quarta-feira, 26 de junho de 2013

O desenvolvimento industrial do Porto em 1871

Em O comércio do Porto de 1872, no mês de Janeiro, encontro este pequeno apontamento que julgo algo interessante para avaliarmos o que seria o desenvolvimento industrial da cidade do Porto naquele já longo ido ano de 1871

"Segundo um mapa demonstrativo das fábricas existentes no bairro oriental no ano de 1871, o qual acaba de ser remetido ao Governo-Civil pela respectiva administração, vê-se que nas 5 freguesias daquele bairro existiam as seguintes fábricas:

Na da Sé: 1 de cal, 1 de cascos de chapéus, 1 de chumbo de munição, 2 de fundição de metais, 2 de telha, e 15 de teares simples.
Na de Santo Ildefonso: 1 de botões, 1 de  cal, 2 de cascos de chapéus, 5 de cerveja, genebra e aguardente, 2 de cordoaria, 1 de curtumes, 2 de estamparia, 1 de fundição de metais, 1 de galões de palheta, 1 de sola,  1 de telha, 9 de tecidos de algodão, 5 de tecidos de seda, 1 de tecidos de seda, algodão e lã e 100 teares simples.
Na do Bonfim: 2 de botões, 2 de cal, 2 de cascos de chapéus, 1 de cebo, 2 de cerveja e genebra, 1 de cordoaria, 8 de curtumes, 1 de fiação de algodão, 1 de palheta, 1 de oleados, 3 de sola, 5 de tecidos de algodão, 12 de tecidos de seda e 15 de tecidos de seda e algodão. O número de teares sobe nesta freguesia a 1100.
Na de Campanhã: 3 de sabão e 2 de curtumes.
Na de Paranhos: 11 de cebo e 27 teares simples.

Por outro mapa organizado na mesma administração e enviado também ao Governo-Civil, vê-se que o número de máquinas a vapor existentes no ano findo no referido bairro eram o seguinte:

Na freguesia de Santo Ildefonso: 4 de força de oito cavalos cada uma, sendo 3 destinadas ao fabrico de chapéus e uma no de artefactos de ferro.
Na do Bonfim: 7, regulando a sua força de 2 a 40 cavalos, e sendo 3 aplicadas a calandrar fazendas, 1 ao fabrico de chapéus, 1 à fiação de algodão, 1 à fiação de seda e 1 à tinturaria.
Na da Campanhã: 4 regulando pela força de 6 a 20 cavalos e sendo 2 destinadas ao fabrico de sabão, 1 a curtumes e 1 à moagem de cereais.
Na de Paranhos: 3 da força de 6 a 8 cavalos, e aplicadas 2 ao fabrico de sabão e 1 ao de tabacos."

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Viagem ao Douro - Cartas de J. J. Forrester (9)

NONA CARTA

As minhas vindimas não permitem que eu trate somente do que está no fundo do rio; por issos eis-me nas vizinhanças da quinta do Enxodreiro e Régua, escolhendo alguns cachos de uvas sem defeito - obra bastante dificultosa em razão do oidium que nestes sítios tantos estragos tem feito.

Cheguei aqui justamente numa ocasião importante - que vem a ser uma festa musical sobre o rio. Todos os habitantes da Régua - em peso ou estavam no cais ou em barcos toldados e elegantemente armados. Os artistas eram de Jugueiros e da Régua, tocaram muito bem e todo o mundo parecia satisfeito - quando se ouviram gritos por todas as bandas, sensação geral pela aparição de um barco toldado, cortinado, emplumado de preto e cheio de homens vestidos de rigoroso luto!

Esta eça[?] flutuante tinha estado amarrada mais para cima do rio, de sorte que os da festividade não a tinham visto. O barco fúnebre veio vindo vagarosamente para baixo - a música parou, e por alguns minutos todos mostraram certos receios.

Ao pé de mim, um sujeito assegurou-me que havia de haver pancada, que as figuras sinistras eram membros do clube musical da Régua, que vinham desafiar os seus irmãos de Jugueiros!

