sexta-feira, 29 de julho de 2016

As litografias de James Forrester de 1835

-- In, O Artilheiro, 4 de Março de 1836:


 BELAS ARTES

"É com o sentimento do mais entusiástico amor da pátria, que lançamos mãos da pena para noticiar que a heróica cidade do Porto principia a desenvolver de si o gosto particular de fazer conhecer os magníficos pontos de vista, que a fazem saliente entre as mais pitorescas cidades da Europa. De gravuras representando algumas paragens do Porto, só temos notícia da grande e antiga estampa, de antes de 1790, de toda a elevação da cidade, vista do Choupelo, a qual foi depois resumida para a Descrição de Agostinho Rebelo da Silva [sic]; bem como de uma vista de S. João da Foz, na mesma Descrição.

Há seis anos pouco mais ou menos, que numa obra periódica publicada em Londres, das principais cidades da Europa, se incluiu a cidade do Porto em um dos Folhetos, contendo somente 4 vistas - de quatro diferentes pontos, duas ao nascente, e duas ao poente dela.

Estava porém reservado para esta época, que Mr. Joseph James Forrester, mancebo inglês pertencente à casa comercial da firma aqui estabelecida com este sobrenome, principiasse a dar uma regular descrição de todas as belezas pitorescas do Porto, de que acabam de publicar-se duas partes, em 9 finíssimas estampas, gravadas primorosamente, e tiras em papel da China.

Os objetos escolhidos para princípio dessa coleção são:

O Porto visto do alto da Serra da Arrábida, olhando para o nascente.

O convento da Serra, visto do lado do sul fora da estrada que fechava a posição militar deste baluarte da liberdade no sítio de 1833, em um momento de ataque e defesa.

A vista do anfiteatro de toda a cidade, desde as Escadas do Codeçal até à Porta Nobre, tomado o ponto de vista do sítio das Alminhas nos Guindais de Vila Nova.


A vista de todo o lado da Serra, desde a Bateria da Eira, até à Bateria do Castelo de Gaia tomada do sítio em meio caminho da Corticeira.


 A vista do cais, e frontespicio da escadaria e igreja de Vale da Piedade, tomada da barreira que lhe fica contígua.


Uma vista tomada do muro do Jardim do Freixo, olhando pelo rio abaixo até às Baterias no alto e no Cais do Prado.

Uma vista tomada do alto de Avintes, sobre a margem oposta, desde Valbom até ao Freixo.

Além destas sete estampas, de cenas pitorescas em agradáveis pontos de vista, juntou-lhe o habilidosíssimo autor duas cenas domésticas, de merecimento igualmente distinto.

O interior da paroquial igreja de S. Nicolau em ocasião da celebração da missa do dia.


Uma cena no Mercado da Cordoaria, em ocasião de dia de Feira.

Por certo, que tudo quanto disséssemos de correção de desenho, beleza de edição, e merecimento geral da obra, seria gastar palavras supérfluas em elogios, que num lance de olhos se podem prestar vendo-se obra tão primorosa e tão lisonjeira para os portuenses, e seus admiradores.

O autor juntou a estas 9 vistas do Porto, um do Castelo da Figueira, tomada da parte da terra, em posição que mostra abranger três ou quatro milhas de costa.

Nós não sabemos que Mr. Forrester tenha de venda estes dous Cadernos, que abrangem as 10 mencionadas vistas: sabemos só que muitos dos seus amigos foram subscritores (em cujo número tivemos a honra de entrar) e que a subscrição foi de 4$800 reis. Não há nada mais barato, nem que tanto mostre o gosto e independência do autor, do que tratar ele de dar à luz estes ensaios de seu génio tão distinto em pintura de perspectiva, sem mais algum interesse, porque estamos certos de que estampas iguais, e do mesmo cunho, custam ordinariamente muito mais do dobro.

Como portuense, é nosso único fim agradecer por este modo publicamente ao Snr. Forrester este tributo da sua afeição a uma cidade, em cujo seio ele foi nosso companheiro no tempo do memorável sitio, defendido debaixo das ordens do imortal Duque de Bragança."

