quarta-feira, 24 de abril de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (2)


SEGUNDA CARTA       20 de Setembro

Logo ao amanhecer continuamos a nossa viagem – mas depois de grande trabalho da parte da tripulação que andou na água a levantar o barco para poder passar no seco da Varjiela, e custou-nos a chegar a Melres, levando-nos três horas a andar esta pequena distância de meia légoa!
Defronte deste povo almoçamos, e durante este descanço podemos notar que o sítio abunda em férteis campos, lenhas, cortiça, laranja e vinho, com tudo isso parece que os habitantes não gozam da maior prosperidade. As habitações são miseráveis e não há entre elas uma única casa que se possa supor pertencer a lavrador abastado.
Esta circunstancia é mais notável em razão da benignidade do clima que faz que as terras produzam quase espontâneamente, e dos habitantes não precisarem fazer grande despesa com o seu sustento e vestuário.
Os homens apenas trazem calças, colete e camisa – as mulheres contentam-se com uma saia, camisa e colete, e as crianças – rapazes e raparigas, até à idade de 8 ou 9 anos, andam só com camisinha, aqueles que a tem.
Entre o Carvoeiro e Melres passamos na margem esquerda do rio o povo de Pé da Moura, sendo este o extremo ponto onde chega a maré e de onde a maior força da carqueja é remetida ao Porto. É curioso notar a direcção que nestes sítios toma o rio, porque principando em Lombeiro de Atães e acabando em Pédorido e Rio Mau, um quarto de légua adiante de Melres, descreve o perfil de uma cara de homem.
Ao meio dia o calor era tanto, marcando o termómetro 123 graus, e a atmosfera tão abafada, que não tivemos reméio senão dar à nossa tripulação três horas de descanço no areio d’ortos, ao pé do ribeiro da Raiva; mas depois o vento favoreceu-nos e podemos chegar à noitinha a Fontelas.
As vistas de ambas as margens são belíssimas, porém são poucos os povos e o seu estado em nada difere daquele que acabamos de descrever.
Há bastantes oliveiras e sobreiros desde Pé Doirido até defronte d’Entre –ambos-os-rios, onde o Tâmega desemboca no Douro. A perspectiva pelo vale do Tâmega é mui bela, quanto à natureza; porém é lastimoso notar-se que nem pelo rio nem por terra tenha a arte ajudado a aumentar os meios de comunicação com o interior do país, nem mesmo com Canaveses e muito menos com a importante vila de Amarante por onde o rio passa.
Em Entre-os-Rios tem aparecido bastantes vetigios dos romanos, e tanto neste povo como em Canaveses há caldas e águas férreas que deviam talvez ser de bastante estimação se houvesse comodidade que chamasse  a gente a frequenta-las. Neste sitio havia registo, pela antiga Companhia, de todos os barcos que iam para o Porto.
Castelo de Paiva é uma terra insignificante, mas de um aspecto muito romântico, sendo a origem do seu nome a ilha de rochedos pitorescos no meio do rio em frente da povoação. O rio paiva é abundante em peixeis, especialmente trutas.
Nos tempos feudais quando os senhores recebiam os foros dos caseiros e tinham direito de pesca em certas estações do ano, além das galinhas que lhes foram dadas para merenda, era forçoso até fornecer-lhes o trovisco. Entre os povos mais afamados naqueles tempos, o Castelo de Paiva, não era o menos importante pelas suas pescarias de trovisco, conforme o que coligímos de vários escritores, e apesar da pesca de trovisco ser, por lei, de há muito proibida, neste povo de Castelo de Paiva ainda continuam a pagar-se muitos foros em galinhas, aplicadas em outras áreas para as merendas da pesca de trovisco. Nos arredores de Paiva, fabrica-se grande quantidade de carvão de choça que se vende na cidade.
Tenho deplorado o estado de miséria em que parecem achar-se todos os povos que passamos entre o Porto e ete sítio – agora acrescentarei que nos intervalos que medeia entre um povo e outro, não se encontra nem gente, nem gado, nem rebanhos, parecendo um país não habitado: ao mesmo tempo que cada passo aparecem deliciosos sítios a convidar o homem de gosto a ir para ali estabelecer o seu domicílio.



