sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

da Porta do Sol - 3

Nesta última postagem sobre a Porta do Sol, deixo algumas imagens sobre a evolução do lugar onde ela se implementava, comparativamente com a nossa época.

Na primeira imagem vê-se a subida para a Porta do Sol quando a rua Saraiva de Carvalho ainda não existia, e uma rua mais estreita - a de Santo António do Penedo - ligava a rua Chã à dita entrada e saída da cidade.
Assinalo a laranja, com um rectângulo o Palacete do Visconde de Azevedo (ainda existente) e com uma seta verde um outro edifício que fora de um Miguel Brandão da Silva.

O edifício que vemos à direita assinalado com a seta verde estava encostado à Capela de Santo António do Penedo, que foi também ela demolida por esses anos.


Iniciada a destruição de toda esta área em 1875 - precisamente com a demolição da Porta do Sol - em 1886 desapareceria quase tudo o resto. Motivo: criar novo e desafogado acesso ao tabuleiro superior da Ponte D. Luíz, ficando como se apresenta na actualidade na segunda imagem.


Abaixo vemos uma planta do século XIX da área aqui tratada. Com as mesmas cores são assinaladas as edificações da primeira imagem. Contudo, agora, é também assinalada a Capela do Penedo; que, note-se, não era propriedade dos mesmos donos da casa que a ela se adossava (seta verde).


A imagem de baixo mostra a localização de: a laranja o mesmo ângulo que surge na primeira imagem, a vermelho, o lugar por mim estimado (aceito rebate) da existência da Porta do Sol, o circulo verde aponta o local do edificio adossado à Capela de Santo António do Penedo e a azul o da dita capela.
Por curiosidade, marquei com a estrela rosa o local onde foi instituida a "Feira da Ladra" no Porto (à imitação da lisboeta), cujo terreno aparece delimitado por um muro na imagem da postagem anterior.


Na imagem de baixo, a Porta do Sol ficaria junto ao local onde hoje se encontra o quiosque embutido no muro.

Nas duas images abaixo temos novamente uma planta do como era a área imediatamente fora da Porta do Sol (conhecida por séculos como Carvalhos do Monte), e tal como ela se encontra agora. O local onde estavam as cavalariças é actualmente ocupado pelo términus do Eléctrico 22. Para que o leitor não se perca, assinalo a capela do antigo asilo das Desamparadas que servirá como ponto de referência para o resto.



Finalizo com a "cereja em cima do bolo", isto é, uma fotografia (a única que conheço) da Porta do Sol. Aqui se pode vislumbrar, por entre a porta, parte dos edificios mencionados acima.
Na outra foto abaixo, mais conhecida, se vê, depois de ter sido demolida a porta, a base do pilar do seu arco.


E nesta última, o local tal como se apresenta actualmente.


Fontes das imagens: livro: O Porto na época dos Almadas; Sites: Arquivo Histórico da Câmara Municipal do Porto, Googlemaps, Bingmaps e o blog Porto de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

da Porta do Sol - 2

Na sequência da publicação de ontem, coloco aqui um outro artigo da revista O Tripeiro; desta vez bastante truncado. Na última e final postagem vou colocar algumas gravuras, se bem que conhecidas, com algumas notas minhas mas também do Dr. Pedro Vitorino, retirada de suas publicações.

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"Queira o leitor acompanhar-me. A visita é perto e não o cansarei. Sahiremos da Praça da Batalha, enquanto não vem o carro eléctrico da linha 17, cuja chegada está para demora, passaremos ao lado do sul do theatro de S. João e pela frente do Quartel General e Casa Pia e, deixando ao nosso lado esquerdo a Rua do Sol e o Recolhimento das Meninas Desamparadas, encaminharmos-hemos para a Avenida Saraiva de Carvalho, e em frente ao Dispensário faremos alto. Terminou o passeio.

O leitor, se é leitor costumado de O Tripeiro, está farto de saber que o Porto teve duas cinturas de muralhas de defeza: A mais antiga e menor, - a do Burgo - (...) e a mais moderna, (chamada Fernandina, por se haver concluido no reinado de D. Fernando), de muito maior perimetro, porque a cidade tinha crescido em tamanho.

(...)

