sábado, 31 de dezembro de 2016

A Boca do Inferno

Há umas semanas atrás, pesquisando nos livros que chegaram aos nossos dias do convento franciscano sobre locais e acontecimentos que os ligam aos dominicanos, encontrei uma referência curiosa a uma estrutura a que chamavam a Boca do Inferno.

Sem mais delongas apresento o texto tal como escrito pelo reformador do cartório no início do século XIX. A explicação virá a seguir:


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A BOCA DO INFERNO
Era este lugar da boca do inferno o sítio em que estava uma espécie de depósito de água em que se repartia a Manuel Cirne, senhor das casas que ficam mais chegadas a este convento, por trás da capela-mor.

Aquele depósito ficava sendo a bacia de um muito alto poço de pedra que tem a sua superfície na altura do segundo dormitório da parte do nascente, ao lado esquerdo do principio das escadinhas que antigamente serviam para ir ao campanário, e também para o telhado da igreja; como servem ainda hoje [c. 1820]. Este poço corre bem por trás da capela de Santa Luzia, ou altar da Trindade, e se observa pela frente do lado do evangelho da capela de Santo António.

Com o andar do tempo se fez inútil para todos este poço que em toda a sua altura tinha vários postigos ou frestas para lhe comunicar luz, e ar, e por fazer-se assim inútil e também perigoso, se entulhou todo em 1816 até ao lugar com que hoje se acha na superfície um passadiço para se compor quando é necessário, o telhado da dita capela de Santo António, ficando ainda à vista cousa de dez palmos [2,2m] que mostram qual é a extensão e forma do referido poço entulhado cuja bacia ficava na mesma altura, pouco mais ou menos, do atual plano da sancristia da nossa igreja.
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Perguntarão os leitores onde ficava então a Boca do Inferno. Melhor do que palavras talvez a imagem que aqui coloco nos dê uma ideia do local onde estava este poço. Não seria de estranhar se parte dele ainda lá esteja bem fundo entulhado na sapata que sustenta a capela-mor da igreja conventual.

1 - Capela de Santo António; 2 - O que resta das escadas para ir ao telhado; 3 - alinhamento antigo do convento; o X marca o local onde creio existia este poço.
Porque foi colocada esta descrição explicativa no tombo dedicado à água do convento? Bem, ela surge a seguir a um documento de 1704 que o refere, quando os frades cederam a um António Pereira Chaves a água que fora da casa de Manuel Cirne (este Manuel Cirne é um famoso portuense feitor na Flandres e um bom artigo sobre ele podem os interessados encontrar AQUI).

Contrariamente por exemplo aos seus congeneres dominicanos, o convento da Ordem dos Frades Menores foi sempre alimentado por uma boa nascente de água que provinha desde lá de cima do campo do meloal, sensivelmente onde existe hoje a zona da Trindade. Por canos vinha ela até ao convento e nessa boca do inferno infiro que fosse armazenada. Realmente essa fonte deveria ser abundante e de boa qualidade, pois os franciscanos para alem de cederem uma pena dela a Manuel Cirne também o fizeram aos padres lóios e aos dominicanos, conventos por onde passava o seu cano. Mais tarde cederam também água à Ordem Terceira, nomeadamente para o lavatório da sacristia e para o seu hospital na rua Comércio do Porto.

As casas de Manuel Cirne estiveram localizadas junto ao lado sul da cabeceira da igreja e englobaram o terreno que se encontrava por trás da capela-mor, cedido em 1529 por ser "lugar estéril e que não aproveitava cousa nenhua ao dito mosteiro, antes fazia dano e fedor, por assim se fazer ali monturo e se poderia fazer outras cousas ilícitas e deserviço de Deus".

É interessante cruzar esta informação com a tese do Dr. Manuel Real, antigo Diretor do Arquivo Histórico, de que os arcos que se vêm nas traseiras da capela-mor na celebre imagem desenhada em 1839 de James Holland, seriam possivelmente remanescêcias de um criptopórtico, localizando ali o Fórum da Cale romana. Modestamente confesso que não partilho da mesma opinião e creio que o documento de aforamento a Manuel Cirne da sua casa bem como esta boca do inferno e umas sepulturas medievais descobertas em 1871 em frente à porta principal do Palácio da Bolsa também poderá elucidar melhor sobre esta questão.