 Sou de VV. & c.
J. J. Forrester

domingo, 21 de abril de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (1)


11  de Setembro de 1854 – do Jornal O Commercio

COMEÇAMOS HOJE A PUBLICAÇÃO DE UMA SÉRIE DE CARTAS SOBRE O DOURO, QUE JULGAMOS INTERESSANTES E DEVEMOS À BONDADE DE UM CAVALHEIRO TÃO HABILITADO PARA ESCREVER SOBRE ESTE OBJECTO, COMO O ILLMª SR. FORRESTER.
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PRIMEIRA CARTA

Quem quer seguir viagem do Porto pelo rio Douro acima, deve lembrar-se que até Pé de Moura quase nunca no Verão os barcos carregados poderão passar sem maré, e ainda que a nossa barquinha não levava o que se pudesse chamar carga, contudo os arranjos de camas, baús e mais utensílios próprios ou necessários para uma longa viagem, bem como a tolda, os armários, beliches, mantimentos, etc. pesavam, pelo menos, metade da lotação do barco que era de nove pipas – escolhemos por conseguinte a hora da maré, que deitava das 3 para as 4 horas da tarde para a nossa saída de hoje.
Também ainda que não somos astrólogos nem sabemos calcular bem as mudanças do tempo temos tal ou qual fé nas diferentes fases da Lua – e como há 15 dias a esta parte sempre tivemos vento Leste fortíssimo, entendemos que este quarto de Lua crescente nos poderia favorecer, e com efeito assim aconteceu porque não somente podemos aproveitar a maré mas tivemos vento pela popa.
Chegamos às 8 horas e meia a Carvoeiro, 3 léguas e meia da cidade, andando à razão de 3 quartos de légua por hora.
O leito do rio Douro até este ponto é uma pouca de areia – o canal para a navegação é estreitíssimo e actualmente na maré baixa apenas trás de 2 a 3 palmos de água. Estas areias depositam-se todos os anos com as enchentes do rio, e as marés de Verão concorrem para a sua conservação. Assim tem acontecido desde que os Fenícios se estabeleceram em Portugal – e pelo que se vê, a arte, a ciência, e o mecanismo não poderam remediar o mal! – ao menos pelo que vemos, não parece ter havido tentativa alguma para este fim.
Pela margem esquerda notamos as pequenas povoações de Quebrantões – Oliveira – Espinhaça de Avintes – Arnelas – Crestuma e Carvoeiro, e pelo lado direito Campanhã, Valbom, Gramido, Atães, Sousa, Gibreiro, Esposar, Lixa e Pombal.
Quebrantões é notável por ser o sítio onde na guerra peninsular, os exércitos luso-britanicos passaram, quando os franceses evacuaram o Porto. Agora é neste sítio a barreira por onde nenhum barco, por pequeno que seja, pode passar sem ser examinado.
Defronte são as ruinas do grande Seminário que foi arruinado durante o cerco do Porto e logo ao pé, também se vêem algumas paredes do palácio desmantelado do Bispo: tanto as belas árvores desta quinta como as do Convento da Serra foram cortadas em 1833.
Oliveira, sempre tem sido célebre pelo seu antigo convento e por ser a  sua cerca um recreio para os habitantes do Porto.
Avintes, é a terra das padeiras que abastecem a cidade do Porto com excelente pão.
Arnelas, notável por suas madeiras e lenha e pela sua feira de S. Miguel, em que as nozes abundam.
Crestuma, pela abundância de águas e lenhas suficientes para fazer trabalhar imensas fábricas – porém onde por ora ainda não há nenhuma. Aqui no tempo da antiga Companhia havia o registo de todos os barcos com vinho que iam para o Porto.
Carvoeiro, pela quantidade de lenhas e madeiras que manda para o Porto.
Campanhã, pelas fábricas de curtume e pelo isolado palácio arruinado do Freixo, que tem as armas dos Lencastres sobre a porta.
Valbom, por ser a terra dos pescadores, que nas suas belíssimas lanchas vão ao mar.
Gramido, sítio onde o Sr. D. Miguel em 1833 estabeleceu uma ponte de barcos e onde em 1846 se fez a convenção entre as forças luso-espanholas e a Junta do Porto.
Os povos desde Atães até Pombal sustentam-se do produto das suas terras mandando apenas de vez em quando algumas melancias, melões e hortaliças para o Porto.
É para notar que em toda esta extensão do rio, em quanto que os homens se ocupam na agricultura, as mulheres conduzem os seus barcos com géneros ou passageiros para o Porto. Estas mulheres são muito hábeis na sua ocupação; a maneira como elas cantam suas modinhas, que geralmente são originais, faz crer com especialidade ao estrangeiro, que são as criaturas mais felizes do mundo e que ignoram inteiramente o que é a fome e a miséria.
São muitos os dias que nem dois patacos ganham – porém continuam a cantar e parecem contentíssimas com a sua sorte.
Chegados ao nosso ancoradouro, tratamos de fazer os arranjos necessários para ai passarmos a noite.
Sou de VV. & c.
J. J. Forrester