A Porta da Batalha era á entrada de Cima de Villa; a Porta de Carros, no largo da Feira de S. Bento; o Postigo de Santo Eloy, nos Loyos; a Porta do Olival, na Cordoaria; a Porta Nova ou Porta Nobre, proximo a Miragaia, e a Porta do Sol, no ponto onde pedi para nos determos, isto é, em frente ao Dispensário.

Repare o leitor para a gravura que acompanha estas linhas. Ao cento verá a Porta que uma Camara de conspicuos vereadores entendeu mandar deitar abaixo em 1875 para se ampliar o edificio da Casa Pia(1)

Chamava-se Porta do Sol, por que n'uma das faces do tympano tinha esculpida a figura de um sol com os raios respectivos. (...) Primeiramente chamou-se Postigo do Carvalho ou dos Carvalhos e depois de Santo Antonio do Penedo, por causa de uma ermida d'este santo que ahi se construiu.



Em 1768 achava-se em completo estado de ruina. O governador D. João de Almada e Mello fel-a demolir e mandou edificar em seu logar, uma nova, tal como a representa a gravura, ornamentada com o sol em que fallei e com esta inscripção latina:

SOL HUIC PORTAE
JOSEPHUS LUSITANO IMPERIO
JOANNES DE ALMADA E MELLO
PORTUCALENSE URBI FINITIMISQUE
PROVINCIIS AETERNUM
JUBAR GANDIUM PERCUNE

A gravura que illustra esta pagina é a reprodução de uma outra feita a lapis pelo antigo e muito considerado professor de desenho snr. Francisco José de Sousa, e copiada a crayon, para O Tripeiro, com a sua bem conhecida aptidão artistica, pelo meu querido amigo e collaborador artistico snr. José Augusto de Almeida.

Por ella poderemos muito bem ficar fazendo uma ideia da disposição do local em 1859.

(...) Do lado esquerdo, ao fundo, vê-se uma parte do Convento de Santa Clara, o qual funcciona presentemente o Dispensário; mais á frente, o mirante das freiras, que ainda lá existe, actualmente sem cobertura, e no primeiro plano um barracão baixo. Como, ao tempo, na cidade não havia quartel para cavallaria permanente, era nos barrcões do Largo da Policia que se recolhiam as praças e os solipedes dos destacamentos de cavallaria vindos, de quando em quando, de Bragança e Chaves, para augmentar a guarnição do Porto. No do lado esquerdo aquartelavam-se s praças e no da direita os animaes.

Junto á Porta do Sol, do lado direito, vê-se uma parte do edificio da Casa Pia. Separada d'elle, por uma rua, a casa para alojamento dos officiaes de cavallaria, nos baixos da qual existia um deposito de palha, e á frente as cavallariças. Um cruzeiro com a imagem do Senhor dos Afflictos, cruzeiro que, mais tarde, foi mudado para junto da capella de Santo Antonio do Penedo, completa o quadro.

Basta de massada, leitor. Quando quizer póde voltar á sua vida e ir contemplar o chavascal onde se ergueu a Capella da Batalha, se não preferir ir tirar o retrato á la minute ou tomar um copo de cerveja gelada á Cervejaria Bastos, emquanto espera pelo electrico n.º 17.

Até outro dia. Boa Viagem."

H.P. in O Tripeiro, 1926

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(1) "...foi um vandalismo quasi escusado, por que o edificio era bastante vasto e o monumento (que em nada estorvava o transito publico, porque o vão do arco era amplo) pela sua elegancia, adornava o sitio e era um padrão comemorativo do varão a quem o Port tanto deve". Pinho Leal, in Portugal Antigo e Moderno, vol. VIII, pag. 285.

Fonte da imagem: O Tripeiro, 3ª Série

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

da Porta do Sol - 1

O artigo aqui transcrito, fui busca-lo ao segundo ano da primeira série da revista O Tripeiro (1909-1910). Num outro post a colocar posteriormente transcreverei um segundo artigo, ainda que apenas parcialmente, da mesma revista e versando o mesmo tema.
Vamos então ao dito artigo que o próprio Tripeiro repescou da revista Porto Illustrado de 1863, portanto numa altura em que a Porta do Sol ainda existia:

"A ANTIGA PORTA DO SOL

Da muralha que circundou o Porto, construida durante os reinados de D. Affonso IV, D. Pedro e D. Fernando, poucos vestigios existem hoje, dignos de especial menção. O unico, talvez, é a Porta do Sol. Porém, a Porta do Sol, elegante construcção que ella é, e que bem se mostra despida do caracter d'essa antiguidade, a que pertence a muralha; tal como ella existe e como se vê na nossa gravura, não é comtemporanea da grande obra que occupou, diz-se, os reinados dos tres soberanos.