Outro, com aparente seriedade, deu-me a entender que talvez fossem alguns conspiradores do reino visinho, que vinham raptar El-Rei D. Pedro V.

Um terceiro (e já se sabe o que diz o adágio acerca de negócio de três) logo que ouviu soar o verbo raptar lembrou-se do substantivo rapto, e possuido desta ideia e evocando os espíritos de seiscentos mil habitantes das regiões inferiores, exclamou com frenezim: "Será  o Conde de Saldanha raptando a filha do Ferreirinha".

Nisto o barco chegou ao pé de nós - entrou pelo meio de toda a súcia e parando entre as duas bandas de música abriram-se as cortinas e os empregados da Câmara do Peso da Régua, vestidos não de grande gala, mas de luto pesado pela morte de S. Magestade a Rainha [provavelmente D. Maria II], mostraram-se e fizeram as suas cortesias aos amigos e conhecidos.

Ora, Srs. redactores, durante o cerco do Porto e mesmo depois o general Conde de Saldanha sempre me fez a honra de me tratar com amizade; e quando escrevi o meu Ensaio sobre Portugal, ainda estava persuadido que sua Exa., já marechal e duque, era meu amigo e desejava promover o bem da sua pátria - porém, em primeiro lugar, se sua Exa. me não enganou, deixou de cumprir a sua palavra, prometendo dar-me todos os orçamentos e estatísticas sobre o país, que havia na secretária, - e não mos deu - e segundo, tanto ele como os Srs. Rodrigo e Fontes de Melo, me asseguraram que estavam resolvidos a fazer o bem destas províncias do norte, ao mesmo tempo que me fizeram a honra de pedir a minha humilde cooperação. Ofereci-me para servir gratuitamente na direcção da empresa - não fui aceite; ofereci o meu dinheiro à perto de um ano - não tem sido preciso.

Fiz o que pude, ao menos mostrei a melhor vontade - mas o bem para estas províncias ainda não veio e ainda se não principiaram as estradas!

Por estes motivos digo que hei-de pôr de quarentena todos estes bons desejos e profissões, portarias e decretos e discussões de partidos promovidos pelo governo ou seus agentes; e hei-de guardar o meu dinheiro na algibeira até que possa ter alguma garantia não simplesmente de boas palavras mas de boas obras; preferindo, em lugar de dedicar a minha atenção aos projectos de estradas do Minho, ver se posso estabalecer uma academia para a instrução de jovens arrais, na navegação deste rio, cujos obstáculos parece que, por fatalidade, ainda tem de existir por muitos séculos.

Falo neste estilo de homens públicos, por serem eles como a caça do monte, que esta exposta, com licença ou sem ela, ao tiro de qualquer caçador, porém ainda que não esteja satisfeito com o proceder do Exmo. presidente do governo e seus colegas, muito senti ouviir semelhantes reflexões sobre o carácter particular do nobre marechal e seu filho, muito especialmente tendo eu há tempos encontrado o próprio conde que vinha de Travassos de visitar a Exma. Srª Dª Margarida Rosa Ferreira, o qual me assegurou que logo que soubera dos acontecimentos que tanto têm dado que falar, se tinha apressado a ir oferecer todas as satisfações à Exma. Srª Dª Antónia Ferreira, e não achando sua Exa. fora muitíssimo bem acolhido por sua Exma. mãe e vinha-se embora muito penhorado da visita.

Deixarei tocar os musicos e grazinar os murmuradores, que nestas alturas são ainda mais numerosos do que uma grande parte dos frequentadores da praça do Porto - lastimando em que eles não tenham outra cousa em que se ocupem, e voltarei ao exame das pedras do rio - mas por hoje não serei mais extenso.

Sou de VV.
J.J. Forrester

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Parece que não é mas é...

Início do século XX:



Início do século XXI:

Entrocamento da Rua da Alegria com a Rua de Santo Ildefonso. À esquerda o Largo dos Poveiros.

domingo, 16 de junho de 2013

A Ponte de Matosinhos

Transcrito abaixo está parte de um artigo d' O Tripeiro, escrito por Flávio Gonçalves, e publicado no ano de 1953, em Fevereiro.

