quarta-feira, 29 de maio de 2013

Uma fotografia intrigante...

A fotografia abaixo deixava-me intrigado quando para ela olhava, pois nada conhecia do que surge em primeiro plano. Tirando a Sé e a igreja dos Grilos lá no fundo (sem dúvida os objectivos da fotografia), aqueles barracões e traseiras de casas pareciam nada ter a ver com o ângulo de onde a foto poderia ter sido tirada.

Contudo, vendo plantas antigas da cidade e tentando discortinar de onde a foto foi tirada e o que lá se encontra agora, não restam dúvidas que esta vista foi captada daquele que é agora o Palácio da Bolsa, talvez no primeiro ou segundo andar do seu ângulo Rua da Bolsa/Ferreira Borges.



Posto isto, aquilo que nos surge em primeiro plano, analisando a planta encontrado pelo Sr. Gabriel Silva no Arquivo distrital do Porto (http://www.portoantigo.org/search/label/Plantas), bem como uma outra foto onde surge o dormitório do convento dominicano visto de sul para norte (que apareceu numa passada crónica do Sr. Germano Silva), não restam dúvidas que se trata da parte mais a sul da antiga cerca dos dominicanos. Aqueles barracões estão, grosso modo, onde actualmente corre a Rua da Bolsa até ao ângulo onde está a Polícia, por baixo do Mercado Ferreira Borges.

As madeiras que se vêm depositadas no canto inferior direito da foto estão grosso modo no local onde temos actualmente o monumento ao Infante D. Henrique. Essas madeiras estarão provavelmente relacionadas com uma pequena notícia que encontrei n' O Comércio do Porto de 1860 que refere:

um particular ocupou indevidamente grande parte da cerca do extinto convento com carros e carros de madeira que todos os dias servem de latrina pública, indo completamente contra as posturas municipais.

De notar que o terreno foi posteriormente terraplanado e alinhado em altura com a Rua Ferreira Borges que já se encontrava toda contruida.

As traseiras das casas que vemos são as da Rua das Congostas (ou Cangostas), completamente arrasada para abertura da fase 2 da Rua Mouzinho da Silveira.
Em baixo coloco também uma foto que mostra com alguma aproximação o mesmo local no aspecto dos nossos dias.



Foto 1 > Arquivo histórico e municipal do Porto
Foto 2 > Sistema de informação para o património arquitectónico

sábado, 25 de maio de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (6)

SEXTA CARTA    

Na nossa última carta dissemos que no Piar não existia indício algum de ter havido princípio de estrada em comunicação com a ponte que neste sítio se tentou fazer. Este facto é mais notável quando se vê no Elucidário de Viterbo que:

“El-Rei D. Dinis no ano de 1301 fez romper novas estradas por cima da sua Ponte do Douro em direitura a Canaveses”

Naquela época podia-se servir da palavra estrada, falando de qualquer caminho insignificante; porém, pelo que vimos nas nossas digressões de Penafiel até Mesão Frio por Canaveses e Marco, em alguns sítios é mesmo dificultoso passar um homem a cavalo.

O Piar não é somente notável por ser um sítio de muita passagem no XIII século, mas por ser o sítio onde acabam os granitos e principiam os xistos, e o país vinhateiro do Aldo Douro.

O Douro faz bastantes voltas entre o Piar e a Régua – as suas margens são muito elevadas e cobertas de vinhas, entre as quais se notam alguns pomares e grande número de sabugueiros.

O rio leva mui pouca água – não se vêm pedras algumas, ainda que enormes bancos de areia estão depositados sobre grandes açudes de pedra de lousa.

Na margem direita notam-se os povos de Barqueiros, Mesão Frio, Cedadelhe, Oliveira, Fontelas, Caldas de Moledo, Salgueiral, Jugueiros, Régua e Peso.

Na margem esquerda temos Portagens, Vilar, Barô, Valonguinho, Moledo, Penajóia, Corvaceira, Samodães, Cambres e Portelo meia légua distante de Lamego.

Barqueiros é a primeira terra dos arrais e marinheiros – é abundante em vinhos e frutas mas a povoação é miserável e os habitantes pobríssimos.

Mesão Frio é uma vila bastante grande, situada no cume da montanha, tendo excelentes casas e a sua rua principal a mais bem calçada possível, formando parte da nova e excelente estrada real de Amarante à Régua. Sendo esta vila a principal entre Canaveses, Amarante e Lamego, já em 1097 o Conde D. Henrique e a piíssima rainha Dª. Teresa compraram nas suas vizinhanças umas casas para albergaria dos pobres, enfermos e peregrinos, e vê-se no citado Elucidário que a mesma rainha Dª. Teresa: “coutara a Gonçalo de Eriz a Quinta de Oseloa, e que de mão comum estabeleceram uma Albergaria em Meigomfrio, junto da mesma quinta, de cujos rendimentos se satisfariam os encarregados da dita albergaria,” – da mesma forma que “esta santa rainha estabeleceu a barca de Por Deus, a albergaria no lugar de Moledo, a de Amarante e Canaveses.”

