domingo, 29 de maio de 2016

O Cais dos Guindais ontem e hoje

A bem da verdade o Cais dos Guindais já não existe... Aqui vemos uma comparação entre a azáfama que ali se vivia até pelo menos os anos trinta do século passado e a ruína que o rio lentamente vai demolindo, a cada invernada.

( Recupero AQUI a postagem sobre ele já colocada em 2010... )



sexta-feira, 20 de maio de 2016

Como era a Rua Nova dos Ingleses, até 1882

Esta imagem pertence ao mesmo lote das últimas que temos vindo a explorar e é também já conhecida a quem for dado a estas coisas das fotografias do Porto do século XIX... Trata--se de uma fotografia que capta a Rua Nova dos Inglezes (hoje Rua do Infante D. Henrique)

1 - Rua dos Inglezes antes de 1882
Por aqui se vê que a rua se encontrava completamente ocupada por edifícios, alguns ao estilo dos que ainda lá se encontram, mas com uma notável diferença: os que estão à esquerda da foto (letra A) foram demolidos em 1883(?) para dar lugar ao Jardim do Infante.

 - Com a letra B está assinalada a entrada da Rua das Congostas, onde ficava o chafariz do século XVII que foi demolido juntamente com toda a rua. Sensivelmente nesse local arranca hoje a Rua do Mouzinho;

- Naquele tempo como no de hoje, a entrada da Rua da Alfândega permanece (letra C);

- Finalmente com a letra D vemos as casas da Rua dos Mercadores que cerca de sessenta anos depois de ter esta foto sido tirada, seriam demolidas para construção do Túnel da Ribeira.

Para que se possa vislumbrar melhor tudo o que para sempre desapareceu, vejam-se abaixo excertos da fotografia, com maior ampliação. 

Jardim do Infante

Início da Rua das Congostas
Rua dos Mercadores

Esta rua foi alvo de uma pintura do Barão de Forrester, bastante conhecida, que nos mostra a "Bolsa a seu aberto", quando o edifício do Palácio da Bolsa ainda não se encontrava totalmente disponível. Por mim, que tenho o hábito de vasculhar jornais antigos, já me dei com uma ou outra notícia de crianças mendigas que à noite, nessa mesma época, dormiam nos portais destas casas opulentas.
O que era uma azáfama de negócios durante o dia, era um triste, frio e enorme colchão de pedra para alguns seres humanos.
Termino com este apontamento agridoce, na tentativa de mais uma vez fazer a ponte entre o charme destas fotos antigas e a realidade que elas muitas vezes escondiam.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Alexandre Herculano: um homem de verdadeiro carácter.

Este blogue não entra muito no tema da política ou da biografia, não é essa a sua intenção nem sequer um desejo subjacente à sua ideia. Quantos nomes há, espalhados por ruas desta e de outras cidades, cuja sua ligação ao passado os vestem de uma aura de santidade mas que foram na sua época tão movidos pela sede do poder e dinheiro como os de agora (e acreditem, muitos dos de agora vão estar em 2116 convertidos com aura de santidade também...).

Ainda assim, uma pessoa há que gostava de salientar dos demais, de seu nome Alexandre Herculano de Carvalho Araújo. Um ser que se distinguiu da maioria das figuras de proa do seu tempo, tendo um papel (aparentemente) secundário na vida do país. Mas não duvidemos que contribuiu para a sua estabilidade após a guerra dos irmãos, da guerra patulaica e outras ocorrências onde em nome do povo alguns flautista de Heimlich, tocaram a mesma música que há muito se canta ainda...

Aquando da guerra civil de 1832-1834, Alexandre Herculano foi colocado como 2º bibliotecário na então recém criada Biblioteca Publica Municipal do Porto. E foi nesta mesma biblioteca que há dias vim a "descobrir" no Periódico dos Pobre no Porto estes muito interessantes documentos que reproduzo abaixo. (lembro que para este episódio temos de ter em conta que semanas antes se havida dado um golpe, ficando conhecido como a Revolução de Setembro). Dias depois, era Alexandre Herculano dispensado do seu lugar, englobado numa cornucópia de exonerações dos indivíduos que não serviam aos interesses dos setembristas, sempre usando o nome da rainha e sempre assinadas por Manuel da Silva Passos.

Foi precisamente contra esta revolução que Herculano se estreou na literatura com A voz do profeta e o próprio regime que o afastara, anos mais tarde voltou a chama-lo, desta vez para redator do Diário do Governo. Foi também maçon mas cedo abandonou essa agremiação, quem sabe por se querer manter totalmente isento e livre(?).