-- Adenda publicada no dia seguinte:

"No artigo a respeito do merecimento das estampas da cidade do Porto por Mr. Forrester, escapou-nos mencionar, que também tínhamos noticia de uma vista da entrada do Rio Douro pelo Snr. Kopke."

-- No dia 24 de Março surge também:

"Já no Artilheiro demos conta da publicação de várias vistas do Porto, pelo Snr. Forrester.

Para que se não julgue que o nosso juízo foi apaixonado no todo, sabemos que uma das pessoas inteligentes e de gosto desta cidade, a quem foram mandadas, por se achar ao presente numa quinta, escreveu a um amigo o seu juízo critico parcial sobre cada uma das estampas, o qual é o seguinte:
"Restituo as Vistas e agradeço o obséquio: resta-me dizer o juízo que faço delas. Quanto ao desenho está bom - a litografia é da melhor que se faz em Inglaterra, mas de algumas Vistas não sei se foram escolhidos os pontos para as tomar.

A Vista da Arrábida para cima, não faz grande efeito: o ponto junto ao rio para dar a mesma vista, abrangendo ambas as margens, parecia-me melhor escolhido: se o A. tomasse o ponto para esta vista de cima da montanha da Torre da Marca, em forma que abrangesse a linda vista do Candal até ao rio, e para cima, parte de Vila Nova &c seria de muito melhor efeito.

A do interior da igreja de S. Nicolau, está muito exata e linda: é pena que não fosse antes o interior da antiga e bela igreja dos frades de S. Francisco, ou a de S. Bento.

A perspetiva do Freixo, apresenta o Seminário e a China, demasiado pequenos, e nada mais dos muitos cotages que seguem para cima: esta vista seria melhor toada da Pedra Salgada, abrangendo o Freixo quasi na sua totalidade, o Esteiro de Campanhã e suas imediações.

O convento da Serra no tempo do cerco, está excelente em todo o sentido.

A da cidade tomada do princípio da Calçada da Serra, igualmente está muito boa: porém precisav para complemento, de outra vista da cidade tomada do Alto da Bandeira, para abranger até à Lapa &c e outra tomada do Castelo de Gaia, para abranger de Miragaia, às Virtudes, Hospital Novo, &c. Certo estou que quem tão bem soube desenhar as duas precedentes, igualmente o faria a estas, que em parte viriam a completar os três lados principais, donde o Porto precisa ser visto, e donde apresenta perspectivas diferentes.

A da feira da Cordoaria está linda e exata, mas se fosse tomada mais de longe, e não tanto no centro do local, talvez fizesse melhor efeito: talvez que do mercado do peixe, ou mais no Norte donde a vista abrangesse melhor espaço, seria melhor.

A de Santo António de Vale da Piedade está muito exata e boa.

A do Freixo parece demasiado pequena, e que se podia tirar mais partido deste belo edifício e local.

O Castelo da Figueira não o conheço; porém a vista é bela; só lhe acho lá um pescador, que me fez lembrar os napolitanos na bela peça do Massaniello: os portugueses não trazem botas, nem se ataviam tanto; ao menos os que tenho visto na maior parte das costas.

A Serra vista das Fontainhas está muito exata e linda."

terça-feira, 26 de julho de 2016

Local para os "Miros" no Porto?

Na sequência da notícia ontem avançada na comunicação social, dizendo que a coleção de obras de Miro poderão vir para o Porto; apresento a minha humilde "solução" para o espaço que o poderá albergar.

Trata-se do extinto museu de Etnografia e História - que ainda cheguei a visitar quando era miúdo - e que se encontra encerrado há décadas! Que melhor motivo para recuperar aquele palacete, e colocar uma importante coleção bem no coração da cidade, dando uma nova centralidade aquela pequena praça que atualmente quase passa despercebida de todos?
(imagem do googlemaps)


Que vos parece, distintos leitores?