1 - Arcos em questão; 2 - "segundo dormitório" (ainda não existe o Palácio da Bolsa); 3 - inicio das casas da rua Infante D. Henrique (onde hoje está a entrada do parque de estacionamento do Infante); 4 - Rua Ferreira Borges (aquando da elaboração desta imagem a rua fora completada havia um ano).

Extrato de uma planta de 1835, quando o traçado da rua Ferreira Borges estava ainda em discussão.
A - local onde em 1871 foram encontradas sepulturas medievais; 3 - local do ponto 3 da imagem anterior; o círculo aponta a para o sítio onde terá estado a "boca do inferno".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um cenário para sempre irrepetível

Uma vez que no passado dia 22 a Ordem dos Pregadores (vulgo de São Domingos) celebrou oficialmente os seus 800 anos e dado ser este convento um dos temas mais queridos para mim da história portuense, aproveito para mostrar mais uma das raras imagens que mostra a sua desaparecida igreja, num ângulo em que surge "acompanhada" da sua congénere franciscana que felizmente ainda existe (ambas inseridas no tipo de construção que se costuma nomear de gótico mendicante).

Esta imagem, valiosa precisamente por mostrar ambos os templos, torna mais real o já conhecido facto de os dois conventos se encontrarem muito perto um do outro; ainda que em disposições espelhadas.
OBS: Estou em crer ser a foto de Maio/Junho de 1865, início da demolição do convento dominicano, por se encontrar já um pouco desbastada a parede do antigo cenóbio dos Padres Pregadores.

I

Para termo de comparação, veja-se abaixo uma imagem dos anos 80 do século XIX, onde se vêm já casas no local onde existiu o convento, bem como um terraplano mais ou menos uniforme onde viria a surgir em breves anos o Mercado Ferreira Borges e que por séculos fora a horta dos frades.

II


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"Prenditus est Portugale ab Vimarani Petri"

Não estranhem os meus caros leitores o título desta postagem. Os mais atentos verão que o mesmo se refere à presúria do Portucale por parte de Vimara Peres - que terá ocorrido no ano de 868 – para não mais sair de mãos cristãs. É pois pelos já longínquos séculos da alta idade média que pretendo levar-vos, mas fiquem descansados: não será uma viagem massuda pois as referências a ele se restringem a nem uma mão cheia delas.

Iniciemos então esta curta cronologia:

1. Em 715 ou 716 a cidade de Portucale foi conquistada por Abdelaziz, seguindo-se um período de cerca de 20 anos de efetiva ocupação muçulmana[1].

2. Logo em 742, Alfonso I (rei de um incipiente renascer “visigótico” acantonado no extremo norte da Galiza e Astúrias e Cantábria) recupera a cidade, matando todos os seus ocupantes ismaelitas. Esta ação foi supostamente facilitada nesta e noutras localidades pelo facto de a guarnição berbere que aqui estava ser pouco numerosa pois o grosso dela havia sido chamada para conter uma revolta a sul.

Segundo uma corrente historiográfica agora completamente caída em desuso, este rei teria deixado propositadamente ermo um vasto território que englobava todo o futuro Portugal a norte do Douro. Ninguém portanto teria sido deixado para trás pois o rei havia levado todos os cristãos "à pátria"[2].

Atualmente leva-se em consideração que de facto isso não ocorreu, contudo toda esta zona terá funcionado de forma mais ou menos autónoma, entregue a si mesma em "auto-gestão"; numa terra de ninguém entre o Califado Omíada (substituído em 756 pelo Califado de Córdova) e o reino Asturiano. Mas na realidade, por falta de documentos históricos contemporâneos, nunca saberemos como era viver por aqui nesses tempos e quais eram os verdadeiros senhores, se os havia. A população, mais ou menos entregue a si própria, sem dúvida se terá organizado localmente para sobreviver.