A ideia vulgar por todos estes sítios, é que foi a rainha Santa Mafalda a fundadora destes pios estabelecimentos, porque lê-se nos documentos de Arouca, onde tanto a rainha D. Mafalda e a sua santa neta Mafalda ainda se veneram, que estas albergarias já eram velhas, quando a santa estava no princípio da vida.

O lugar das Caldas defronte de Moledo deriva o seu nome das águas sulfúricas que ai nascem perto do Douro e até no próprio leito do rio. Há mui poucos anos que apenas existiam aqui umas casinhas muito ordinárias e poucas ou nehumas comodidades para os enfermos que frequentavam as águas, porém agora há uma boa hospedaria, bons quarteis para famílias, lojas de peso bem sortidas, e como a posição é bela, o ar saudável, e a estrada magnifica, a afluência de gente irá cada vez em progresso aumento.

Cedadelhe, Oliveira e Fontelas, nada têm de extraordinário, sendo simplesmente povos pequenos cercados de vinhas, porém vale bem a pena que o viajante suba até aos cumes das serras de S. Silvestre e S. Gonçalo de Mourinho por ser da primeira onde ele poderá gozar belíssimas vistas das margens graníticas do rio, e da segunda de onde se pode descobrir todo o país vinhateiro de baixo Corgo.

De S. Silvestre vê-se toda a natureza em toda a sua majestade: em quanto que de S. Gonçalo de Mourinho, não há um palmo de terra que não fosse levantada três vezes por ano pela enxada do cultivador.

Salgueiral e Jugueiros estão situados num belíssimo vale onde em outro tempo não se cultivava senão trigo e frutas por ser a terra muito pesada demais para vinhas, mas depois da lei de 1843 cobriu-se de videiras.

Régua, como as Caldas, vai cada vez em aumento, especialmente na margem do rio onde se têm construído muitos e belos armazéns para o depósito de vinho. A principal casa é a da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro – na qual se fazem as reuniões das provas. Antigamente era muito curioso estar no Peso ou na Régua na época da feira, quando os lavradores vinham vender e os negociantes comprar os vinhos novos. Então como sempre acontece debaixo de monopólios, a companhia tinha grandes privilégios e entre eles o de comprar todo o vinho que quisesse, pelo preço da taxa por ela mesmo imposta – enquanto que o comércio em competência uns com os outros, muitas vezes tinham de pagar o dobro destes preços sendo o excesso da referida taxa chamado, maioria, pagável em dinheiro de metal sonante (com exclusão de papel moeda) à factura do escrito.

Também as leis do marquês do Pombal estavam em pleno rigor – não podendo haver introdução de vinhos de fora da demarcação, nem tão pouco o sabugueiro podia existir no distrito nem o seu fruto ser usado, debaixo de grandes penas. Neste último ponto a companhia prestou muito serviço aos principais consumidores do vinho do Douro, e como tinha o poder de apartar arbitrariamente os vinhos que quisesse para embarque, limitava-se o comércio entre poucas mãos. Depois teve o subsidio dos 150 contos e a produção aumentou espantosamente para melhor poder suprir a compra das 20 mil pipas que ela era obrigada a fazer anualmente. Nestes últimos anos, ainda que a companhia não fosse abolida, a lei do subsidio forçosamente teria de o ser pela razão da escassez que ao principio resultou de estações desfavoráveis e agora ultimamente pelos efeitos da moléstia que tão terrivelmente flagela todos os países vinhateiros.

A companhia deixou pois de ter privilégios e autoridade, porém no seu lugar se estabeleceu uma comissão com quase idênticos poderes da extinta Companhia para regulamento das provas e separação dos vinhos, facilitando porém o uso da baga na sua composição, em razão da continuada exigência de imensa cor, dos vinhos intitulados de primeira qualidade para o embarque.

Como o meu fim, por ora, é só descrever as margens do Douro, reservar-me-ei para uma próxima ocasião para descrever o interessante país que se estende para o interior, e que é tão rico por natureza, mas cuja produção não é permitido desenvolver-se em razão das curtas e interessadas vistas das sucessivas administrações que Portugal tem tido e parece continuará a ter.

Há muito boas casas tanto na Régua como no Peso, e entre elas há fortunas colossais.

Todos os habitantes tem mais ou menos vinhas, e as pessoas principais são comissários de várias casas de comércio do Porto.

Graças ao digno administrador do correio central do Porto, e do seu delegado no Peso da Régua, há correio todos os dias entre o Porto, Vila Real, Lamego e Régua.

Na margem esquerda, desde Vilar até Cambres, apenas há o sítio de Barô digno de especial menção, em razão do seu antigo convento situado no alto da montanha de onde se descobrem vistas tão vastas como as de S. Silvestre e com a vantagem de ser num país cultivado e abundantíssimo em vinho e frutas.