domingo, 24 de julho de 2016

O fortim da Porta Nobre

Já aqui coloquei várias informações sobre a Porta Nobre e o desaparecido Bairro dos Banhos, para sempre destruído. Nunca duvidei - embora para isso careça da provas documentais - que grande parte da muralha bem como parte da Porta Nobre e do fortim não foram de facto destruídos, mas ficaram como já referido, sepultados no imenso sarcófago que é a sapata da rua Nova da Alfândega e sobretudo o local onde agora existe o parque de estacionamento. Alguns destes restos acabaram por ver a luz do dia, quando se fez uma sondagem prévia naquele local sensivelmente em frente à rua Comércio do Porto, no ano de 2004. Estava em vista fazer-se ali um projeto Docas como em Lisboa, mas talvez porque de facto apareceu um grande trecho da muralha - que antigamente era a continuação do chamado muro dos bacalhoeiros mais conhecida por rua de Cima do Muro, a coisa felizmente não avançou. Nessa altura, salvo erro o presidente da Junta de Freguesia de São Nicolau, teve a meu ver o infeliz comentário que ali aparecera um ninho de ratos... Certo é que ali está muita coisa ainda escondida... e a prova é que há uns anos aquando da reabilitação de uma casa da rua Nova da Alfândega foi descoberta outra por baixo dela, a rua que lhe estava contígua (não a dos Banho) e a parede da casa que se encontrava antigamente do outro lado da rua! Mas é óbvio, para quê demolir tudo, quando no fundo o que é preciso é encher tudo com entulho? Ora, atrás escrevi que carecia de obras documentais sobre a manutenção de parte das estruturas da muralha fernandina naquela área. Contudo algumas fotografias parecem corroborar pelo menos em parte esta teoria. Essas fotografias centram-se sobretudo no fortim que ali existiu.

à esquerda a praia de Miragaia com os cobertos, à direita a rua de Cima do Muro e ao centro o fortim da Porta Nobre.
O fortim e a sua moldura: ao lado deste é possível ver os torreões que ladeavam a Porta Nobre, atrás dele a escadaria que dava acesso à desaparecida rua de Cima do Muro.
Este pequeno baluarte foi construído sensivelmente ao mesmo tempo que o de S. João da Foz e talvez já estivesse finalizado em 1578 (certo é que em 1570 estava em construção). Brás Pereira foi o vedor da sua construção. O seu objetivo era claro, como diz na carta da sua construção: "...pera aí se assentar a artelharia para varejar o rio por não haver outro lugar mais conveniente onde se possa assetar; e era muito necessário para defensão da cidade..." As linhas atrás foram retiradas do estudo de Carlos Eduardo de Resende Fernandes Jorge de 2014, que pode ser consultado on line no repositório aberto da Universidade do Porto. Contudo num estudo mais antigo publicado em dois volumes e intitulado O Porto e o seu termo, parece indicar que aquela estrutura foi erguida nos últimos anos do reinado de Filipe II, tendo sido construído no local da muralha por ventura mais vulnerável a um ataque fluvial. Para sua construção uma casa que se encostava à muralha (que pelo lado de fora e que pelo seu telhado permitia o fácil acesso ao interior da cidade) foi adquirida à proprietária por 95$000 reis e no seu local edificado o fortim onde durante meses trabalharam oficiais de construção orientados pelo mestre pedreiro Manuel Luís. De uma forma ou de outra, não será de duvidar que cedo terá ficado obsoleto há medida que a tecnologia piroblástica ia evoluindo...
O fortim ainda intocado(?) com o bairro dos banhos já demolido. Todo o troço da muralha assinalado presumivelmente ainda lá se encontra soterrado e parte dela viu de novo a luz do dia em 2004, só para ser novamente soterrada.
E ele ali ficou, usado nos seus últimos dias entre outras coisas como prisão militar à espera de desaparecer às mãos do progresso do século XIX ou ser mantido pelo seu valor histórico no século XX. Infelizmente a primeira opção "adiantou-se". Ficam para memória as imagens que felizmente chegaram até nós e onde podemos comprovar, qual cobra digerindo a sua refeição, a sua aglutinação por parte do tal progresso sob o nome de ramal da alfândega.