Além das portas  que costumavam ter todas as muralhas das terras afortalezadas, que eram as portas principaes para o serviço publico, havia também outras portas mais pequenas, de somenos construcção e pequeno concurso, a que baptisaram com o modesto nome de postigos, como o dos Banhos e do Pereira, que ainda se vêem de pé, estes com saída para o rio. Pela parte da terra havia outros, e um d'estes era o do Sol.

Porém, sobre o velho postigo do Sol, por se achar extremamente arruinado, se levantou em 1768 o arco actual, que custou a quantia de 960$306 réis, sendo feito por ordem do general e governador das justiças que então era João d'Almeida [sic] e Mello, pae do grande Francisco d'Almada. Os mestres pedreiros Caetano Pereira e José Francisco foram os que arremataram e levaram a cabo esta obra, que ficou concluida no mez d'agosto do dito anno de 1768; mas só a 28 de fevereiro do anno seguinte é que foram embolsados da sua importancia.



Eis aqui a conta, conforme se vê no livro competente, que se acha no cartorio da camara d'esta cidade:

Liquidação do que importa a obra da Porta do Sol feita por ordem do ill.mº e ex.mº snr. General e Governador das Justiças.

.4982 palmos de esquadria lavrada de escada de socco, que corre em volta por baixo de toda a obra, superficie das pilastras, e na superficie da imposta, architrave e frizo, em rustico, e superficie do arco, tudo feito e acabado, posto em seu logar conforme arrematação e plano - a preço de 79 réis
... 393$578

.2475 palmos de moldura nas bazes das pilastras, capiteis e frizo, comprehendendo tudo em volta e seus membros particulares, como tambem o coronamento do timpano, tanto pela parte interior como exterior, e acabado conforme a arrematação, o palmo pelo preço de 130 rés
... 321$750

.70 braças e mais 22 palmos no interior da porta no cheio de alvenaria argamaçada, a braça de 200 palmos, conforme arrematação, pelo preço cada uma de 2$280
... 159$765

.1140 palmos de lagedo no pavimento da empena, o palmo a preço de 18 réis
... 20$220

.3 braças e mais 175 palmos de alvenaria na parte que uniu o muro á porta da parte do Convento, a preço cada braça de 1$400 réis
... 4$997

.42 braças e mais 250 palmos no muro que fizeram no sitio onde foi a torre, cada braça a preço de 1$400 réis
... 59$716,6/9

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960$306/9

Somma a conta toda a quantia de novecentos e sessenta mil trezentos e seis réis, mais seis nonos de real, que tanto se deve aos mestres.
Porto, 29 de agosto de 1768

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Isto dizia o Porto Illustrado, de junho de 1863; mas o camartello do progresso, de então até hoje, encarregou-se de supprimir estas reliquias do velho Porto. Qual mal fazia á cidade a conservação do arco do postigo do Sol?"

Fonte da Imagem: O Tripeiro, 1ª Série

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Commercio do Porto

Mantendo hoje o decanáto da imprensa do Porto [1926], é, incontestavelmente, em formato, em methodo e norma de vida, e em importancia, o primeiro diario da cidade invicta, que n'elle tem o mais o mais denodado e audaz palatino dos seus interesses, seja qual for a acepção em que a palavra interesse possa ser tomada dentro dos limites do confessavel. Apenas com o titulo O Commercio, apareceu o seu primeiro numero em 4 de Junho de 1854, n'um formato pequeno, de 46X33 centimetros, como que a mêdo de tentar a vida, que no futuro havia de desabrochar em continuos triumphos e em completo successo. Foram seus fundadores Manuel de Sousa Carqueja, dr. Henrique Carlos de Miranda e Xavier Pacheco, e destinava-se a sahir á luz apenas trêz vezes por semana - ás segundas, quartas e sextas-feiras, com informações que interessassem á Praça do Porto, então, como hoje, o centro commercial das provincias do norte do paiz. Atravessou varias crises, que puzeram, por vezes, em perigo a sua existencia, mas teve sempre a amparal-o a energica actividade e a confiada previsão do seu fundador Manuel de Sousa Carqueja, que nunca abandonou aquele fillho, certo de que elle havia de vir a honrar-lhe a memoria. Manuel Carqueja e Henrique de Miranda foram os unicos de todos os accionistas da empreza primitiva, que não se deixaram levar do desanimo que a todos os restantes avassalára e os fizera retirar.

