domingo, 14 de julho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (12)

Assim como até aqui me tenho entretido como que de uma vida irregular, escrevendo acerca das pedras do Douro, acomodações de estalagens, &c, &c, assim também passarei agora a dizer uma ou duas palavras sobre um objecto que grave impressão me tem causado pelas terras onde por onde tenho passado: refiro-me a certas casas, geralmente muito mal construidas, mas sempre em lugares mais públicos, e com as janelas au rez de chaussès, junto das quais geralmente se vê bastante gente, congregada, falando e divertindo-se como romeiros em dia de festa. Estas casas, Sr. Redactor, são as cadeias, para onde, de certo, não vai gente que tenha praticado boas acções; contudo, se o objecto de uma prisão é castigar os culpados, e o do castigo é corrigi-los, parecem-me muito fora de razão que sejam dados aos povos, semilhantes maus exemplos como estes a que me refiro; porque, em muitos sítios, longe de ser castigo, os presos vivem, só com a diferena de não terem a sua liberdade, melhor e em maior abundância que jamais conheceram, simplesmente porque pertencem a alguem destes povos de aldeia, como parentes ou compadres que também têm os seus; de sorte que uma espécie de maçonaria ou fraternidade existem entre eles, e a confraria é quem os sustenta.

Dizem, - mas eu como viajante não posso dizer se é verdade, - que estes estabelecimentos são só privilégio dos pobres; e que até, por muitos e sucessivos anos, gozam deste mesmo previlégio, ou por esquecimento, ou porque nenhuma despesa fazem ao Estado; mas, ainda assim, frequentes vezes acontece que no meio do seu regozijo e repentinamente aparece uma ordem não de soltura, mas para que, ligados uns aos outros, vão seguindo caminho do Porto ou Lisboa, para cumprirem o degredo, expiarem as últimas penas.

Eu não me acho com forças, nem a ocasião é própria, para entrar deveras neste assunto; contudo, na cadeia da Relação a cidade do Porto, acontece quase o mesmo, e em muito maior escala, quanto ao edifício, mas não quanto aos confortos em razão da ausência dos parentes. Aqui consta que há também inquilinos de muitos anos, que ocupam, segundo os anos de serviço, diversas graduações; e que  seu chairman (descculpe o termo inglês por não saber o termo técnico) tem muita autoridade, e os seus decretos tem força de lei; e de certo, são rigorosamente cumpridos, e com maior prestesa, que costumam os empregados legais. Não digo isto para ofender repartição pública alguma; porque é bem sabido que nenhuma tem a obrigação de trabalhar dia e noite, como pratica a clientela do dito chairman.

Haverá quem diga que eu sou um estrangeiro muito perverso, e que agora abuso da hospitalidade dos dignos portugueses, fazendo estas minhas críticas, da mesma forma que, quando me atacaram na época em que falei nos vinhos do Porto; e quando mereci o lisonjeiro epíteto de ser uma "ave estranha num país estrangeiro". Porém, Sr. Redactor, já estou muito velho e à prova de bomba; não me intimidam quando eu trato de fazer bem ao país que amo como meu. Vou contar-lhe uma história que tem seus visos de romance; mas nem por isso deixa de ser menos verdadeira.

Quando habitei a casa na Ramada Alta actualmente ocupada pelo patriótico e filantropo (termo de que me sirvo-em lugar de ill.mo e exc.mo) visconde da Trindade, tinha um relógio de mesa muito lindo, de três e meio palmos de altura, sendo o assunto um preto segurando um cavalo bravo e fogoso. Quando saía da minha casa pela manhã, e voltava à noite, costumava sempre conferir o meu relógio de algiberia com aquele; mas aconteceu-me um dia, que, voltando a casa, dei pela falta do relógio, manga de vidro, preto, e cavalo branco, e até a própria chave. Em vão, pergunto a minha mulher, filhos e criados, pela falta; mas ninguem me podia esclarecer o negócio; porém tendo motivos de suspeitar de algumas pessoas, relacionadas com os criados, paguei a cada um deles um mês adiantado, e mostrei-lhes a porta. Foi justamente, Sr. Redactor, nesta ocasião que alguem me falou na bela organização do corpo dos ladrões na cidade do Porto, debaixo da autoridade do ladrão-mór a que acima me referi.