O fortim já quase completamente engolido nas novas construções, atrás dele ainda corre um substancial pano de muralha que também viria a desaparecer.
Uma outra perspectiva. Nota-se perfeitamente a forma arredondada do baluarte bem como a existência ainda de um grande pano de muralha.
Foto recente indicando o posicionamento do fortim. Depois da desativação das rampas para trânsito de mercadorias que ali existiram, mais área foi tomada ao rio cristalizando-se na sua forma atual.

domingo, 17 de julho de 2016

Nota de rodapé n.º 6 - da Porta de Carros

Foi no final do século XVIII que o pano de muralha entre a estação de São Bento e o largo dos Loios foi demolido, sendo a estreita viela existente onde hoje corre a fachada do Hotel Intercontinental incorporada na propriedade dos padres loios para nele construírem o edifício que agora lá se apresenta.

No cunhal desse edifício com a praça Almeida Garret e correndo Este-Oeste situava-se a famosa Porta de Carros, umas das mais concorridas pelo trânsito de pessoas e mercadorias para o norte e interior-norte do país; porta essa que desapareceu na mesma época que se refere acima.

Ficou no entanto imortalizado na figura que se apresenta abaixo (atribuída a Villa Nova). Como curiosidade, refira-se que nela ainda se vê à esquerda da porta a entrada da viela que corria ao longo da muralha e que veio a ser incorporada na propriedade do convento. E esse local é hoje ocupado pelo novo Café Astoria pertencente ao hotel.

No pormenor mostrado abaixo de uma fotografia de meados(?) do século XIX, ainda se pode verificar grosso modo a área que aquela antiga saída da cidade ocupara, provando ser muito estreita para os padrões atuais (e mesmo para os do século XIX...).


A porta foi de facto demolida ainda em setecentos, contudo encontramos esta notícia no O Periódico dos Pobres no Porto a 3 de Maio de 1845, que nos dá um dado curioso e derradeiro sobre ela:

Por ocasião de se abrir um servedouro para conduzir as vertentes da calçada da Teresa, e rua da Madeira, em direção ao Rio da Vila, que passa no lago das Freiras Bentas, foi preciso desmanchar os alicerces da antiga Porta de Carros, uma das que no segundo circuito da Cidade era das mais frequentadas.

Décadas mais tarde iria também ser demolido o pano de muralha que servia de muro ao convento de São Bento aquando da construção da estação de caminho de ferro...

Da muralha que outrora corria entre a calçada da Teresa e o largo dos Loios ficaram os silhares de boa esquadria reaproveitados na construção do edifício do hotel e na sapata da rua da Madeira; onde os passarinheiros costumavam dependurar as suas gaiolas ao tempo em que por ali se fazia a feira dos passarinhos.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Visita ao Porto (5)

Finalizamos com a nossa (intermitente) visita ao Porto no já longínquo ano de 1847:


**************************************
Não me resta a visitar nenhum lugar da cidade, passei mesmo um dia no seu arrabalde - a Foz; - templos, palácio, torres, teatro, cemitérios, ruas, praças e vielas, hospícios; o rio e a sua ponte e os seus barcos; homens, mulheres, carruagens; Associações, biblioteca e museu, telégrafos, jardins, passeios, academia e prisão, - tudo procurei ver - de tudo contei um pouco, sem que todavia me passasse pela ideia o ser guia de viajantes no Porto.

Agora só me resta visitar as quatro estradas novas que partem da cidade para Braga, Guimarães, Penafiel, e Lisboa; - depois regressar à casa paterna, e recordar saudoso estes dias passados nas ribas do Douro.

Vamos - monta a cavalo - o Sr. C. Júnior é o meu guia; - trota pela rua da Rainha - eis-nos na estrada de Braga.

Lá está a casa da barreira meia derrocada - foi o povo que a destruiu porque queria ser livre, e todos sabem que as estradas são um tropeço para a liberdade; além de que nossos pais andaram sempre bem pelos antigos atalhos, tortuosos, perigosos, imundos. Devo sempre fazer aqui uma observação - os homens e mulheres do Minho não transitam senão pelas estradas novas, agora o que fazem é danifica-las quanto podem.

Cá está em baixo uma povoaçãozita, com seu templozinho humilde, - é S. Mamede de Infesta.

Avante, pararemos em Leça do Balio.

