sábado, 21 de junho de 2014

O velho mercado do Bolhão e a Feira dos passarinhos

Este título foi retirado de um artigo publicado n' O Tripeiro de 1 de Setembro de 1927, que aqui transcrevo não na integra; juntamente com duas fotos do mercado do Bolhão dessa época, retiradas do site do AHMP e disponíveis on-line.
Resta dizer que este artigo foi escrito por um senhor chamado Manuel Pedro.

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Da geração antiga, quem não se lembra do velho mercado do Bolhão?!

Todos os velhos portuenses, todos os que nesta terra se fizeram homens, criaram cabelos brancos, ainda hão-de ter na mente as agradáveis horas que lá passaram, quando novos, as frases amorosas com que mimoseavam as criaditas simpáticas que, muito risonhas, apreçavam nas barracas a aromática fruta do Douro, a hortaliça e outros géneros alimentícios.

O desejo de acompanhar o progresso e dotar a cidade Invicta com belos monumentos, novas e largas artérias, levou a vereação da Câmara Municipal do Porto a demolir velhos casarões, a fazer desaparecer ruas apertadas, inestéticas, para dar prioridade a edifícios espaventosos, de arquitectura moderna, que deixassem os nossos visitantes estrangeiros bem impressionados.

O velho mercado do Bolhão foi, portanto, vítima da condenação dos técnicos e dos homens que admiravam a Arte e a Beleza. E diga-se de passagem: ao ilustre e inteligente cidadão Elisio de Melo se deve, quando vereador, o aformoseamento duma parte da nossa terra. Foi êste homem, de largos empreendimentos, quem mais contribuiu para que o velho Pôrto se modernizasse.

Encravado no centro da cidade, o referido mercado, realmente, não oferecia aos visitantes curiosidade alguma. Sem aquela magestosidade própria da época, pouco limpo, sem espaço suficiente para o movimento que já era muito respeitável, principalmente nos dias de feira (terças, quintas e sábados), a sua modificação impunha-se.
E, volvidos alguns anos, o velho mercado, com o concurso de numerosos trabalhadores, estava arrasado e substituido pelo Palácio do Repolho - como alguem lhe chamou - incontestávelmente de superior vista, mais acomodatício e higiénico.

O que é certo, porém é que com o desaparecimento da velha praça do mercado, terminaram quási totalmente uns certos hábitos adquiridos pelos habitantes desta hospitaleira terra e que a ela estavam ligados há muitos anos.

Os portuenses comtemporâneos, não ignoram que o velho mercado estava ladeado por duas ruas que, paralelas, embora um pouco distantes, o acompanhavam em toda a sua extensão.

Na rua do lado poente (parte nova da rua Sá da Bandeira) estavam as cavalariças dos muares, que puxavam os americanos; e na rua do lado nascente (hoje Alexandre Braga) realizava-se todos os domingos uma grande feira de passarinhos, a qual era muito frequentada não só pelos apaixonados daquelas lindas avesinhas domésticas (pintassilgos, rouxinóis, canários e pombas), como por outros indivíduos que nela procuravam distrair-se.

Aquela rua tão socegada nos dias da semana, entregue simplesmente ao comércio das louceiras e das adeleiras, as suas únicas moradoras, era, no dia do descanso dominical, da parte da manhã, extraordinariamente concorrida.

Não havia portuense algum que, ao domingo, depois de tomar o seu cafésito, vestir as suas roupas domingueiras, não fôsse á velha praça do mercado dar um passeiosito e visitar os passarinhos.

Êste hábito estava tão arreigado nos portuenses de origem humilde, domingo que não tivessem dado por lá o seu passeio e matado o bicho com um copito de quatro na adega do Amaral (que, apezar de escondida no términus da rua, era muito concorrida pelos passarinheiros), ou na adega do Bolhão, não era domingo e uma contrariedade os acompanhava até ao anoitecer.

A rapaziada nova, folgazã, das freguezias mais populosas do Pôrto: Sé, Bonfim e Santo Ildefonso, que durante a semana, em consequência das distâncias que os separavam, não tinham trocado falas, lá se juntavam uns com os outros, discutiam alegremente sôbre vários assuntos e planeavam para a tarde grandes passeios e grandes pândegas. Enfim, aos domingos, o Bolhão era o centro escolhido do cavaco, onde todos os amigos, velhos e novos, se encontravam.

Realmente, aquele aspecto da passarada, das floristas, sempre solícitas para a freguezia, extremamente amáveis e delicadas ao colocarem na lapela dos casacos dos janotinhas as mais lindas e odoríficas flores, que muito caprichosamente expunham em tabuleiros á entrada da rua; a inquietação das cachopas gentis em seleccionarem naquelle jardim provisório os raminhos de mais atraente vista, convidava ir até lá.