Acima da Régua, o rio Corgo e defronte o rio Barosa, formam os limites do pais vinhateiro conhecido pelo distintivo de Baixo Corgo, cujos vinhos são mais palhetes que os do distrito contíguo.

As margens do Corgo não deixam de ser pitorescas, mas para vistas magnificas e sublimes, e que talvez seria difícil encontrar iguais em parte alguma do mundo, é forçoso que todo o viajante de bom gosto dê o seu passeio a cavalo pelos sítios da Valdigem, Sande e Serra de Balsemão até á antiga cidade de Lamego, voltando pela estrada real por Portelo, outra vez para o Douro.

Quanto ao estado das vinhas entre Mesão Frio e Régua pode dizer-se que a moléstia tem estragado as uvas todas, enquanto que apesar das asserções feitas por pessoas interessadas, a moléstia não fez grandes estragos na zona de Penaguião e se não fossem os grandes e continuados calores destes últimos dias que secaram muitas uvas a novidade de 1854, apesar de escassíssima em alguns sítios, noutros teria produzido dobrada quantidade do vinho da colheita do ano passado conforme escrevi neste jornal na minha carta de Pinhão.

Na estrada da foz do Barosa até à quinta de Val de Lage, propriedade do nobre visconde de Várzea, notei com muito interesse que em algumas vinhas deste fidalgo a moléstia tinha feito grandes estragos, porem que no meio delas havia uma única vinha em que as videiras não tinha sinal algum da moléstia, e as uvas eram abundantes, bem criadas e perfeitas.

Tão extraordinária era esta vista que por três vezes tentei copia-la fotograficamente, porém, em razão do sol ardentíssimo todas as minhas tentativas foram malogradas.

Na Régua ainda se registam todos os vinhos produzidos no distrito, concedendo guias para a sua condução para baixo – guias que têm de ser conferidas e rubricadas no cais do Bernardo, Perto do sítio do Piar.
Sou de VV.
J.J. Forrester

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Rede de Tracção Eléctrica na cidade do Porto 1

A imagem abaixo mostra uma visão da área "periférica" da rede de carros eléctricos (e troleicarros) da cidade em 1967. Nesta altura já parte da rede de tração eléctrica sobre carris tinha sido suprimida (começou em 1957 com as linhas que iam para Vila Nova de Gaia).

Este complexo e completo esquema, bem como um outro que publicarei mais tarde, surge no pequeno mas fundamental livro para perceber a tração eléctrica em Portugal intitulado The Tramways of Portugal (4ª edição, 1995).

O Porto inaugurou o transporte público por tração eléctrica em Portugal, em 1895, seguindo-se de Lisboa em 1901. Posteriormente também Coimbra e Braga chegaram a contar com este meio de transporte.
Uma outra rede que menciono à parte destas por se encontrar deslocada de um grande centro urbano é a de Sintra; que ainda hoje conta na sua frota com veículos activos e já centenários construidos na sua maioria na mesma fábrica dos eléctricos da Invicta, a J. G. Brill de Philadelphia.

Pese embora no Porto o eléctrico se encontre hoje meramente reduzido a uma atração turística, é sempre um prazer disfrutar de uma viagem nele - sobretudo nesta estação que agora nos encontramos - e apreciar a paisagem ao mesmo tempo que somos embalados pelos ruídos, cheiros e solavancos e nos deixamos deleitar com o passeio que máquina tão pachorrenta mas tão bela nos consegue produzir.

Saúdo os STCP pela recuperação da rede de eléctricos no que respeita ao material circulante: bom compromisso entre modernidade aliada à segurança e à genuinidade, pois que os veículos usam quase só tecnologia vintage e com restauro completo das diversas unidades em circulação. E saúdo também a rede de linhas existente, posto que pequena, passa por pontos chave da cidade e com a 22 devolveu o eléctrico verdadeiramente ao centro dela.

Nos meados dos anos noventa, quando quem geria a STCP só dava machadadas sepulcrais em Massarelos, ao ponto de a única sobrevivente 18 passar dos 7 carros diários na rua para apenas 3 a ficarem sempre retidos na Foz graças à estupidez automobilística, nunca imaginaria o renascimento que teve e que hoje ai está!

Já agora um apelo: Quando colocam o eléctrico novamente a ir dar a volta ao Castelo da Foz? É mais do que justo que isso aconteça agora que as corridas de carros estragaram o projecto de o levar de novo ao Castelo do Queijo. Só faltam uns poucos centos de metros...

domingo, 19 de maio de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (5)

QUINTA CARTA    

Desde Porto Manso até o Ponto do Piar, distante cerca de três léguas, o rio actual passa entre rochedos e altas penadias.

