sábado, 31 de dezembro de 2016

A Boca do Inferno

Há umas semanas atrás, pesquisando nos livros que chegaram aos nossos dias do convento franciscano sobre locais e acontecimentos que os ligam aos dominicanos, encontrei uma referência curiosa a uma estrutura a que chamavam a Boca do Inferno.

Sem mais delongas apresento o texto tal como escrito pelo reformador do cartório no início do século XIX. A explicação virá a seguir:


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A BOCA DO INFERNO
Era este lugar da boca do inferno o sítio em que estava uma espécie de depósito de água em que se repartia a Manuel Cirne, senhor das casas que ficam mais chegadas a este convento, por trás da capela-mor.

Aquele depósito ficava sendo a bacia de um muito alto poço de pedra que tem a sua superfície na altura do segundo dormitório da parte do nascente, ao lado esquerdo do principio das escadinhas que antigamente serviam para ir ao campanário, e também para o telhado da igreja; como servem ainda hoje [c. 1820]. Este poço corre bem por trás da capela de Santa Luzia, ou altar da Trindade, e se observa pela frente do lado do evangelho da capela de Santo António.

Com o andar do tempo se fez inútil para todos este poço que em toda a sua altura tinha vários postigos ou frestas para lhe comunicar luz, e ar, e por fazer-se assim inútil e também perigoso, se entulhou todo em 1816 até ao lugar com que hoje se acha na superfície um passadiço para se compor quando é necessário, o telhado da dita capela de Santo António, ficando ainda à vista cousa de dez palmos [2,2m] que mostram qual é a extensão e forma do referido poço entulhado cuja bacia ficava na mesma altura, pouco mais ou menos, do atual plano da sancristia da nossa igreja.
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Perguntarão os leitores onde ficava então a Boca do Inferno. Melhor do que palavras talvez a imagem que aqui coloco nos dê uma ideia do local onde estava este poço. Não seria de estranhar se parte dele ainda lá esteja bem fundo entulhado na sapata que sustenta a capela-mor da igreja conventual.

1 - Capela de Santo António; 2 - O que resta das escadas para ir ao telhado; 3 - alinhamento antigo do convento; o X marca o local onde creio existia este poço.
Porque foi colocada esta descrição explicativa no tombo dedicado à água do convento? Bem, ela surge a seguir a um documento de 1704 que o refere, quando os frades cederam a um António Pereira Chaves a água que fora da casa de Manuel Cirne (este Manuel Cirne é um famoso portuense feitor na Flandres e um bom artigo sobre ele podem os interessados encontrar AQUI).

Contrariamente por exemplo aos seus congeneres dominicanos, o convento da Ordem dos Frades Menores foi sempre alimentado por uma boa nascente de água que provinha desde lá de cima do campo do meloal, sensivelmente onde existe hoje a zona da Trindade. Por canos vinha ela até ao convento e nessa boca do inferno infiro que fosse armazenada. Realmente essa fonte deveria ser abundante e de boa qualidade, pois os franciscanos para alem de cederem uma pena dela a Manuel Cirne também o fizeram aos padres lóios e aos dominicanos, conventos por onde passava o seu cano. Mais tarde cederam também água à Ordem Terceira, nomeadamente para o lavatório da sacristia e para o seu hospital na rua Comércio do Porto.

As casas de Manuel Cirne estiveram localizadas junto ao lado sul da cabeceira da igreja e englobaram o terreno que se encontrava por trás da capela-mor, cedido em 1529 por ser "lugar estéril e que não aproveitava cousa nenhua ao dito mosteiro, antes fazia dano e fedor, por assim se fazer ali monturo e se poderia fazer outras cousas ilícitas e deserviço de Deus".

É interessante cruzar esta informação com a tese do Dr. Manuel Real, antigo Diretor do Arquivo Histórico, de que os arcos que se vêm nas traseiras da capela-mor na celebre imagem desenhada em 1839 de James Holland, seriam possivelmente remanescêcias de um criptopórtico, localizando ali o Fórum da Cale romana. Modestamente confesso que não partilho da mesma opinião e creio que o documento de aforamento a Manuel Cirne da sua casa bem como esta boca do inferno e umas sepulturas medievais descobertas em 1871 em frente à porta principal do Palácio da Bolsa também poderá elucidar melhor sobre esta questão.

1 - Arcos em questão; 2 - "segundo dormitório" (ainda não existe o Palácio da Bolsa); 3 - inicio das casas da rua Infante D. Henrique (onde hoje está a entrada do parque de estacionamento do Infante); 4 - Rua Ferreira Borges (aquando da elaboração desta imagem a rua fora completada havia um ano).

Extrato de uma planta de 1835, quando o traçado da rua Ferreira Borges estava ainda em discussão.
A - local onde em 1871 foram encontradas sepulturas medievais; 3 - local do ponto 3 da imagem anterior; o círculo aponta a para o sítio onde terá estado a "boca do inferno".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um cenário para sempre irrepetível

Uma vez que no passado dia 22 a Ordem dos Pregadores (vulgo de São Domingos) celebrou oficialmente os seus 800 anos e dado ser este convento um dos temas mais queridos para mim da história portuense, aproveito para mostrar mais uma das raras imagens que mostra a sua desaparecida igreja, num ângulo em que surge "acompanhada" da sua congénere franciscana que felizmente ainda existe (ambas inseridas no tipo de construção que se costuma nomear de gótico mendicante).

Esta imagem, valiosa precisamente por mostrar ambos os templos, torna mais real o já conhecido facto de os dois conventos se encontrarem muito perto um do outro; ainda que em disposições espelhadas.
OBS: Estou em crer ser a foto de Maio/Junho de 1865, início da demolição do convento dominicano, por se encontrar já um pouco desbastada a parede do antigo cenóbio dos Padres Pregadores.

I

Para termo de comparação, veja-se abaixo uma imagem dos anos 80 do século XIX, onde se vêm já casas no local onde existiu o convento, bem como um terraplano mais ou menos uniforme onde viria a surgir em breves anos o Mercado Ferreira Borges e que por séculos fora a horta dos frades.

II


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri"

Não estranhem os meus caros leitores o título desta postagem. Os mais atentos verão que o mesmo se refere à presúria do Portucale por parte de Vimara Peres - que terá ocorrido no ano de 868 – para não mais sair de mãos cristãs. É pois pelos já longínquos séculos da alta idade média que pretendo levar-vos, mas fiquem descansados: não será uma viagem massuda pois as referências a ele se restringem a nem uma mão cheia delas.

Iniciemos então esta curta cronologia:

1. Em 715 ou 716 a cidade de Portucale foi conquistada por Abdelaziz, seguindo-se um período de cerca de 20 anos de efetiva ocupação muçulmana[1].

2. Logo em 742, Alfonso I (rei de um incipiente renascer “visigótico” acantonado no extremo norte da Galiza e Astúrias e Cantábria) recupera a cidade, matando todos os seus ocupantes ismaelitas. Esta ação foi supostamente facilitada nesta e noutras localidades pelo facto de a guarnição berbere que aqui estava ser pouco numerosa pois o grosso dela havia sido chamada para conter uma revolta a sul.

Segundo uma corrente historiográfica agora completamente caída em desuso, este rei teria deixado propositadamente ermo um vasto território que englobava todo o futuro Portugal a norte do Douro. Ninguém portanto teria sido deixado para trás pois o rei havia levado todos os cristãos "à pátria"[2].

Atualmente leva-se em consideração que de facto isso não ocorreu, contudo toda esta zona terá funcionado de forma mais ou menos autónoma, entregue a si mesma em "auto-gestão"; numa terra de ninguém entre o Califado Omíada (substituído em 756 pelo Califado de Córdova) e o reino Asturiano. Mas na realidade, por falta de documentos históricos contemporâneos, nunca saberemos como era viver por aqui nesses tempos e quais eram os verdadeiros senhores, se os havia. A população, mais ou menos entregue a si própria, sem dúvida se terá organizado localmente para sobreviver.

Em 868 dá-se a famosa presúria que referi acima, embora creia não a podermos ver como uma conquista (ainda que entre 866 e 868, aproveitando-se dos problemas dentro do reino asturiano os mouros tenham novamente chegado ao vale do Douro). Em contrapartida, este ato de força perante a população autóctone visou consolidar a influência do reino asturiano na área, bem como outros atos semelhantes se estenderam em várias outras regiões[3].

Era o início daquilo que se chama reconquista, e que só agora, no reinado de Alfonso III, começava a ter uma visão mais ampla de recuperação de território aos ismaelitas. Ainda assim, durante vários séculos mais, a península ibérica foi um palco de lutas entre estados e não somente entre religiões, havendo incluso lutas dentro dos próprios pequenos reinos islâmicos que depois se formaram, e os reinos cristãos que vieram a surgir da desmembração do reino asturo-leonês.