"(...) a ponte que agora liga Matosinhos a Leça da Palmeira concretiza, realmente, uma obra que nada deve à arquitectura ante-seiscentista.

DESCRIÇÃO ARQUITECTÓNICA

Passando à descrição da ponte, começamos por dizer que é feita de granito e que tem uma série de pormenores originais.

Constituem-na dezoito arcos de volta inteira, os quais sustentam um tabuleiro várias vezes remodelado, em cujo pavimento passa a estrada. Quanto ao número dos arcos, Cerqueira Pinto escreveu na História do Bom Jesus de Bouças que eram dezanove, levando Godinho de Faria [Monografia do Concelho de Bouças, 1899] a repeti-lo e o Guia da Leixões a supor que outrora existiam, de facto, dezanove arcos, e que um havia desaparecido. Mas pode tratar-se de um erro de contagem de Cerqueira Pinto; ou então as obras de urbanização e de viação efectuadas em Leça da Palmeira ou em Matosinhos roubaram-lhe esse arco.

A curva dos arcos mostra-se perfeitamente redonda, de pleno cintro, sendo as aduelas lisas, sem almofadas e quase iguais entre si, do que resulta uma linha regular no extradorso. Diferem bastante uns dos outros os diâmetros dos arcos: - muito reduzidos nos primeiros nove arcos (começando-se a contar da margem sul), maiores nos restantes (os mais próximos da margem norte), e atingindo no décimo quarto a máxima extensão.

O tamanho dos pegões varia de modo inverso, aumentando de largura quando diminui a amplitude dos arcos. A separar os arcos mais pequenos estão, portanto, pilares e tímpanos larguíssimos, verdadeiras paredes de cantaria, onde nem sequer se vêem cortamares ou contrafortes, mas sim, no alto, alguns modilhões.

O aparelho arquitectónico é regular e médio, de sihares dispostos em fiadas horizontais, e isto tanto no intradorso dos arcos, como nos tímpanos (sem olhais), como nos cortamares. Estes últimos, que só aparecem nos pilares mais estreitos - entre os arcos maiores - têm forma prismática e secção triangular na vace voltada a juzante, e forma semi-cilíndrica e secção semi-circular na face voltada a montante. Semelhante particularidade não é vulgar na composição das pontes. Os talhamares de base triangular, quando existem, colocam-se da banda de montante, por razões de ordem práctica, lógica e até científica.

O tabuleiro da ponte desce ligeiramente de Leça para Matosinhos, em rampa mal perceptível, e perto da margem sul flecte um pouco para a direita, numa pequena curva. De um e do outro lado do pavimento levantam-se os muros das guardas, que devem provir de uma época distinta do resto da construção, já pela diferente qualidade do granito, ainda sem patine, já pelo próprio aparelhos e argmassa. Pertencem, por certo, a qualquer das obras que em 1816 e em 1883 se realizaram no monumento.

As dimensões da ponte são [em metros]:
Comprimento total: 121,50
Idem, da curva até à margem sul: 26,20
Largura junto da margem norte: 4,00
Idem, a meio da ponte: 4,22
Idem, junto da margem sul: 4,20

Cumpre analisar, finalmente, as duas meias-laranjas abertas no tabuleiro, sem dúvida os pormenores mais curiosos deste monumento. Compõem-se de dois corpos ligeiramente ovais, de fundo lageado, que apoiados cada um no seu talhamar cilíndrico, avançam fora do piso da ponte, formando varandas para o lado de montante. Tais construções distinavam-se a facilitar o cruzamento de carros, descongestionando a via. Ainda se utilizavam como miradouros ou caramanchões, para o que serviam os bancos de pedra que lhes correm a toda a volta.