Na margem direita há os insignificantes povos de Lugar das Vendas, Mirão, Porto do Rei e a Vila de Barqueiros; na margem oposta apenas há o povo das Caldas de Aregos e algumas casas defronte de Mirão, Porto de Rei &c.

Vê-se a cultura em alguns intervalos, porém com imenso custo em razão da natureza do terreno.

Depois da demolição das azenhas, tem-se estabelecido moinhos em barcas sobre alguns pontos do rio, mas apesar dos ventos soprarem constantemente, não há moinho de vento algum desde S. João da Foz até à raia!

Logo acima do Portozelo, por exemplo no ribeiro de Cabrão, sítio lindíssimo e que produz azeite e algum vinho, há moinhos que, apesar da escassez geral das águas, são de certo, os melhores do rio; mas assim mesmo os habitantes precisam esperar alguns dias para lhes tocar a vez para moer o seu pão, em razão da grande concorrência dos povos vizinhos, que vêem aqui moer o seu pão trigo, bem como o milho e centeio enviado da cidade invicta de propósito para este fim.

Ora neste século de progresso, depois de recebidos no Porto os cereais da raia, com, pelo menos, 30 léguas de carretos e frete, tem estes de tornar a voltar dez léguas e três quartos de caminho para serem moidos e depois de novo conduzidos para o Porto!!!

Estávamos no cais da Rapinha, quando chegaram dous barcos, um dos quais carregado de sacas de milho e trigo vindas do Porto e conduzidas por um homem, sua mulher e filha. Trouxeram apenas três carros e meio em 20 sacas. O frete da condução do grão para cima, e para baixo, de farinha, apenas importava em sete mil reis, e por esta diminuta quantia, a família havia de gastar pelo menos 15 dias, pagando por sua conta as alagens e a algum homem para os ajudar a subir os pontos!

O segundo barco era de passagem de uma para a outra margem do rio, e logo que chegou a terra debaixo de uma salva de trovões e relâmpagos, saltou na praia um sujeito vestido de chambre de riscado e chapéu de palha, com um pau argolado, o qual se dirigiu a mim exclamando: “dê cá esses ossos!” e conheci que quem me abraçava com tanta amizade, não era outro que o distinguíssimo Ministro de Estado honorário Dias de Oliveira. Este recto juiz tendo aqui as suas terras, veio há pouco ver as obras que trás, e tendo visto do alto da sua quinta passar a minha barquinha, apareceu na forma do costume sem aparato algum nem bazófia, a oferecer-me a sua hospitalidade.

Da mesma maneira que os meus patrícios da Escócia aparecem por toda a parte, também se encontram nacionais da Galiza. Na Rapinha, neste sítio tão remoto e pouco povoado, logo que chegaram os dous barcos indicados, apareceu um galego para conduzir os sacos para o moinho, e com efeito ele só os levou. Como cada saco trazia 7 alqueires e ele tinha de o levar até ao moinho, distante uns 180 passos, fez pelo menos de ida e volta, uma légua de jornada na condução dos 20 sacos, e por este trabalho recebeu 200 réis.

As perspectivas são belíssimas nestas três léguas até o Piar; mas a cada passo há uma galeira que torna a navegação perigosíssima em toda a marca do rio. O leito está descoberto e acham-se à vista todos os obstáculos à livre navegação: as enormes pedras que em certa marca do rio estão cobertas, vêem-se-lhes agora as raízes cercadas de erva infernal e de bichinhos, como lagartos e pequenas cobras que eu nunca imaginava encontrar em semelhantes sítios.

Na ínsua da Bula é onde os rochedos apresentam uma configuração mais curiosa e pitoresca, por causa da força das correntes das águas, e aqui o rio agora (25 de Setembro) junto à lage da Bula apenas tem 40 palmos de largura e 25 a 30 de profundidade, tendo os rochedos em cada margem pelo menos 40 palmos fora de água.

Tem-se alteado e reformado o paredão da Bula – é uma bela obra esta, tão bem executada como concebida.

Não vi preparativo algum para o melhoramento do ponto de Louvagem – pois as pedras bem descobertas estão – mostrando claramente quão fácil seria a sua demolição. Bastante gente anda trabalhando no Cadão, a alargar a pequena estrada que existe na margem esquerda para a alagem dos barcos. Aqui vêem-se muitos rapazes e raparigas levando pedras e entulho em pequenas canastras à cabeça(!) e algumas pedras em terra se andam quebrando, porém nas pedras do ponto mesmo, não se tem bolido. É pois de recear que se deixe passar esta ocasião para talvez nunca mais voltar, em que o curso do rio podia tão facilmente ser temporariamente conduzido em outra direcção, enquanto se fizessem as obras necessárias, no sítio mesmo daquele ponto. No buraco do Cadão, existe uma pedra sobre a qual batem todos os barcos nesta marca do rio; - com meia dúzia de arráteis de pólvora, dentro de dous dias, podia desaparecer este obstáculo, porque agora apenas trás meio palmo de água por cima.