Voltando ao Porto, pessoalmente discordo que a cidade que hoje existe tenha nascido no século IX com Vimara Peres. Na verdade é após a entrega do burgo ao bispo D. Hugo em 1120 pela rainha D. Teresa (mãe de Afonso Henriques), acrescido do foral por este bispo outorgado em 1123; que o Porto moderno surge e a cidade não mais pára de crescer.

A própria precaridade da posição do Porto durante pelo menos o século X está no facto de ter sido no Douro que Almançor reuniu a sua frota vinda de Alcácer do Sal, com o seu exército que provinha de Viseu (e que incluía cristãos nas suas hostes), com o objetivo de atacar Santiago de Compostela.

Ainda incipiente no início, mas lentamente expandindo-se para fora das suas muralhas primordiais, com o desaparecimento dos ataques normandos numa primeira fase, a ameaça muçulmana por terra e mar mais tarde e o reforço das trocas comerciais sobretudo com a Ingraterra e a Frandres, a cidade chegará ao meados do século XV já como a segunda do reino para não mais perder esse título.

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Recentemente, num arruamento desativado desde o século XVIII que circundava exteriormente a muralha antiga da cidade pelo oeste indo terminar junto da porta de Santa Ana, foi recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, estas pedras serão as mais antigas que se encontram expostas. Mais antigas (embora sejam da mesma muralha) do que o cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo e seguramente mais antigas que a torre do Barredo que é a casa mais antiga que terá subsistido até aos dias de hoje na cidade. A foto não é bonita, vale apenas por aquilo que representa para os amantes da história da cidade.

Antiga Viela de S. Lourenço, hoje traseiras das casas da rua dos Mercadores e rua de Santana (acesso pelos lavadouros da Sé).


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[1] Abdelaziz cepit Olixbonam pacifice, deripuit Colimbriam, et totam regionem, quam tradidit Mahamet Alhamar Ibentarif. deinde Portucale, Bracham, Tudim, Luccum, Auriam vero depopulavis isque ad solum.
( in Cronica Albeldense )


[2] Qui cum fratre Froilane sepius exercitu mobens multas ciuitates bellando cepit, id est, Lucum, Tudem, Portucalem, Anegiam, Bracaram metropolitanam, Uiseo, Flauias, Letesma, Salamantica, Numantia qui nunc uocitatur Zamora, Abela, Astorica, Legionem, Septemmanca, Saldania, Amaia, Secobia, Oxoma, Septempuplica, Arganza, Clunia, Mabe, Auca, Miranda, Reuendeca, Carbonarica, Abeica, Cinasaria et Alesanzo seu castris cum uillis et uiculis suis, omnes quoque Arabes gladio interficiens, Xpianos autem secum ad patriam ducens. 
( in Cronica Rotense )



[3] Era dccccxi prenditus est Portugale ad Vimarani Petri.
( in Cronicão Laurbanense )

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O vapor Veloz

Já vira algumas fotos deste pequeno vaporzinho que durante décadas fez parte da paisagem do Douro, contudo ainda não houvera conhecimento de como o mesmo chegara ao Porto e a quem pertencera. Contudo, vasculhando jornais velhos vão-se descobrindo notícias novas... Eis aqui um extrato de um relatório de 1873 da Companhia de Reboques Maritimos e Fluviaes.

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" A commissão eleita por vós em reunião de assembleia geral de 12 de março do corrente anno, para tractar da aquisição d'um rebocador para esta companhia, tem a honra de vos apresentar o resultado dos seus trabalhos.

A commisão desejando mandar construir um barco a vapor, de força e tamanho proprio para o serviço de reboques na barra do nosso porto, principiou por solicitar para Inglaterra informações circumstanciadas de custo e clausulas, que exigem os fabricantes, pela construcção do mesmo vapor, nas condições de servir para o fim a que era destinado: reconheceu, porém, pelos esclarecimentos obtidos, que em consequencia dos altos preços dos materiaes, e dos salarios, e da falta de operarios, o custo na actualidade, do rebocador novo, como se pretendia, ficava por somma tão elevada, que, alem de exceder bastante a quantia votada para elle, viria sobrecarregar a companhia, d'um modo que muito a affectaria nos seus interesses.

Em vista d'isto, a commissão, na impossibilidade de dar cumprimento ao seu honroso encargo, estava a ponto de desistir, e resignar em assembleia geral o mandato, que por esta lhe fora conferido, quando teve conhecimento de que estava para se vender o vapor Scotia, barco construido em Blockwall, no anno de 1864, com a força de 100 cavalos nominaes, proprio para rebocador, e pertencente á companhia Coledonian Steam Towing.

O vapor Veloz, ex-Scotia de 1864, aqui numa fotografia de Aurélio da Paz dos Reis do início do século XX.

A comissão solicitou, por intermedio dos snrs. Dickinson Aknoyd & C.ª de Londres, esclarecimentos das dimensões, qualidades, estado e custo d'este barco, e mandou, alem disso, examinal-o pessoalmente pelo capitão Kavanaugh: e em resultado de tudo, pôde saber, que o mencionado vapor convinha perfeitamente a esta companhia, por ser do tamanho e força propria para a nossa barra, e achar-se no melhor estado de conservação, precisando apenas de ser forrado de cobre, e d'algumas pequenas obras no machinismo e no casco.

Entrou, portanto, a commisão, em negociações para a compra, e tendo-se trocado, e assentado, por intermedio dos referidos snrs. Dickinson Aknoyd & C.ª, as bases do ajuste, foi realisada a compra do referido barco a vapor por libras 6:000 » 0 » 0, onforme a escriptura lavrada em Londres no dia 2 de julho proximo passado: achando-se já surto no rio Douro, com o nome de Veloz o mesmo vapor.

(...)

Cremos que a companhia ficou completamente bem servida com a acquisição do vapor Veloz, não só por que o seu custo foi o mais rasoavel possivel, como porque a sua construcção e machinismo são excellentes, e o tamanho e força perfeitamente adequados para a nossa barra: ficando assim a companhia convenientemente habilitada a satisfazer bem ao serviço dos reboques.

(...)

Porto, 14 de Novembro de 1873

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[extraído de O Jornal do Porto de 15 de novembro de 1873, que pode ser consultado aqui.]

domingo, 13 de novembro de 2016

A fonte de Mouzinho da Silveira (dois documentos para a sua história)

Existe uma série de livros no AHMP chamado Documentos avulsos, que creio tem alguns documentos interessantes para a história do Porto do século XIX e XX, e que talvez não sejam dos mais conhecidos. Os dois de onde retiro estas notas são relativos à fonte monumental que se construiu naquela rua, por forma a ocupar terrenos que não se prestavam à edificação.

Como nota histórica mais antiga, refira-se que naquele preciso local existiu uma penadia que foi desde muito cedo usado pela celebremente poluidora industria dos pelames, despejando o subproduto da sua atividade no Rio da Vila que corria um pouco mais abaixo. É daí mesmo que vem o nome Rua dos Pelames, hoje em parte sustentada pela referida fonte. Em tempo dos Almadas, aquela indústria foi deslocalizada para zonas mais afastadas da cidade, nomeadamente para as Fontainhas.

A Rua de Mouzinho da Silveira foi aberta na segunda metade da década de 70 do séc. XIX, contudo data apenas de 18 de Setembro de 1884 o projeto da fonte. O que se lê abaixo é extraído do documento que deveria provavelmente acompanhar o projeto aquando da entrega deste à presidência camarária, e que foi preservado separadamente. Vejamos o que nos diz o documento:

Junto o projeto da fonte que, segundo a deliberação de V. Exa. na Rua de Mouzinho da Silveira, utilizando as águas das fontes do Largo de S. Bento e S. Roque que tem de ser inutilizadas.

O projeto desta obra, além de satisfazer aqueles requisitos, obedeceu ainda à necessidade:
- de ocupar parte do terreno livre, que não podia alienar-se para edificação por ter pequeno fundo;
- de amparar ou revestir a massa de rocha granítica, onde assenta a Rua dos Pelames;
- de dar finalmente maior largura aquela rua.

As diferentes peças de que se compõem este projeto mostraram a V. Exa. que ele satisfaz simultaneamente a todas aquelas exigências tendo um tanque com 8,0m de comprimento, 3,10 de largura e 0,70m de altura; duas bicas, e dois espaços de 3,0m de comprimento por 2,70m de largura, livres do passeio da rua, destinado ao depósito dos canecos dos aguadeiros. Na frente do tanque há um gradil que se abrirá em ocasião de incêndio, permitindo o livre acesso ao pessoal destinado ao fornecimento da água.