Mandei falar a este potentado por eu não ter a honra de o conhecer pessoalmente, remetendo-lhe os sinais do objecto roubado, e contando-lhe todas as circunstâncias do roubo. Recebi logo um recado verbal mui atencioso, já se sabe, no estilo de - "fulano faz os seus cumprimentos a sicrano, &c; e logo que possa, dará conta da sua missão": Com efeito - na mesma noite uma pessoa mui bem trajada, com hábito de Cristo ao peito, me procurou em casa; e tal era a sua presença de respeitabilidade, que o meu novo criado sem hesitação alguma o encaminhou à minha sala de visitas, pondo as competentes velas de cera; e apresentando-lhe uma cadeira, convidou-o a assentar-se em quanto que vinha ao meu gabinete chamar-me. Póde bem imaginar-se a minha surpresa, quando entrei na sala, e depois da devida troca de cumprimentos, o cavaleiro hóspede participou-me que era o embaixador do ill.mo ladrão-mór da cadeia; e que vinha, da sua parte, para assegurar-me que o roubador não tinha sido nenhum membro da honrada profissão a que ele presidia, aliás com muito gosto me teria sido já restituido o relógio.

Agradeci, como era de supor, a finesa do cavaleiro e lhe retribui os cumprimentos da personagem que ele vinha representar. Confesso, porém, que enquanto o meu criado o acompanhava até à porta, passei um golpe de vista por toda a sala para verificar se, com efeito, mais alguma outra redoma me faltava.

Publiquei anúncios nas gazetas, ofereçendo alviçaras de 6 moedas a quem me desse notícias do meu pobre cavalo branco, e seu condutor africano. Em seguida veio um adeleiro convidar-me para ir ver um relógio muito bonito que ele - que não tinha visto os anúncios - julgava poder servir-me, dando ao mesmo tempo uma descrição exactissima do objecto.

Acompanhado por um amigo, segui o adeleiro até uma casa na rua de....... na cidade baixa; entrei numa loja onde estava a conversar uma mulher de mantilha com o dono: não reparei muito neste mulher no momento da entrada; mas vi sobre o mostrador 3 montes a 2 moedas em que ela pegou sem as contar, metendo-as num lenço, e saindo precipitadamente. A quantia do dinheiro por ser aquele que eu tinha oferecido de alviçaras, fez que eu, ainda que tarde, lançasse os olhos após a mulher; e não pude deixar de pensar que eu a tinha visto em diferentes ocasiões, falando com os meus criados.

O logista não me conhecia; e eu também nada lhe disse do fim da minha visita. O adeleiro disse-lhe que eu era muito tentado com objectos de gosto, e queria ver a sua coleção. Levou-nos para uma sala no 1º andar; e logo que entrei, vi numa prateleira entre ricos vasos de porcelana e outros objectos, o meu cavalinho com todos os mais aprestes. O bom do homem abriu as suas gavetas, e caixa-forte; em poucos momentos cobriu a mesa de pulseiras, cordões de ouro, alfinetes de peito, tiáras e anés de brilhantes, e um sem número de condecorações. E em várias outras partes da sala apontou toda a qualidade de roupa feita, e alguns lenços de seda pendurados sobre uma corda que comunicava com uma campainha fora da porta.

Logo conheci que eu estava no atélier de um ladrão de profissão; cuhos discípulos eram ensaidos neste recinto, praticando a gíria de furtar lenços sem serem pressentidos, sendo o grau de perfeição na arte o poder tirar um destes lenços da corda solta sem tocar a campainha.

