domingo, 13 de dezembro de 2015

Nota de Rodapé n.º3 - Os panos do teatro Baquet

"O primitivo panno de bôca, muito bem perspectivado, do extincto theatro Baquet, representava um varandim com duas cortinas apanhadas deixando vêr parte da antiga rua de Ferreira Borges com os edificios do Banco Commercial, a Bolsa e ao fundo a Igreja de S. Nicolau. Tinha sido pintado por um pintor de apelido Rocha.

Mais tarde foi substituido por outro panno cuja perspectiva era tirada do monte do velho Seminario, vendo-se a antiga casa do bispo, a fabrica de sabão, Roriz, e  palacio do Freixo. Avistava-se tambem o rio e na margem de lá parte do Areinho."


Texto in O Tripeiro, 1º ano, p. 54
Imagem: http://gisaweb.cm-porto.pt/


NOTAS:
1). Na verdade a rua Ferreira Borges não seria muito antiga aquando da inauguração do Baquet (não chegara ainda a meio século).
2). O edifício do Banco Commercial é o atual edifício do Instituto do Vinho do Porto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Quem adivinha onde é?

Bem, esta postagem é em certa medida um teste. Um teste para ver se eu ainda tenho seguidores por aqui, dado que tenho andado mais ou menos arredado do meu blogue, não o alimentando tão convenientemente como desejava. Tudo fruto de canalizar o tempo livre que sobra depois do ganha pão, para seguir com o projeto de um livro sobre o anterior convento dominicano do Porto (o qual nem sei se alguma vez nascerá!).

A imagem que apresento abaixo, é parte de uma fotografia em depósito na biblioteca nacional francesa. É minha intenção coloca-la numa postagem que está parada há uns tempos mas que está prometida para aqui colocar mais para a frente.

Creio que o local é fácil de identificar, não tanto exactamente o que lá se encontra. Então, quem me saberá dizer o que vê na sua frente, do lado esquerdo?




sábado, 3 de outubro de 2015

O "Porto medieval"

Frequentemente nos referimos ao Porto como sendo uma cidade medieval, especialmente no que toca ao bairro da Sé e seus arredores. Não obstante muitas das ruas da cidade intra-muros terem origens em caminhos e azinhagas medievais, elas não são actualmente de todo povoadas por casas da mesma época. As ruas mais antigas foram em boa parte demolidas (na Sé, a Cividade, Congostas, Banhos...) e as subsistentes realinhadas - a maioria nos meados do século XIX - para facilitar o cada vez maior tráfico de carros e depois de automóveis.

Quanto às casas, bastará ao transeunte dar uma passeata rápida pela cidade velha, mesmo nas ruas mais antigas do morro da Sé, para perceber que o edificado da habitação comum remonta, na sua maioria ao século XIX, algumas ainda ao século XVII. Serão muito poucos os resquícios dos séculos anteriores. E todas as que nos ficaram desde o século XIX para trás surgem já algo modificadas.

Não é isto de estranhar, e não é nenhuma desfeita nem desprimor para a nossa cidade! É que a esmagadora maioria das casas eram de madeira! Material que facilmente se degrada, e nós bem sabemos quão húmido é o clima portuense que se entranha nos ossos! Juntemos ao motivo passagem do tempo os incêndios (que numa cidade de madeira sempre garantia estragos de muita monta) e a simples vontade do proprietário em querer reedificar para obter melhores condições de habitabilidade, coisa que veio crescendo com os tempos.

Rua de Belomonte (foto: Porta Nobre)
É por isso, por exemplo, que já não subsistem casas com os famosos e comuns sobrados-ladrão medievais, ou as rótulas tão asseguradoras da privacidade que floresceram no século XVII e em finais do seguinte foram proibidas por facilitarem a propagação do fogo. Algumas destas características ainda podem ser admiradas em cidades como Guimarães ou Braga, onde subsistem exemplares isolados (ver foto abaixo).

À esq. Guimarães, à dir. Braga (foto: SIPA)
Restam também muito poucos resquícios das colunas ou esteios que sustentavam as habitações e no andar térreo abrigavam o mestre da intempérie, quando este descia da sua casa para trabalhar na loja ou botica. Casas que não teriam com certeza o aspecto europeu como ainda se vê em várias localidades da França, Alemanha, etc...

Na foto abaixo, de uma casa em recuperação da rua dos Mercadores, vê-se precisamente resquícios do tipo de construção usada na época medieval (e mesmo depois) e que dão o aspecto tão característico às casas daquele período que vemos na Europa central, diferente do mesmo em Portugal, pois no nosso país havia o hábito da a tapar pela argamassa, conferindo à fachada um aspecto uniforme. A casa, quando compartimentada, era-o por meio de frágeis paredes de tabique, com madeira ripada preenchida.

Método antigo de construção (fotos: SRU)
Muitas das subtilezas deste tipo de construir se perderam no tempo e são apenas conhecidas hoje por um punhado de pessoas interessadas por estes assuntos, nomeadamente algum arquiteto ou engenheiro que se interesse pelos métodos antigos da construção. Tive a oportunidade de conhecer algumas das nuances, muito interessantes por sinal, deste método de construir, junto de peças como as que se vêm na foto, mantidas pelo banco de materiais da câmara do Porto.