O orçamento desta obra feita detalhadamente monta a 4.303$118 reis.
A fonte em meados do século XX
Vejamos agora o documento que reputo de mais interessante, que consiste num protesto dos fresquíssimos moradores da rua, que não queriam a fonte ali.

Com efeito, 59 moradores apresentaram uma petição ao presidente da câmara contra a construção da fonte que se está fazendo naquela rua. Argumentando:

- as fontes são frequentadas por pessoas das mais ínfimas classes sociais a que falta a educação e a luz do ensino;
- do ajuntamento dessas pessoas resultam constantes rixas e desordens, acompanhadas de palavras obscenas que escandalizam permanentemente os moradores das proximidades e os transeuntes;
- seria muito para lastimar que estas cenas se dessem na Rua Mouzinho que já é uma rua importante e que mais importante tem de ser no futuro.

Assim, sem mais! Nesta petição lembravam os requerentes que a câmara poderia adquirir a casa da Rua dos Pelames que fica na parte posterior da fonte em construção e vender por preço elevado, para edificação, os terrenos da Rua Mouzinho da Silveira, depois de deslocar para o interior a Rua dos Pelames(!) e com o produto desta venda adquirir terreno em frente à Rua do Souto ou da Ponte Nova para colocar a fonte. Mais diziam que os terrenos da rua poderiam chegar ao valor de 16.000$000 reis.

A petição, que tinha de ser respondida ou atendida, foi entregue para consideração ao técnico que elaborara o projeto da fonte que em fevereiro de 1885 respondeu:

...nem os inconvenientes apresentados com a construção da fonte não desapareciam ou atenuariam para o local apontado ou outro ponto da mesma rua, nem a Rua dos Pelames melhoraria com a disposição que lhe desejavam em relação àquela que vai ter conforme se acha projetada e mais ainda a operação não seria financeiramente proveitosa para o município pois os terreno nunca poderiam atingir aquele valor, atendando à enorme escavação que neles seria necessário fazer para edificar; assim como o valor do terreno, não edificado, cobriria a despesa de expropriação do terreno edificado necessário a adquirir em substituição daqueles; finalmente, a lei permite ao município expropriar o terreno que lhe pertence, para assim facilitar a sua venda.

Creio que são inéditos estes documentos, como aliás alguns outros que volta e meia vou aqui colocando. Fica aqui expressa a vontade de prosseguir com este objetivo de dar a conhecer documentos que, apesar de contarem uma parte pequena da história, servem para enriquecer o conjunto global de conhecimento da evolução da nossa cidade.
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Confesso que, quer num quer noutro documento, não se mostrou para mim completamente legível o nome do técnico da Câmara, pese embora esteja convencido que o seu sobrenome seja Cruz.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A chegada do 'Porto'

Finalmente encontrei! Confesso que fiquei muito contente, por ter encontrado a notícia da chegada do 'Porto' para o início da sua carreira de pouco mais de 15 anos, que infelizmente terminou de uma forma bastante trágica e que marcou a cidade durante muito tempo. Peço contudo, aos meus leitores que por agora se concentrem na novidade da sua chegada e aquilo tudo que representava para a cidade, o seu primeiro vapor, quase diria que não podia deixar de ser, levou o seu nome: PORTO.

'Sabbado 24 do corrente ao meio dia entrou na barra desta Cidade, e ancorou defronte do Postigo da Alfandega, o novo Barco movido por vapor = PORTO = que construído em Liverpool por conta de huma Associação Portuense, deve andar em carreira d'aqui para Lisboa. Ao annuncio que o Telegrafo Commercial deu da sua aproximação, entrada, e subida pelo Rio, todo o muro, e cáes desde a Porta Nobre até ao Codeçal se apinhárão de gente desejosa de vê-lo, e he forçoso confessar que preencheu a expectação de todos, especialmente da maior parte dos Accionistas, que immediatamente se dirigírão a bordo, assim como alguns dos mais respeitaveis Commerciantes Nacionaes e Estrangeiros, que se achavão na Praça.

A Administração, que tinha entrado a bordo na Foz, teve sobre tudo motivos para muito particular satisfação, por vêr que seus esforços, escolha de correspondentes, e intrucções a bem da Empreza, tiverão effeito pleno, manifestado na approvação geral patenteada a todos os respeitos. A magnifica, e economica distribuição de Camarotes, e Sofas na Camara grande; Camara de Senhoras; Camara de Proa; e  alguns Camarins particulares para familias, nada deixa a desejar para se tirar partido da sua configuração e arranjo. O aceio, sem ser de luxo dispendioso, he da maior propriedade e decencia, ; os moveis d'uso são excellentes; ainda que he preciso confessar, que exceptuando a riqueza, e gôsto do Barco de Vapor em que Suas Magestades vierão ao Porto em 1834, nenhum outro ainda aqui se vio mais elegante, e lindamente mobilado e ornado.

O Commandante, e a Tripulação, , todos Portuguezes, que forão de propôsito a Liverpool para tomarem conta da embarcação, e mareá-la para Portugal, dizem maravilhas da maneira de sua navegação, docilidade de leme, etc. Acoçado o Barco ao sahir de Liverpool, por huma violentissima tempestade, foi obrigado a arribar a Cork, e d'alli veio ao Porto em 3 dias de viagem.

O Commandante para obzequiar a Mesa da Direcção, e a Administração, tinha servido na Camara grande, hum mui decente Ambigu: e estes Senhores convidando os seus Amigos a tomarem alguma refeição, os penhorárão em extremo. Dous dos convidados, tomando a palavra, levantarão cordeaes saudes ao mesmo Commandante, e á Administração, e o Snr. Domingos Ribeiro de Faria invocou a saúde dos Correspondentes de Liverpool, os Snrs. Duarte Irmãos & C.ª He escusado dizer que a amisade, o respeito, e a delicadeza do obzequio tiverão o acolhimento merecido.

Por esta occasião teve logar de se vêr o serviço de louça para uso do Barco: tem pintadas as Armas da Heroica Cidade do Porto, e o nome do Navio. O serviço de cristal he de lindo gôsto. Os Camarins tinhão as suas cobertas e travesseiros, e póde por consequencia fazer-se huma idéa do tratamento aceado, e ordinario do uso do comum.

Tem por consequencia o Porto o seu primeiro Barco de Vapor: esta epoca he por certo notavel, e marca hum periodo de progresso na escala de suas communicações commerciaes.

Está-se pois preparando, segundo nos consta, para começar as suas viagens no principio do novo anno; e logo que se fação públicas as condições de transporte nos seus diversos logares, nós os transcreveremos immediatamente, para que o Público desta Cidade, e Provincias possão ser informados disso convenientemente.


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Consta-nos que no Domingos, e hontem dia Santo de guarda, achando-se o Barco embandeirado, e havendo-se aproximado ao Cáes da Ribeira, concorrêrão muitas Familias a bordo a vêr os arranjos designados, recebendo todos do Commandante e Tripulação hum acolhimento benevolo, e informações attenciosas, que a curiosidade exigia á vista da inspecção minuciosa, franqueada tão amplamente como nunca antes tem havido.

Foi-nos agora mesmo remettida a seguinte declaração, que he como hum preludio do Regulamento ordinario.

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Os Administradores do mesmo annuncião que elle principiará as suas viagens entre esta Cidade e a de Lisboa, no dia 1º de Janeiro de 1837.

Este Paquete que foi mandado construir de propósito para navegar na costa de Portugal, com engenhos de grande fôrça, e com todos os melhoramentos que a experiencia dos ultimos annos tem mostrado proficuos para maior segurança e fortaleza, acha-se com a sua tripulaçao (Nacional) completa, e escolhida, offerecendo por tanto ás pessoas que se servirem d'este transporte toda a confiança, e nelle encontrarão não só o maior grau de segurança, que se póde esperar; mas o melhor tratamento possivel. Os Administradores desejando animar, e facilitar a concorrencia dos Passageiros das Camaras fizárão os preços aproximados aos que até agora se pagavão em outros Barcos de Vapor, com a differenºa porém de que aos Passageiros das Camaras se fornecerá, gratuitamente, almôço, jantar (com vinhos, cervveja, etc) e chá á noite, com toda a decencia, e tudo a horas regulares, e entre estas o mais que apetecerem, de comer ou beber, e que fôr susceptivel de haver a bordo, durante a viagem: intendendo-se por viagem desde que o Paquete levantar ferro até fundear, e não o tempo em que estiver arribado em qualquer porto, que não seja o do seu destino. Os Bilhetes para a recepção a bordo são pagos no acto de os receberem, pelos preços abaixo notados.
Primeiras Camara, cada Passageiro Rs. 16$000
Segunda Camara, '' '' Rs. 12$000
Convés ......., '' '' Rs. 4$800

Na Camara grande ha dous Camarins, cada hum para quatro pessoas e na 2ª outros dous cada hum para duas pessoas, os quaes se justaráõ em separado. Cada Passageiro poderá levar a sua bagagem, não excedendo toda reúnida a 4 pés cubicos, e ao pêso de 128 arrateis; excedendo, pagará pelo excesso a 180 rs. por pé cubico, hindo debaixo da coberta, e no Convés a 120 rs. e ppelo pêso a maior o que se convencionar no Escriptorio.