Nestas alturas tirei da algibeira o Periodico dos Pobres, e mostrei o meu anúncio ao professor da arte ligeira. Ele mudou de cor, e deu um passo para a porta; porém interceptei-lhe a retirada, e em poucas palavras, mas com muita firmesa, reclamei o que me pertencia. Pranteou, - suplicou perdão, - protestou a sua inocência, dizendo que não lhe era possível saber de onde vinham os objectos que lhe ofereciam à venda, ou em penhor; - que não conhecia quem lhe tinha trazido o relógio; e que muito sentia não ter visto o anúncio, porque no momento da minha entrada na sua loja, a mulher que dias antes havia trazido o objecto roubado, estava neste acto levando as 6 moedas, preço que lhe tinha custado. Continuou a jurar que nada sabia do furto, mas acrescentando que, visto que o objecto era meu - conhecia ser da sua obrigação entregar-mo; o que com efeito fez dentro de meia hora.

Como vi que não era possível descobrir o modo engenhoso, com que o relógio tinha sido roubado de minha casa, forçoso foi que me contentasse com a sua restituição, sem ulterior procedimento; mas - quando cheguei a casa, e principiei a dar corda ao relógio reparei que a fábrica tinha sido atada com um bocadinho de retroz de seda verde, que havia sido tirada da pequena mesa de costura que estava no outro lado da sala - operação esta que decerto não foi feita no momento, e que tinha por fim evitar que o relógio desse horas durante a mudança. Este facto deixou suspeitas sobre mais de um indivíduo; e será força de imaginação, mas é facto, que quando eu passo por certa rua muito estreita que conduz ao postigo do Sol, uma mulher, que julgo ser a mesma que eu tinha visto recebendo o dinheiro na loja de que já falei, - logo que me avista, retira-se para dentro de casa.

Tenha paciência, Sr. redactor, com esta massada - mas estas reflexões são consequênia da prisão voluntária a que me votei na minha barquinha, e da minha imaginação precisar de distração. Porém o remédio está na sua mão e não gostando do que tenho escrito, remédio será queimar esta carta.

Agora falemos sério. Sentirei, Sr. Redactor, se eu nesta narração entrar em seara alheia; por isso que sei que o meu amigo Sr. José Frutuoso Aires Gouveia Osório, doutor pela universidade de Coimbra, e Edimburgo, nas suas viagens à Inglaterra, França, Bélgica, e países do norte, estudou teorica e praticamente a organisação das prisões. Desejava muito perguntar a este meu amigo, porque mutivo não tem ainda publicado as suas observações áquele respeito. Será, por acaso, que ele, também* como eu, tenha pedido estatísticas, sobre o assunto a algum ministro de estado, e as não tenha recebido, depois de lhas prometerem? Quem sabe!

Sou de VV.
J. J. Forrester

* no original tãobem

terça-feira, 9 de julho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J. J. Forrester (11)

Tendo os meus finados e muito respeitados amigos os Srs. António Bernardo Ferreira, e José Bernardo Ferreira sido os maiores empreendedores no país do Douro, hábeis lavradores, proprietários ilustrados, e cavalheiros estimados por todos os que tiveram a fortuna de possuir a sua amizade, julgo bem descrever as principais propriedades outrora destes fidalgos, e agora pertencentes à Exmª Sr.ª Dª Antónia Adelaide Ferreira.

Na margem direita do rio Douro, a um quarto de légua ao norte da Régua, sobre uma colina e no lugar de Travassos, está situada a casa e quinta do Sr. José Bernardo Ferreira, sem dúvida a mais fértil, e mais rica de todas as propriedades que se encontram nas duas margens deste rio, em todo o país, a que ele dá o seu nome.

O génio empreendedor e franco de seu dono à custa de grossos cabedais, e de penoso trabalho, fez que se tornasse um terreno, que era escabroso, pela maior parte inculto, cheio de rochedos, e rodeado de pricipícios, em vinhas, campos, olivais, pomares, jardins, armazéns, lagares, e uma bela e apalaçada morada de casas.

Vai um soberbo muro circuitando a mesma quinta e casa, que tendo de altura 18 palmos, e pintado de branco, numa situação elevada, é visto na distância de 5 léguas.

Desde Travassos até Paredes se elevam nesta quinta um sem número de sucalcos, lançados em forma de grandes degraus. estes sucalcos feitos em ordem a sustentar horizontalmente o terreno que os separa, não são feitos de alvenaria como nas outras quintas: são grandes e grossos paredões de pedra faceada, e de espaço a espaço com um largo lanço de escadas, que os comunica.