O seu primitivo titulo era apenas O Commercio, como já dissemos, mas logo a 2 de Janeiro de 1856 passou a adoptar o titulo que ainda hoje mantém [1926], augmentando de formato, como que para demonstrar aos que o supunham moribundo, que se sentia com forças e com vontade de avançar pela vida fóra. E tanto progrediu e tanto avançou, que ahi o vemos hoje, com os seus setenta e dois annos de existencia, com a sizudes e a severidade que um tal numero de annos justifica, mas modernisado, com a vivacidade e a compostura de um rapaz bem educado, filho de boa familia, que o era, com effeito, a que lhe deu o ser. O Commercio do Porto, mantendo a dignidade da profissão jornalistica, pela escrupulosa correção dos seus processos de trabalho, é hoje, sob a intelligentissima direcção do snr. dr. Bento Carqueja, uma verdadeira potencia, não honrando apenas a cidade do Porto, mas simultaneamente toda a imprensa do Portugal. Têem sido seus collaboradores, entre muitos outros, Camilo Castello Branco, visconde de Benalcanfor, José Joaquim Rodrigues de Freitas, Arnaldo Gama, I. de Vilhena Barbosa, José da Silva Mendes Leal, Manuel Pinheiro Chagas, Antonio de Serpa, José Luciano de Castro, Rangel de Lima, etc.

(...)

Alberto Bessa, in O Tripeiro, 3ª série, 1º ano.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ainda o Botequim do Pepino

Sobre este célebre - por fracas razões - botequim, dei de caras no Tripeiro com umas preciosas notas na volume correspondente ao seu primeiro ano (1908), na secção das "perguntas e respostas". Tencionava verter para aqui a informação que lá surge com a descrição que Arnaldo Gama lhe faz; contudo opto por não o fazer dado que iria repetir a informação já difundida no Porto, de Agostinho R. da Costa aos nossos dias, em http://portoarc.blogspot.pt/2013/11/divertimentos-dos-portuenses-xxii.htm (aliás um excelente blogue que vale bem ser seguido).

Apenas apenso a essa informação a seguinte, com carácter já secundário, mas que está também na tal secção de perguntas e respostas:

"O Botequim do Pepino, em Cima do Muro, era muito concorrido da marinhagem estrangeira e de mulheres de má nota do Forno Velho e immediações. As desordens alli eram frequentes. O predio, juntamente com os demais do mesmo lanço do muro, foi demolido, quando se construiu a rua que segue da dos Inglesez para a Alfandega. O botequim transferiu-se para o Forno Velho. Não sei se ainda lá existe ou algum seu descendente. O Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, era accusado pela imprensa adversaria por ter sido freguez do mesmo cafe, quando era guarda da Alfandega ou coisa que o valha. Cito este facto de memória mas creio não estar em erro.
Um tripeiro da gêmma, baptisado em S. Nicolau"

Em relação ao dono deste estabelecimento, conheço biograficamente uma data, a do seu casamento! Isto porque, no Periodico dos Pobres no Porto de 18 de Outubro de 1845, me deparei com esta escavação: "Anteontem de tarde atravessava a todo o trote a Praça de S. Lázaro um cabriolé a quatro, carregado de pessoas do sexo feminino em grande luxo, e acompanhado de cavaleiros. Era o botequineiro Pepino de Cima do Muro que tinha ido casar, e que se recolhia a casa em grande estado."