Os vestígios medievais que em melhores condições nos chegaram até hoje (e este condições é relativo...) são os pétreos. Precisamente aqueles que eram mais raros na época pelo seu elevado custo e que apenas se erguiam com autorização expressa e mediante determinados parâmetros. Construídas num material bem mais forte ao ponto de em algumas casas da época moderna partes das paredes ainda aproveitam lanços de muro dessas antigas edificações (como exemplo vejamos as fotos, que reportam à recuperação de duas casas na rua dos Mercadores). 

Casas da rua dos Mercadores (fotos: Porto Vivo)
Para terminar, faça o leitor comigo um pequeno exercício de imaginação, e coloque-se, no século XVI ou mesmo XVII, no areal onde agora existe o cais de Gaia, e olhe para o Porto. Verá com certeza habitações de menor altura, caiadas de branco ou já enegrecidas pela humidade... um mar de madeira povoado por ilhotas de pedra que eram as casas nobres, ou verdadeiras ilhas da mesma pedra que eram as igrejas ou conventos. Aqui e ali já se começavam a ver os primeiros solares ou palacetes. Atrás, a emoldurar o cenário, a cerca gótica com os vértices de Cimo de Vila e Olival, mais atrás o monte da Lapa ainda coberto de árvores. A este sim, ainda se poderia chamar de Porto medieval.

Contudo o Porto de agora, lindíssimo que é (a ficar cada vez melhor) de medieval apenas conservará o espírito, esse sempre vai pairar pelas ruas do Souto, Pelames, Mercadores, Bainharia... a lembrar-nos tempos passados onde cada rua, cada largo tem uma história para contar, uma lenda para conhecer.

domingo, 26 de julho de 2015

Aditamento à postagem anterior

Numa muito recente visita ao Arquivo Histórico e Municipal da Câmara do Porto deparei com uma planta de Fevereiro(?) de 1881 que serve como remate à postagem anterior. 

Nela se mostra que quando se iniciou a construção dos edifícios da Rua Mouzinho da Silveira, no tocante aos da sua face Poente mais próximo ao Largo de São Domingos, a última casa a ser construída foi a da esquina pois que ainda não figura na planta (imagem no meio) e assim por esse terreno se poderia entrar diretamente para as traseiras das novas casas. Não tendo ainda descoberto um documento que o refira, pelos alinhamentos das casas e plantas não é difícil verificar que essas traseiras deverão ser o que resta da antiga Rua da Biquinha que existia nesse local (já urbanizado desde os tempos medievais) e que foi obliterada da memória da cidade quando a nova rua foi rasgada naquela área.

Com a ajuda do Googlemaps e Bingmaps, verifica-se que essas traseiras ainda existem, algumas preenchidas já com edificações mas outras continuam sendo saguões, dos edifícios da nova rua!


A ser verdade, não é caso único. Já aqui referi o caso das casas da face nascente da antiga Rua de Elias Garcia (mais conhecida pelo penúltimo nome que teve, Rua de D. Pedro), que ainda lá estão mas escondidas pelas suas novas e mais modernas faces do passeio oriental da Avenida dos Aliados. E bem assim, conhece o autor destas linhas um saguão na mesma situação dos que aqui vimos, por trás do edifício nº 76 da Rua Nova da Alfândega, que poderá corresponder a um troço da antiga Viela do Calca-Frades. (Mas isso será para ver mais à frente...)

Voltando à Rua do Mouzinho, se em algumas dessas casas e seus pátios existir um espaço público (café, restaurante...) teremos o caso de se estar na Rua da Biquinha, mesmo não estando....
E eis que assim nos foram deixados estes pequenos negativos das ruas que as várias administrações camarárias foram suprimindo, sempre a fim do progresso social e económico da cidade; no fundo adaptando-a à realidade da época a que reporta a obra.

Esta rua (com as da Nova Alfândega e Sá da Bandeira), formavam uma via rápida de escoamento de produtos de e para toda a região. Infelizmente são hoje praticamente apenas meras ruas turísticas.

domingo, 12 de julho de 2015

Fugazes vislumbres de um Porto desaparecido

É inútil ao portuense interessado pela história da sua cidade tentar reproduzir - urbanisticamente falando - as fotografias que abaixo se apresentam, pois que a paisagem atual difere daquela em 90%...

Sabemos todos nós que nos interessamos pela história da nossa cidade, que a abertura Rua Mouzinho da Silveira veio destruir por completo bastantes edifícios e alguns arruamentos.
Construída em duas fases, na 1ª foi rasgada de São Bento até ao topo da Rua de S. João, finalizando onde se erguia a Capela e Hospital de São Crispim (ambos arrasados para se poder alinhar convenientemente esta rua que vinha dar novo ânimo à ligação da parte alta com a parte baixa da cidade, sobretudo com a nova Alfândega que entretanto fora inaugurada no lugar do antigo areal de Miragaia).

