segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A chegada do 'Porto'

Finalmente encontrei! Confesso que fiquei muito contente, por ter encontrado a notícia da chegada do 'Porto' para o início da sua carreira de pouco mais de 15 anos, que infelizmente terminou de uma forma bastante trágica e que marcou a cidade durante muito tempo. Peço contudo, aos meus leitores que por agora se concentrem na novidade da sua chegada e aquilo tudo que representava para a cidade, o seu primeiro vapor, quase diria que não podia deixar de ser, levou o seu nome: PORTO.

'Sabbado 24 do corrente ao meio dia entrou na barra desta Cidade, e ancorou defronte do Postigo da Alfandega, o novo Barco movido por vapor = PORTO = que construído em Liverpool por conta de huma Associação Portuense, deve andar em carreira d'aqui para Lisboa. Ao annuncio que o Telegrafo Commercial deu da sua aproximação, entrada, e subida pelo Rio, todo o muro, e cáes desde a Porta Nobre até ao Codeçal se apinhárão de gente desejosa de vê-lo, e he forçoso confessar que preencheu a expectação de todos, especialmente da maior parte dos Accionistas, que immediatamente se dirigírão a bordo, assim como alguns dos mais respeitaveis Commerciantes Nacionaes e Estrangeiros, que se achavão na Praça.

A Administração, que tinha entrado a bordo na Foz, teve sobre tudo motivos para muito particular satisfação, por vêr que seus esforços, escolha de correspondentes, e intrucções a bem da Empreza, tiverão effeito pleno, manifestado na approvação geral patenteada a todos os respeitos. A magnifica, e economica distribuição de Camarotes, e Sofas na Camara grande; Camara de Senhoras; Camara de Proa; e  alguns Camarins particulares para familias, nada deixa a desejar para se tirar partido da sua configuração e arranjo. O aceio, sem ser de luxo dispendioso, he da maior propriedade e decencia, ; os moveis d'uso são excellentes; ainda que he preciso confessar, que exceptuando a riqueza, e gôsto do Barco de Vapor em que Suas Magestades vierão ao Porto em 1834, nenhum outro ainda aqui se vio mais elegante, e lindamente mobilado e ornado.

O Commandante, e a Tripulação, , todos Portuguezes, que forão de propôsito a Liverpool para tomarem conta da embarcação, e mareá-la para Portugal, dizem maravilhas da maneira de sua navegação, docilidade de leme, etc. Acoçado o Barco ao sahir de Liverpool, por huma violentissima tempestade, foi obrigado a arribar a Cork, e d'alli veio ao Porto em 3 dias de viagem.

O Commandante para obzequiar a Mesa da Direcção, e a Administração, tinha servido na Camara grande, hum mui decente Ambigu: e estes Senhores convidando os seus Amigos a tomarem alguma refeição, os penhorárão em extremo. Dous dos convidados, tomando a palavra, levantarão cordeaes saudes ao mesmo Commandante, e á Administração, e o Snr. Domingos Ribeiro de Faria invocou a saúde dos Correspondentes de Liverpool, os Snrs. Duarte Irmãos & C.ª He escusado dizer que a amisade, o respeito, e a delicadeza do obzequio tiverão o acolhimento merecido.

Por esta occasião teve logar de se vêr o serviço de louça para uso do Barco: tem pintadas as Armas da Heroica Cidade do Porto, e o nome do Navio. O serviço de cristal he de lindo gôsto. Os Camarins tinhão as suas cobertas e travesseiros, e póde por consequencia fazer-se huma idéa do tratamento aceado, e ordinario do uso do comum.

Tem por consequencia o Porto o seu primeiro Barco de Vapor: esta epoca he por certo notavel, e marca hum periodo de progresso na escala de suas communicações commerciaes.

Está-se pois preparando, segundo nos consta, para começar as suas viagens no principio do novo anno; e logo que se fação públicas as condições de transporte nos seus diversos logares, nós os transcreveremos immediatamente, para que o Público desta Cidade, e Provincias possão ser informados disso convenientemente.


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Consta-nos que no Domingos, e hontem dia Santo de guarda, achando-se o Barco embandeirado, e havendo-se aproximado ao Cáes da Ribeira, concorrêrão muitas Familias a bordo a vêr os arranjos designados, recebendo todos do Commandante e Tripulação hum acolhimento benevolo, e informações attenciosas, que a curiosidade exigia á vista da inspecção minuciosa, franqueada tão amplamente como nunca antes tem havido.

Foi-nos agora mesmo remettida a seguinte declaração, que he como hum preludio do Regulamento ordinario.

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Os Administradores do mesmo annuncião que elle principiará as suas viagens entre esta Cidade e a de Lisboa, no dia 1º de Janeiro de 1837.