domingo, 12 de janeiro de 2014

"A Próva effectuada á ponte pensil" - parte 3

RESULTADO DA PROVA DA PONTE PENSIL SOBRE O DOURO


Esta ponte, uma das mais bellas obras d'arte que temos no nosso paiz, e pode-se dizer a mais atrevida que ente nós se tem construido, tinha constra si a opinião publica, e chegava a ponto a prevenção, que havia individuos que nella receavão passar de carruagem. Felizmente todas estas prevenções se achão destruidas hoje, com a prova que teve logar nos dias 18 e 19 do corrente; prova, com cujo resultado a ponte deu um desmentido formal a tudo quanto se dizia respeito da sua falta de estabilidade.
    Encarregado pelo ministerio das obras publicas do desempenho d'esta commissão delicada, cumpre-me informar o publico do resultado das experiencias a que procedi para verificar indubitavelmente o bom estado d'este edificio.
    A ponte pensil tem de comprimento de pavimento suspenso 156,3 m , e de largura 6,1m, o que prefaz uma área de 936,35 metros quadrados.
    O maximo pezo, a que uma construção d'estas tem de resistir, suppõe-se ser o de uma multidão de gente a pé, que cubra todo o seu pavimento; este pezo está calculado entre 195 a 200 kilogramos (429 a 440 arrateis) por metro quadrado de superficie. Partindo d'esta hypothese foi a ponte carregada com um pezo de 184780 kilogramos (406:516 arrateis) pela maneira seguinte:

    6 pipas pequenas de 17 almudes ... 3:294 k.
    10 ditas grandes de 28 almudes ... 9:020 k.
    254 ditas ordinarias de 21 almudes ... 172:466 k.
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    270 pipas                Total ... 184:780 k.