Do alto desta quinta se goza um golpe de vista, que sempre se apetece e se deseja: dali se vê o pitoresco, o belo , e o terrível; ali se apresenta tudo em perspectiva: lá se vê o Marão elevando ás nuvens seus escabrosos penhascos cobertos de neves sempre constantes... Vila Real, Cumieira, Santa Marta, Sanhoane, Lobrigos, Peso, Régua, Jugueiros e todas as povoações, até ao Moledo, dali se observam!...

De lá se vê o Douro desde a Varosa até ao Carvalho. Canelas, Presegueda, Fonte do Peso, toda a estrada desde o rio até Lamego, e todas as eminências até à serra de Santa Helena, que fica 8 léguas de distância, dai se descobrem...

Há mais abaixo um tanque que recebe 40 pipas de água, despejada por uma fonte que abrange o volume de uma telha; esta água tem a sua origem de uma extensa mina, que se abriu através dos rochedos, para se lhe encontrar o manancial. O seu aqueduto é feito com asseio, segurança e grandesa; daqui até o pomar de espinho é vinha, grangeada de tal modo que um arbusto não teria mais zelosa cultura; o que faz que toda a vinha tenha uma aparência ajardinada.

O pomar de espinho consiste em dois grandes tbuleiros, guarnecidos de altas paredes, vestidas de limeiras, limoeiros, bergamotas, cidreiras, &c.; quatro ordens de frondosas laranjeiras estão ao longo de cada tabuleiro: no primeiro há um grande tanque, que recebe duas bicas de abundante água, do qual se despejam para regarem as árvores.

Segue-se um jardim plantado a buxo: nele se vêem vários arbustos, flores em volta de uma taça com seu repuxo. Para o nascente inclinado ao sul tem uma varanda de pedra de cantaria em todo o comprimento do jardim, que tendo no centro um semi-círculo saliente, guarnecido de bancos, é terminada nos dous extremos por duas portarias. As quatro partes do mundo e as quatro estações representadas em estátuas, ali existem levantadas em pilares ao longo da varanda.

Saindo do jardim, vai-se entrar em uma longa carreira, com pavimento de cantaria, guarnecida de uma asseada varanda de ferro que sustenta em grossos esteios de ferro, uma elegante gradaria de madeira lavrada, formando uma ramada de diferentes e escolhidas qualidades de uvas, e que se termina em uma casa de fresco feita também de grade de ferro, e tudo pintado de verde. Esta carreira é sobranceira a dois grandes quarteirões cada um dos quais é igualmente guarnecido de varanda de ferro: o primeiro tem uma bem ordenada cascata; o segundo, um tanque com duas bicas de água, e ambos estão plantados em horta ajardinada com as melhores qualidades de hortaliça.

À direita há um pomar de diversas qualidades de fruta de pevide e caroço. À esquerda fica a principal entrada da casa e quinta, fechada por um portão de ferro: e do outro lado da casa havia, há 7 anos, uma enorme pedreira; mas já não existe essa rocha; já desfeita, sucumbiu à força da indústria, existem em seu lugar um espaçoso terreiro, gaurnecido de alto muro; essa enorme e grande pedreira tornou-se numa bem desenhada escadaria em um jardim: ergue-se à direita dela uma parede com portas que dão entrada para a vinha, e á esquerda é o corrimão de grade de ferro; vai terminar esta escadaria em um jardim guarnecido de gradaria de ferro, e que dá entrada para a casa pelo último andaime.

No fundo da quinta está a casa, levanta-se em dois andaimes, cada um de 11 janelas de frente, e na arquitectura é regular, porém no interior aparece o bom gosto e o asseio.

A capela está ao lado esquerdo da casa, é bem construída, e bem ornada e nada lhe falta para a decência do culto divino.