A primeira meia-laranja, encontra-se mesmo na curva que o tabuleiro faz, à distância de 26,20m da margem sul (Matosinhos) e de 95,30m da margem norte (Leça da Palmeira). Adiante 25,30m fica a outra meia-laranja, a 70m da margem norte e a 51,50m da margem sul. O uso destes corpos salientes - feitos para dar passagem aos carros, cavalos, e peões que se enfrentavam na ponte - divulgou-se a partir do século XVII. Já na antiga ponte de Coimbra existia o chamado Ó da Ponte, remontante às construções nela efectuadas nos fins do século XVI e nos primeiros anos do século seguinte. Tratava-se de um redondo, colocado quase a meio da ponte, que se compunha de dois semi-círculos murados, assentes em pegões cilindricos e separados pelo pavimento da estrada. Felizmente que logo em 1669 durante a célebre viagem de Cosme de Médicis, o florentino Pier Maria Baldi fixou o aspecto dessa desaparecida ponte coimbrã, em duas aguarelas de notável precisão que as artes gráficas reproduziram e que andam bastante divulgadas no nosso país.

No século XVIII a aplicação das meias-laranjas tornou-se mais frequente, vendo-se sob um traçado circular em Ponte da Barca (1761) e em Amarante (1790), e sob um risco poligonal na ponte de Silves. Só na ponte de Matosinhos existem duas meias laranjas, ambas viradas para o mesmo lado e sem corpos simétricos na face oposta. Caso, na verdade, interessante, que merece ficar anotado de uma maneira particular, especialmente porque esta ponte sobre o rio Leça está condenada a desaparecer. Em breve será derrubada para alargamento do porto artificial de Leixões, cujas docas, febris e enfumaradas, se levantam perto. Assim, mais uma vez em nome do progresso, terminará a história de um típico monumento - típico pela sua biografia agitada e pelos valiosos elementos que fornece para o estudo da arquitectura das pontes seiscentistas."

NOTA: Ainda digitalizei com a intenção de as colocar aqui, as fotos deste artigo; contudo o blogger insiste em me rodar as fotografias, o que não quero de todo. Por isso optei por não as inserir. No blog Matosinhos Antigo existem boas fotos desta ponte e que ilustram bem a sua fábrica. Pena que não exista uma única relacionada com as tais meias laranjas de que fala o artigo atrás, e que desafortunadamente não consigo colocar em modos que se apresentem neste post.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (8)

OITAVA CARTA 
Ocupar-me-ei da terceira parte do país vinhateiro, entre o Pinhão e a Baleira e que tenho chamado o Alto Douro.

A distância é de três légas boas, mas quem tem de as caminhar facilmente acreditará serem quatro. Como acontece até aqui, não há caminho nas margens do rio, póvos apenas se vem na margem direita Casal de Loivos, Foz Tua, Fiolhal, e Riba Longa, não sendo possível descobrir o rio os povos de Ervadosa, Soutelo, Nagoselo, nem S. João da Pesqueira na margem esquerda.

Esta última divisão do terreno marcado para a produção do vinho que (com a exclusão de todo e qualquer outro) é destinado para o embarque, é sumamente interessante para o viajante, amador das belezas e maravilhas da natureza.

Em ambas as margens (até os ribeiros de S. Martinho, acima da quinta do Zimbro) há belas quintas de vinho e azeite, e alguns pomares. No Fiolhal há bastantes amoreiras, das quais se faz alguma seda e os pomares em S. Mamade, logo ao pé, produzem a melhor laranjas da província.

O rio Tua nasce no reino da Galiza, próximo ao lugar de Pias, corre por Mirandela, fertilizando muitas terras, vem desembocar no Douro, no pequeno povo de Foz Tua.

Os ribeiros de S. Martinho separam os xistos dos granitos e são mui notáveis as vinhas na lousa de um lado de cada um dos ribeiros e as grandes e continuadas fragas de granito nos outros lados.

Destes sítios até ao 1º ponto dos Culmaços (um bom quarto de légua) as margens apresentam vistas sublimes que encantam o verdadeiro artista e amador da natureza. Nos Culmaços tornam a principiar os xistos e por conseguinte as vinhas e estas na sua vez acabam na Baleira, por baixo do celebre monte de granito de S. Salvador do Mundo.