Os Passageiros na occasião de hirem tomar os Bilhetes, devem levar os seus passaportes, que deixaráõ no Escriptorio, e lhes serão entregues a bordo pelo Commandante. Sem passaporte ninguem hirá de passagem - Este Paquete póde receber grande porção de carga, o frete da qual será muito rasoavel, e se póde ajustar com os Administradores. A carga pesada, ou volumosa só será recebida a bordo hindo acompanhada d'huma ordem dos Administradores, e do competente despacho da Alfandega, até ao meio dia da vespera da sahida, e as encommendas se receberáõ no Escriptorio até ás 3 horas da tarde do mesmo dia.

O Paquete largará da amarração ás 9 horas e meia da manhãa impreterivelmente (se o tempo o permittir.)

Os Passageiros devem achar-se a bordo ás 8 horas e meia (conforme o Regulamento que se lhes dará no Escriptorio, assim como os mais esclarecimentos que desejarem.) - As pesoas que pretenderem hir de passagem, ou carregar, dirijão-se ao Escriptorio da Administração na Rua Nova de S. João nº 76, todos os dias desde as 10 horas da manhãa até ás 3 da tarde. Porto 27 de Dezembro de 1836.

Os Administradores:
Antonio Ribeiro de Faria,
João Baptista Machado,
José Perry.'

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Extraído do jornal O Artilheiro, 27 de Dezembro de 1836, tendo a ortografia original sido mantida.

domingo, 2 de outubro de 2016

Um alinhamento polémico

Algumas das plantas que se nos apresentam à disposição no site do Arquivo Histórico Municipal do Porto, embora de uma forma geral elucidativas, vêm muitas vezes descontextualizadas dos seus suportes escritos, que nos permitem melhor avaliar o projeto que se nos apresenta. Por mais de uma vez dei por mim a consultar pareceres em que as referências a essas plantas existem, mas as plantas não estão junto deles. É o caso de um texto que se refere à planta que apresento abaixo e que, creio, se não foi feito para ela, está intimamente relacionado com ela.

Planta aprovada em 1838, provavelmente datada do ano anterior.

A planta acima mostra-nos a parte final do alinhamento da Rua Ferreira Borges e que deu bastante polémica nos jornais da época aquando da sua abertura (1835-1838); nomeadamente mostra-nos a dúvida sobre como deveria ser rematada a rua no seu extremo sul em que passava por detrás de igreja de S. Francisco.

Convêm elucidar que a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto (ACP) que a tomou a cargo desde o início e com o apoio camarário. Contudo, após a Revolução de Setembro (1836), esse apoio desvaneceu.

Já em 1837, a comissão daquela instituição encarregada de superintender a obra da rua propõe à ACP a destruição da capela-mor da igreja, para o correto alinhamento da rua. Num ato de lucidez a mesma rejeita essa proposta sendo elaborado um novo projeto que a substitui, posteriormente apresentado à Câmara. Ainda assim, convêm não esquecer que o projeto original para esta rua, aprovado em 1835, aparentemente incluía a demolição daquela parte da igreja gótica, tendo sido aprovada com a conivência da Câmara da altura (talvez neste particular se possa desabafar bendita revolução setembrista...). Isto porque em consequência da resolução (interna) de manter aquela parte da igreja, a Associação solicita-a à Câmara informando ao mesmo tempo que outra planta estava já em preparação.

A edilidade aproveita o momento para tomar um pouco as rédeas de uma obra que de todo estivera fora da sua alçada fazendo uma vistoria ao local. Ainda assim, não querendo tomar parte definitiva na resolução do problema, elabora também ela a sua proposta para o remate da rua. Explica a Câmara que se o edifício do Tribunal do Comércio não fica na frente desse alinhamento, nem por isso se peora o aformoseamento, estabelecendo dele ao pavimento da rua um paredão que forme um terraço, no qual colocada uma baranda muito concorre à boa vista que apresentará, e à perfeita segurança que ainda se torna indispensável aos alicerces daquele edifício, que no estado em que se acham, carecem indispensavelmente de alguma atenção para poder-se tirar proveito de tal edifício, podendo nesse mesmo paredão formar-se uma arcaria que poderia ter bom rendimento pela sua localidade. A Câmara exigia também que a ACP revertesse o uso da igreja para o seu original intento do culto divino e não seja usado como armazém alfandegário, e também que o alinhamento se faça pela sua planta.

Área em questão, com a visível ameaça de ruína da capela-mor, numa gravura da época.

Assim decorre durante quase todo o ano de 1837, uma polémica sobre os três alinhamentos agora propostos: o original que faz demolir a capela-mor, o alternativo da ACP e o da Câmara. A juntar a tudo isto existe também envolvido o pedido de licenciamento para um edifício naquele local, que ficaria situado à entrada da rua do seu lado poente por parte de um particular, projeto esse que aguardava a conclusão da rua e que tardava a arrancar dado o "imbróglio" que ali se apresentava.

Em outubro de 1837 o administrador geral do distrito do Porto requer à Câmara um parecer sobre a conservação da capela-mor e a sua transformação em armazém da alfândega, mandando também o arquiteto da cidade levantar a planta da Rua Ferreira Borges de modo a conservar a capela. Neste parecer, elaborado por Joaquim da Costa Sampaio Lima onde este refere que, excluída que estava a demolição da capela-mor, o alinhamento da Câmara é preferível com vantagem de com o projetado terraço exterior ao edifício, o mesmo edifício recuperaria maior solidez do que muito precisa por se achar ameaçando ruína, e bastantemente desaprumado e também que esta rua alinharia mais exatamente com a frente de S. Nicolau. Além de que o seu alinhamento destruiria em parte a agudeza do ângulo formado com a rua dos Ingleses, e o tornaria mais vizinho à linha perpendicular e claro, que se pouparia a demolição daquela parte do templo que algum respeito merece. Mas diz mais:

Como a Associação (digo) não aceita o novo projecto, e prescinde das suas respectivas vantagens, então julgo que de necessidade se deve abraçar o primeiro plano, o qual consigo arrasta a demolição da referida parte daquele templo que aliás ficaria servindo ali de um perpétuo estorvo. Não concordo porém no que propõe a Associação Comercial quanto a estorvar-se que José Ferreira dos Santos Silva, edifique na porção triangular colocada na extremidade da rua; seria sem dúvida muito mais defeituosa a porção mutilada, o alinhamento interrompido, e o número de ângulos multiplicado ... sendo claro que um ângulo agudo não é senão um defeito, e para fugir deste cairíamos no ângulo obtuso ... que se reduz a um defeito do mesmo valor mas em sentido contrário, portanto sou do parecer que por nenhum modo se estorve que as duas linhas se cruzem no vértice onde as conduz a sua primitiva inclinação e por conseguinte se permita ao mencionado proprietário de edificar no terreno ponte-agudo. (Nota: Embora uma casa ali nos possa causar atualmente estranheza, temos de ter presente que toda a Rua do Infante estava edificada, não existindo ainda o jardim.)

Arrastando-se ainda por mais uns anos, a questão apenas ficou resolvida em janeiro de 1839, quando o governo concedeu a igreja que outrora fora do convento franciscano à sua Ordem Terceira, que ainda hoje a possui. A partir desta altura pode a Associação Comercial concentrar todos os seus esforços na construção do Palácio da Bolsa. Quanto à casa particular esta nunca chegou a ser edificada.

O paredão construído para suster os alicerces da capela-mor, em meados do séc. XIX (em primeiro plano parte da cerca do convento de S. Domingos).
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Fontes:
Arquivo Histórico Municipal do Porto
Porto, 1763/1852 - a construção da cidade entre despotismo e liberalismo de Anni Günther Nonell

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Por onde se rasgou a Rua das Flores

A Rua das Flores, agora renascida do seu agonizante calvário de mais de vinte anos e plenamente integrada no Porto do século XXI, remonta ao início do XVI, tendo portanto aproximadamente a vetusta idade de 500 anos.