D'este pezo dividido por 936, 35 metros quadrados, do pavimento suspenso da ponte, resulta uma carga de 197,3 kilogramos (434 arrateis) por metro quadrado.
    Por dous motivos podia desabar este edificio na occasião da prova; ou por fractura dos cabos de amarra, ou de suspensão (o que nunca temi) ou por desmorenamento dos poços de atracação. - Este ultimo modo de ruina dava-me bastante cuidado, e tanto mais quanto havia uns dictos vagos ácerca de uma fenda observada na primeira prova, a que a ponte foi sujeita nos poços do norte, de construção sensivelmente mais fraca que os do sul.
    Para poder verificar as alterações que a ponte soffria em consequencia da carga, estabeleci duas miras nos pontos correpondentes á flexa da curva formada pelos cabos de suspensão, uma de cada lado da ponte: estas miras, com uma outra que estabeleci em um ponto fixo em terra, me davão com o auxilio de um nivel de luneta, qualquer augmento ou diminuição na flexa; e por conseguinte todas as alterações porque passavão os cabos de suspensão. Para avaliar as dilatações dos cabos da amarra appliquei a cada uma das faces dos quatro cylindros de dobramento nos poços um ponteiro que estando para o raio sobre que os cylindros tendião a girar na razão de 11/43[?] marcavão em ponto mais sensivel qualquer movimento devido a dilatação dos cabos.
    Preparadas assim as cousas, começou a carregar-se ás 7 horas da manhã do dia 18; e quando estava em meia carga aproximadamente, fez-se a primeira observação, e notou-se o seguinte:
    Augmento da flexa ................. o,39
    Parecia-me grande este abatimento, mas reflectindo que ao peso da carga se junctava a dilatação do ferro produzida pelo calor do sol; pois esta primeira observação era feita á mei hora da tarde, fiquei mais descansado.
    Pela mesma occasião visitarão-se os cylindros, e os ponteiros nos poços do norte davão 0,008 e nos do sul 0,010. Continuou a operação da carga, e quando estava proximamente a dous terços procedi a segunda observação, erão duas horas e meia da tarde, e esta deu em resultado o seguinte:
    Augmento da flexa ................. o,43
        Ponteiros dos cylindros
    Nos poços do norte ................. 0,011
    Nos poços do sul ................. 0,015
    A flexa augmentando apenas 0,04, mostrou claramente que o primeiro augmento fôra em grande parte devida á mudança de temperatura.
    Completou-se a carga erão quatro horas da tarde, e a observação feita a essa hora deu:
    Augmento da flexa ................. o,47
        Ponteiros dos cylindros
    Nos poços do norte ................. 0,015
    Nos poços do sul ................. 0,020
    Não me admira esta differença, attendendo a que as amarras tem as do lado do sul 16,86m de cumprimento em quanto ás do norte so tem 10,82m e os poços do sul tem 14 m de altura, e os do norte 8m abaixo dos cylindros de dobramento, em que estavão fixos os ponteiros.
    Fez-se uma quarta observação ás 6 horas da tarde, a qual deu o seguinte:
    Augmento da flexa ................. o,44
    Isto é uma diminuição de 0,03 em relação á ultima observação; prova evidente de contracção produzida pela differença de temperatura no fim da tarde.
    Os ponteiros dos cylindros davão o mesmo.
    Observações feitas no dia 19.
        Ao nascer do sol
    Augmento na flexa ...... 0,10
    Tinha havido durante a noite pelo resfriamento uma contracção nos cabos de amarra que produziria uma diminuição de 0,34m na flexa. Os ponteiros dos cylindros consevárão-se inalteraveis até ao fim da prova.
        Oito horas da manhã
    Augmento na flexa .......................... 1,12
    Começarão ja os cabos a dilatar-se.
        Nove horas.
    Augmento na flexa .............................. 0,20
        Onze horas.
    Augmento na flexa .............................. 0,21
        Meio dia e meia hora.
    Augmento na flexa .............................. 0,27
        Hora e meia.
    Augmento na flexa .............................. 0,27
    E' é de notar que o dia esteve bastante mais fresco que o antecedente.
    A estas horas ja eu tinha dicto ao Sr. Coelho, delegado da empreza, que podia com toda a segurança consentir de duas até quinze pessoas passeando sobre a ponte, dando assim ao publico um meio de poder verificar que as pipas estavão perfeitamente cheias d'agoa e que a experiencia era feita com a devida boa fé.
    A's duas horas da tarde tendo pedido licença ao Sr. Governador civil interino, que se achava presente, mandei começar a descarga da ponte, que se fez por tres vezes, fazendo-se observações a cada uma dellas; e estas derão os seguintes resultados:
    Ponte com dous terços de carga.
    Augmento na flexa .............................. 0,17
        Ponteiro dos cylindros.
    Nos poços do norte ................. 0,012
    Nos poços do sul ................. 0,017
    Ponte com um terço de carga.
    Augmento na flexa .............................. 0,03
        Ponteiro dos cylindros.
    Nos poços do norte ................. 0,008
    Nos poços do sul ................. 0,007
    Ponte sem carga.
    Augmento na flexa .............................. 0,00
        Ponteiro dos cylindros.
    Nos poços do norte ................. 0,000
    Nos poços do sul ................. 0,00
    Confesso que ao ver este resultado fiquei admirado, e a não ser a certesa que tinha de ter feito as minhas observações com toda a exactidão, observações em que muito me coadjuvárão o Sr. Parada, engenheiro construtor ao serviço da direcção das obras publicas deste districto e o Sr. Oliveira, architecto da camara de Villa Nova de Gaia, repito, confesso que duvidava da exactidão dellas, pois que a ponte voltou perfeitamente ao seu estado primitivo.
    Eis a narração fiel e circunstanciada que eu julguei de meu dever apresentar ao publico. Agora so me resta agradecer ao Sr. João Coelho d'Almeida a boa vontade com que se prestou a todas as exigencias minuciosas, que o meu dever me impunha, e a que elle jamais se recusou.
                João Pereira Mousinho
Porto 20 de Março de 1853

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"Propriedade do edificio do Theatro desta cidade do Porto"

"Tendo talvez esquecido a muitas Pessoas que a Casa do Theatro desta Cidade tem hum Regulamento administrativo porque se dirige a Commissão Administradora dos seus Rendimentos; - e estando nós quasi no principio da Quaresma, tempo em que necessariamente devem convocar-se os Accionistas, apresentarem-se contas publicas incluindo o tempo de oito annos, pois que a ultima conta dada foi em 28 de Fevereiro de 1827 - julgamos a proposito transcrever o Regulamento a que nos referimos, com hum preambulo que sirva de história d'este Estabelecimento.