Chegamos; uma ponte pênsil, pequena mas mui bonita, lançada sobre o rio Leça, aformoseia este lugar; a povoação fica mais longe.

Não iremos adiante; retrocederemos para passar a outra estrada.

Voltamos à rua da Rainha, dobramos à esquerda para a rua de 27 Janeiro; no fim desta ainda volvemos à esquerda para a rua de Costa Cabral: ao cabo dela está o começo da estrada de Guimarães.

Galopa até à Cruz das Regateiras.

Um templo, uma cruz de pedra, algumas casas humildes - eis aí o lugar.

Sigamos a passo para desfrutar a beleza desses campos que nos cercam, miremos essas soberbas quintas que orlam o caminho, essas colónias verdejantes, e lá ao longe os severos cabeços de várias serras recortando-se no fundo azul do céu.

Passamos por Águas Santas, e antes de chegar à Maia, cortamos à direita; por estreitas devesas, perguntando a que lado fica a estrada de Valongo, vamos sair a Rio Tinto; estamos no caminho que procurávamos, e que se prolonga até Penafiel. Nós seguimos em sentido oposto, e vimos por S. Roque da Lameira entrar na cidade.

Estou fatigado da cavalgata, a tarde vai descaindo... não importa: ainda vou à estrada de Lisboa, e á Serra do Pilar.

Passamos o Douro na ponte pênsil; sopeu o cavalo sobre o abismo para lançar um olhar ao rio e ás águas margens... avante; estamos em Vila Nova de Gaia.

É preciso subir essa calçada íngreme e imunda para chegar ao histórico alto da Bandeira (aonde perdeu um braço o Sr. Visconde de Sá - para quê?) - Aí começa a estrada dos Carvalhos, que devia prolongar-se até Lisboa.

Há pois vinte e duas léguas de boa estrada; construídas nos arredores do Porto; vi meia dúzia delas, então me desenganei de que as companhias monstros não eram tanto ilusão como me tinham dito em Lisboa alguns meses depois da revolução do Minho, quando eu voltava de uma larga viagem ao sul da América.

Subimos à serra - que religioso respeito me infunde este lugar! Aqui estão as baterias, precedidas de fossos - além o convento cravejado de balas, - os ferros das janelas torcidos ou quebrados, - as pedras amassadas pelo choque dos projeteis... mas sobre a porta incólume em seu nicho esse santinho que afugentou de si as bombas!

O sol abismava-se no oceano, - era essa hora a mais solene do dia em que os objetos começam a descorar, os vultos reais a tornarem-se fantásticos. Em volta de mim reinava o silêncio e a solidão. O meu amigo C. apartara-se por alguns momentos; só restava uma sentinela à porta do convento, marchando compassadamente em um espaço determinado como um autómato bem fabricado.

E lá em baixo, do outro lado do rio, pendurava-se a cidade por suas majestosas colinas, expraiava-se pela beira do Douro, e unia a si com um cinto de madeira e ferro Vila Nova de Gaia.

Era um quadro sublime de grandeza!

A quem visitar o Porto recomendo-lhe este ponto de vista, e o das Fontainhas na outra margem: - não sei por qual me decida - ambos são maravilhosos.

À noite voltamos à cidade.

No dia seguinte embarquei no vapor para Lisboa.

Ao passar pela Foz, algumas senhoras que passeavam na praia agitaram os seus lenços a despedir-se de nós - a dar-nos a boa viagem... e Deus escutou os votos daqueles anjinhos, tivemos um tempo divino até Lisboa. Um desses Serafins conheci eu bem - tinha-me prometido vir ali despedir-se de mim, - e não olvidou a promessa. O céu te pague, mulher, o bem que me fizeste: - os desgraçados contentam-se com tão pouco!

Adeus, Porto, adeus, volto a Lisboa, e já agora não passarei sem celebrar as belezas da minha terra natal; sim, hei-de escrever um livro das minhas viagens à roda da cidade aonde nasci; porque não - quando Xavier des Maistres viajou em roda do seu quarto; o meu trabalho é muito mais amplo; vou tratar disso, e até que se publique - adeus leitor! Desculpe a maçada.