Naquele tempo, num progressivo aumento de importância do Porto que ocupava já plenamente o lugar de segunda cidade de Portugal (ultrapassando Évora e Santarém), foram rasgadas várias ruas naquilo que hoje convencionamos chamar centro histórico. A Rua Nova surge-nos ainda no final do século XIV por iniciativa de D. João I, mas a grande "febre" urbanizadora dá-se no início do século XVI, quando a cidade se expande numa malha que vem a abranger grandes áreas ainda disponíveis intramuros.

Aberta em terrenos pertencentes uns à Mitra e outros ao Cabido da Sé num local ocupado até aquela altura quase exclusivamente por hortas, o início da sua construção remonta ao ano de 1521, motivada para além do crescimento da cidade que impunha o crescer da urbanização dela, pela construção do Mosteiro de São Bento das Freiras em 1518, também ela em terrenos propriedade da igreja (que obrigou a mudar o troço final da Rua do Loureiro).

"... a qual rua era pelo meio meio dos chãos e enchidos e hortas..."
Não sendo prova disso por ser bastante anterior (1387) mas elucidando ainda assim da parca urbanização de toda aquela área, é esta passagem da Crónica de D. João I, aquando do casamento do monarca:
"...E fizeram mui à pressa ũa grão praça ante São Domingos da rua do Souto, que eram então tudo hortas, u* justavam e torneavam grandes fidalgos e cavaleiros que o bem sabiam fazer...": ou seja, era naquele local, entre o convento dominicano e a Rua do Souto que se faziam os torneios que hoje tão habituados estamos a ver recreados nas feiras medievais.

A prova de que toda a aquela área era usada para atividade lúdica está, por exemplo, no facto de ser bem ali próximo também, no local hoje ocupado por parte da Rua da Vitória, que se encontravam as chamadas Barreiras, ou seja, "... sítio das Barreiras onde os besteiros jogam a besta entre a Rua das Flores e a de S. Miguel" [1534]; ou mesmo ainda no século XIV, uma das confrontações da judiaria era "uma careira que ora vai  acima do caminho unde cragam a beesta que esta acima das almoinhas"; estas almoinhas serão provavelmente as hortas onde se rasgaria a Rua das Flores mais de cem anos depois.

Dá-nos também uma ideia do que ali existia antes da rua este excerto relativo ao aforamento de um terreno na mesma, em 1523:

...el rei nosso senhor mandara hora novamente abrir na dita cidade uma rua por nome chamada de Santa Caterina das Flores ... por ser muito necessária à dita cidade para por ela se servir e se não poder passar para serventia do Mosteiro novo [S. Bento] ... e assi para a dita cidade pelo crescimento que ela vai a Deus louvores, a qual rua era pelo meio dos chãos e enchidos e hortas que da mesa episcopal são ... os quais chãos jazem no meio quasi da dita cidade e pelos ditos chãos jazerem assi no meio da dita cidade e a disformavam por não serem feitos em edifícios ... além da necessidade que para nobrecimento da dita cidade na dita rua se fizessem casas nobres e não houvessem enxidos de hortas para que a dita cidade não estivesse assi desformada ... e a cidade cresser em povoadores e não ter tão bons lugares para edificar dentro dos muros senão nos ditos chãos ...

Nesta imagem do googlemaps assinalei: A - Largo do Chafariz de S. Domingos ou Largo de Santa Catarina das Flores (hoje Largo de S. Domingos) / B - Rua das Flores (original) / C - Rua dos Canos (hoje Rua das Flores) / D - Largo da Feira de S. Bento (atualmente Praça Almeida Garret)
Embora tecnicamente existissem duas ruas, a Rua das Flores e a Rua dos Canos, logo no início da sua existência eram elas tidas como uma só, pelo menos a julgar pela referência que faz João de Barros na sua Geografia d'entre Douro e Minho e Trás-os-Montes:
A outra rua mui nobre é a Rua de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o Mosteiro de S. Domingos com um fermoso chafariz de muita água, com outra fonte muito grande, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Elói, com outra fonte muito grande...

À semelhança da Rua Nova também os aforadores estavam obrigados a construir casas nobres, i. é, de pedra pelo menos no rés-do-chão (o que também nos diz algo sobre as casas das restantes ruas da cidade).

A Rua das Flores foi durante bastante tempo o local de eleição preferido pelas elites para morada, em terreno que até ali servira apenas senão para semearem neles hortaliça.

Mas ainda que desde cedo confundidas, a Rua dos Canos por várias formas se distinguia da sua vizinha, que era habitada maioritariamente por indivíduos ligados aos misteres. Diferenciava-a também o facto das casas ali construidas serem regra geral de menores dimensões dado estarem compactadas entre o muro da cerca de Santo Elói (próximo da saída do parque de estacionamento das Cardosas) e o Rio da Vila (que naquele local se encontra agora por baixo das casas da Mouzinho da Silveira e não tanto sob o leito da mesma rua).

Para quem estiver interessado em conhecer a história desta rua profunda e completamente (mesmo casa a casa!) bem como uma boa apresentação da cidade dos inícios do século XVI recomendo a leitura do livro do Prof. Dr. Ferrão Afonso, A Rua das Flores no século XVI: elementos para a história urbana do Porto quinhentista; de onde vieram quase todas as notas aqui colocadas, sendo a outra fonte deste humilde post o Censual da Mitra da Sé do Porto.

Convido também a visitarem o blogue do Porto e não só onde existe mais informação sobre ela AQUI

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* português antigo para onde.

domingo, 11 de setembro de 2016

As Escadas da Vitória

As Escadas da Vitória são um equipamento que não constituem nem um monumento ou ponto de referência emblemático da cidade. Trata-se de uma pura granítica serventia que permite com mais facilidade galgar a encosta do belo monte naquela área, dando acesso rápido à zona da Cordoaria.

Não posso contudo deixar de iniciar este périplo histórico sem fazer referência ao triste estado em que se encontram atualmente votadas. Fiz uso delas precisamente na deslocação ao AHMP, perseguindo o objetivo de conhecer melhor a história destas escadas e confesso que as encontrei num estado lastimável de desleixo higiénico. Um cheiro fétido a excreções humanas ali está presente, num local usado por muitos turistas que dispensam o caminho mais longo via Rua das Flores para chegarem à zona mais baixa da cidade e vice-versa. Na verdade por ali se corta muito caminho, mas quem saí das cuidadas ruas da área mais turística, mal entra naquelas escadas, dá de cara com um aspeto nada agradável, fazendo-me lembrar as histórias que ouvi sobre Veneza onde naquelas águas lamacentas percorridas pelas esguias gondolas se sente por vezes o cheiro a esgoto... Não é possível a Câmara limpar com água aquela área ao menos semanalmente? Os turistas e os portuenses agradeceriam e sobretudo a imagem da cidade também.

Mas entremos finalmente no âmbito deste artigo.

As Escadas da Vitória atuais não são muito antigas; aliás os seus grandes e bem cortados blocos de granito isso denunciam. Mas a prova está no projeto delas, arquivado no AHMP e que data de 1878.

Ainda antes desse projeto, podemos verificar num pormenor da planta apresentada à Câmara 1851 por Joaquim da Costa Lima Júnior a propósito do alinhamento da Rua da Vitória, que as escadas daquela época tinham três entradas separadas por umas dezenas de metros entre si (acredito que este alinhamento nunca tenha sido levado a efeito pois as edificações que ainda hoje lá se conservam apresentam forma quase idêntica).
a) Alinhamento proposto para a Rua de São Roque (Rua da Vitória).

No que toca às escadas, surge em 1878 o projeto para melhorar substancialmente aquela passagem, projeto esse que devemos enquadrar na época a que se reporta, i. é, quando estava já em pleno funcionamento os novos acessos à zona baixa da cidade via Rua Mouzinho da Silveira e Rua Nova de São Domingos (depois de Sousa Viterbo) embora estas ruas tenham sido rasgadas a pensar no trânsito em geral, sobretudo no cada vez maior tráfego de carros. Mas isso só demonstra que este acesso, secundário por assim dizer, tinha ainda um papel a desempenhar no trânsito de pessoas. Isso mesmo o expressa a memória descritiva do projeto que abaixo se apresenta:

"A escadaria da Esnoga é pela sua situação a passagem mais concorrida das que deste género existem entre a parte baixa, ou marginal desta cidade do Porto, e o alto do bairro ocidental da mesma cidade. As pessoas que deste bairro se dirigem a pé para a Ribeira, para a alfândega ou vice-versa, preferem aquele caminho ou para encurtarem a grande distância a percorrer pela rua das Flores, ou evitar o incómodo e perigoso trânsito das ingremes calçadas que de diversos pontos da cidade descem para a margem do Douro, tais são as ruas do Ferraz, Caldeireiros, S. João Novo, e outros mais.

