sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Que tem o Porto que ver com a viagem de Vasco da Gama à Índia?

Foi com alguma surpresa e orgulho que há poucas semanas fiz uma "descoberta" ao ler um artigo do historiador Amândio Jorge Morais Barros disponível on line; bem pelo menos para mim foi uma descoberta...

Creio que de uma forma geral os portuenses que se interessam pela história do seu país e mais concretamente pela viagem de Vasco da Gama e seus navios na célebre viagem de 1497, sabe que eles eram 4 e que se chamavam S. Miguel, S. Rafael, Bérrio e eram acompanhados por uma naveta (pequena nau) de mantimentos. Essa terá por ventura sido a viagem de maior glória para os descobrimentos portugueses e aquela que colocou Portugal como a primeira super-potência mundial (é preciso não esquecer isso!) durante algumas décadas...


Fernão Lopes de Castanheda, cronista que escreveu a História do descobrimento e conquista da India pelos portugueses, relata-nos o seguinte:

E como quer que El-Rei Dom Manuel assi como sucedeu nos reinos a El-Rei Dom João, assi também lhe sucedeu nos desejos que tinha de descobrir a India: logo aos dous anos de seu reinado entendeu no seu descobrimento, pera que lhe aproveitou muito as instruções que lhe ficaram de El-Rei Dom João, & seus regimentos pera esta navegação: & mandou fazer dous navios da madeira que El-Rei Dom João mandara cortar. E um que era de cento & vinte toneladas houve nome São Gabriel: & outro de cento São Rafael: & comprou pera ir co estes navios hua caravela de cinquenta toneladas a um piloto chamado Birrio de que a caravela tomou o nome. (...) E por quanto nos navios da armada não podiam ir mantimentos que abastassem à gente dela até três anos, comprou El-Rei hua nau a um Aires Correa de Lisboa que era de duzentos toneis, pera que fosse carregada de mantimètos até à aguada de São Brás, & ali se despejaria & a queimarião.

Estas duas naus principais, a S. Gabriel e S. Rafael foram construídas, nada mais nada menos do que no Porto, nas taracenas de Miragaia em 1496!

E conforme mais li, mais fui realmente me apercebendo que à época este era dos melhores, quiçá o melhor estaleiro do reino. Foi nele que a frota mercante do Porto fora praticamente toda construída e fora essa frota que colocara a cidade no panorama do comércio marítimo com os portos do mediterrâneo e do norte da Europa. Tendo sido esse mesmo comércio que fez o ex-feudo episcopal que era o Porto crescer, elevando-o à condição de segunda cidade do reino.

Quanto à construção naval no areal de Miragaia, com efeito, já desde meados do século XV (diz-nos Amândio Barros no seu trabalho) que o Rei fizera encomendas de navios a estes estaleiros, sendo que, ainda no início do XVI, um veneziano que enviava um relatório à Senhoria de Veneza (algum espião uma vez que Veneza foi uma das lesadas no trato com a mercadoria da Índia?) reconhecia serem as naus dos armadores portugueses maioritariamente construídas na Flandres, Biscaia e muitas poucas se fazem cá, e essas poucas no Porto.

Só na década de vinte desse século, com o advento da Ribeira das Naus em Lisboa, o Porto se viu privado da primazia na construção naval. E mesmo o início de actividade em Lisboa contou com muitos carpinteiros "importados" daqui, por serem os mais conceituados e sem dúvida dando formação - para fazer uso da linguagem atual - e orientando o arranque dessas taracenas lisboetas, que bem representadas estão em vistas quinhentistas e seiscentistas da cidade.

Como nota final, quero apenas acrescentar que terá sido por esta altura que D. Manuel terá transformado o postigo que dava para Miragaia numa verdadeira porta (a Porta Nova depois também chamada Nobre). E isto se vê pela passagem seguinte que faz parte das contas da Câmara do Porto de 1496 relacionadas com a despesa do alargamento da porta que dava para o estaleiro, para permitir a passagem da madeira e outros materiais: (...) coregimento do Postigo de Álvaro Gonçalves da Maia (...) por boa servintia das naus que se ora fazem de El-Rei nosso Senhor.

Não me alongo mais nesta postagem e convido todos os interessados a lerem por completo o artigo de Amândio Barros, onde o autor expande este assunto, focando inclusivé outros aspectos relacionados com ele. Podem lê-lo aqui: ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4803.pdf. Excelente artigo.