 

Não havia nesta Cidade hum Theatro digno da segunda Capital do Reino. O emprehendedor Francisco de Almada e Mendonça, sendo Corregedor e Provedor desta Comarca, convocou os principaes Negociantes, Proprietarios, e Capitalistas, Nacionaes e Estrangeiros, no meado de 1794, e concordárão todos em fazer-se hum Edificio para a Casa de Theatro, capaz de ser contado entre os principaes da Europa, contribuindo todos com Apolices de 100$000 rs.

Neste sentido pedio-se consenso Regio, e por Aviso da Secretaria d'Estado dos Negocios do Reino de 9 de Outubro de 1794 prestou o Governo o seu Beneplacito.

Escolheu-se o terreno que occupava a cortina do antigo muro da Cidade no sitio da Batalha, e principiando-se a colligir o fundo, lançou-se a primeira pedra em 29 de Março de 1796, sendo a 1.ª representação em 13 de maio de 1798.

Francisco d'Almada denominou o Theatro - do Principe - para lisonja a S.A.R. então Regente em nome de sua Augusta Mãi, e até lhe mandou huma Chave d'ouro da Real Tribuna &c.

A dependencia, convivencia, e certo ar de respeito que aquelle Ministro sabia inspirar, fez com que durante a sua vida elle fosse o unico administrador absoluto de todo o seu manejo!

Morreu porém Francisco d'Almada; e como todas as suas Comissões passárão a diversas Authridades, esta administração do theatro, que se achou entre as que era preciso dividir-se, vio-se que nada tinha com o Serviço Publico, em quanto ao manejo do seu rendimento, e foi mandado entregar aos Accionistas, que para isso forão convocados, e desde então entrou em propria administrações como qualquer Associação de Negocio &c. 

Por ocassião deste primeiro chamamento, e para se podêrem escolher três Administradores, de que hum fosse Caixa, publicou-se a 1.ª Lista impressa dos nomes do todos os Accionistas, que forão primitivamente - 384.

Não se publiou porém quantas forão as Apolices, nem quantas de 100$000 = ou de 50$000 rs. pois que foi permittido, depois de principiado o Theatro, estabelecer apolices desta ultima quantia.

O que porém nós sabemos, he que o Theatro custou 57:168$124 rs.

Em Governos Absolutos, tudo degenera em absolutismo, ainda mesmo as cousas que não pertencem ao Governo! Nomeárão-se alguns annos novos Administradores; mas foi esquecendo hum anno e outro; ninguem queria mecher neste negocio, e até o anno de 1820, houve Administração, mas não era annual: a última durou mutos annos.

Pelos Sucessos de 1820, em que o direito de Propriedade foi sanccionado, alguns Accionistas representárão o exposto ao Chanceller Governador Interino das Justiças, Fillipe Ferreira d'Araujo e Castro.

Este Magistrado fez chamar huma Assemblea d'Accionistas, e pessoalmente os foi investir na posse e administração do Edifício assistindo á nomeação d'huma Comissão interina encarregada de formar hum Plano de Estatutos, e começar a pôr em andamento regular o Estabelecimento.

Esta Commissão composta dos Senhores - José Joaquim Vaz de Guimarães, Manuel Joaquim de Sousa, e Antonio Joaquim da Costa Carvalho, principiou os seus trabalhos em 21 de Julho de 1821,e em 28 de Setembro, chamou nova Assemblea, apresentou o seu Plano, e deu contas públicas do manejo dos rendimentos desse tempo. 

[Aqui interrompo o texto do jornal para não entediar o leitor com números, nomes e datas das cinco admnistrações que existiram desde 1 de Outubro de 1821 até 28 de Fevereiro de 1827]

Desde então por diante não ha mais contas dadas aos Accionistas, e publicamente impressas como até alli, donde extrahimos os apontados resumos.

Em 1833 estava esta Cidade sitiada, não admira, que não se convocasse Assemblea Geral. O anno passado de 1834 ignoramos a rasão do esquecimento d'este Estatuto; e no anno presente esperamos que em tempo se cumpra o Regulamento, e que se vejão as contas desde 27 de Fevereiro de 1827 até Fevereiro de 1835.