A escadaria porém, pela sua má disformação em parte, e pelo seu estado de ruína, necessita de uma reforma radical para satisfazer convinientemente às condições de viabilidade.

Na reforma da escadaria o projeto mais elegante, e que contribuiria consideravelmente para o melhoramento da localidade, seria o que em largura igual à da rua Ferreira Borges, seguisse no prolongamento da mesma rua em lanços de escada duplos, que de patins laterais convergissem em patins centrais, correspondentes ao mais da escadaria. Este projeto, além de obras dispendiosas exegiria o corte de prédios, cuja expropriação não seria inferior a vinte e quatro contos de reis e o custo total elevar-se-ia a quarenta contos. A adoção portanto deste projeto importaria num grave erro de administração, em consequência das finanças municipais não permitirem obras de luxo com prejuízo de outras de urgente e primeira necessidade.

Abandonada a ideia deste luxuoso projeto, delineei aquele, que em ante-projeto apresentei em 2 de Novembro de 1877, e que passo a justificar.
Ante projeto das escadas, elaborado em 1877. Nele ainda se podem ver as escadas antigas que foram depois demolidas bem como o lanço assinalado na planta anterior, entretanto já desativado(?).

Segundo este projeto aproveita-se o traçado da atual escadaria a partir da rua de Belomonte até ao perfil c c3; abandonando-o deste ponto em diante em consequência do terreno não permitir dar à escada a devida largura, e o desenvolvimento conveniente e em ordem a poder dar aos degraus as dimensões exigidas pela comodidade do trânsito (...).

Na parte em que aproveito o leito da atual escadaria projeto seis patins de comprimentos desiguais e irregulares, separados por lanços de escada em que o número de degraus varia de lanço para lanço. Esta irregular disposição é devida à imperiosa necessidade de estabelecer os patins ao nivel das soleiras das portas traseiras de diversos prédios da rua de Belomonte. Se não fosse obrigado a respeitar estas serventias, disporia os patins alternando com os lanços de escada, dando-lhe dimensões uniformes e constantes como sucede do patim n.º 6 em diante.

Corte transversal do mesmo ante projeto de 1877.

Do patim n.º 6 até ao fim a escadaria segue em dois ramais em zig-zag tendo de comum o patim n.º 8,  e sendo cada ramal constituído de dois lanços de escada, separados pelos respetivos patins (...)

A largura da escadaria é variável; da origem ao patim n.º 2 é de 2,1 em média para se evitar o corte no prédio adjacente; do patim n. 2 ao n. 6 a largura é de 3; e do patim n.6 ao fim da escada a largura é de 2,7 entre os parapeitos; mas não se dando medir largura nesta parte; porque se 2,10 que a escada tem na sua origem, é largura suficiente para as necessidades de trânsito com mais razão satisfará a largura de 2,70.

Pelo traçado proposto vence-se a diferença de nivel de 21,44 entre os pontos extremos por meio de uma escadaria de 80 metros de extensão em excelentes condições, porque os degraus tem geralmente 30 a 35 centímetros de piso, por 14 a 15 centimetros de altura, além disso a maior altura de cada lanço não excede a 2,66, contribuindo todas estas disposições e os descanços nos patins para tornar menos penosa e fatigante a subida e descida da escadaria.

O traçado, cujos detalhes acabo de justificar, parece-me o preferível a qualquer outro, porque sendo obrigado por motivos de economia o aproveitamento de parte do leito da atual escada a contar de origem, não pude deixar de ser considerado como obrigado o ponto em que projeto o patim n.6 em consequência da disposiçao dos degraus existentes neste ponto, do nivel das soleiras das portas dos prédios confinantes, e da necessidade de no terreno compreendido entre aqueles prédios e a rua de S. Roque haver 6 metros de largura para se poder estabelecer os dois ramais que em zig-zag se seguem ao patim n.6, terminando na rua de S. Roque em ponto correspondente a esse mesmo patim, e que é obrigado em consideração à disposição dos ramais da escada intermédios, a |por acima a saida|*.

A preferência de qualquer outro ponto quer seja situado abaixo do ponto de saída ou acima é inadmissível, porque nos primeiros casos haveria entre os pontos extremos menos diferença de nível, e por conseguinte mais facilidade em obter um melhor perfil para a escada, o terreno porém não oferece a largura suficiente para a sua colocação. No segundo caso, isto é, se fosse preferido para ponto extremo ou de saída outro qualquer acima do projetado haveria terreno em que aos ramais da escada se pudesse aumentar a largura, entretanto o perfil da escada tornava-se mais difícil para se obter em boas condições, obrigando a um traçado mais dispendioso e extenso sem que o trânsito colhesse do aumento de largura vantagens, que compensasse o excesso de despesa.

(...)"

Projeto final das escadas, datado já de 1878.

Este documento tem a data de 15 de Julho de 1878 e é assinado pelo engenheiro Agnello José Moreira. O projeto poderá ser consultado na íntegra no Arquivo Histórico da Câmara do Porto, onde existe também a memória descritiva da plano de obra e de engenharia, mapa de materiais e custos, bem como os alçados laterais do mesmo.

Localização das antigas escadas

Assim termino, esperando ter dado a conhecer mais um pouco da história da nossa cidade, que a meu ver se faz também muito destas obras de engenharia aparentemente insignificantes e por onde muitas vezes passamos sem as valorizarmos, aliás sem darmos por isso por não se tratarem de um qualquer monumento ou ícone da cidade. Renovo o apelo à Câmara Municipal do Porto para que faça uma limpeza mais assídua daquele equipamento, que é também um miradouro para a cidade e que muito desprezado se encontra.
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* leitura duvidosa

sábado, 3 de setembro de 2016

O bueiro da Natividade

Recordam-se os leitores de ler em crónicas do insigne historiador da cidade Germano Silva (creio que a notícia original surge na 2ª série de O Tripeiro) sobre uma remodelação dos aquedutos das águas ocorrido na Praça da Liberdade aí pelos anos vinte do século passado? E recordam-se também de ler que o povo dizia que eram túneis para os frades se encontrarem com as freiras?... Bem disparates à parte que a imaginação popular por vezes cria na sua santa ignorância, verdade é que esses túneis existiam mesmo, mas não seguramente com a intenção imaginativa que a eles se queria dar.

Abaixo podemos ler uma notícia de um periódico dos anos 30 do século XIX, onde esses túneis se viram envolvidos numa banal tentativa de roubo, mas de onde extraímos alguma informação preciosa sobre os mesmos; levando em conta que esta história é cerca de 100 anos mais antiga do que a remodelação que acima referi.

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"
Todo o Porto sabe que há um aqueduto geral chamado Rio da Vila, que vai desaguar ao Douro, e corre a descoberto desde a Viela do Largo do Souto, até à Biquinha, pelas traseiras da Rua das Flores. Este aqueduto recebe em si as vertentes do regato de Liceiras, e os enxurros das ruas, que entram por bueiros abertos em várias partes, como no fim da Rua de Santo António, Largo da Praça de D. Pedro, no sítio onde foi a Natividade, no lado dos Congregados, Caldeireiros, etc.

Estes bueiros tinham todos na sua permitiva (sic); isto é, anos há, travessões de ferro, que apenas deixavam passar as águas; e é tanto verdade, que ás vezes, a terra e as areias arrastadas na corrente, os tapavam, e faziam inundações nas vizinhanças a ponto de ser necessário grande esforço e tempo para os desentulhar e deixar passar grande quantidade de povo, que era obrigado a interromper o seu trânsito em ocasiões de grandes bátegas de chuva. Alguns destes varões de ferro hão desaparecido de vez em quando, e ninguém tem prestado atenção a esta falta.

Ainda mais: o bueiro do sítio onde foi a Natividade, não só deixa de ter os ferros há muito tempo, mas está de tal maneira esburacado, que parece mais uma entrada de funda cova, do que bueiro para a água. Pode entrar uma pessoa sem grande dificuldade. Esta abertura, assim mais praticável, data do tempo da demolição da Natividade; época em que o tal bueiro esteve metido entre as pedras e entulho que na demolição se iam acumulando em redor, enquanto se não alimpou o sítio inteiramente; e então buraco ficou como estava, e ninguém lhe prestou atenção, porque não houve motivo para isso. Um caso imprevisto veio porém dar celebridade ao bueiro do Rio da Vila no sítio a Natividade!

1- localização da antiga Fonte da Natividade / 2- traseiras das casas das Cardosas onde se vê que originalmente eram edifícios distintos, apesar da fachada regular em comum / 3- local onde os diversos regatos se juntam formando o Rio da Vila. 