Nesta 1ª fase, a rua esteve para se chamar Rua Nova da Biquinha, pois que a Rua da Biquinha era o principal arruamento que ela veio fazer desaparecer; pequeno e esconso arruamento aliás, herdeiro do traçado medieval da cidade.

Na sua fase 2, a Rua Mouzinho da Silveira destruiu a antiquíssima Rua das Congostas (ou Cangostas na linguagem mais popular), uma rua talvez de aspeto idêntico à Rua dos Mercadores e que fizera por séculos a ligação entre o importante Largo de São Domingos (ponto central da cidade até ao advento da Praça Nova), com o rio e a alfândega primitiva. O nome da rua antecessora esteve para ser mantido mas no final esta ideia não preservou. Tudo o que resta da Rua das Congostas são 5 casas não demolidas por desnecessário para o novo alinhamento e outras, apenas parcialmente expropriada e que tiveram novas fachadas dada a necessidade de realinhamento com a nova rua (ver AQUI ).

Ficou-nos uma imagem da fonte que existia ao fundo das Congostas, no seu local mais largo, sensivelmente onde hoje inicía o passeio esquerdo da Rua Mouzinho da Silveira (na foto abaixo se vê a a fonte e o edifício por trás dela que também já não existe e tinha frente para a Rua do Infante).


Contudo, subsiste ainda uma imagem que nos mostra a outra entrada desta rua; ou seja, o local onde ela desembocava na Rua da São João. Esta foto pertence ao espólio da Biblioteca Pública Municipal do Porto e foi tirada aquando da visita do imperador do Brasil, D. Pedro II a Portugal.

Uma outra imagem ainda mostra-nos a Capela de São Crispim provavelmente tirada pelo mesmo fotógrafo da anterior mas que só conheço por ter sido publicada n' O Tripeiro conjuntamente com a anterior (daí advém aliás a fraca qualidade dela).



Ora analisemos o que temos aqui:
- A seta vermelha aponta para a entrada da Rua das Congostas, no cunhal com São João;
- O traçado reto vermelho mostra o alinhamento da nova rua a construir, ou seja, Mouzinho da Silveira;
- A seta verde aponta para o edifício que terá sido demolido aquando do reperfilamento da rua das Congostas;
- A seta azul aponta à entrada da Rua da Biquinha;
- Finalmente o circulo verde mostra-nos a Capela de Sã Crispim no seu local original conforme aparece nas plantas, sendo a única foto que conheço dela. Depois de demolida, foi reerguida ao cimo da Rua de Santos Pousada já na parte nova da cidade (esta instituição é das mais antigas da cidade e ainda perdura!).

Em baixo, com a ajuda da ferramenta google maps, vemos o local como se nos apresenta nos dias de hoje:


Falta explicar a seta amarela na primeira imagem. Esta representa um edifício com frente para o Largo de São Domingos, que em conjunto com os edifícios do passeio oriental da Rua de São João nessa mesma foto, são a única coisa que subsiste ainda hoje. (em baixo, e recorrendo desta vez à ferramenta bing maps).


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Em nota final permitam-me diferir da opinião de Germano Silva (Aqui) em relação a Rua de Sousa Viterbo como a moderna "herdeira" da Rua das Congostas, quer pelo que acima vimos sobre o perfil da fase 2 da Mouzinho da Silveira, quer mesmo pelo facto de que a Rua Nova de São Domingos (o seu nome original) ter sido rasgada em 1872 por terrenos onde se erguera a Capela da Senhora das Neves (demolida ainda no século XVIII), o transepto de igreja gótica dominicana, sacristia, claustro, dormitório, etc (demolidos em 1865). Eram essas estruturas que ficavam paredes meias com as traseiras das casas da Rua das Congostas, que deste lado foram foreiras aos dominicanos até há extinção do convento em 1832.

Uma retificação no artigo citado acima que creio urge é a referência à demolição da fonte de São Domingos para construção da Capela da Senhora das Neves. Na realidade a Capela da Senhora da Escada (seu nome original) é séculos anterior ao chafariz. Este foi construído a expensas da Câmara para aproveitar alguma da água que ia para o convento dominicano e em concordância com estes, em meados do século XVI. Para além desse facto, enquanto coexistiram estiveram distanciados cerca de 20 metros (na foto acima a estrela amarela mostra a localização do chafariz e a verde a localização aproximada da Capela da Sr.ª das Neves).

Depois da retirada deste chafariz em 1845, foi construída uma fonte que ficou embutida no edifício que durante largos anos foi montra da Papelaria Araújo. Mas mesmo dela, tudo o que resta no local é o "moldura" de pedra que se pode ver na montra.


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Fontes das imagens:
- O Tripeiro (primeira série);
- O Tripeiro (quarta série);
- O Porto e os seus fotógrafos (livro);
- Arquivo histórico municipal do Porto.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

"O pica do 7" sim, mas.. do verdadeiro 7?

Creio que toda a gente conhecerá esta bonita música interpretada por António Zambujo mas escrita por Miguel Araújo, que há poucos dias ganhou (e muito bem) um prémio. São músicos e musicas de qualidade, que cantam EM PORTUGUÊS e são dignos sucessores de outros como por exemplo Rui Veloso (isto para ser tendencioso e falar dos que são da minha terra).