Igualmente na Figueira Velha não vejo andar obra alguma quando também em poucos dias e diminuta despesa, este ponto poderia melhorar-se.

Canedo em que em outros tempo tão grossas somas se gastaram – ainda nesta marca do rio restam uma pequena obra a fazer-se, que dentro de 8 dias em se podia efectuar e com mui pouca despesa e que será quase impossível logo que venham as águas.

Na Ripança andam obras para facilitar a descida dos barcos carregados quando a marca de trinta anda a descobrir e juntamente para a subida dos barcos. Esta obra não deixará de ser útil até onde ela chegar.

No Piar sentimos verdadeiro gosto por ver que finalmente se tinha tapado um dos canais neste ponto com uns poucos de sacos cheios de areia, de sorte que com a maior facilidade se podiam limpar as pedras soltas e entulho de calhau que ai se achavam depositados. Este ponto é um dos mais interessantes em todo o Douro, 1º por ser a chave das montanhas do distrito vinhateiro, e 2º por ser o único sítio em todo o rio onde se tentou fazer uma ponte de pedra. É evidente que esta ponte nunca se concluiu, ainda que, na margem esquerda existe a maior parte de uma coluna de pedra de cantaria, não há indício algum até de ter havido princípio da estrada. No Calhau da margem direita, havia há anos uma das colunas mui bem conservada e também se viam os alicerces das outras duas, porém agora estes estão cobertos de areia e a torre está quase desfeita.

Sou de VV.
J.J. Forrester

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Capitéis manuelinos do Convento de S. Bento de Avé-Maria

Aquando da extinção do Museu Municipal, o espólio pétreo deste transitou por algum tempo para o claustro da Biblioteca Pública Municipal. Entre outras preciosidades, encontravam-se estres três capitéis da igreja manuelina do Convento de S. Bento de Avé-Maria.
Esta igreja ardeu e foi substituida pela barroca (amplamente fotografada e documentada) antes de desta própria ser arrasada - bem como todo o restante convento - para a construção da Estação de S. Bento.
Resta saber se estes capitéis estavam integrados na construção barroca ou se estavam dispersos pelo terreno como foi o caso dos elementos encontrados na Sé aquando da sua desbarroquisação por parte da DGMEN.
Um arco manuelino completo encontra-se neste momento a emparedar o sepulcro das monjas deste convento, no Cemitério do Repouso.




Resta saber onde param estes capiteis... em princípio estarão no Museu de Etnografia e História do Douro Litoral (era este o nome dele?), a S. João Novo; mas também poderão estar no Museu Nacional de Soares dos Reis.

Já agora, era bom que aquele museu reabrisse. Já haverá diligências para isso? lá encontram-se fechados e ocultos do quem os quiser ver e estudar, precisosos elementos de toda a nossa região.

Fonte da imagem: http://gisaweb.cm-porto.pt/

domingo, 12 de maio de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (4)

QUARTA CARTA    

O Convento de Ancede situado num belo vale, ainda que em posição elevada, a um quarto de légua de Porto Manso, é digno de atenção: mas o seu estado actual de abandono e a ausência dos frades, contrastam de uma maneira singular com o seu aspecto ordinário em outros tempos. O lugar de Porto Manso muito sente a extinção destas corporações religiosas, pelas esmolas que os frades distribuíam diariamente aos pobres – e quanto ao terem acabado os dízimos, dizem os povos que este benefício resultou só a favor dos proprietários. Conheço um indivíduo que ganhou com a mudança e é o meu compadra e arrais, António de Oliveira Dias (mestre o mais hábil no Douro) que tem aqui seu casal, e que costuma nas ocasiões da minha chegada empregar os serviços do ex-cozinheiro do dito extinto convento de Ancede.

Em mui poucos países tenho assistido a jantares mais bem servidos e abundantes do que o foi um, que o meu compadre aqui me deu. Todas as cobertas foram servidas com delicadeza e asseio. Tivemos excelente caldo, vaca cozida e arroz – galinhas cozidas com presunto e salsichões – enorme peru assado com o seu picado à Ancede – dois gansos formidáveis – alguns frangos – uma perna de vitela – presunto de Melgaço feito em fiambre – boa cernelha de vaca assada – três coelhos bravos ensopados – dois excelentes guisados – um leitão muito tostadinho – e meia dúzia de perdizes mortas com toda a cerimónia da antiga lei, em 1 de Setembro. Depois seguiram pudins, pão-de-ló (ou cavaca fina), biscoutos, morcelas, melancia, melão, laranjas, limas, maças, pêras, pêssegos e doce de calda; - porém nem um só cacho de uvas, nem tão pouco uma garrafa de vinho!

As uvas pela maior parte se perderam e tal será a escassez de vinho nestes sítios, que o velho que em outros anos se comprava a seis mil reis e moeda de ouro, já se está vendendo a 30$ooo réis.