Os pontos, de vergonha para o Governo, são os seguintes: Aroeda, Frete, Carrapata, Roriz, Malvedos, e Culmaços.

As terras nestes sítios são mais delgadas do que as do baixo Corgo e os calores são muito fortes. O bastardo e o alvarilhão que produzem bem no distrito de Penaguião não se dão aqui tão bem, e por isso que o gosto do mercado vinhateiro é sem dúvida de vinhos encorpados e com muita cor, se cultivam o Souzão, a Touriga, Tinta Francesa, Tinto Cão, Mourisca, e mais outras tintas. Os vinhos brancos ficam mais desviados das margens do rio.

As vindimas estão a findar e por toda a parte os excessivos calores tem secado muito vinho, talvez uma quinta parte da produção total.

Tenho dito que as margens do rio, por toda a extensão do país vinhateiro (que vem a ser outo léguas) tem poucos habitantes e não sendo no tempo das vindimas, apenas fica um caseiro em cada adega.

Agora porém, o país parece outro, ranchos de trabalhadores com cestos cheios de uvas às costas, comboios de bestas carregadas com odres, conduzindo vinho de umas adegas para as outras; centenares de mulheres nas vinhas, vindimando as uvas e cantando as suas modinhas, os homens nos lagares pisando as uvas ao som do tambor, viola e gaita de fole, é o que se vê e se ouve em todas as direções.

Apesar da moléstia das videiras e a probabilidade de uma continuada escasses de vinho, toda a gente que encontrei parecia contente e satisfeita, contribuindo para isso os altos preços por que se tem vendido os vinhos e não ter havido diferença sensivel nos jornais.

Nota-se também que muitos negociantes estrangeiros do Porto, este ano compram uvas e fazem o vinho à sua vontade na época da vindima!!

Falei os caseiros que ficam todo o ano a tomar conta das quintas. Honra seja feita a esta classe dos habitantes do Douro.

O caseiro tem toda a responsabilidade dos grangeio das vinhas, do fabrico do vinho e sa sua conservação até que seja carregado, desviado de qualquer povo, sofrendo privações, exposto ao rigor do tempo; recebe apenas por ano em renumeração dos seus serviços e para o seu sustento e da mulher e filhos, umas 15 a 20 moedas; são mui raros os casos em que ele se esquece do seu dever.

Os carreiros e carretões tem a consciência mais elástica, tal é o seu cuidado para que nem as pipas nem os odres arrebentem por andarem muitos cheias, que fazem alto muitas vezes pelo caminho, para dar alívio às vasilhas que conduzem, não se esquecendo de convidar os amigos que encontram para tomar parte nesta importante operação. Não deixara de ser interessante o seguinte extracto de uma ordem dada a 9 de Março de 1791 pelo juíz conservador da Companhia Geral do Alto Douro:

Sendo tão público e geral o desafôro praticado pelos carreiros de abrirem as pipas pelos batoques, até furando-as para beberem o vinho, e o dar a quem encontram; ordeno a todos os comissários que a Junta da Companhia tem no Douro, formem processos dos referidos factos &c. &c.

Não acontece haver a mesma generosidade da parte dos trabalhadores que conduzem as uvas. Às vezes tendo-lhes pedido um cacho de uvas, respondiam-me que não o podiam dar sem licença do patrão, e logo depois passava o ranco inteiro na barca de Baguste e cada homem com todo o sangue frio lavando enormes cachos no rio, comendo-as e até dando-as ao barqueiro!

Não posso dizer com certeza se s vindimeiras costumam esconder passas nas algibeiras, porém o que é facto é que em certas quintas costumam à noute dar busca nas mulheres, na mesma forma que fazem nas fábricas de tabaco em Lisboa, Sevilha e outras cidades.

Em todas as quintas há duas cardanhas, uma para os homens, outra para as mullheres.

Nos domingos e dias santos, ouve-se missa logo ao romper do dia, para que os trabalhos da vindima não sejam interrompidos. Os homens ganham 200 reis por dia e as mulheres seis vintens; o pão é à custa deles, mas o senhoria dá o almoço, jantar e ceia; em outro tempo também dava vinho, porém agora não o há.


