linguetas e escadas em frente à do assento;
- proibe a atracação dos barqueiros em outros sítios.
A multa é de 600 reis, pela contravenção a qualquer destas mediadas.

A Câmara foi acusada, no Periódico de Pobres do Porto de publicar este edital estando ocultamente ao serviço da empresa da Ponte Pênsil, que se via diariamente com o decréscimo de passantes motivado pelo facto de os barcos de passagem prestarem esse serviço por mor módica quantia.

Rezava assim a acusação:
As nossas Câmaras Municipais e a Ponte Pênsil tem alguma afinidade oculta que não se sabe explicar, mas que por isso não deixa de ser um facto. Quando ela se construiu a empresa fez tudo quanto quis, pregou o maior logro ao público, e as nossas Câmaras serviram sempre os interesses da empresa, representando ou não representado, conforme a ela convinha.

Fez-se a ponte e ela ai está; mas como se procurou pô-la onde ficasse mais barata, e não onde fosse mais útil ao trânsito público, foi ela abandonada pela maior parte dos que passam de uma para a outra margem, e afora os transportes, o maior número prefere os barcos. O resultado foi ficar castigada a empresa pela sua esperteza, diminuindo-lhe consideravelmente os réditos.

Para remediarem o mal, há muito que mexem a ver se obstam à concorrência dos barcos, até que a Câmara Municipal, cujo principal encargo é promover as comodidades públicas dos vizinhos do concelho, calcando estas, acaba de publicar um edital, ilegal e em que não somente o cómodo público é desprezado, mas em que os interesses de uma classe acredora de comtemplação qual a dos barqueiros é muito prejudicada.

Ilegal, porque não basta para ser legal que uma postura seja aprovada pelo Conselho de Distrito, se ela ofende direitos acobertados pelas leis. Nem o contracto do Governo com a Ponte Pênsil nem a carta de lei que lhe diz respeito, deram à companhia outro monopólio senão o de não poder colocar-se sem seu consentimento outra ponte no Douro em frente da cidade: qualquer outro monopólio a favor da empresa não está consignado no contracto nem na lei, e está fora das atribuições da Câmara Municipal ou do conselho de distrito o estabelece-lo.

No edital vem ele sorrateiro: a Câmara destina tais e tais pontos do cais para as padeiras, para os barcos de cima do Douro, e para outras coisas; mas por mais que o disfarce, o seu fim é proibir que haja barcos de passagem a certa distância da ponte para obrigar a passar por ela. E tão miseravelmente é encoberto que, e mal redigido, que segundo a sua letra, não podem haver barcos de passagem entre as duas margens nos Banhos e na Porta Nobre!!

E isto contra repetidas ordens do Governo a que as Câmaras têm obedecido ou bem ou mal, de que não se devem intrometer com o rio ou cais; cuja policia pertence à intendência da Marinha e Obras Públicas.

O artigo continua pedido a Câmara que revogue o edital. No entanto, uns dias depois e no mesmo periódico, a Câmara Municipal vem esclarecer toda a situação, que, diz-nos ela, o artigo atrás apenas poderia ser fruto de falta de informação e desconhecimento dos factos.

A defesa da Câmara evoca que, na realidade, a mesma actuou em respeito ao artigo 120 do Código Administrativo que ordena que a mesma faça posturas e regulamentos para regular a boa ordem e polícia de embarque e desembarques das pessoas e géneros nos cais. Afirma que a medida não visa ofender os direitos adquiridos dos barqueiros, porque estes não os tinham, e se o tivessem teriam renunciado aos mesmos por terem pedido à Câmara que fizesse precisamente esse policiamento, pedido esse que vem também transcrito no jornal; clamando que os barqueiros modernos, em novas passagens criadas, desamparando o seu ofício, escolhem de seu livre arbítrio, sítio para passarem gente, forçando-a até para esse fim. Referem também que a pretensão por parte da direcção da Ponte Pênsil relativa à designação dos locais para os barcos de passagem [ou seja, por aqui se vê que o pedido original vem realmente da empresa que gera aquela travessia...] é também útil a eles! Citando: e mesmo porque nós como barqueiros de profissão estamos obrigados a leis marítimas, o que não acontece com os outros, que com a mais pequena requisição desaparecem. Ou seja, vemos que aqui existe uma "classe" que se encontra devidamente creditada (para usar linguagem moderna) a efectuar um determinado serviço, existindo, como parece insinuar o texto, concorrência desleal por parte de outros barqueiros eventualmente não acreditados como tal.

Voltando à defesa da Câmara, e em relação ao argumento de os cais serem da responsabilidade da Marinha na pessoa do seu intendente (figura muitas vezes citada nos jornais dos meados do século XIX aquando da altura das cheias como principal actuante e responsável pela segurança dos barcos ancorados no porto); o argumento não colhe pois as ordens do governo respeitam apenas às obras que se fazem nas margens dos rios e não à polícia dos cais e embarques.

A lei não foi lenta em cumprir-se, e ainda antes do próprio edital ter sido publicado no jornal, umas mulheres foram multadas, abaixo da Ponte Pênsil, no areal próximo onde existia a Ponte das Barcas. Se reincidissem ouviriam voz de prisão...