domingo, 14 de abril de 2013

Almeida Garret


Em 1864 a Câmara Municipal do Porto decidiu colocar uma lápide comemorativa no edifício onde Almeida Garret nascera, na Rua Dr. Barbosa de Castro. Contudo os trabalhos arrastaram-se e a mesma só foi colocada em finais de Janeiro de 1866, tal como o anuncia O Nacional:


Sempre é certo desta vez colocar-se uma lápide comemorativa na casa onde nasceu esse grande talento que se chamava Almeida Garret.

Na oficina do Sr. Costa, na Rua do Laranjal, trata-se da conclusão dessa lápide, que será de mármore em forma oval, com os emblemas de uma lira, uma coroa, e no centro de uma grinalda de louros, esta inscrição:

Casa onde nasceu aos 4 de fevereiro de 1799

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garret

Mandou gravar à memória do grande poeta

a Câmara Municipal d’esta cidade em 1864
Consta que os trabalhos todos que são necessários para a colocação desta lápide, estarão prontos até ao final do mês.

Com efeito, e como atrás foi dito, assim se concretizou, podendo nós ainda hoje admirar essa mesma lápide, se bem que ela já merecia um restaurozinho....


domingo, 7 de abril de 2013

A inauguração da Estátua de D. Pedro V

Na Praça da Batalha encontramos, desde há 147 anos para cá, a estátua do Rei D. Pedro V que faleceu bem novo após um curto reinado. Foi um Rei que não se escusava a visitar e cumprimentar os doentes e os pobres em pessoa; e talvez isso lhe tenha custado a vida... Mas também por isso ficou sempre sendo um Rei muito estimado pelos seus súbditos.

Foi em 1862 que a primeira pedra da construção desta estátua foi lançada. Mas apenas em 1866 a estátua foi finalmente colocada no seu pedestal - às 5 da manhã do dia 26 de Janeiro - onde ainda hoje se encontra, tendo o Rei D. Luiz vindo inaugurar a mesma.

No dia anterior à inauguração a Praça da Batalha foi grandemente iluminada, como que um prelúdio para o que se iria passar no dia seguinte. Esta consistia em diferentes estrelas iluminadas a gás e colocadas sobre as pilastras que sustentavam a grade que cercava o pedestal do monumento.
Também se iluminaram a Câmara Municipal e muitos edifícios públicos e particulares.
Nessa noite foi grande o concurso de povo que girava na Rua Santo António e Praça da Batalha.