Domingo passado, em uma casa da Praça de D. Pedro, das que tem traseiras para a cerca do extinto Convento dos Lóios, seriam 2 para 3 horas da noite, sentiu-se rumor em uma pequena janela, ou postigo, que ao nível do tecto da loja dá luz à parte detrás dela. Aplicou-se atenção; o rumor cessou; e abrindo-se pela manhã a portada que fecha a tal janela, viu-se que a vidraça interior estava fechada com a cravelha costumada, e nenhuma aparência fazia desconfiança.

Porém o tal rumor, pelo que agora se descobriu, foi originado por se tirar o betume de um vidro, e tentear-se um buraco que apenas serve para mostrar que é dia, o qual está aberto na porta ao direito do tal vidro que se tirou. Tornaram a por o vidro, com novo betume, depois de verem a grossura da janela para os seus planos, e como os vidros são abetumados pela parte de fora, ninguém tal viu, até ontem, que as circunstâncias fizeram inspecionar a janela.

Ontem às 3 horas da noite, tornou-se a sentir o mesmo rumor, no mesmo sítio, e ouviu-se tinir vidro quebrado. Então gente da casa se levantou e pode conhecer que com um trado se faziam furos na janela.

Como a janela é forrada com chapas de ferro de arcos de pipas, deu lugar a operação dos ladrões, a tomarem-se medidas pelo lado da praça, pedindo auxílio à Guarda do Trem dos Congregados, a quem se ministrou um lampeão; (tudo isto da janela, para que não se abrisse a porta da rua ao direito do sítio da operação, e se espantasse a caça) e se lhe ensinou que fosse a escolta pedir entrada ao Quartel dos Lóios, para entrar na cerca, e pilhar os ladrões. Assim se fez. À baioneta calada caiu a escolta com ímpeto sobre o sítio do assalto, aonde estavam 4 homens. Dous deles tiveram a coragem de se lançar abaixo de uma alta parede, e os outros dous que estavam em cima da escada para chegar à janela, foram presos. Perguntados por onde entraram para esta cerca murada de todos os lados, apontaram para um bueiro, que está dentro da mesma, e que serve de escoadouro de águas no seu plano inclinado, tendo entrado eles dous pelo bueiro da Natividade, dizendo que não sabiam por onde tinham entrado os outros dous, os quaes já se achavam no sítio. E parece que talvez eles entrassem por onde saltaram!

A escolta deixando seguros os presos teve a coragem de descer pelo bueiro e foi seguindo uma das seis ramificações em que diz que a certa distância se divide o aqueduto, e foi dar com uma casa subterrânea, com porta e fechadura que estava aberta! Dentro desta casa havia uma cama de palha, parecendo à escolta que um vulto fugia para um dos lados. A quentura da palha indicava que pouco antes ali estaria alguém deitado. Nesta casa estavam duas cadeira, alguns pipinhos de vinho, bastantes cebolas, uns paus como tocheiras de por à janela com tocos, em ocasiões de luminárias, e alguns estofos velhos, que dizem parecer ser de igreja... Esta casinhola tem comunicação para a casa de D. António de Amorim na Praça de D. Pedro, por cuja porta da rua veio a sair a escolta.

Tal é o facto, segundo por diversas vias nos informamos.

No sitio do roubo, existem dous vidros quebrados na vidraça, e três furos na portada, um que varou, e dous que vieram de encontro às chapas dos arcos que a forram.

Os presos atravessaram a cidade no meio de imensa multidão, quando foram à presença do Ministro de Polícia Correcional, e depois para a cadeia.

Todo o dia, grande ajuntamento concorria a ver o célebre bueiro, e não há mais em que falar nesta cidade.

Por esta razão, e para fazer rir os nossos leitores como se estivéssemos a ler a história do Gil Brás de Santilhana, resolvemo-nos a relatar o facto, para ver se alguém cuida em providenciar como convêm a similhante respeito!
"

O Artilheiro de Quinta-feira, 24 de Março de 1836.
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domingo, 28 de agosto de 2016

Uma fotografia insignificante...

A imagem que deu razão a esta postagem é uma insignificante (feia até) fotografia de uma parte dos cobertos de Miragaia. Contudo, melhor a analisando podemos verificar que se trata de um documento único apesar do o confrangedor cenário de semi-ruina que ali se apresenta. Eis a fotografia:
A - Rua dos Cobertos (agora de Miragaia)
Ora olhando e re-olhando para ele verifica-se que estas casas são aquelas que se apresentam no pormenor da imagem abaixo assinaladas com o rectângulo. A ladeá-las estava aquela que agora é a primeira casa na Rua de Miragaia vindo do Largo Artur Arcos (assinalada na foto B com o n.º 2 mas não presente na foto A) e a casa que se encontra agora com a sua frente para o mesmo largo mas que originalmente tinha a fachada sustentada por dois arcos que davam para a praia de Miragaia.

Para melhor localizar assinala-se com o n.º 3 a Porta Nova ou Nobre e o seu fortim, tão amplamente referido neste blogue, na imagem B.
B - Pormenor de panorâmica antiga
A foto C mostra o local na atualidade. Será de reparar que a foto A foi já tirada de cima da sapata da rua da nova alfândega que foi construída dali para Poente, em direção ao edifício alfandegário, primeiro do que o lado nascente, pelo que a C só tem a beneficiar disso em termos de perspetiva... A casa 1 e 2 estão assinaladas para melhor localização e o X marca o local onde estavam as casinhas.
C - O local literalmente hoje
Como curiosidade, na imagem D que consiste num pormenor da gravura de 1736 de Duncalf, podem-se vislumbrar os edifícios referenciados, em parte apresentando já varandas que parecem ser de ferro e outras ainda usando um sistema com portadas de madeira que abrem debaixo para cima e não para os lados como estamos modernamente acostumados. Um sistema sem dúvida mais antigo, talvez remontando ao tempo em que ter vidros nas janelas era um luxo...
D - Gravura de Duncalf (1736)
Sem dúvida terá sido mais o seu estado de ruína aliado à necessidade de alargar aquele espaço em vista a perda que aquela zona acabara de sofrer com o desaparecimento da praia de Miragaia, que terá ditado o desaparecimento daquelas singelas construções não históricas. Felizmente ficou-nos esta fotografia, outros verdadeiros monumentos pudessem ter tido essa sorte...

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CORREÇÃO:

A casa marcada com o n,º 1 não é, como originalmente refiro, a mesma que lá se encontrava antes das demolições do Bairro dos Banhos. Em baixo se comprova isso mesmo num pormenor de uma fotografia tirada aquando das demolições, onde a casa em questão já não existe. Sensivelmente no mesmo local foi construída a que lá vemos agora e que tem do seu lado nascente um bonito mural dedicado a Artur Arcos ( que dá nome ao largo).

Peço aos meus leitores a desculpa pelo lapso.


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Nota de rodapé n.º 7 - da Capela de João Gordo

Uma pequena notícia recolhida num jornal de 15 de maio 1835. Sem comentários....

"Esta madrugada pelas 3 horas e meia deram sinal de rebate os sinos. Foi numa antiga capela, hoje loja de madeireiro, nos baixos da casa capitular da Sé: foi apegado por descuido de um oficial que havia ali feito a comida ... Nessa loja existe um antigo sepulcro com uma estátua de pedra. O edifício capitular esteve em perigo iminente de se incendiar, apesar de ser de abobado a loja."

 

Fotos: Wikipedia e AHMP (GisaWeb)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O Carroção pela pena de Ramalho Ortigão

Excerto de um texto de Ramalho Ortigão de 1876 em que este se refere ao carroção, o primeiro transporte coletivo do Porto.

"(...) Muita gente vinha do Porto, de madrugada [à Foz], tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinário inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção.

O carroção era um pequeno prédio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Dentro havia duas bancadas paralelas, em que se sentavam os viajantes. Por fora, sobre uma faixa pintada por uma cor alegre, lia-se o nome do proprietário e do inventor da máquina: Manoel José de Oliveira.

Quanta gente cabia num carroção? Nunca se pôde saber. Um carroção levava uma família. Que esta fosse pequena ou grande, o carroção não se importava com isso e levava-a. Levava-a de vagar, mas ia-a levando sempre.

O carroção

Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do teatro de S. João. A portinhola abria-se; havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se de que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora!


Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Matosinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, víveres para os viajantes e penso para os bois! Para este fim havia bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidades, poderia arrumar-se -- outra família.

Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções, por um pinto (...). Por tão módica quantia teve Manel Zé por muitos anos o glorioso privilégio de fazer viajar a população portuense pelos diversos subúrbios tão pitorescos da sua cidade invicta.

Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro dele e de se por a olhar para fora pelos postigos, não tinha remédio senão observar por muito tempo os lugares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoráveis.