O Plano que referimos, que foi apresentado e aprovado, e que rege como Lei desta Associação Proprietaria do Theatro de S. João (nome que se adoptou depois da morte de Francisco d'Almada) he o seguinte."
 [seguem-se os estatutos que optei por não transcrever]


Publicado no Diário do Porto em Fevereiro de 1835

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Próva effectuada á ponte pensil - parte 2

Continuação da transcrição do artigo editorial do jornal O Periodico dos Pobres no Porto de 30 de Março de 1853, desta vez ele próprio transcrevendo um artigo de outro periódico.
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(Do Jornal do Povo)

"PONTE PENSIL



Transcrevemos em seguida o curioso documento, pelo qual póde o público avaliar o bom estado e segurança da ponte pensil, em resultado da prova e experiencia a que esteve sujeita desde o dia 18 até ao dia 19.

So nos resta acresccentar que o enchimento das 270 pipas com a agua do rio, a carga da ponte, e as differentes vistorias, que se lhe passárão, - tudo foi effectuado com a maior publicidade possivel.

Nao era prudente, nem mesmo possivel, franquear o tránsito da ponte a todo o povo, e até porque muitas pessoas receiarião entrar n'ella sabendo que tinha em si por 24 horas a enorme carga de umas 15 mil arrobas, que a tanto montaria o peso das 270 pipas, e da agua embebida na espessa massa da madeira que constitue o pavimento da ponte, em consequencia da chuva que cahiu na vespera, e no mesmo dia do principio da carga.

A ponte esteve comtudo franca a certo numero de pessoas, que por turnos a puderão ir examinar, vendo se as pipas estavão cheias, e quantas erão. Os poços de atracação estiverão também patentes a quem os quiz ir ver, e muitas pessoas la cocorrerão a examina-los.

Durante a experiencia, a ponte nenhuma differença offereceu senão a necessária tenção proviniente da elasticidade dos arames, e produzida pela alternativa do maior ou menor frio da noite e do dia; pois que na força do calor do dia dilatou-se a curva cousa de um palmo; na observação da manhã notou-se que com a contração do frio da noite, tinha subido o mesmo palmo. No ultimo dia da experiencia, com o calor do meio dia tornou a descer o mesmo, e assim como se ia descarregando, assim a ponte ia subindo, até que chegou ao seu antigo estado!

Concluida que foi a prova e vistorias, o Sr. Coelho d'Almeida, agente da empreza, desejando mostrar aos timidos e incredulos, não so que as pipas estavão cheias, e bem cheias de agoa, mas tambem a confiança que tinha na segurança da ponte, subiu a uma carruagem que de ante-mão para ali mandára, e que proxima estava sem se saber a quem pertencia. O Sr. Coelho d'Almeida entrado pois na carruagem, teve o arrojo de a a mandar rodar a trote pela ponte adiante. O rodar da carruagem e o movimento balouçado assim da ponte como das pipas, fez com que a agoa destas repuchasse pelos batoques a uma altura de 2 a 3 palmos, o que além da linda vista que offerecia, veiu demonstrar o pleno enchimento das pipas, e a inteira confiança do Sr. Coelho, que ao descer da carruagem, foi cumprimentado e congratulado por grande numero de pessoas.

A'quelle acto assistiu o Exm.º Sr, Barão de Valado Governador Civil interino, adminsitrador do concelho do 1.º bairro da cidade, e o de Villa Nova de Gaya, Exm.º Sr. Intendente da marinha, presidente da camara da cidade e de Villa Nova, commandante de caçadores 9, presidente e secretario da Real Sociedade Humanitaria, os dous architectos das camaras municipais respectivas, e muitos cavalheiros das differentes classes da sociedade que forão convidados.

Além desses, muito outro povo concorreu a disfructar a bella vista que offerecia a ponte toda symetricamente embandeirada, cahindo no todo della a agoa das pipas sobre o Douro, ao mesmo passo que se lançava muito fogo no ar, e tocava a musica de caçadores n.º 9.

O Sr. Engenheiro Bigot, a empreza, e o público, - todos se devem ufanar com o resultado daquella experiencia: o primeiro pela sua pericia e conhecimentos architectonicos demonstrados na segurança e excellente construcção da ponte; a segunda por possuir esse util estabelecimento; e o publico em fim por gosar de uma prompta, segura, e não interrompida passagem no rio Douro, como é a que lhe offerece a ponte pensil."