No primeiro andaime da casa, pela parte de trás das salas de respeito, estão três lagares de grandes dimensões em pedra de cantaria com os seus competentes pesos, fusos e balanças, e por canais praticados através do pavimento corre o vinho par dez toneis de trinta pipas cada um, arcados de ferro, e que estão no armazém, que ocupa toda a extensão da casa, ao nível da rua. Em distância curta deste, há outro armazem no sítio chamado a urtigueira dentro da quinta; dá-lhe entrada um portão de ferro seguido por uma larga rua, onde estão 600 pipas de vinho generoso, e de diferentes qualidades, e idades, divididas em lotes.

O rendimento actual desta grande propriedade é de 150 pipas de vinho da melhor qualidade entrando neste número de 48 a 50 pipas de vinho de uva bastardo; virá a ter 4 pipas de azeite, produzindo todas as oliveiras que estão levantadas, para cima.

É todavia forçoso advertir que todos os vinhos que produz esta quint, são feitos com a maior escolha e rigoroso escrúpulo no tempo da vindima: nos lagares são escolhidas as uvas mais bem sazonadas para primeira qualidade, das menos se faz a segunda, e das menos ainda a terceira &c. e assim se tornam sempre os vinhos de maior crédito e de invariável existência; e por isso se torna a sua cultura e colheita a mais dispendiosa.

Esta narração em nada é exagerada, e a público não a rogo, mas sim com autoridade dos donos da propriedade, como terei muito gosto em descrever muitas outras quintas importantes em ambas as margens do Douro, no caso que seja a vontade dos seus possuidores.

As quintas da Boavista em Vila Maior do Valado e de Vargielas são, todas, quintas da família Ferreira, e produzem de 120 até 150 pipas de vinho cada uma, boa fruta de espinho, e algum azeite. São todas muito bem grangeadas: os lagares são cómodos e excelentes, e o vinho é feito com todo o esmero, tendo sempre comprador certo. - Mas a quinta das quintas - uma das maravilhas do mundo, outrora parte de uma cordilheira de montanhas incultas, agora servindo de monumentodo quanto podem vencer a inteligência, preserverança, e o génio empreendedor do homem, é o VESÚVIO, ou QUINTA DAS FIGUEIRINHAS.

Na nossa descrição geológica do litoral do rio já falamos nesta grande propriedade. É situada sobre a margem esquerda do rio, na freguesia de Numão, concelho de Freixo de Numão, 2 1/2 léguas acima do ponto do Cachão. É quase inacessível por terra, exceto a cavalo, pela falta de estradas; mas quem a visitar pelos caminhos actuais, depois de terem andado umas poucas de horas em um deserto, entra no que bem se pode chamar paraiso. Um portão grande dá entrada para esta quinta; e magníficas e largas ruas conduzem por toda a extensão da propriedade, e com especialidade até á margem do rio, onde há uma boa casa de residência, excelente adega, e lagares espaçosos, armazéns, casas próprias para recolher os trabalhadores;  e como a quinta é muito longe de qualquer povoação ou vila, há também lojas de peso, de carpinteiro, pedreiro &c. para o serviço da quinta e para suprir a numerosa gente que forçosamente aqui se emprega por todo o ano.

Esta belíssima fazenda é cercada de um bom muro, e pode ser plantada para produzir acima de 700 pipas de excelente vinho maduro e encorpado, que também tem comprador certo, apesar de, como já dissemos, sr no cais da Baleira onde acaba a demarcação dos vinhos e embarque.

Também a quinta pode produzir de 80 a 100 pipas de azeite, 70 a 80 arrobas de amêndoa, e algum milho e centeio.

Enquanto que nos achamo nestes sitios, com estas belas vinhas em nossa frente, e com íntimo conhecimento da belíssima qualidade dos vinhos que produzem - qualidade que poderá ser igualada, mas não excedida em parte alguma da demarcação legal - gritaremos, como temos feito acerca das pedras no rio: Vergonha é que o governo, que se chama progressista, continue a marchar no trilho do retrocesso, e no obscurantismo dos tempos remotos. Em nome da razão, porque não há-de o governo actual ter coragem, sem mais pequena demora e neste momento crítico em que os habitantes do Douro se acham ameaçados com a ruina tota das suas vinhas, e o país com a perca da jóia mais brilhante da sua coroa, para decretar que haja plena liberdade para cultivar a videira livremente em toda a parte, para que o vinho possa ser embarcado sem mais alcavalas, provas, e peias, que por um século tem arrasado o país, maneatado os lavradores, fazendo até criminosa toda e qualquer inovação que se encaminhe a progresso?

