domingo, 19 de fevereiro de 2017

As eleições para o Colégio Eleitoral e o vapor Porto

Não, não estou a falar das eleições americanas, coisa despropositada e descabida neste blogue! Este Colégio Eleitoral refere-se às eleições no nosso país. A título de exemplo e para os curiosos destas matérias embora não querendo fazer qualquer ensaio sobre história da política, aqui vão uns parcos dados de como se efetuavam as eleições, nomeadamente no segundo semestre de 1845 em plena vigência do cabralismo.

Com efeito, em 26 de junho a Câmara publicou um edital dividindo a cidade em quatro assembleias municipais da seguinte forma:

1ª Assembleia: Igreja da Sé Catedral - compreendendo as freguesias da Sé, São Nicolau e São Pedro de Miragaia;

2ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora do Carmo - compreendendo as freguesias de Nossa Senhora da Vitória e quase toda a de Cedofeita e parte da freguesia de Massarelos;

3ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora da Lapa - compreendendo as freguesias de Paranhos, Bonfim e Campanhã, várias ruas de Santo Ildefonso e a parte restante da freguesia de Cedofeita;

4ª Assembleia: Igreja Matriz de São João da Foz - compreendendo as freguesias da Foz e Lordelo e parte da de Massarelos.

Vem agora o tal "colégio eleitoral". Ora este dar-se-ia, segundo um decreto publicado em 28 de abril no seu n.º 28, da seguinte forma: toda a assembleia que compreender mil fogos dá um eleitor, e a que tiver dous mil dará dous e assim progressivamente pelo que no caso do Porto a 1ª assembleia daria quatro eleitores, a 2ª daria cinco eleitores, a 3ª daria quatro eleitores e a 4ª daria dois.

Como referi no início, isto são apenas uns apontamentos soltos para dar uma ideia ao caro leitor de um sistema atualmente caído em desuso no nosso país, mas que era pelo menos à época em que me reporto, o vigente.

E que época! Bernardo de Costa Cabral era já em 1845 muito contestado! De facto para uma pessoa que iniciara a vida política como um humilde advogado, vira o povo a sua riqueza aumentar a olhos vistos, para além das acusações de nepotismo, entre outras... (ver aqui)
Para dar uma ideia do montante gasto pelo seu partido para estas eleições a ocorrer em agosto, refira-se que nada menos do que o vapor Porto foi fretado até ao fim do processo eleitoral. O correspondente do jornal A Coalisão em Lisboa, de onde extraio estes excertos, afetado é claro pela sua "partideirite" escreve desta forma:
António Bernardo da Costa Cabral (via http://www.tcontas.pt/pt/ )
«Amanhã ou depois parte [o vapor Porto] com o José dos Cónegos: o Tibúrcio talvez não vá por impedimento reumático, que se acastelou nos ossos do ilustre pai da pátria; mas vão outros heróis de honrada fama; e honradissimos costumes; até se diz que vai o Ferrugento, e uma chusma de espiões. [O] Porto deve recebe-los bem; que são os seus salvadores. Quem vier ao desembarque, acautele as algibeiras, que nos apertos é que os tais exercitam a sua ligeireza.

Diz-se que o vapor é também destinado ao transporte de tropas; porque no dia das eleições há-de ser necessário esclarecer algumas opiniões obstinadas com o lume das baionetas: para responder a qualquer orador da oposição, serve melhor um granadeiro, do que todos os Cíceros do ministério.

Este serviço do vapor custa mais de três mil cruzados por viagem. Nisto se gasta o dinheiro da nação: e ainda gastam com a mão mais larga: para certo colégio eleitoral oferecem-se até 20 contos de reis por cada eleitor.»

Com efeito, uns dias depois o mesmo periódico anuncia a chegada do Sr. Silva Cabral desta fria forma:

«Ontem ás 10 horas e meia fundeou no rio Douro o vapor Porto, conduzindo a seu bordo o Sr. Cabral (José).

A entrada do barco, o desembarque de sua Exa., e o seu trânsito foram anunciados por foguetes, e repiques de sinos. A receção foi muda, não houve vivas, nem mesmo dos de encomenda.

Se houvesse de ajuizar-se da importância da receção pelo número de carruagens, poder-se-ia dizer que não foi má; porém como a popularidade se julga pelo cortejo pessoal, e não pelo aparato, ou asseio de berlindas, é força confessar que ainda nenhuma pessoa importante (como é hoje pelo cargo que exerce o Sr. José Cabral) teve no Porto uma receção mais chocha. De toda a gente que o acompanhou não nos apontaram, com verdade, seis pessoas que não sejam empregados, que mais ou menos diretamente estejam debaixo da ação do governo.

Fizeram um mau serviço a sua Exa. uns poucos de indivíduos que se lembraram de ornar as suas janelas com cobertores no ato da sua passagem; porque por seu diminutissimo número fizeram realçar mais o dos que olhavam com indiferença ou desprezo a chegada de S. Exa. Consta-nos que apenas haviam três casas com cobertores na rua de S. João, outras três na rua das Flores, e duas na rua do Almada. (...) »

No ano seguinte, em 10 de junho, já após a revolução da Maria da Fonte e da queda em desgraça do cabralismo pela bancarrota do país, o jornal O Nacional pedia à Comissão Municipal liderada por José Passos simplesmente isto:

mudar «... o nome da rua que do largo da Aguardente vai à da Rainha [ou seja a rua 9 de julho, agora rua da Constituição que naquela época ia apenas do Marquês a Antero de Quental] por nos recordar um dia em que Portugal viu a mais infame e vil traição de um valido da coroa - e assim também o nome que se deu à nova rua que no dito largo principia a estrada de Guimarães, que nos mostra quem foi o traidor. Esperamos o deferimento, pois que o povo já mostrou quanto lhe era repugnante a denominação da rua Costa Cabral derrubando o pilar em que se lia essa denominação.»

Obviamente que esse deferimento não veio pois que a rua manteve o seu nome...

1 comentário:

  1. Excelente trabalho de divulgaçao sobre o Porto que foi e, porque ajuda a compreender melhor o Porto que é atualmente.

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