Desta música foi recentemente lançado um video, bonito, singelo, adequado com aquilo que a música exige. Não pude contudo deixar de reparar que foi filmado em eléctricos de Lisboa, o que aos olhos de um portuense mais atento soará desenquadrado. Esse pormenor não retirando absolutamente nenhum valor à obra, bem que poderia ter sido feito aqui no Porto, nos eléctricos que verdadeiramente andaram no verdadeiro 7.

Esta linha seguia da Praça da Liberdade até à Ponte da Pedra e foi extinta nos anos 70 e ainda o 7/ e 7// linhas com início e/ou termino diferentes da sua linha "mãe" mas que no essencial faziam o mesmo percurso (eu ainda percorri muitos Km na 7, mas já de Volvo e com máquinas de obliterar, menos propensas a acalorar o peito de jovens donzelas...).

Não obstante, isso não tira nenhum valor à música e aos músicos! Mas como este pensamento me aflorou à cabeça mal vi o video, serviu-me a ideia deste post de mote para desempoeirar aqui a "casa", que já estava com as portadas fechadas há mais de um mês.

Abaixo deixo uma foto, talvez dos anos 60, que mostra um eléctrico a fazer a linha 7 em Arca de Água.

NOTA: Este eléctrico, com o n.º de matrícula 128 é um dos Brill 23 que vieram, novos, de Filadélfia em 1909, 1910 e 1912. Embora este tipo de eléctrico se apresentasse obsoleto logo nos anos 30 do século passado, ainda assim a CCFP (antigo nome da STCP) construiu vários usando o mesmo chassis e caixa até aos anos 40. Daí a grande admiração e "romaria" de entusiastas destes transporte a Portugal desde os final dos anos 50 até quase ao presente; para verem estas relíquias em funcionamento que já só se podiam ver nos filmes a preto e branco nos outros países que os usaram.

NOTA: Desconheço o autor desta foto. Ela foi-me cedida há uns bons anos por um conhecido, apaixonado pelos eléctricos. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Porto ?

A gravura abaixo pretende representar a cidade do Porto nos meados do século XIX.

Se não tivesse legenda, reconhecia nesta gravura o Porto?...

Seja qual for o valor artístico intrínseco à mesma - aliás, sempre aberto a discussão - é em minha opinião um muito fraco exemplo, por ventura o mais fraco quando comparado incluso com imagens da mesma época e produzidas da mesma forma, que não sendo perfeitas, qualquer portuense consegue nelas reconhecer a sua cidade (vejam-se abaixo dois exemplos distintos de maior ou menor fidelidade à realidade).

Num época da humanidade em que ainda não havia a facilidade e celeridade de comunicação que hoje temos, onde o telégrafo era uma inovação tecnológica e se começavam a iluminar as cidades com gás em substituição da mortiça luz do azeite e onde aos poucos o vapor se ia introduzindo de uma forma regular na navegação mas os carros de bois continuavam a imperar nas estradas; esta seria pois a imagem fantasiosa com que muitos indivíduos ficariam da cidade do Porto gravada nas suas mentes...

Eis uma outra panorâmica que se pode classificar como já tendo um certo grau de semelhança com a cidade, muito embora os edifícios se encontrem desenhados com alguma fantasia, sobretudo o edificado completamente amontoado e atulhado.



E esta outra, onde a realidade está bem mais próxima, ainda que com um certo grau de erro perfeitamente aceitável.


domingo, 15 de fevereiro de 2015

O Cais do Bicalho


Parcial de uma fotografia da Foto Guedes que mostra o Cais do Bicalho, fundeadouro habitual da corveta Estefânea (na foto e que seria destruída pela cheia de 1909). Tudo aparentando ainda um viver algo campestre e bucólico mas já condenado a desaparecer pelo crescimento incessante da cidade.


O mesmo local num destes dias de Fevereiro: nota-se a regular simetria do betão que sustenta a E.N. 12, o antigo armazém frigorífico do Bacalhau (agora adaptado a edifício de apartamentos) e no topo do morro a Faculdade de Arquitectura.

domingo, 25 de janeiro de 2015

A antiga fábrica do Gás no Ouro

Abaixo podemos ver o que resta na actualidade dos edifícios pertencentes à antiga empresa de fabrico do gás que durante várias décadas iluminou a cidade do Porto. Podemos compará-la com a imediatamente abaixo, antiga, que apresenta a fábrica no seu auge, fornecendo a electricidade para abastecimento da cidade.


É claro que a fábrica não nasceu logo com esta configuração. Antes foi sendo ampliada e modificada consoante as necessidades que a empresa apresentava, provocadas pelo constante aumento de energia demandada pela cidade.

Em 1855 contudo, este local ficava ainda muito longe da cidade. Talvez por isso ela se tenha estabelecido aqui. Pelo baixo valor dos terrenos(?) e pela segurança que dava a grande distância a que se encontrava, um pouco como a Refinaria de Leça nos anos 50 do século XX(?).

Um dos edifícios deste conjunto, porventura o mais antigo, foi instalado ao lado do já existente gasómetro e teve a sua planta aprovada na Câmara em Agosto de 1856 (é o que vemos abaixo).