Há 10 anos que pela primeira vez levantei a minha débil voz neste mesmo sentido. O Commercio do Porto se lembrará da oposição que me foi feita, e que só em campo era eu o único estrangeiro a pregar esta doutrina - que aqueles, que tinham bem mais interesse que eu, para que os monopólios cessassem, e as leis bárbaras se derrogassem -, tanto contrariaram e impugnaram. Mas toda a sua oposição - toda a sua perversidade - todas as suas asserções a meu respeito alegando que o que eu tinha avançado, fora "vago, infundado, e falso" não me farão sair do meu campo: há 10 anos que tomei a minha posição, tenho podido sempre fazer frente á posição daqueles que me cercavam, e esta posição estou eu resolvido a sustentá-la, até que venha, ainda que tarde, a justiça e a liberdade que eu reclamo e que tenho direito a reclamar entre os mais proprietários do Douro.

Pois, Sr. Redactor, não se chamava a lei da imprensa a "lei das rolhas"? O governo mais direito tinha a mandar fechar a imprensa, do que tem para dizer-me a mim, e a milhares de outros - que só em certo terreno havemos de plantar couves, e em outro, semear feijão; ou, o que vem mais para o caso, - que em certo sítio de entre muros ou demarcações havemos de cultivar esta ou aquela qualidade de Vinho, o bem para as tavernas, e o ruim para o embarque.

já tenho dito que esta não é a primeira vez que tenho expendido estas ideias; mas quem tiver a curiosidade de ver o que eu escrevi sobre - Free Trade - sobre o estado actual de Portugal, e também sobre as belas esperanças que anunciei naquela época (Julho de 1853), podem referir-se a páginas nº 135 até 437 do meu "Ensaio premiado sobre Portugal" - esperanças que, como já disse, têm sido ate agora malogradas.

Sou de VV.
J. J. Forrester

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Viagem ao Douro - cartas de J.J. Forrester (10)

O cachão da Baleira é o sítio mais romântico e importante de todo o rio Douro.

Até 1791 um enorme rochedo que aqui fazia cachão, impossibilitava a navegação direita por toda a extensão do rio. Então, Tua era um lugar importante por ser o cais onde se descarregavam os géneros que tinham de ir por terra para cima do Cachão, ou se carrregavam os que vinham da raia e embarcavam para baixo. O rio está actualmente tão seco que nas raízes deste, outrora formidável rochedo, se vêem a meio palmo abaixo de água os buracos das brocas, dos trabalhos do século passado, quando a dez palmos mais acima e outros tantos mais abaixo, o poço tem de 40 a 50 palmos de profundidade. No fragão à esquerda, por baixo de uma coroa imperial, vê-se a inscrição seguinte:

"Imperando Dona Maria I já se demoliu o famoso rochedo que fazendo aqui um cachão inacessível, impossibilitava a navegação desde o princípio à séculos, Durou a obra desde mil setecentos e oitenta até mil setecentos e noventa e um"

Ainda há poucos anos desapareceram uma espada e bandeira que aqui existiam. O insigne geólogo português, Dr. J. Pinto Rebello, (que teve de se expatriar, por não achar meios no seu país) descreve este sítio do Douro nos seguintes termos:

"É precisamente neste ponto, onde outrora existiu a cataracta que se opunha à navegação superior do rio, que termina o país vinhateiro propriamente dito. - É pois a quinta da Valeira, que ultima a demarcação da Companhia Geral, encostada ao grande penhasco de granito por onde o Douro se precipita numa longa e estreita fenda."

O canal do cachão propriamente chamado, tem de comprimento 400 braças, contando do ribeiro de Campeires até ao cais da Baleira. As margens são rocha viva, que não tem menos de 1500 palmos de altura. Abundam aqui pombos bravos e as corujas fazem entoar o seu grito melancólico por todo o sítio.