Lisboa, 22 de Novembro de 1847

Francisco Maria Bordalo
**************************************

domingo, 3 de julho de 2016

Visita ao Porto (4)

Continuamos então a visita ao Porto que nos propusemos transcrever:


**************************************
Alvoreceu o tal domingo destinado para o passeio à Foz, mas escuro e chuvoso; assim mesmo não se desperdiçou, porque o tempo que me restava era pouco, e estava detalhado para outras visitas.

Metemo-nos - eu e o meu obsequioso amigo C. Junior - em uma carruagem, e tratamos para a Foz.

Há dous géneros de carruagens de aluguer no Porto; umas - com a que nos conduziu - convexas pela dianteira, e côncavas pela traseira, com assentos para quatro pessoas mas podendo só acomodar duas à vontade; são tiradas por dous seguros cavalos; outras igualmente côncavas por trás e por diante, e puxadas por uma ou mais juntas de bois. Tanto estas como aquelas, sobem e descem apertadas ladeiras, que parecem de impossível trânsito para um cavalo solto ou um boi.

Chegamos à Foz; tratamos de almoçar - na estalagem de um tal Silvestre, parece-me que foi.

Pedimos bifes, trazem-nos carne de vaca presa a um sofrível osso: - saborosa estava ela, na verdade, mas não me parecia o que tínhamos exigido da arte culinária de mestre Silvestre. Fiz a minha observação em termos moderados - estava enganado, chamava-se àquilo bifes. Modifiquei pois as minhas ideias a tal respeito.

Reguei o chamado bife com um copo de vinho do Porto - o melhor vinho do mundo inquestionavelmente, digam o que quiserem os cegos adoradores de Champagne, Borgonha, Xerez, e até de Madeira... estão em minoria; como ia dizendo tomei o meu copete, e a tal respeito registrarei aqui um sublime pensamento meu: quem bebe vinho ao jantar, deve igualmente chuchar a sua pinga ao almoço, porque o estômago não conhece essa diferença de horas de comida, e tanto carece em uma como em outra ocasião - ou nunca carece - do sumo da cepa.

Isto assente - vamos à praia ver banhar as senhoritas.

Infelizmente poucas encontrei entre os penedos da Foz, por causa da chuva; o que não me pareceu razoável, pois que quem ia molhar-se ao mar, pouco se lhe devia dar de ser também orvalhado em terra.

Esta minha mania de fazer reflexões a tudo, talvez comece a incomodar os leitores, se é que já os não desgosta há muito.

Sem medo ao mau tempo, subimos até ao farol da Luz, dali descortinamos no oceâno vários navios que demandavam a costa, entre eles o vapor Falcão. A barra porém estava quasi tomada, o Douro crescia com a chuva que se despenhava das montanhas, e o mar rebentava furioso sobre o Cabedelo e por entre os penedos. Assim mesmo o vapor entrou; os navios de vela não, - fora temeridade.

Era majestoso esse espetáculo!

O meu companheiro de passeio, a quem eu incomodava continuamente com perguntas, algumas delas talvez desarrasoadas, contou-me na volta para a praia uma história recente, que eu apreciei no devido valor, porque já comigo se passaram idênticos acontecimentos.

Era uma escuna inglesa que ancorara fora da barra, que perdera sucessivamente todos os seus ferros, e a quem já apenas segurava um ancorete; - não podia levar-se-lhes socorro, e os coitados esperavam a sua última hora, fazendo-se pedaços contra os cachopos.

O meu amigo disse-me que viu então prostradas por terra, de joelhos na praia, no limiar das portas e nos balcões das janelas, muitos desses anjos consoladores a que na terra se chamam mulheres, implorando a clemência do céu para aqueles desgraçados que o mar pretendia arrojar de si, e a que a terra repulsaria igualmente!

Os homens também mostravam comover-se, apesar de serem portugueses, e terem por consequência restrita obrigação de odiarem os ingleses - como diz o nosso distinto escritor, o sr. A. Herculano.

