sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Nota de Rodapé n.º 4 - A casa do Corpo da Guarda

"EDIFICIO HISTORICO

Está quasi concluida a demolição da casa do Largo do Corpo da Guarda, onde foi o primeiro theatro lyrico e que, mais tarde, serviu de quartel aos grilhetas.
O primeiro theatro d'opera lyrica foi inaugurado em 15 de maio de 1762, com a opera El trascurato (O descuidado), de Pergholese. A prima-dona chamava-se Giantini.
O theatro tinha a principio uma só vista, que era uma sala-regia, e n'ella corriam todas as peripecias do drama, sem se attender á veresimilhança do local."

Notícia extraída do O jornal do Porto de 12 de Outubro de 1892.

O edifício referido ficava num local que agora não existe de todo: o Largo do Corpo da Guarda. O monte foi esventrado, a cota muito rebaixada, sendo que nele temos hoje a Avenida Dom Afonso Henriques.
Construido no início do século XVIII para albergar um regimento militar, o que veio dar o nome ao largo; na fase final da sua existência albergou os calcetas, rapazes que cuja pena era trabalharem no calcetamento das ruas.

A sua demolição referida pelo jornal, feitas já a pensar no alargamento do acesso ao tabuleiro superior da ponte Luis I, viria a culminar precisamente na construção dessa avenida já nos anos 50 do século XX, que para sempre destruiu uma das mais antigas áreas da cidade conhecida como cividade (nome que por si só indica o quão antiga seria a ocupação do solo naquele local). 


"...consta este quartel de quatro arcos de cantaria bem talhada, os quaes formaõ a frontaria principal, que olha ao Nascente, no centro delles estaõ as armas Reaes Portuguezas lavradas em pedra e por baixo o anno da fundaçaõ deste edificio" (de Sousa Reis)

OBSERVAÇÃO: Se o primeiro teatro foi realmente colocado nesse edifício, é algo que solicito me confirmem, pois a ideia que tenho é que esse teatro foi colocado num outro edifício do mesmo largo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

"A ponte sem caminho"

Desta vez fui buscar um pequeno artigo de opinião que hoje bem poderia surgir na página da correspondência dos leitores de um qualquer jornal. Só que esta correspondência, por ser mais que centenária, não deixa de ter o seu interesse histórico e mesmo pitoresco.

Por ele também se pode avaliar, que são velhas as premissas que vão dar à conclusão de que este país já padecia de certos problemas de organização, compadrios e morosidade crónica....

Ressalve-se que o episódio narrado teve lugar durante o inverno, após a ocorrência de uma cheia.

"Quando o bem do público está em oposição com os interesses dos particulares, dita a razão que estes sejam sacrificados; contudo a lei, em matéria de expropriações por utilidade pública, não quis ser desumana, e concede em compensação deste sacrifício uma razoável indemnização; logo é vergonha, é um escândalo público, que as nossas obras fiquem tolhidas e imperfeitas com manifesta incomodo e quiçá prejuízo público por causa dos interesses de alguns particulares.

Estas reflexões nos vieram ao espírito ontem, quando estando nos na embocadura da R de S João, e querendo ir a Vila Nova, tivemos de atravessar umas barcaças e estreitas tábuas para chegar às escadas de Cima do Muro para dai seguir à ponte.



Veja, Sr. Redactor, se elas não são bem cabidas na obra da ponte pênsil. Porque razão o governo fez o sacrifício de uma ponte de barcas sólida e segura na importância talvez de 30 contos de réis, e do seu rendimento anual, pelo menos de 10 contos, a não ser com o fim de dotar o público com uma ponte, que servisse no tempo das cheias ainda as maiores?

Isto é sem questão: mas o que me parece não menos, é que que as contemplações com os interesses particulares de alguém fizeram com que ela em vez de ser colocada no sitio onde a conveniência publica o pedia, lá ficou relegada na extremidade da cidade, distante mil passos do verdadeiro sitio, em uma e outra margem, de sorte que é preciso dizer um caminho inútil de 2000, ou perto, passos. Mas ainda não fica aqui o escândalo, porque ainda ate hoje a dita ponte não tem caminho em termos para gente de pé na ocasião das grandes cheias, e nenhuma para animas de transporte, e isto por causa das sobreditas contemplações com os interesses particulares. Até quando durará este estado? Não sei: o que sei é que, já lá vão mais de 12 anos sem que se tenha cuidado em tal caminho, e pode dizer-se que temos ponte e não temos caminho para ela!

V. me responderá que se passaram mais de 4000 anos sem ponte pênsil, e que se daqui a um século houver caminho adequado para ela já será um outro progresso! E rápido! E que a lei do bem público só milita quando não fere os interesses particulares, ou este é pobre sem influência."

J.A. de Oliveira in jornal O commércio de 1855.

sábado, 9 de janeiro de 2016

O Edifício do cunhal do largo dos Lóios com a rua de Trás

Hoje no largo dos Lóios praticamente todas as habitações ali existentes encontram-se recuperadas apresentando um aspecto exterior novo e fresco que desejo que se mantenha.

Um deles é o bonito edifício de habitação oitocentista existente à entrada da rua de Trás. Nos arquivos da câmara municipal está ainda em depósito o seu "risco", elaborado nada mais nada menos do que por Teodoro de Sousa Maldonado, o primeiro(?) arquitecto da cidade.

Teodoro de Sousa Maldonado, nascido no Porto em 1759, formou-se em matemática na Universidade de Coimbra e exerceu o cargo de arquitecto na edilidade portuense de 1789 a 1799, ano da sua morte.

É curioso notar que, embora na planta não surja qualquer data, a ficha dele apresenta a de 9 de Outubro de 1799; será a data de aprovação? Sendo a data verdadeira para a sua execução, esta terá sido porventura das últimas (a última?) planta executada por Maldonado, pois reporta ao ano da sua morte! (recorde-se que o seu legado, além das plantas "técnicas" consiste sobretudo numa bonita vista do Porto executada em 1789 bem como a da barra do Douro que nos apresenta também a (ainda) vila da Foz).

As 4 imagens abaixo são: a primeira é a planta de 1799; a segunda um pormenor de uma foto de 1894 aquando das comemorações henriquinas e as duas seguintes tiradas por mim na chuvosa manhã de ontem.

Notar que na realidade o edifício não foi construído conforme o projeto, sendo bem notórias algumas diferenças ao nível do número de arcos, da ornamentação do segundo andar e do próprio telhado.

A arcaria de elevado pé direito existente no rés-do-chão fora projectada para que aí se pudesse fazer a venda de pescado que vinha das localidades de Vila do Conde, Matosinhos e São João da Foz; estando prevista nos planos da Junta das Obras Públicas. Se realmente esse mercado foi ali instalado não o sei, pedindo a um leitor mais informado que me possa elucidar.

Planta de 1799

1894
2016
2016

Fontes: AHMP e o blogue "Ruas do Porto"