Este edifício felizmente ainda existe, como comprovamos pela imagem abaixo.


Ao seu lado, subsiste também um outro edifício, este já mais moderno, que resulta da necessidade da fábrica de produzir electricidade. A sua planta foi aprovada na Câmara em Fevereiro de 1907.


Eis parte da planta:


E a memória descritiva constante na planta submetida:

"Os edificios destinam-se á installação dos geradores e motores destinados a fornecer a corrente para illuminação electrica da cidade.
O edificio para sala das machinas terá dois pavimentos.
O edificio para sala dos geradores e compartimentos annexos terá um só pavimento.
A chaminé será construida de alvenaria de tijollos e terá 38 metros de altura approximadamente acima do solo.
As fundações dos edificios serão feitas de alvenaria hydraulica, de granito.
As paredes em elevação serão de alvenaria de tijollos, rebocadas e estucadas no interior e com tijollos á vista no exterior com excepção dos soccos, pilastras e entablamentos que serão guarnecidos imitando cantaria clara.
As paredes levarão uma structura metallica composta de prumos em ferro laminado, os quaes supportarão as asnas egualmente feitas em ferro laminado, assim como as madres, varedos e ripas que serão do mesmo metal, com excepção das madres, forro e ripas da sala das machinas que serão de madeira do norte.
Os edificios para armazem d'oleo, vestiario e WC1. annexo á sala das caldeiras, levarão na parte superior um terraço feito com vigamento de ferro I, abobadilhas e betonilha de cimento.
A cobertura será feita com telhas ceramicas do typo de Marselha.
O pavimento intermediario da sala das machinas terá vigamento de ferro I, abobadilhas de tijollos e ladrilhos mosaicos hydraulicos.
Os pavimentos terreos serão feitos com betonilha de cimento e beton hydraulico.
As escadas interiores serão de ferro, assim como a ponte circulante.
Os massiços das machinas, geradores, conductas de fumo, cisternas, serão de alvenaria de granito ou tijollos.
As portas e janellas serão de madeira de riga.
As claraboias das coberturas serão cobertas com vidros.
A canalização das retretes será feita em harmonia com os regulamentos sanitarios e posturas municipaes.
A parte superior das fundações levará uma camada de asphalto de 0,m025 de espessura."

A forma desta não é totalmente condizente com a que se nos apresenta na actualidade, fruto de alguns acrescentos posteriores. Como observação, não podemos deixar de notar a similaridade arquitectural exterior do corpo principal deste edificado, com a Central Termoeléctrica de Massarelos da CCFP, datada sensivelmente na mesma época.

Para terminar, deixo mais duas imagens das estruturas subjacentes e um apelo: Na zona mais afastada deste conjunto, mais próximo do palacete, uma pequena parte da área onde estiveram as retortas do gás, ainda é usada para actividades desportivas. Poderá algum dos leitores indicar por qual "colectividade"?



Fontes:
- Arquivo Histórico e Municipal do Porto
- Blogue Monumentos desaparecidos
- Bingmaps
- Algumas fotografias do autor

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Nota de rodapé n.º 2 - A definitiva organização da cidade

No primeiro ano da revista O Tripeiro (1908-1909) surge publicada a obra do Dr. Ricardo Jorge intitulada Origens e desenvolvimento da população do Porto. Nele, a pp, 248 encontramos a seguinte nota de rodapé, que mais curiosa se torna quando a lemos à luz do século XXI, tendo em conta todo o século que sobre ela permeia:

"... Recentemente rasgou-se, por accôrdo da Camara e Governo, uma estrada de circumvallação, que obrigou a uma nova limitação municipal, exarada no decreto de 21-11-95 (Diario n.º 267), que encorporou no Porto as freguezias de Ramalde, Nevogilde e Aldoar, todas do concelho de Bouças, já pelas annexações anteriores despojado para o alargamento da cidade.

A organisação actual é muito viciosa e criticavel; confere ao municipio uma área desproporcionada, retalha a freguezia de Campanhã, cortando metade já incluida no Porto desde 36, emfim faz discordar a divisão administrativa da divisão parochial e ecclesiastica, o que é inconveniente sob todos os pontos de vista, e particularmente para a estatistica.

Entretanto temos defronte a visinha Gaya, intimamente relacionada com o Porto pelo seu passado e pelo seu commercio, hoje ligada por duas pontes, que bem devia formar corpo com a cidade, um Porto occidental."

Olhando ao texto do autor que deu origem a esta nota de rodapé, este elucida sobre o como era a cidade anteriormente a 1895:

"... Os suburbios enredados pelos braços de polvo das ruas irradiadas da cabeça da cidade, tornam-se citadinos; o municipio absorve as freguezias cirundantes. Até 1836, consta o Porto propriamente de sete freguezias, Sé, Victoria, S. Nicolau, Santo Ildefonso, Miragaya, Massarelos e Cedo'feita. Pelo decreto de 26-11-36, foram-lhe annexadas Lordello do Ouro, Campanhã e S. João da Foz; e por carta de lei de 27-8-37, nova annexação, a de Paranhos.