No dia seguinte, 3 de Fevereiro, ao nascer do sol, as fortalezas içaram a bandeira nacional.
O préstito saiu da casa da Câmara seguindo pela rua de Santo António até à Praça da Batalha.

A Praça da Batalha achava-se vistosamente guarnecida de bandeiras, galhardetes, pirâmides de camélias, e das janelas das casas circunvizinhas pendiam cobertores de damasco de várias cores. A Rua de Santo António, Praça de D. Pedro e Calçada dos Clérigos também estavam vistosamente enfeitadas, sobretudo a Rua de Santo António, pendendo variados damascos das suas janelas. Mesmo as árvores da praça foram podadas para melhor embelezamento da mesma.

A praça onde se ergue o monumento do Sr. D. Pedro V estava circundada por filas da tropa de guarnição, comandadas pelo general Casimiro Benevento; dentro do recinto achavam-se diferentes corporações, deputações de diferentes classes da sociedade, titulares, cônsules, juízes, lentes dos estabelecimentos de instrução, vários convidados etc.

Os corpos e o destacamento de cavalaria formaram em volta da praça dando direita à rua Entre Paredes e uma guarda de honra com música formou dentro do recinto interior da praça, dando a direita ao pavilhão erguido para a cerimónia.

Eram duas horas e tanto da tarde quando sua majestade el-Rei o Sr. D. Luiz I, em carro descoberto, e acompanhado dos srs. Visconde da Praia Grande de Macau, Marques de Sousa Holstein, Sérgio de Sousa e Caula, chegou à Praça da Batalha. Nesta ocasião a tropa apresentou as armas, e as bandas militares romperam o hino de el-Rei.

Em seguida seguiu sua majestade para o pavilhão que estava armado no recinto da Praça; passados momentos o Sr. Luis José Nunes, presidente da comissão do monumento dirigiu-lhe uma alocução.

Depois sua majestade encaminhou-se para o pedestal da estátua, o Sr. Nunes entregou-lhe um cordão de seda que comunicava com duas bandeiras nacionais que cobriam a estátua, estas descerraram-se a estátua apareceu descoberta aos olhos da multidão; a tropa apresentou armas novamente; as bandas marciais romperam o hino do Sr. D. Pedro V; subiu no ar uma girândola de foguetes, e salvaram as fortalezas: na da Serra do Pilar a artilharia aí colocada salvou com 21 tiros, tendo o Castelo da Foz respondido aos mesmos com igual número.

Recolhido el-Rei novamente ao pavilhão, o sr. Luis José Nunes proferiu outra alocução, seguindo-se outra do Sr. Governador Civil, o Sr. Conselhieiro Januário Correia de Almeida. O Sr. D. Luiz, respondeu com um pequeno mas sentido discurso, em que louvava as virtudes do seu falecido irmão, e em que engrandecia o povo que as soubera apreciar.

O Sr. Governador Civil findo este discurso levantou vivas a sua magestade, Carta Constituional, Sr. D. Fernando, família real, e a esta cidade.

Da Batalha el-Rei seguiu para a Igreja de Santo António da Porta de Carros (dos Congregados) a ouvir o hino TE DEUM LAUDAMOS, composto especialmente para a ocasião por vários artistas envolvidos e executado gratuitamente; com a guarda de honra montada à porta da igreja durante a cerimónia.

Finda aqui esta breve descrição da inauguração da estátua. Remato com uma nota acerca da "pequena polémica" gerada à volta dela na imprensa da época. Tão simples quanto isto: uns queriam a estátua voltada para nascente, outros, para o Largo de Santo Ildefonso, ou seja, para o início da Rua de Santa Catarina. Correram rios de tinta nos jornais, sendo esta última vontade a que prevaleceu.


NOTA: Esta informação foi obtida n' O Nacional de Janeiro/Fevereiro de 1866. Em itálico está o texto transcrito literalmente, o restante foi modificado para se enquadrar no outro.