Ai! houve um grito uníssono de Misericórdia!... Era que rebentara a frágil amarra! - Depois seguiu-se um momento de silêncio mas de um respirar apressado, - sucedeu-lhe o ténue ruído de palavras incompletas - destacadas... arfar de corações e soluços entrecortados... porém ao cabo um grito de alegria - de vitória?

O capitão fora corajoso - a mal extremo, remédio extremo! - Perdido aquele último recurso, largou o velacho, aproou à barra, - e Deus permitiu que por sobre novelões de vagas irritadas, ora roçando o abismo com a quilha, ora tocando nas pontas dos penhascos - o mesquinho baixel entrasse a salvamento no Douro.

E as mulheres, de joelhos ainda, agradeciam com lágrimas de alegria ao Senhor Deus dos aflitos o milagre que obrara, e criam com fé viva que o Ser Supremo escutara comovido as suas vozes!

Ai, pobre de mim, que me meti a romântico!

Voltemos ao estilo antigo, que não é pequeno defeito uma tal falta de unidade.

E aqui lembro eu às minhas senhoras portuenses o que contou um dos redactores da Carta, não há muito tempo, mas que por ventura já terão olvidado. Foi o caso; uma lisbonense (faço ideia que seria minha patrícia) escreveu àquele redator, participando-lhe que estava tecendo um cordão do seu próprio cabelo (não diz se loiro, negro ou castanho) para lho oferecer como prémio de dizer tanto bem das senhoras na sua crónica semanal. O redator promete retribuir com um soneto.

Ora eu não me quero explicar mais... porém lembro que também tenho meu tanto ou quanto de poeta; e se alguma senhora portuense se parecer com a minha compatriota, não hei-de ficar atrás do meu colega.

E já que falei de senhoras, cumpre-me declarar aqui o muito que me penhoraram algumas - ou quasi todas - as portuenses, a quem tive o gosto de ser apresentado. Naquele mesmo sítio da Foz, estive - só por momentos... ainda mal! - em muito agradável companhia - em conversação deleitável... não dessas banalidades que por aí se usam.

E na cidade - seria bastante para tornar deliciosa a minha residência ali, a sociedade das exma.as snr.as de C. - tão amáveis, quanto instruídas.

A respeito do trajo, notei que a mantilha, costume meio espanhol, cai caindo em descrédito como o capote e lenço em Lisboa - não tanto como as notas do Banco! - Um e outro uso vão desaparecendo da toilete da classe média.

As mulheres da última classe trabalham tanto ou mais do que os homens - não se dedicam a pedir esmola como na Capital; . de tamancos ou descalças cruzam a cidade em todas as direções; vão á fonte buscar água ou carregam qualquer fardo à cabeça; enfim é uma raça laboriosa como os homens de todo o Minho.

Voltemos à cidade, que são horas de jantar; não devemos fazer esperar o nosso amigo G*** e a sua interessante família.

Rasteando o Douro pelos sítios da Cantareira, Massarelos e Miragaia, viemos recordar o sublime painel que devem apresentar estes lugares, por ocasião de uma cheia; quando o rio transborda do seu leito e alaga as praias de uma e outra margem; que as catraias servem para comunicar de uma para outra casa, e que os navios descançam a quilha nos cais!

Como César que chegou, viu e venceu; nós chegamos, comemos, e partimos para o teatro.

O largo da Batalha é um dos belos sítios da cidade: está aí o edifício da Casa Pia, ocupado pelas repartições militares, e não sei se por alguma civil também; e separado por uma estreita rua do teatro de S. João. Este, menor, mas pelo mesmo risco do S. Carlos de Lisboa; vê-se e ouve-se ali - o que não acontece em o nosso rico salão do Rossio, e está pintado e doirado com gosto. O exterior é que é ridículo - e nem ao menos tem um vestíbulo.

Representava-se nessa noite um drama, cujo título por si só já era repulsante; mas a execução foi muito além! - Externamente me lembrei de um João Baptista, amante dos gelos polares! Mas também não olvidarei os deliciosos momentos que passei em um camarote analisando a peça e os atores, e ouvindo chistosas reflexões de uma senhora espirituosa - encantadora!

Saímos do teatro - é necessário dormir algumas horas. Adeus, caríssimos leitores - asta mañana.



continua
**************************************