...Santo Ildefonso, d'uma área enorme, foi desmembrada, creando-se á sua custa uma nova freguezia, a do Senhor do Bomfim."

Assim, vemos resumida, a expansão em área da cidade do Porto, em poucas linhas e torna-se (pelo menos pelo autor deste blogue) um pouco mais claro o porquê de nos jornais do início do século XIX se designar como suburbanas as freguesias de Massarelos e Cedofeita; porque o eram de facto.

sábado, 17 de janeiro de 2015

A Fábrica do Tabaco

Num jornal pesquisado há uns largos meses, e do qual infelizmente não registei o nome, encontro o anúncio da arrematação da Fábrica do Tabaco, que deu nome à Rua da Fábrica do Tabaco (que já naquela altura assim se chamava). Neste terreno estão hoje edificados alguns bonitos edifícios e bem assim o famoso Hotel de Paris.

Segue a transcrição:

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Para o dia 19 de Março d'este anno
de 1860
ARREMATAÇÃO VOLUNTARIA
de
TODO O EDIFICIO
da
ANTIGA FABRICA DO TABACO
Na caza das arrematações, rua do Almada, n.º 66, escrivão Lima

O todo d'esta grande propriedade compreende 7 moradas de cazas com um grande quintal e agua, com frente para a rua de Santa Thereza, desde o n.º 27 até ao 31, continuando para a rua da Fabrica do Tabaco desde o n.º 1 até 5, - faz volta para a Travessa da Fabrica do Tabaco desde n.º 1 até o fim do muro do quintal; tendo por medição no lado nascente, de norte a sul, 225 palmos - pelo poente, de norte a sul, 277 palmos - pelo norte, de nascente a poente, 177 1/2 palmos - e pelo sul, de nascente a poente, 188 palmos.

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Acreditando que esta arrematação tenha levado à demolição do edifícado e posterior edificação de muito do que ocupa essa área atualmente, mas não conhecendo de todo a história desta fábrica (apenas que a mesma fora estabelecida no século XVIII), convido a qualquer um dos leitores que por aqui passe a deixar mais pormenores sobre ela.

Deixo contudo um extracto do que Agostinho Rebelo da Costa refere sobre esta fábrica no seu livro de 1788:

"Dirige-se por dous Administradores: o primeiro he o Caixa, Inspector do Escriptorio, em que trabalhaõ quatro Escripturarios, com hum Guarda livros, e tem cinco mil cruzados de renda: o segundo tem hum conto de reis, e he o que assiste na Fabrica. No trabalho desta occupaõ-se mais de cem pessoas; umas nos fornos, e esfolha; outras nos piloens e engenhos; e o resto na empapelaçaõ, repartiçaõ, arrecadaçaõ, &c. (...) Todos os dias, excepto nos feriados, coze-se a folha do tabaco em quatro fornos, que algumas vezes naõ bastaõ. Fazem-se tabacos das seguintes qualidades: Cidade, Somonte verde, Somonte amarelo, Esturro de côr, Esturro preto.

(...) A causa de ser geralmente mais reputado o tabaco do Porto, que o de Lisboa, procede, de que no Porto cozem-se fornadas mais pequenas, e a lenha para os fornos naõ he de pinho, mas de mato, cuja flor, e rama communica ao tabaco hum cheiro suavissimo.

De Salarios miudos paga esta fabrica em cada anno doze mil cruzados, e passaõ de trinta mil, os que saõ Salarios de portas a dentro, naõ fallando nas despezas do papel, grude, mato, e outras miudezas, que importaõ grande cabedal. (...)"

domingo, 11 de janeiro de 2015

A "Praça da Constituição" à época da Revolução de 24 de Agosto de 1820

Nas primeiras décadas do século XIX, a imprensa começava a dar os seus primeiros passos e um pouco por todo o lado iam surgindo publicações periódicas, a esmagadora maioria delas de vida efémera. No Porto, um ano após a revolta de 1820 um dos jornais existentes era o Patriota Portuense.

Longe ainda do tipo de publicação que veremos surgir nos anos 40 e sobretudo 50 daquele século, nele se notam contudo já algumas notícias locais, ao invés da simples publicação de Decretos ou notícias de carácter nacional do Reino Unido (de Portugal e Brasil, entenda-se). E nele se começavam a ver também publicadas as correspondências de leitores que aproveitavam para mostrar o seu descontentamento com aspectos e modos como eram conduzidos os assuntos da cidade.

Nos dois artigos abaixo essas mesmas opiniões servem, na actualidade, como pequenas janelas para um Porto que começava, por fim, a expandir-se para fora das suas muralhas medievais, mas onde Massarelos e Cedofeita eram ainda denominados de subúrbios... 
Neste contexto, a actual Praça da Liberdade iniciava o seu processo de regularização, ainda de forma tímida, muito longe da de hoje, processo esse que só viria a estar concluído com a construção do edifício do Banco de Portugal e a demolição dos palacetes camarários do topo norte, para abertura da Avenida dos Aliados....