Mas mesmo que nos bastidores, qual será a sua implicação na Regeneração como conselheiro do rei consorte D. Fernando e subsequente estabilização do país? Certo é que nos últimos dez anos da sua vida (faleceu em 1877) se retirou para a sua propriedade de Vale de Lobos para a tranquilidade de uma quase vida monástica como produtor de azeite, mantendo até ao fim uma autoridade moral inigualável.


Vejamos então o que se encontra publicado no Periódico dos Pobres:

"Pede-se-nos que publiquemos na nossa folha os documentos seguintes:

Exmo.º Sr. Manoel da Silva Passos.
Ha um mez que o 1º Bibliothecario da Bibliotheca Publica desta cidade e eu fomos convocados para prestar juramento á Constituição de 1822, que então e hoje, de futuro alterada, felizmente nos regia e rege. Ambos recusamos praticar este acto: procedimento a que, pela minha parte, me levarão as razões que V. Ex.ª verá da resposta que dei, e que remetto inclusa. Foi logo demittido o meu colega, e eu ainda aqui estou esquecido. Não attribuo isto a falta de equidade de V. Ex.ª, porque reconheço a rectidão da sua alma e que nem odio nem affeição serião capazes de torcer os principios de V. Ex.ª, antes o lanço á conta dos muitos cuidados e negocio que cercão V. Ex.ª no alto cargo em que o collocou o voto unanime da Nação e a livre escolha de S. M. a Rainha. Só da minha insignificancia me dôo, que fez não ser eu lembrado de V. Ex., que a tantos com mão profusa tem liberalisado a honra da demissão.
Não creia V. Ex.ª, que por este modo a peço: porque nem uma demissão pediria ao Governo actual: esta minha carta é apenas um memorandum que levo á presença de V. Ex.ª, como se eu fosse alheio ao caso; porém não indifferente á boa fama e gloria de V. Ex.ª.
A Providencia não se esqueça de V. Ex.ª nem de nós, como todos precisamos para que Portugal seja salvo. = Porto 19 de Outubro de 1836. = Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo."

Seguem-se apresentados os documentos que provocaram esta reacção de fina ironia de AH:

" Illm.º Sr. = Tendo S. M. a Rainha determinado que a Camara e mais Authoridades e Empregados jurem a Constituição de 1822, assim o faço saber a V. S.ª para que hoje, ao meio dia, venha ao Paço do Concelho prestar o mesmo juramento, e defferi-lo depois aos Empregados d'essa Repartição. Deos guarde a V. S.ª - Porto 17 de Setembro de 1836 = Illmo.º Sr. Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo = Manoel Pereira Guimarães, Presidente."

Ao que Herculano respondeu:

"Illm.º Sr. - Persuadido pela voz da intima consciencia de que não devo prestar o juramento para que V. S.ª me convida no seu officio de hoje, julguei tambem que cumpria communicar-lhe immediatamente a minha resolução.
A fé que prometti guardar á Carta Constitucional da Monarchia, sellei-a com as miserias do desterro, e com os padecimentos e perigos de Soldado, os quaes passei na emancipação da Patria: para a conservação de um cargo publico eu não sacrificarei, por tanto, nem a religião do juramento, nem o orgulho que me inspirão as minhas acções passadas.
Pode assim V. S.ª declarar a essa Illm.ª Camara que o meu lugar de 2º Bibliothecario está vago, para que ella proponha ao Governo actual outra qualquer pessoa, que por certo, melhor do que eu, desempenhará as obrigações a elle annexas. Deos guarde a V. S.ª Porto 17 de Setembro de 1836. - Illm.º Sr. Manoel Pereira Guimarães. = Alexandre Herculano de Carvalho."

Aqui está, espraiada em palavras, a nobreza de carácter que este homem possuía. E o Porto, como tem tratado da casa onde ele viveu enquanto por aqui permaneceu? Bem, da maneira que abaixo vemos...

Casa em que viveu Alexandre Herculano, na Travessa de S. Sebastião. (2016)


sexta-feira, 6 de maio de 2016

A rua "do Mouzinho" na primeira foto dela conhecida *

Hoje a bem da verdade não trago uma fotografia nunca publicada (aparece, por exemplo, na quinta série do Tripeiro ainda que com fraca qualidade mas mais recentemente a vi já no facebook do Porto Desaparecido embora esta cópia não pareça ter a mesma origem).