Fiz os meus cumprimentos ao meu compadre pela sua prodiga hospitalidade e ele respondeu-me que muito estimava poder mostrar-me que nos vinte anos que me tinha servido, não somente tinha ganho para o sustento e educação da sua família mas também poupado bastante dos dinheiros que eu lhe tinha dado a ganhar, não somente para me fazer este pequeno oferecimento mas também para que tivéssemos um petisco para comermos na viagem que íamos seguindo.

De Porto Manso fiz uma digressão até à antiquíssima vila de Canaveses, onde no Marco achei as videiras com a mais bela aparência e cheias de magnificas uvas – facto este o mais notável, quando nos arredores todas as uvas estão perdidas pela moléstia.

O Tâmega em Canaveses, ainda trás bastante água e tem uns 400 a 500 palmos de largo. O sítio é tão belo, que apesar da falta de comodidades, achei bastante em que me entreter durante dois dias inteiros.

Em todo o concelho de Baião, o pão está muito caro em razão do calor que tem perdido a maior parte do que estava na terra e que não servirá senão para o gado.

A ribeira de Porto Manso, outrora mui produtiva e abundante em água, este ano produz menos que metade do usual e se as chuvas continuarem a faltar, as consequências poderão ser mui fatais.

O estado do rio Douro entre o ribeiro de Pala e o rio Bestança é digno de particular observação. O leito está todo descoberto e o rio é um mero canal que apenas tem 60 palmos de largura e cujo curso é entre enormes rochedos de granito de 25 a 35 palmos de altura. Estes rochedos estendem-se sobre um espaço de 800 palmos de largura em cada uma das margens, até á casa do açougue em Porto Manso e a casa do Souto no cais do rio Bestança – e ambos estes pontos estão na altura de 60 a 70 palmos da borda do rio. Mesmo quando estes rochedos se acham cobertos, é uma temeridade navegar no rio com barcos carregados – porém no Inverno acontece muitas vezes que as enchentes do rio trazem dentro do curto espaço de três dias tal quantidade de água, que o rio sobe até às duas casas indicadas, tendo pois 1600 palmos em lugar de 60 de largura, e 90 de altura.

O motivo do rio levantar tanto neste sitio é bem óbvio: - nos pontos de Escarnidas e Fiéis de Deus, o aperto das margens e a altura dos rochedos impede que as águas desemboquem, e por isso espalham-se pelo cais de Porto Manso, da mesma maneira que em 1780 antes de se demolir o cachão de S. João da Baleira, as águas não achando expediente cobriram toda a Ribeira da Vilariça.

Logo acima das pedras da Morteira, que são os mais altos rochedos no cais de S. Paio, defronte do Porto Antigo, existia no meio do rio a pedra nativa chamada da Seixeira, que tinha 20 palmos de altura sobre a actual margem do rio – mas não era prejudicial à navegação – antes era uma rica propriedade de um particular, que dela tirava bom rendimento pela pescaria que até 1828 rendeu seiscentos e tantos sáveis num dia. Apesar do dispêndio, inutilmente feito a meu ver, com a demolição deste rochedo – ele ainda tem seis palmos de altura fora de água.

Se antes de empreender estas obras, se tivessem aconselhado com os homens práticos, haviam de ter-se informado que o princípio da resistência da água da Seixeira, nascia da Fisga para baixo – águas que não levam os barcos para a Seixeira, mas sim sobre o rochedo Gonçalo Velho, no cais do Souto do Rio, onde iam e ainda vão bater: e em prova desta nossa asserção a corrente que principia na Fisga ainda continua com a mesma força na marca do rio em que sempre é prejudicial.

A pólvora não está muito cara – o ferro não falta – a gente da terra tem sempre vontade de trabalhar, venha a ordem para a demolição somente de metade do assustador Gonçalo Velho, e em poucos dias e sem que se faça grande despesa, ele deixará de existir.

Sou, de VV. &c.   J.J. Forrester

domingo, 5 de maio de 2013

Uma encenação de um ataque durante o cerco do Porto

No já longínquo ano de 1834, D. Pedro IV, a sua consorte e filha, futura Rainha D. Maria II, visitaram a cidade do Porto nos finais de Julho, um ano após o Rei ter finalmente conseguido com segurança deixar esta cidade rumo à capital.

Durante essa visita, a corte ficou instalada no Paço da Torre da Marca [agora museu Soares dos Reis] e visitou vários pontos da cidade, entre instituições hospitalares, bailes preparados em sua honra, o Teatro Nacional [S. João], etc. Visitou também as diversas linhas do cerco à cidade bem como a fortaleza da Serra do Pilar, tendo por palavras tentado demostrar as privações e apuros em que se virão as tropas sitiadas, a sua esposa e filha.