Este Paquete que foi mandado construir de propósito para navegar na costa de Portugal, com engenhos de grande fôrça, e com todos os melhoramentos que a experiencia dos ultimos annos tem mostrado proficuos para maior segurança e fortaleza, acha-se com a sua tripulaçao (Nacional) completa, e escolhida, offerecendo por tanto ás pessoas que se servirem d'este transporte toda a confiança, e nelle encontrarão não só o maior grau de segurança, que se póde esperar; mas o melhor tratamento possivel. Os Administradores desejando animar, e facilitar a concorrencia dos Passageiros das Camaras fizárão os preços aproximados aos que até agora se pagavão em outros Barcos de Vapor, com a differenºa porém de que aos Passageiros das Camaras se fornecerá, gratuitamente, almôço, jantar (com vinhos, cervveja, etc) e chá á noite, com toda a decencia, e tudo a horas regulares, e entre estas o mais que apetecerem, de comer ou beber, e que fôr susceptivel de haver a bordo, durante a viagem: intendendo-se por viagem desde que o Paquete levantar ferro até fundear, e não o tempo em que estiver arribado em qualquer porto, que não seja o do seu destino. Os Bilhetes para a recepção a bordo são pagos no acto de os receberem, pelos preços abaixo notados.
Primeiras Camara, cada Passageiro Rs. 16$000
Segunda Camara, '' '' Rs. 12$000
Convés ......., '' '' Rs. 4$800

Na Camara grande ha dous Camarins, cada hum para quatro pessoas e na 2ª outros dous cada hum para duas pessoas, os quaes se justaráõ em separado. Cada Passageiro poderá levar a sua bagagem, não excedendo toda reúnida a 4 pés cubicos, e ao pêso de 128 arrateis; excedendo, pagará pelo excesso a 180 rs. por pé cubico, hindo debaixo da coberta, e no Convés a 120 rs. e ppelo pêso a maior o que se convencionar no Escriptorio.

Os Passageiros na occasião de hirem tomar os Bilhetes, devem levar os seus passaportes, que deixaráõ no Escriptorio, e lhes serão entregues a bordo pelo Commandante. Sem passaporte ninguem hirá de passagem - Este Paquete póde receber grande porção de carga, o frete da qual será muito rasoavel, e se póde ajustar com os Administradores. A carga pesada, ou volumosa só será recebida a bordo hindo acompanhada d'huma ordem dos Administradores, e do competente despacho da Alfandega, até ao meio dia da vespera da sahida, e as encommendas se receberáõ no Escriptorio até ás 3 horas da tarde do mesmo dia.

O Paquete largará da amarração ás 9 horas e meia da manhãa impreterivelmente (se o tempo o permittir.)

Os Passageiros devem achar-se a bordo ás 8 horas e meia (conforme o Regulamento que se lhes dará no Escriptorio, assim como os mais esclarecimentos que desejarem.) - As pesoas que pretenderem hir de passagem, ou carregar, dirijão-se ao Escriptorio da Administração na Rua Nova de S. João nº 76, todos os dias desde as 10 horas da manhãa até ás 3 da tarde. Porto 27 de Dezembro de 1836.

Os Administradores:
Antonio Ribeiro de Faria,
João Baptista Machado,
José Perry.'

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Extraído do jornal O Artilheiro, 27 de Dezembro de 1836, tendo a ortografia original sido mantida.

domingo, 2 de outubro de 2016

Um alinhamento polémico

Algumas das plantas que se nos apresentam à disposição no site do Arquivo Histórico Municipal do Porto, embora de uma forma geral elucidativas, vêm muitas vezes descontextualizadas dos seus suportes escritos, que nos permitem melhor avaliar o projeto que se nos apresenta. Por mais de uma vez dei por mim a consultar pareceres em que as referências a essas plantas existem, mas as plantas não estão junto deles. É o caso de um texto que se refere à planta que apresento abaixo e que, creio, se não foi feito para ela, está intimamente relacionado com ela.

Planta aprovada em 1838, provavelmente datada do ano anterior.

A planta acima mostra-nos a parte final do alinhamento da Rua Ferreira Borges e que deu bastante polémica nos jornais da época aquando da sua abertura (1835-1838); nomeadamente mostra-nos a dúvida sobre como deveria ser rematada a rua no seu extremo sul em que passava por detrás de igreja de S. Francisco.

Convêm elucidar que a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto (ACP) que a tomou a cargo desde o início e com o apoio camarário. Contudo, após a Revolução de Setembro (1836), esse apoio desvaneceu.