Mas vejamos então quais eram as "polémicas" à volta da Praça da Constituição, em 1821.
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Patriota Portuense, 24  de Novembro
«CORRESPONDENCIA de um tal Braz Cata-cego

Em 23 de Dezembro no anno proximo passado he que se publicou a Portaria da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino para que a Praça Nova se chamasse, para o futuro, Praça da Constituição; que, no lugar mais accomodado da dita Praça, se levantasse hum Monumento, executado em pedra, com desenho que melhor possa exprimir o grande acontecimento do memorando Dia 24 d'Agosto; e para que a Praça se aformoseasse mais e tivesse extensaõ e capacidade necessaria para este objecto, se demolisse o edificio da Natividade: recommendanndo-se á Illma. Camara que puzesse em pratica tudo o que já d'antes se achava determinado a este respeito, a fim de que esta utilissima obra se naõ demorasse.

Tem decorrido quasi hum anno, e só vimos trocar-se a denominaçaõ da Praça, sem solemnidade alguma, porque o Regimen Constitucional naõ admitte ceremonias. Em quanto a Monumento e demoliçaõ do edificio, fica para a resurreiçaõ dos capuchos; pois que agora ha falta d'operarios e resurgindo aquelles haverá gente para tudo. Bemdito seja Deos, que assim se executa o que hum Governo determina!

Mas, Sr. Redactor, como a obra está embarrancada naõ se ha de perder tudo, visto que se lhe deo começo in illo tempore que a pedra, dahi tirada, dava para aquillo com que se compram os meloens: bem haja quem he dotado de astucia, que em ninharias faz dinheiro, e o tempo só está para pouquidades! Portanto lembro que se deve conservar aquela tapagem que se acha na obra (que he bem bonita!), e acabando-se de terraplanar o sitio da fonte, tem a cidade Regeneradora hum côrro para touros, cavallinhos, ursos e elefantes, com que os forasteiros nos armam ao dinheiro: desta sorte naõ nos incommodaraõ pelas ruas com os seus bicharocos e gaitas de fole, e jámais se hiraõ hospedar com elles em casas de pasto, habitaçoens improprias para tal canalha: as janellas servem para as Senhoras, como mais medrosas; e para os homens faz-se um tablado no logar da varanda: esta lembrança naõ he para desprezar, porque além da commodidade destes aventureiros da santa conveniencia, serve de chamariz para as lojas do bom e barato: e he de esperar que ella tenha a breve decisaõ que tem tido as memorias e modélos para a construçaõ do dito Monumento.

A Illma. Camara fez certamente o que devia em renovar e ornar os Paços do Concelho em quanto o cofre tinha churume: em verdade, o interior do edificio tem bellissimas pinturas, gosto delicado nos tectos estucados, magnificos reposteiros, portas com ricos entalhos, &.c; o exterior (aqui torce a porca o rabo!) he justissiamemnte como hum homem vestido á sebastianista, com hum chapéo de copa alta (á constitucional) com huma pluma em cima, que he a primorosa e excelente estatua do Porto que, na sua maõ-d'obra escusava tanta delicadeza para tanta altura. Porém, Deos perdoe a quem fez tal judiaria; que, depois de feita a tal obrinha, deo pêco no cofre da Cidade, que não anda para traz nem para diante... (...)


Patriota Portuense, 29 novembro
CORRESPONDENCIA de resposta ao tal Braz Cata-cego

Estranhei que no N.º 279 do seu Diario o Correspondente Braz se apellidasse Cata-cego, quando ele tem olhos taõ espreiteiros! Porém se todavia elle he pesquisador, ainda lhe escapulio da lembrança advertir o seguinte:

Ha mezes affixou-se hum Edital para derrubar as barracas da Feira no tempo peremptorio de oito dias; mas o tempo determinado foi-se, e apôs elle decorreram mezes, servindo o Edital só para opprimir esquinas!

Pode ser que estorvasse esta providencia alguma medida politico-lucratoria que as descaradas Regateiras arranjassem com seus embustes, pois que para isso saõ amestradas; porém dado que assim fosse saõ ellas diabolicas feiticeiras, capazes até de virar o mundo com o debaixo para riba! Eu as esconjuro; porque temo mais seus feitiços do que suas pragas, baldoens e bravatas. Mas, Sr. Redactor, pela chibança das Regateirinhas ha de valer hum cominho o Edital dos Srs. Juizes Almotaçés, e o seu conteúdo ter o privilégio do caranguejo? e nós se quizermos transitar naquele sitio, havemos de vêr-nos abarbados com encontroens, e alcançarmos indulgencia plenaria para sahir delle!

Eu conheço que as taes barracas servem de embelezzar a nossa Cidade, pois que nos apresentam hum retalho das ruas de Constantinopla; mas o Brigadeiro N. Trant, naõ lhe importando belezzas, pespegou com ellas em terra a despeito das mesinas, caramunhas, e feitiços das guapas Regateiras. Elle tudo podia; porque além de pouco se lhe dar que galrassem, nao temia feitiços, por nelles naõ crêr como Protestante e naõ Catholico: assim, fazia sempre o que premeditava. Ora, eu naõ quizera desmanchar prazeres: mas se os taes casebres de madeira, são proprios só para os Turcos, mandem-se-lhes para lá os donos dos de cá, e a Justiça que os consente; assim ficariamos livres dos taes empecilhos, e naõ se embespenharia e nausearia o publico contra a falta de execuçaõ do celebrado Edital!