O primeiro golpe na popularidade enorme de Manel Zé  foi-lhe verberado pelo segeiro Tavares, da rua da Boavista. Em certo dia de função suburbana Tavares pôs na rua três carroções novos, de cores extraordinárias, maiores do que os de Manel Zé e aperfeiçoados com o apenso festival de uma bandeira. Estes três carroções chamavam-se o Rápido, o Veloz e o Ligeiro. Do Porto à Foz, uma légua, ida e volta, grande celeridade, a toda a força dos bois, - um dia.

Manel Zé, vendo passar o Ligeiro, - e só Deus sabe o tempo que o Ligeiro levava a passar! - desmaiou de desgosto.

Carroção particular
Além destes carroções de aluguer puxados por bois, havia os carroções particulares, puxados por vacas.

Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diâmetro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta destes ganchos desciam quatro valentíssimas correias; na extremidade destas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na traseira uma tábua e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento. (...)"

Completo estas notas com o apontamento de uma curiosa notícia que li num jornal de 1836 na BPMP em que se refere precisamente a um acidente que sofreu uma distinta família da cidade que descia Cimo de Vila para vir ao teatro, no seu carroção. Acontece que, estando a passar uma banda marcial do exército em pleno toque, os bois lançaram-se, assustados, e botaram  a correr rua abaixo. Separaram-se do carro que aos trambolhões se imobilizou em frente à fonte e continuaram a sua marcha rebocando apenas as rodas frontais, até populares os imobilizarem em frente à igreja da Misericórdia!!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

As litografias de James Forrester de 1835

-- In, O Artilheiro, 4 de Março de 1836:


 BELAS ARTES

"É com o sentimento do mais entusiástico amor da pátria, que lançamos mãos da pena para noticiar que a heróica cidade do Porto principia a desenvolver de si o gosto particular de fazer conhecer os magníficos pontos de vista, que a fazem saliente entre as mais pitorescas cidades da Europa. De gravuras representando algumas paragens do Porto, só temos notícia da grande e antiga estampa, de antes de 1790, de toda a elevação da cidade, vista do Choupelo, a qual foi depois resumida para a Descrição de Agostinho Rebelo da Silva [sic]; bem como de uma vista de S. João da Foz, na mesma Descrição.

Há seis anos pouco mais ou menos, que numa obra periódica publicada em Londres, das principais cidades da Europa, se incluiu a cidade do Porto em um dos Folhetos, contendo somente 4 vistas - de quatro diferentes pontos, duas ao nascente, e duas ao poente dela.

Estava porém reservado para esta época, que Mr. Joseph James Forrester, mancebo inglês pertencente à casa comercial da firma aqui estabelecida com este sobrenome, principiasse a dar uma regular descrição de todas as belezas pitorescas do Porto, de que acabam de publicar-se duas partes, em 9 finíssimas estampas, gravadas primorosamente, e tiras em papel da China.

Os objetos escolhidos para princípio dessa coleção são:

O Porto visto do alto da Serra da Arrábida, olhando para o nascente.

O convento da Serra, visto do lado do sul fora da estrada que fechava a posição militar deste baluarte da liberdade no sítio de 1833, em um momento de ataque e defesa.

A vista do anfiteatro de toda a cidade, desde as Escadas do Codeçal até à Porta Nobre, tomado o ponto de vista do sítio das Alminhas nos Guindais de Vila Nova.


A vista de todo o lado da Serra, desde a Bateria da Eira, até à Bateria do Castelo de Gaia tomada do sítio em meio caminho da Corticeira.


 A vista do cais, e frontespicio da escadaria e igreja de Vale da Piedade, tomada da barreira que lhe fica contígua.


Uma vista tomada do muro do Jardim do Freixo, olhando pelo rio abaixo até às Baterias no alto e no Cais do Prado.

Uma vista tomada do alto de Avintes, sobre a margem oposta, desde Valbom até ao Freixo.

Além destas sete estampas, de cenas pitorescas em agradáveis pontos de vista, juntou-lhe o habilidosíssimo autor duas cenas domésticas, de merecimento igualmente distinto.

O interior da paroquial igreja de S. Nicolau em ocasião da celebração da missa do dia.


Uma cena no Mercado da Cordoaria, em ocasião de dia de Feira.

Por certo, que tudo quanto disséssemos de correção de desenho, beleza de edição, e merecimento geral da obra, seria gastar palavras supérfluas em elogios, que num lance de olhos se podem prestar vendo-se obra tão primorosa e tão lisonjeira para os portuenses, e seus admiradores.

O autor juntou a estas 9 vistas do Porto, um do Castelo da Figueira, tomada da parte da terra, em posição que mostra abranger três ou quatro milhas de costa.

Nós não sabemos que Mr. Forrester tenha de venda estes dous Cadernos, que abrangem as 10 mencionadas vistas: sabemos só que muitos dos seus amigos foram subscritores (em cujo número tivemos a honra de entrar) e que a subscrição foi de 4$800 reis. Não há nada mais barato, nem que tanto mostre o gosto e independência do autor, do que tratar ele de dar à luz estes ensaios de seu génio tão distinto em pintura de perspectiva, sem mais algum interesse, porque estamos certos de que estampas iguais, e do mesmo cunho, custam ordinariamente muito mais do dobro.

Como portuense, é nosso único fim agradecer por este modo publicamente ao Snr. Forrester este tributo da sua afeição a uma cidade, em cujo seio ele foi nosso companheiro no tempo do memorável sitio, defendido debaixo das ordens do imortal Duque de Bragança."

-- Adenda publicada no dia seguinte:

"No artigo a respeito do merecimento das estampas da cidade do Porto por Mr. Forrester, escapou-nos mencionar, que também tínhamos noticia de uma vista da entrada do Rio Douro pelo Snr. Kopke."

-- No dia 24 de Março surge também:

"Já no Artilheiro demos conta da publicação de várias vistas do Porto, pelo Snr. Forrester.

Para que se não julgue que o nosso juízo foi apaixonado no todo, sabemos que uma das pessoas inteligentes e de gosto desta cidade, a quem foram mandadas, por se achar ao presente numa quinta, escreveu a um amigo o seu juízo critico parcial sobre cada uma das estampas, o qual é o seguinte:
"Restituo as Vistas e agradeço o obséquio: resta-me dizer o juízo que faço delas. Quanto ao desenho está bom - a litografia é da melhor que se faz em Inglaterra, mas de algumas Vistas não sei se foram escolhidos os pontos para as tomar.

A Vista da Arrábida para cima, não faz grande efeito: o ponto junto ao rio para dar a mesma vista, abrangendo ambas as margens, parecia-me melhor escolhido: se o A. tomasse o ponto para esta vista de cima da montanha da Torre da Marca, em forma que abrangesse a linda vista do Candal até ao rio, e para cima, parte de Vila Nova &c seria de muito melhor efeito.

A do interior da igreja de S. Nicolau, está muito exata e linda: é pena que não fosse antes o interior da antiga e bela igreja dos frades de S. Francisco, ou a de S. Bento.

A perspetiva do Freixo, apresenta o Seminário e a China, demasiado pequenos, e nada mais dos muitos cotages que seguem para cima: esta vista seria melhor toada da Pedra Salgada, abrangendo o Freixo quasi na sua totalidade, o Esteiro de Campanhã e suas imediações.

O convento da Serra no tempo do cerco, está excelente em todo o sentido.

A da cidade tomada do princípio da Calçada da Serra, igualmente está muito boa: porém precisav para complemento, de outra vista da cidade tomada do Alto da Bandeira, para abranger até à Lapa &c e outra tomada do Castelo de Gaia, para abranger de Miragaia, às Virtudes, Hospital Novo, &c. Certo estou que quem tão bem soube desenhar as duas precedentes, igualmente o faria a estas, que em parte viriam a completar os três lados principais, donde o Porto precisa ser visto, e donde apresenta perspectivas diferentes.

A da feira da Cordoaria está linda e exata, mas se fosse tomada mais de longe, e não tanto no centro do local, talvez fizesse melhor efeito: talvez que do mercado do peixe, ou mais no Norte donde a vista abrangesse melhor espaço, seria melhor.

A de Santo António de Vale da Piedade está muito exata e boa.

A do Freixo parece demasiado pequena, e que se podia tirar mais partido deste belo edifício e local.

O Castelo da Figueira não o conheço; porém a vista é bela; só lhe acho lá um pescador, que me fez lembrar os napolitanos na bela peça do Massaniello: os portugueses não trazem botas, nem se ataviam tanto; ao menos os que tenho visto na maior parte das costas.

A Serra vista das Fontainhas está muito exata e linda."