Esta foto mostra-nos a rua Mouzinho da Silveira pouco tempo depois de ser aberta. Ela é interessante, pois, aparentemente parece ser a paisagem que todos estamos habituados (sem automóveis!). Contudo, logo no seu centro em segundo plano, lá ao fundo notamos diferenças. Mas não só aí...

Eis a foto:
187?



Como podem verificar nela numerei alguns pontos, que são precisamente para os quais chamo a atenção abaixo.

1. Este é o mais óbvio mesmo para o leitor menos dado a esmiuçar as fotografias pretéritas da nossa cidade, que acredito que todos logo identifiquem: ao topo da rua deparamos com o mosteiro de São Bento de Avé-Maria duas décadas antes da sua demolição para dar lugar à estação ferroviária lá existente. E ao seu lado, no gaveto da rua do Loureiro com a rua do Corpo da Guarda, o bonito edifício em estilo neoclássico(?) demolido cerca de 80 anos depois desta foto ter sido tirada, para permitir o enorme rasgão da avenida da ponte (retângulo vermelho).



2. Agora chamo a atenção para um pouco acima do centro da rua. Aqui vemos um edifício em construção (que foi encostar à fonte monumental que na foto surge já construída), e do outro lado um espaço em branco. Este espaço foi o que resto do Largo do Souto (ou de S. Roque) e que depois foi preenchido com o edifício que hoje lá se encontra (farei um post sobre o assunto um dia destes...). Para quem ainda não sabe de que edifício estou a falar, basta dizer que é o que preenche o lado direito do pequeno larguinho onde se encontra a Adega do Olho. O mesmo ainda não aparece na carta da cidade de 1892, quando praticamente toda a rua já se encontrava consolidada.


3. Finalmente, um curioso pormenor, quem sabe o mais escondido dos três. Vemos no extrato apresentado abaixo que no lado esquerdo da rua se encontram uns edifícios aparentando abandono e antiguidade. Não são com certeza edifícios novos construídos no alinhamento da nova rua. Então o que serão?



Os leitores assíduos da A Porta Nobre lembram-se com certeza de um post que aqui coloquei sobre a desaparecida rua da Biquinha, rua essa que deu lugar a parte da que aqui analisamos. Nesse post verificamos que as traseiras das casas do lado esquerdo da Mouzinho até um pouco antes da rua da Ponte Nova (no correr onde está, por exemplo, a Tipografia Peninsular) ficaram com um saguão que nada mais é do que a ex-rua da Biquinha. Esse arruamento fazia uma ligeira curva, infletindo para a direita até terminar numa espécie de largo (talvez a palavra pátio, à lisboeta seja a mais adequada). Estas casas naquele local, em minha opinião, só podem ser construções da rua desaparecida que por qualquer motivo ainda não tinham sido demolidas.

Atualmente porém, estas edificações já não existem, e talvez o único resquício da velha Biquinha visto da Mouzinho seja um segundo andar recuado e em ângulo existente numa edifício que foi chamado ao alinhamento da nova rua... Mas isto já seria conjeturar demais sem ir ao AHMP confirmar.

Como curiosa nota, não tão... romântica da história da abertura desta rua, recordo um protesto que um morador da mesma expôs à câmara municipal motivado por um pequeno terreno (salvo erro de 3m2) que confinava com a sua casa e cujo proprietário ainda não havia urbanizado. Na origem do protesto estava o uso que populares lhe davam de latrina, dado que este não se encontrava devidamente tapado, estando pelo estado de estaleiro em que a rua se encontrava em local algo recôndito! Uma face da cidade que não estamos habituados a "sentir" quando exploramos o apaixonante mundo da história do nosso burgo, mas que não era caso único, pois com outros exemplos já me deparei nas minhas pesquisas.
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* OBS: Não sei se o título é exato. Acredito que em mãos de colecionadores particulares existam outras fotos, inclusive da sua abertura... ainda assim esta é a mais antiga que conheço.

domingo, 1 de maio de 2016

O acontecimento que tornou possível o Palácio da Bolsa

O Palácio da Bolsa é um dos ex-libris da cidade do Porto. Um edifício excecional em muitos aspetos, e - creio ter lido algures - o monumento da cidade que mais visitantes recebe.