Mas não só a palavras se resumiu a "explicação". Como nos relata o principal jornal da época na cidade, O periódico dos pobres no Porto, houve uma encenação de Batalha para que suas Magestades com mais realismo podessem disfrutar de um vislumbre do que tinham sido aqueles tempos de angústia tão presentes ainda na população da cidade. A partir deste ponto deixo o jornal falar...

"S.M.I.tinha determinado dar a SS. MM. a Rainha, e Duquesa de Bragança alguma ideia de um dos repetidos ataques que os bravos do Exército Libertador, com tanto denodo, sempre repeliram; e para completo desempenho mandou o Quartel Mestre General do Exército colocar a Tropa da maneira seguinte:

A 3ª Brigada, comandada pelo Coronel Brito defendia a linha desda extrema direita em Campanhã até Guelas de Pau, deixando em reserva no centro da linha o 3º Batalhão da 5ª Brigada do comando do Coronel Osório. A 4ª Brigada guarnecia a trincheira desde Guelas de Pau até á Aguardente, deixando de reserva no centro da linha o 2º Batalhão da 5ª Brigada. A 1ª Brigada do comando do Coronel Meneses ocupava o reduto das Antas, e posições adjacentes, e tinha em reserva aqueles Corpos de Brigada que fossem necessários, e um esquadrão de Cavalaria nº6, estava também postado no Largo da Aguardente o esquadra de Cavalaria Nacional. O reducto do Covelo era guarnecido pelo 2º Regimento de Infantaria ligeira da Rainha.

Um tiro de canhão anunciou a chegada de SS.MM. à Bateria do Fojo, e o começo do figurado ataque. Depois de intreterem os Piquetes um pequeno tiroteio, tiveram de retirar-se, não grado o entusiasmo dos nossos soldados, que nem brincando consentia fazê-lo apressadamente. Suposta a aproximação do inimigo as Baterias de toda a linha de Reductos romperam um vivissimo fogo, a que respondiam as repetidas descargas de Infantaria, o Forte de Gaia, e mais alguns reductos da parte de além do rio.
Os bravos Oficiais, e Soldados do Exército electrisados por semelhante espetáculo mal podiam conter as faiscas do seu bem provado valor, e acreditar a ficção.
A 2ª Brigada do comando do Tenente Coronel Miranda, composta dos Corpos 1 e móvel do Porto, e Batalhão de Empregados Públicos e um esquadrão de Cavalaria nº6 sustentou o Reducto do Cavêlo [provavelmente Covelo], ocupando depois as posições adjacentes ao mesmo, e onde por fim deu-se vivas a Suas Magestades, ao Imperador Regente do Reino e à Carta, mostrando todos o maior entusiasmo.
Os espectadores estavam apinhados em todas as colinas das imediações das linhas, e todos recordavam com assombro os incalculáveis riscos que correu a vida de onde dependiam os destinos da Nação Portuguesa. SS. MM., depois de concorreram toda a linha guarnecida, voltaram ao Paço (...)"

Dois dias depois, no dia 4 de Agosto, o duque de Bragança mandou encenar novamente uma batalha, desta vez para dar imagem dos "ataques que tinham tido lugar na Serra do Pilar, e da valorosa defesa que faziam os defensores daquele ponto, às 9h30 rompeu ali um visível fogo de mosqueteria e artilharia, e o mesmo se fez na Foz. No Crasto, e nas Baterias imediatas, para recordar a forte oposição que os defensores da usurpação faziam aos desembarques das munições de guerra e boca, e por que maneira o pão de muitos meses que subditos fiéis da Rainha comeram dentro das trincheiras desta heróica cidade foi amassado com sangue e lágrimas"

Pese embora já não esteja no âmbito desta postagem no blog, transcrevo aqui parte das palavras de D. Pedro IV que apareceram no mesmo periódico, no dia em que este chegou à cidade do Porto, que demonstra o quanto o mesmo se sentia grato á cidade, e que também não nos deixa esquecer o quanto o Porto foi realmente uma voz activa no País no que toca ao seu futuro, isto pelo menos até ao final do século XIX, ou mesmo, se quisermos dilatar um pouco mais a influência, até ao golpe da Monarquia do Norte, esta já em plena República. Após o Estado Novo e mesmo na actualidade, a nossa cidade viu-se resumida, em minha opinião, a uma posição "Emérita", sem quase qualquer capacidade de intervenção, afastada por um centralismo viscerél que tudo corrói, inclusive os que, ocupando cargos de Poder, se deslocam do Porto para o poder central...
Perdoem o desabafo, não sendo este um blog de intervenção, seguem finalmente as palavras de D. Pedro IV, cujo coração do mesmo repousa na nossa cidade:

"(...) Eu não quis por mais tempo demorar a minha vinda a esta muito Nobre e muito Leal cidade, em companhia da vossa Rainha, com o fim de Me congratular pessoalmente connvosco, pela terminação honrosa da guerra civíl, cumprindo a promessa que vos fiz no dia 26 de Julho do ano próximo passado, imediato aquele em que o vencedor de Argel, experimentou o primeiro revés em Portugal. Entre vós tendes a vossa Rainha, que vos agradesse tantos esforços e sacrifícios que por ela tendes feito, e vos louva, pela heroicidade que mostrásteis, a qual poderá vir a ser imitada mas nunca excedida. Eu Me felicito a mim mesmo por Me ver no teatro da minha glória, no meio dos Meus Amigos Portuenses, daqueles a quem devo pelos auxílios que Me prestaram durante o memorável sítio, o nome que adquiri, e que, honrado, deixarei em herança a meus filhos."