Na margem esquerda sobre o ponto mais elevado do pinhasco citado, existe a Ermida de S. Salvador do Mundo e Senhora da Penha com todas as suas capelas e passos do Senhor, que não podem ser comparados em importância e extensão com o Bom Jesus de Braga; contudo belíssima que é a vista do senhor do Monte não iguala em magestade e aspecto sublime, a perspectiva que de S. Salvador se descobre. Que sítio este para o artista, para o homem de gosto, admirador da natureza inculta, para o geologista, arqueólogo ou naturalista! Daqui do lado do nascente os castelos de Numão e Anciães, situados em elevados terrenos de granito, conquistam um e outro a uma légua de distância objectos que tornaremos a referir quando concluirmos a nossa viagem pelo rio. Nota-se mui distintamente logo meia légua adiante que acabam os granitos e principiam os xistos e com eles a célebre Quinta do Vesúvio do qual nos ocuparemos quando aqui chegarmos. Pelo lado do norte descobre-se uma grande extensão de terreno montanhoso coroado pelo notável alto da Senhora da Cunha, pelo sul os vales de S. Xisto e Caçarelhes, cobertos de ricos olivais, e na encostada do mesmo monte de S. Salvador vêem-se sítios que serviam de túmulos aos Romanos e mais acima entre as vinhas de terreno de lousa e granito encontram-se provas irrefragáveis de ter aqui havido em outras eras erupções vulcânicas: finalmente, voltando-se o expectador para o poente, logo se admira vendo correr o Douro no primeiro plano entre vinhas, no segundo entre granitos e no terceiro outra vez nos xistos.


Não sendo esta a primeira nem mesmo a vigésima primeira vez que tenho visitado estes sítios não me esqueci que uma pinga do meu bom vinho do Duque do Porto, do Marquês do Pombal, ou antes de D. Maria I (por ela ser a senhora do Cachão) misturado com a deliciosa água da bela fonte que nasce na casinha da - Ermida - acompanhada com um petisco tendo para sobremesa as belas vistas naturais, havia de saber bem; aqui descansei num gozo perfeito, esquecendo-me de amigos e inimigos, dos filhos, parentes, negócios e cuidados; entregue ao novo mundo criado na minha imaginação, à admiração da natureza e dela ao Creador de tudo.

Ah! que satisfação não teria metade dos habitantes dese país se podessem também gozar destas delícias; porém não há estradas, ainda que em S. João da Pesqueira que dista um quarto de légua, se vêem palácios e edifícios magníficos não há comodidades para os viajantes.

Eu digo isto por experiência: passei as últimas duas pontes em uma intitulada estalagem na qual não tivemos luxo, a não ser que a abundância de percevejos à noute e o importe da nossa conta pela manhã, possam assim ser considerados. Quando pedi contas, a resposta do estalajadeiro foi muito galante - fumando o seu cigarro e dando uma cospidela formidável para o meio do chão, disse-me que quanto a contas não se lembrava para as dar por miudo, porém o que tinha a receber que eram dous osberunos.

Perguntei-lhe de que terra ele era - respondeu-me: "Sou de Vila Nova de Foz Côa - A vossa senhoria parece lhe que a conta é grande? Eu também tenho andado pelo país e não me parece muito o que tenho levado!"

Há anos, encontramos no monte de S. Salvador, vestígios de um acampamento e vários tijolos romanos - bem como algumas moedas - pedras de moer pão, ou de pisar terras metálica - porém, Sr. redactor, vamos continuando com as pedras do rio, deixando o monte de S. Salvador para quando tivermos mais vagar.

A descida desta posição elevada até ao cais da Baleira levou-nos um bom quarto de hora. Quando entramos na barquinha tivemos ocasião de gozar as escabrosas margens do poço da Caçarelhos até à Ripança e dai até S. Xisto onde intervêm os xistos e continuam até Arnozelo - aqui tornam a atravessar os granitos pela distância de um quarto de légua - ou até à quinta do Vesúvio, ou das Figueiras, em cujo cais paramos.

Sou de VV.
J. J. Forrester