Sou de VV.
J.J. Forrester

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (7)

SETIMA CARTA

Apesar de se não poder fazer sempre a viagem da Régua ao Pinhão num dia, eu a farei nesta carta para que a descrição se torne mais interessante.

Já disse que os rios Corgo e Barosa separam o Baixo do Cima Corgo – o rio Pinhão separa este do resto do distrito vinhateiro, que eu chamo o Alto Douro.

O Corgo, chamado Corrugo pelos romanos, nasce nas vizinhanças de Vila Pouca, passa por Vila Real, recebe as águas do Tanha ao pé da Vila da Persegueda e caí no Douro entre a Régua e Canelas.

Os rios tributários do Douro entre o Corgo e o Pinhão são o Tedo, o Távora, e o Torto.

O Távora, ou Soberbo, tem origem numa fonte de Trancoso e aumentado por diversos ribeiros e regatos, divide os dois bispados de Viseu e Lamego, passa pela Vila de Távora e o Lugar de Tabuaço e daí caminha para o Douro.

Este rio deu o seu nome à ilustre família dos Távoras, e mandou-se chamar Soberbo, depois que o último marquês daquele título padeceu ignominiosa morte no Cais da Belém a 13 de Janeiro de 1759, por alegarem ter ele parte na conjuração contra El-Rei D. José I; porém o rio é ainda vulgarmente conhecido pelo seu antigo nome.

Na marca actual do Douro, os rios Corgo, Tua, Barosa e Távora, apenas são pequenos regatos – e os rios Tedo e Torto estão secos de todo.

Há poucas propriedades nas margens do Douro, desde o Piar até à Barca d’Alva que eu não possa descrever com a mesma exactidão como se fosse seu próprio dono – porém se eu declarasse que uma grande parte do vinho oferecido à venda nas adegas mais bem situadas, indicando estas uma por uma, não é produzido dentro da demarcação da Feitoria, mas trazido de muitas léguas de distância em odres – se mencionasse os nomes daqueles que em outro tempo não se envergonhavam de declarar que não havia baga nem mixórdias no Douro, sendo eles os principais cultivadores de sabugueiros e praticantes de adulterações – se indicasse a extensão de outras propriedades mencionando o número de alqueires de centeio que levam de semeadura – se enfim eu marcasse os sítios dos mais finos vinhos brancos ou tintos, notando quem se mostra mais amigo das castas de bastardo e arvarilhão, e quem prefere as de Touriga e Souzão, dizendo só a verdade e desmascarando os maiores inimigos da prosperidade ao seu país, iria contudo ofender interesses particulares e embrulhar alguns inocentes com culpados, e por isso, por enquanto, limitar-me-ei a descrever o que como viajante vi e presenciei ou o que por muitas vezes tenho visto mas sem me ocupar com individualidades.

Ambas as margens do rio nesta extensão de 4 léguas são muito elevadas e estão cobertas de vinhas – havendo entre elas bastante azeite. Agora não se pode falar nesta propriedade, porque pertence ela a um dos actuais ministros, logo as más-línguas haviam de dizer que eu pretendia dele algum crachá.

Na Folgosa e no Pinhão costuma ás vezes haver bom carneiro, mas geralmente o carneiro deste país e muito magro e rijíssimo. O pão de lamego e Portelo é o que se gasta na Régue e Folgosa: - no Pinhão acha-se a vender pão de Provesende a Favaios. É digno de se notar que até aqui todo o pão é de trigo e milhão, e só daqui para cima é que principia a haver pão de centeio.

Numa estalagem do Pinhão onde mandei recolher três cavalos meus, por uma noute, em razão da escassez de palha e grão, custou-me a sua ração dous mil e trezentos reis.

Já tenho dito que, ainda que no Piar principiem os xistos, não há pedras no rio, (exceptuando algumas de pequena dimensão no sítio da Sermenha, Corvaceira e Salgueiral) até ao Corgo: porém há-de ser difícil acreditar que exista nos países menos civilizados rio algum que se ache em tal estado do maior abandono, com tantas pedras à vista e tão fáceis de tirar como as que actualmente existem entre o Corgo e o Pinhão.