D. Pedro, que começara a carta atrás parcialmente transcrita por declarar que viria proximamente fazer nova viagem para se demorar mais na cidade mas também para visitar as províncias do Norte, já não o pode fazer, pois faleceu em Setembro desse mesmo ano, sendo que efectuou esta viagem ao Porto já com a doença avançada e sempre acompanhado do seu físico.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (3)


TERCEIRA CARTA       20 de Setembro
           
A digressão de hoje foi de três léguas desde Fontelas até Porto Manso.

O vento foi favorável de tarde, e poderíamos ter feito maior jornada se não nos tivessem extasiado as belíssimas vistas por toda a extensão do rio, as quais se fossem conhecidas pelos artistas dos países do norte, chamariam metade do mundo viajante para admirar estas belezas, infelizmente ignoradas no seu próprio país. É verdade que são em muitos sítios os enormes rochedos que apresentam os primeiros planos aos quadros que desejáramos ver pintados; e como o governo de S.M.F. decretou que daqui em diante uma certa soma será aplicada para demolir estes obstáculos para a livre navegação do Douro, - se os viajantes se não apressarem a cá vir por estes primeiros meses, poderá ser que, pelo ano que vem [1855], a marcha da civilização destrua os principais objectos de gosto artístico que a mim, que os tenho admirado mais do que outros quaisquer que tenho visto, ainda me chamam como em peregrinação três vezes por ano.

Na marca actual do rio, que é talvez a mais baixa de que os práticos se lembram, até Porto Manso não há pontos nem galeiras ainda que nos pontos da Retorta, do Colo, Tojal e Escarnida não deixam de fazer sua corrente que bastante embaraço causa à navegação quando não há vento, de meia vela a favor, porque em caso contrário seria indispensável empregar gente ou bois para alar  os barcos nestes pontos. No ponto da Retorta, logo acima do Convento d’Alpendorada, havia um rochedo enorme que por mais de vinte anos era muito nosso conhecido, e tão alto era ele que os boieiros para cambarem o cabo por cima, precisavam de uma escada de 14 degraus: chamava-se o Penedo do Corvo.

Ultimamente, no ano passado foi em parte demolido; porém em 1853 o Verão foi sempre chuvoso e conservou-se muita água no rio – agora em 1854 o litoral está à vista – Que bela ocasião para os engenheiros do Governo completarem a sua obra, desfazendo mais uns cinco palmos que ainda tem o calhau, para assim facilitar a passagem dos barcos com setenta pipas com a marca do Pinhão, sem serem obrigados a desviarem-se dos restos do penedo tomando outro rumo, pelo qual correm o risco de quebrarem-se na pedra da Retorta!

Nos pontos de Valvela e Couces de Vimeiro, observei umas pedras quebradas por cima, com a evidente tenção de formar em cada um dos sítios um canal para passarem os barcos em certa marca do rio, que é das águas do Tua; porém, ficando estas obras como estão, receio que a navegação não tire muita vantagem delas.

Os povos, que hoje passamos, foram, na margem direita:

Vimeiro terra dos arrais de matriz e trasfegueiros – tem muito boas casinhas – reina grande actividade no cais – toda a gente parece ter que fazer e vivem muito bem. Este povo forma um grande contraste com todos os mais que temos visto do Porto para cá. Antigamente a Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro tinha aqui o seu comissário e grandes armazéns; e nenhum arrais passava daquele sítio para baixo sem receber as suas ordens.

Lavadouro também é terra dos arrais, mas é um povo mui pequeno.

Pala igualmente é terra de arrais e lavradores – todos abastados, que vivem tão bem como os do Vimeiro.

Porto Manso é um povo de bastante importância e onde se encontram os arrais mais relacionados com o grande comércio de vinhos do Porto.

Há ali boas casas, boa e rica gente, e o sítio é delicioso e mui produtivo.

Na margem esquerda apenas há os pequenos povos de Souto do Rio e Porto Antigo, sítios mui pitorescos, e onde se carrega a maior parte das madeiras de castanho que vão para a cidade do Porto. Pode-se calcular, sem exageração, em 20 mil os paus, pés e pontas de castanheiros, que são carregados neste cais todos os anos.
Sou de VV. & c.

J. J. Forrester