(...) Bem lembrado catará de quando todos os Vendedores e Vendedeiras dos mercados andaram em bolandas; ei-los já para aqui, ei-los já para alli, ei-los outra vez para cá, ei-los outra vez para lá; até que por fim todos tiveram o seu paradeiro.

Na Praça de Santa Tereza ficaram os padeiros de paõ de milho (vulgo brôa): tanto huns como outros foram despedidos da Praça da Constituiçaõ, para aquele lugar ficar amplo, não só por ser de muito transito, mas para se fazer a parada, render-se a guarda principal, &.c: muito boa providencia, esclamaram todos; porém muitos dias naõ eram passados, quando atraz do tanque desta Praça se viram encouchadas algumas padeiras do paõ de brôa; e como ahi se demorassem algum tempo, sem que a justiça dos Almotacés s enxergasse (pois que todos andam cegos com estas cousas), foram-se plantar com toda a cachimonia no sitio donde tinham sahido as padeiras do paõ molete; e lá se conservam muito empertigadas nas suas tripeças. As vendedeiras da sardinha, do bacalháo podre, das quentinhas, e algumas de molete, como lhes naõ fizessem bom gazalhado onde estavam, mui arteiras se fincaram ao pé das outras; e ahi temos a entrada da Praça entulhada com hum mercado de mixtiforios! Como alli hajam filhos de muitas mãis, chovem por conseguinte os improperios, pulhas, chufas, pragas e tudo o que he contrario á decencia e bons costumes: e isto no centro da Cidade onde continuamente passam familias e pessoas honestas!

(...) A Camara (composta de Fidalgos!!) está quasi a expirar-lhe o prazo de sua governança; veremos agora se, com estas Viravoltas Constitucionaes, temos Camara Constitucional (...); então veremos, executando-se o que hum Governo Constitucional determinou, derrubar-se o encantado edificio da Natividade, e alevantar-se o esquecido Monumento Constitucional; veremos tambem publicar-se as contas do cofre da Cidade, porque, se elle lhe pertence, he inconstitucional occultar-se sua receita e despesa (...).»

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Nota de rodapé n.º 1 - A Porta das Mentiras

"A 16 de Abril de 1788, António José Simões Pereira, escrivão do registo do Juízo Eclesiástico, (...) pediu à Câmara a demolição do postigo, pois este «se achava ameassando evidente prigo por ter em sima do arco uma parede muito arruinada, e parte de outra do lado nascente ainda mais, sendo a passagem de degraus muito violentos, e alguns desses se tinhão demolido e com a próxima invernada se arruinarão mais o que tudo concorria para fazer muito violenta aquella serventia que he muito frequentada». O escrivao e os seus vizinhos ofereciam-se para custear a demolição do arco e substituir os degraus por uma rampa; assim, as liteiras e as cadeirinhas poderiam descer com toda a segurança para o Codeçal e Ribeira."[1]

Início da descida para o Barredo através das Escadas das Verdades, na atualidade [foto A PORTA NOBRE)
Creio que esta porta ou postigo foi no século XI e XII a chamada porta da traição, comum a outras muralhas coevas, que em algumas localidades ainda subsistem por não terem sofrido a pressão modernizadora a que o Porto sempre esteve sujeito (Ajudou-me a chegar a este pensamento o artigo do Dr. Ferrão Afonso publicado em 2004 na revista O Tripeiro, sobre o muro velho: Às voltas com a cerca. Este postigo constituiria assim, na fase original da cerca românica, a única entrada para o burgo a par com a muito mais importante Porta da Vandoma. As portas de São Sebastião e de Santana serão portanto posteriores a elas. O próprio nome inicial desta porta - Porta das Mentiras - talvez se relacione diretamente com a expressão porta da traição.

Local onde existiu o arco da Porta das Verdades, último nome da anteriormente chamada Porta das Mentiras (foto A PORTA NOBRE)

Logo depois de passarmos esta porta, o caminho flete para a esquerda, onde mais abaixo se cruza com um outro arco que ainda hoje é muitas vezes denominado Arco das Verdades. Na realidade trata-se apenas de um arco do aqueduto que levava água canalizada ao colégio jesuíta situado na plataforma das Aldas.

O "Arco das Verdades" visto do local onde se situou a verdadeira Porta das Verdades. Veja-se que do antigo aqueduto subsiste um outro arco também visível na foto; bem como um outro completo e outro pela metade, visíveis no paredão que continua para nascente mas não visíveis aqui. (foto A PORTA NOBRE)

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1- Da pág. 7 do livro electrónico Morro da Sé - De Porta a Porta, editado pela PORTO VIVO, tendo a mesma provindo do trabalho de António Jorge Inácio Fernandes com o título A Rua dos Cónegos: um espaço socio-arquitectónico no Porto setecentista: tese de mestrado apresentada em 2006.

* Postagem reformada em 24-07-2017 *