As próprias sopeiritas, algumas formosas como a Venus de Milo, de aventais brancos, de cestos nos braços a abarrotarem de compras, todas desenvoltas como qualquer tricana da Lusa-Atenas, como qualquer morena simpática da terra dos doutores e da poesia, também procuravam a rua dos passarinhos para, em companhia dos guitas (antigos guardas municipais), de uniformes bem passados a ferro e botões reluzentes, ali passarem uma hora de felicidade e contentamento.
Todavia, o maior encanto daquela rua era a feira dos passarinhos. Prisioneiros em gaiolas, estendidas à carreira pelo chão e suspensas nos galhos de qualquer árvore mais frondosa, chilreando e saltitando de um lado para o outro, obrigavam os indivíduos menos interessados a pararem, e aguardavam que novos donos os transportassem para outra parte.

E todo aquele povo, em fraternal convívio, aos grupos, comentava, dizia da sua justiça sôbre este ou aquele canário, sôbre este ou aquele travesso.

Logo que nos propuzemos falar da velha praça do Bolhão, da feira dos passarinhos, não era justo deixarmos passar despercebido um outro entretenimento da populaça que a ela ocorria, quando necessitava.

Como é de todos sabido (claro está, dos indivíduos daquela época), o velho mercado tinha, como o actual, duas entradas principais: uma pelo lado sul (rua Formosa), outra pelo lado norte (rua Fernandes Tomás), com a diferença de que esta entrada não ficava ao nível da rua.

Por conseguinte, as criaturas que precisavam de se utilizarem da entrada para norte para darem ingresso na dita praça do mercado tinham de descer uma rampa em forma de X, que tanto comunicava com a "Rua Oriental do Bolhão", como com a rua que as galinheiras estacionavam para venderem as suas aves: galos, galinhas, perus e patos.

No meio da referida rampa, na parte mais saliente, nos dias de feira e aos domingos, os ceguinhos, encostados à grade de ferro que protegia um enorme tanque, que ficava da parte de baixo e vis-à-vis com a praça, onde o gado ia beber e as peixeiras lavavam as suas canastras, chamavam a atenção dos transeúntes para os seus fados tristes, para as suas modinhas, umas inspiradas nos crimes que de vez em quando se davam, outras, então, dedicadas mesmo às galantes costureiras e às criadas de servir.

E o povo portuense, de grande paixão por estas coisas, rodeava os ceguinhos, acotovelava-se para de mais perto ouvir aquelas quadras hilariantes ou as glosas sentimentais, que uma voz roufenha, sem timbre, mas cheia de ternura, tinha o poder de emocionar os corações sensíveis.

Depois, um dos tocadores - o que conduzia os cegos nas ruas - vendia, ao preço de cincoenta reis, todas aquelas cantigas impressos em pequenos folhetos. E toda aquela gente pacata, que tinha escutado com a máxima atenção os pobres cegos, comprava e retirava-se satisfeita.
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sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Jornal do Povo

Continuo aqui a publicar algumas descrições da coluna Jornais da Minha Terra, publicados por Alberto Bessa na 2ª, 3ª e 4ª séries da revista O Tripeiro. Desta vez é um outro jornal que, se bem que tendo curta vida, marcou ainda assim a época em que existiu; tendo nascido no final do romantismo e terminando já entrados os anos da Regeneração.

"Apareceu, no Porto, a 29 de Dezembro de 1848, um jornal intitulado e com o sub-titulo, devéras original, de: "Redigido gratuitamente por uma sociedade de cartistas". Sahia ás terças e sextas-feiras, dando aos sabados uma edição das provincias, bem como suplementos sempre que havia noticias interessantes a transmitir aos leitores. Publicou-se até 29 de Julho de 1854, sendo seguido pelo Lidador (...).

Era um periodico de regulares dimensões, em quatro paginas, a três columnas largas de composição, em corpo 10. O frontespicio era illustrado com uma gravura representando o Porto a apontar ao Douro o sól que vinha raiando por detrás das serranias, vendo-se na parte luminosa do fundo as palavras "Rainha e Carta". Os raios solares atravessavam os diversos signos do Zodiaco e iam perder-se nas nuvens que formavam como que a moldura da allegoria. No sólo via-se estendido o mapa de Portugal, e por traz da figura do porto havia uma oliveira. esta allegoria, embora não fosse de uma correção por ahi além, era menos mal trabalhada.

Não designava local de redacção, designando porém que se vendiam exemplares "na loja do Moraes, ás Hortas" e que a typographia era a da Revista, na rua de Santa Thereza, 3.

N'este jornal colaborou Camilo Castello Branco, que lá publicou alguns folhetins com o pseudonymo de Anastacio das Lombrigas. Um dos seus redactores foi José Athanasio Mendes, professor de latim e de francez, que Camillo affirmou ter sido "a personificação do sarcasmo" e "usar uns oculos que ao fitarem a gente queimavam como o espelho de Archimedes" (Procissão dos Mortos).

Foi n'este periodico que Camillo iniciou a sua contundente critica ao poema As commendas, de Antonio Ayres de Gouveia, critica que interrompeu na altura do terceiro canto d'esse poema, hoje rarissimo."