Ainda assim a sua existência apenas se tornou possível (pelo menos na forma em que se encontra) devido a um acontecimento trágico. Esse acontecimento foi relatado na Chronica Constitucional do Porto, de onde extraimos o seguinte:

À esquerda, entre a igreja conventual e a da ordem terceira podemos ver a antiga portaria do convento, tudo o que restou do aspeto exterior da casa franciscana.
O outro facto teve lugar nesta cidade do Porto na noite de 24 do corrente (...).
Haviam os malvados [miguelistas] ajustados com os falsos ministros da religião que, se S.M.I. triunfasse naquele dia [ataque à Ponte de Ferreira], os seus emissários dariam um alarme à cidade para por em desordem e confusão seus pacíficos habitantes; e se este alarme não tivesse resultado, as tropas da rainha fossem queimadas nos conventos quando recolhessem à cidade; e para mais facilmente o conseguirem, os frades nessa noite dariam vinho em abundância aos soldados.
Não produzindo o alarme o efeito que os rebeldes esperavam, teve lugar a distribuição de vinho, mas os comandantes das companhias não consentiram que os soldados bebessem senão mui pequena porção.
O convento de S. Francisco, aonde estava aquartelado o valoroso batalhão 5º, quando os soldados começavam a descansar das fadigas da batalha, começou a arder nos quatro ângulos e em poucos minutos foi geral a conflagração; havendo fugido alguns frades que estavam no segredo nefando, e indo um deles levar a Penafiel a notícia que foi ali muito celebrada por esses hipócritas que se dizem amigos do trono e do altar.
A divina providência, que vigia sobre nós, que protege, salvou aquele bravo batalhão, que perdeu três soldados devorados pelas chamas, perda sensível para todo o homem de bem, que vê indignado os meios infames e imorais de que se serve o crime e a irreligião para fazer guerra à fidelidade e à virtude.
Deve mais acrescentar-se que os frades incendiários não se embaraçaram com a Santa Eucaristia que seria reduzida a cinzas se um soldado do mesmo batalhão 5º acompanhado de Mr. S. Leger, ajudante de campo de S.M.I. [e conde da Bemposta], não se arremessasem por entre as chamas, tirando os sagrados vasos do sacrário, e entregando-os ao ministro da religião com todo o respeito e acatamento devidos. (...)

É desta forma que o jornal, afeto claro à causa liberal, no seu nº de 3 de Agosto de 1832 relata o sucedido. Mas no dia seguinte mais pormenores são dados:

Na noite de 24 para 25 de Julho passado os frades do convento de S. Francisco desta cidade, da província dos Menores Observantes de Portugal, receberam com os braços abertos os soldados do batalhão de caçadores nº 5 (...) [que] desconfiaram logo da sinceridade e cordialidade da receção, e a tiveram por hipocrisia que escondia alguma negra traição, e não se enganaram nos seus juízos. Os frades (...) também de generosos, abriram suas adegas, e ofereceram aos soldados quanto vinho quisessem beber. Mas a prudência aconselhou a desconfiança, e esta providenciou por tal forma que não se consentiu a cada um soldado beber mais que uma pequena porção de vinho (...).
Pela meia noite foram vistos sair dous frades do dito convento, e após estes mais alguns outros. Passada meia hora o fogo se ateou nos quatro ângulos do edifício, que inteiramente ardeu. Muito grande foi a confusão e muito custou a livrar os soldados do incêndio, e a despeito dos maiores esforços e diligências dous pereceram nas chamas; outros dous despedaçados por se precipitarem das janelas; e dous finalmente das queimaduras no hospital. o resto da comunidade via e observava a sangue frio este horrendo e doloroso espetáculo! A indiferença e a frieza com que estas frades viam arder o seu convento, queimar alguns bravos defensores da liberdade e da rainha; o abandono em que deixavam no sacrário da igreja os vasos sagrados com a Sacrosanta Eucaristia, sendo possível salva-los, aconselhou a autoridade a lançar mão deles e foram presos. (...)
Por não haver vento o incêndio limitou-se no convento predito; de outra sorte toda a cidade arderia, ou pelo menos grande parte dela, atenta a situação do edifício. (...)

Assim foi que, passado o estado de guerra civil e com D. Miguel fora do país, foi em 1834 o edifício do convento cedido à Associação Comercial do Porto, para nele instalar a praça do comércio, que até aquela época se fizera ao ar livre, na rua do Infante.

A última fase da reconversão do convento no palácio da Bolsa ainda foi captada em foto. Aqui se vê ainda algumas das paredes calcinadas do convento, depois substituídas pelas agora existentes.
 Do convento franciscano pouco ficou: alguma parede ou escadaria aqui e ali, a antiga portaria praticamente intocada e a igreja que verdade seja dita, vale bem mais do que o restante. Contudo, graças a esta calamidade pôde nascer um dos sem dúvida mais belos edifícios da cidade; quer por fora quer por dentro.