Já em 1837, a comissão daquela instituição encarregada de superintender a obra da rua propõe à ACP a destruição da capela-mor da igreja, para o correto alinhamento da rua. Num ato de lucidez a mesma rejeita essa proposta sendo elaborado um novo projeto que a substitui, posteriormente apresentado à Câmara. Ainda assim, convêm não esquecer que o projeto original para esta rua, aprovado em 1835, aparentemente incluía a demolição daquela parte da igreja gótica, tendo sido aprovada com a conivência da Câmara da altura (talvez neste particular se possa desabafar bendita revolução setembrista...). Isto porque em consequência da resolução (interna) de manter aquela parte da igreja, a Associação solicita-a à Câmara informando ao mesmo tempo que outra planta estava já em preparação.

A edilidade aproveita o momento para tomar um pouco as rédeas de uma obra que de todo estivera fora da sua alçada fazendo uma vistoria ao local. Ainda assim, não querendo tomar parte definitiva na resolução do problema, elabora também ela a sua proposta para o remate da rua. Explica a Câmara que se o edifício do Tribunal do Comércio não fica na frente desse alinhamento, nem por isso se peora o aformoseamento, estabelecendo dele ao pavimento da rua um paredão que forme um terraço, no qual colocada uma baranda muito concorre à boa vista que apresentará, e à perfeita segurança que ainda se torna indispensável aos alicerces daquele edifício, que no estado em que se acham, carecem indispensavelmente de alguma atenção para poder-se tirar proveito de tal edifício, podendo nesse mesmo paredão formar-se uma arcaria que poderia ter bom rendimento pela sua localidade. A Câmara exigia também que a ACP revertesse o uso da igreja para o seu original intento do culto divino e não seja usado como armazém alfandegário, e também que o alinhamento se faça pela sua planta.

Área em questão, com a visível ameaça de ruína da capela-mor, numa gravura da época.

Assim decorre durante quase todo o ano de 1837, uma polémica sobre os três alinhamentos agora propostos: o original que faz demolir a capela-mor, o alternativo da ACP e o da Câmara. A juntar a tudo isto existe também envolvido o pedido de licenciamento para um edifício naquele local, que ficaria situado à entrada da rua do seu lado poente por parte de um particular, projeto esse que aguardava a conclusão da rua e que tardava a arrancar dado o "imbróglio" que ali se apresentava.

Em outubro de 1837 o administrador geral do distrito do Porto requer à Câmara um parecer sobre a conservação da capela-mor e a sua transformação em armazém da alfândega, mandando também o arquiteto da cidade levantar a planta da Rua Ferreira Borges de modo a conservar a capela. Neste parecer, elaborado por Joaquim da Costa Sampaio Lima onde este refere que, excluída que estava a demolição da capela-mor, o alinhamento da Câmara é preferível com vantagem de com o projetado terraço exterior ao edifício, o mesmo edifício recuperaria maior solidez do que muito precisa por se achar ameaçando ruína, e bastantemente desaprumado e também que esta rua alinharia mais exatamente com a frente de S. Nicolau. Além de que o seu alinhamento destruiria em parte a agudeza do ângulo formado com a rua dos Ingleses, e o tornaria mais vizinho à linha perpendicular e claro, que se pouparia a demolição daquela parte do templo que algum respeito merece. Mas diz mais:

Como a Associação (digo) não aceita o novo projecto, e prescinde das suas respectivas vantagens, então julgo que de necessidade se deve abraçar o primeiro plano, o qual consigo arrasta a demolição da referida parte daquele templo que aliás ficaria servindo ali de um perpétuo estorvo. Não concordo porém no que propõe a Associação Comercial quanto a estorvar-se que José Ferreira dos Santos Silva, edifique na porção triangular colocada na extremidade da rua; seria sem dúvida muito mais defeituosa a porção mutilada, o alinhamento interrompido, e o número de ângulos multiplicado ... sendo claro que um ângulo agudo não é senão um defeito, e para fugir deste cairíamos no ângulo obtuso ... que se reduz a um defeito do mesmo valor mas em sentido contrário, portanto sou do parecer que por nenhum modo se estorve que as duas linhas se cruzem no vértice onde as conduz a sua primitiva inclinação e por conseguinte se permita ao mencionado proprietário de edificar no terreno ponte-agudo. (Nota: Embora uma casa ali nos possa causar atualmente estranheza, temos de ter presente que toda a Rua do Infante estava edificada, não existindo ainda o jardim.)

Arrastando-se ainda por mais uns anos, a questão apenas ficou resolvida em janeiro de 1839, quando o governo concedeu a igreja que outrora fora do convento franciscano à sua Ordem Terceira, que ainda hoje a possui. A partir desta altura pode a Associação Comercial concentrar todos os seus esforços na construção do Palácio da Bolsa. Quanto à casa particular esta nunca chegou a ser edificada.

O paredão construído para suster os alicerces da capela-mor, em meados do séc. XIX (em primeiro plano parte da cerca do convento de S. Domingos).
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Fontes:
Arquivo Histórico Municipal do Porto
Porto, 1763/1852 - a construção da cidade entre despotismo e liberalismo de Anni Günther Nonell