Quantas leis e decretos se têm feito ordenando impostos para melhorar a navegação do rio e tratar das obras da barra! Desta mesma barra em que os cartagineses de Himilcão naufragaram no ano do mundo 3531. Tenho todos esses decretos na minha colecção de papéis curiosos, mas por mais diligências que tenha feito não vinte e tantos anos que conheço o rio Douro, ainda ninguém me tem podido informar do destino que se tem dado aos impostos do rio e aos da barra. É verdade que 200 reis em pipa "para as pedras" não havia de render mais do que uns vinte contos anuais; porém em 10 anos importaria em duzentos contos e com tal soma muitas e importantíssimas obras se poderiam ter feito; muito preciosas vidas se teriam salvado e grandes valores de fazendas se não haveriam perdido.

Sobre estradas achamos de bastante interesse o Alvará de 13 de Dezembro de 1788, em que a Soberana declara que "sendo plenamente informada de que havendo-se dificultado pelas ruinas em que se acham as estradas que decorrem por uma e outra parte do Alto Douro o beneficio de todos que comerceiam em vinhos daquele distrito e sendo deste inconveniente também uma das causas principais, a de não haver na longitude daquele distrito uma estrada que sirva de auxilio à navegação dos barcos que sobem e descem pelo Rio Douro, nos tempos em que a nímia abundância ou a grande falta de águas dele dificultam, a sua pronta navegação, sou servida ordenar que se construam as referidas estradas, na forma mais pronta e perfeita, de que os respectivos terrenos forem capazes etc, etc."

Tem decorrido 66 anos e as estradas ainda ficam em projecto!!!

Os arrais chamam pontos ou galeiras, aos obstáculos à navegação e em uma das minhas obras já publicadas menciono que existem tem todo o rio 210 destes pontos, todos os quais estão actualmente à vista. Os pontos do Corgo, Baguste, Outeiro de Covelinhas, S. Martinho, Moreirinha, Seco do Ferrão, ponto novo do Ferrão, Canal de Moura, Cachucha, Chanceleiros, Oliveirinha, e Sopas ou Buxeiro, são objectos que envergonham o actual governo de Portugal, por serem estes de fácil melhoramento. Quanto ao ponto do Canal das Marcas, o seu concerto seria mais custoso.

Julgo, Srs. Redactores, que os seus dignos compatriotas não levarão a mal as impressões de que me tenho servido, filhas do vivo interesse que tomo na prosperidade deste país, escrevendo na minha barquinha estas cartas e subindo estes mesmos pontos à força de trabalho dos infelizes marinheiros, trabalho que bem podia evitar-se.

Sou de VV.

J.J. Forrester

domingo, 2 de junho de 2013

Rede de Tracção Eléctrica na cidade do Porto 2

E eis a segunda imagem da rede de carros eléctricos e troleicarros da STCP nos anos 60 do século passado.

Esta será, digamos, a mais "sumarenta" em termos de saudades para quem me está a ler Trata-se do mapa da parte central da rede, no centro do Porto, quase na sua máxima extensão ainda com a maioria das linhas activas.

Este mapa mostra todas as linhas, bem como as remises de Massarelos e Boavista.
Nele surgem também os canais ferroviários com as estações: Boavista, Trindade, S. Bento e Alfândega.

Como curiosidade, permitam-me acrescentar que a linha 1 - no fundo a linha de maior "mística" da rede - foi durante bastante tempo feita em conjunto com a linha 9 para Ermesinde.
O Eléctrico vinha de Leça com o seu atrelado, no Infante deixava-o ficar bem travado e com um conductor (vulgo pica), a aguardar que ele fosse à Praça dar a volta... mas não seria o mesmo veiculo que o vinha buscar. Isto porque, chegando à Praça, o Guarda-Feio mudava a chapa de 1 para 9 e lá seguia ele até Ermesinde!!! Ou seja, o mesmo veiculo fazia duas carreiras completamente independentes.