Em 868 dá-se a famosa presúria que referi acima, embora creia não a podermos ver como uma conquista (ainda que entre 866 e 868, aproveitando-se dos problemas dentro do reino asturiano os mouros tenham novamente chegado ao vale do Douro). Em contrapartida, este ato de força perante a população autóctone visou consolidar a influência do reino asturiano na área, bem como outros atos semelhantes se estenderam em várias outras regiões[3].

Era o início daquilo que se chama reconquista, e que só agora, no reinado de Alfonso III, começava a ter uma visão mais ampla de recuperação de território aos ismaelitas. Ainda assim, durante vários séculos mais, a península ibérica foi um palco de lutas entre estados e não somente entre religiões, havendo incluso lutas dentro dos próprios pequenos reinos islâmicos que depois se formaram, e os reinos cristãos que vieram a surgir da desmembração do reino asturo-leonês.

Voltando ao Porto, pessoalmente discordo que a cidade que hoje existe tenha nascido no século IX com Vimara Peres. Na verdade é após a entrega do burgo ao bispo D. Hugo em 1120 pela rainha D. Teresa (mãe de Afonso Henriques), acrescido do foral por este bispo outorgado em 1123; que o Porto moderno surge e a cidade não mais pára de crescer.

A própria precaridade da posição do Porto durante pelo menos o século X está no facto de ter sido no Douro que Almançor reuniu a sua frota vinda de Alcácer do Sal, com o seu exército que provinha de Viseu (e que incluía cristãos nas suas hostes), com o objetivo de atacar Santiago de Compostela.

Ainda incipiente no início, mas lentamente expandindo-se para fora das suas muralhas primordiais, com o desaparecimento dos ataques normandos numa primeira fase, a ameaça muçulmana por terra e mar mais tarde e o reforço das trocas comerciais sobretudo com a Ingraterra e a Frandres, a cidade chegará ao meados do século XV já como a segunda do reino para não mais perder esse título.

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Recentemente, num arruamento desativado desde o século XVIII que circundava exteriormente a muralha antiga da cidade pelo oeste indo terminar junto da porta de Santa Ana, foi recolocado à vista um pequeno troço de muralha de aparelho construtivo aparentemente pré-românico.

A se confirmar, estas pedras serão as mais antigas que se encontram expostas. Mais antigas (embora sejam da mesma muralha) do que o cubelo que temos nas costas da rua de D. Hugo e seguramente mais antigas que a torre do Barredo que é a casa mais antiga que terá subsistido até aos dias de hoje na cidade. A foto não é bonita, vale apenas por aquilo que representa para os amantes da história da cidade.

Antiga Viela de S. Lourenço, hoje traseiras das casas da rua dos Mercadores e rua de Santana (acesso pelos lavadouros da Sé).


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[1] Abdelaziz cepit Olixbonam pacifice, deripuit Colimbriam, et totam regionem, quam tradidit Mahamet Alhamar Ibentarif. deinde Portucale, Bracham, Tudim, Luccum, Auriam vero depopulavis isque ad solum.
( in Cronica Albeldense )


[2] Qui cum fratre Froilane sepius exercitu mobens multas ciuitates bellando cepit, id est, Lucum, Tudem, Portucalem, Anegiam, Bracaram metropolitanam, Uiseo, Flauias, Letesma, Salamantica, Numantia qui nunc uocitatur Zamora, Abela, Astorica, Legionem, Septemmanca, Saldania, Amaia, Secobia, Oxoma, Septempuplica, Arganza, Clunia, Mabe, Auca, Miranda, Reuendeca, Carbonarica, Abeica, Cinasaria et Alesanzo seu castris cum uillis et uiculis suis, omnes quoque Arabes gladio interficiens, Xpianos autem secum ad patriam ducens. 
( in Cronica Rotense )



[3] Era dccccxi prenditus est Portugale ad Vimarani Petri.
( in Cronicão Laurbanense )