sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Onde era o Sério?

Confesso que embora esta questão volta e meia pairasse na minha mente, só recentemente procurei responder a ela a mim mesmo. Mas não foi difícil de lá chegar.

Curiosamente todas as referências que consultei sobre o local apontavam o mesmo como sendo na rua Antero de Quental, todavia sempre me pareceu muito vaga e inexata esta designação: um lugar não é uma rua, sobretudo uma rua grande como a referida. As ruas são posteriores aos lugares e serviam, quando o automóvel não era omnipotente neste planeta, para pôr em contato sítios, lugares, póvoas, casais, enfim aldeolas ou "micro urbanidades" que nos arredores do Porto não faltavam! Mas é verdade que o local ficava algures ao longo daquela rua, ou seja, na estrada para Braga.

Esta designação de lugar do Sério ou sítio do Sério apenas surge referenciada, segundo creio, a partir dos inícios do século XIX para deixar de se ouvir falar dela aí pelos finais do mesmo século. Mas deve ser seguramente anterior, embora não existam nos arquivos da Câmara Municipal muitas plantas que nos mostrem este lugar: apenas uma anterior (1823) e outra posterior (1839) ao cerco do Porto. Contudo é de uma planta disponível no sítio da B.N.D. - excelente para conhecer os arredores do Porto naquela época - que podemos melhor localizar aquele local, tal como era por alturas do cerco do Porto.
Ei-la:
Parcial de uma planta feita a partir da de Balck de 1813, mas acrescentada com os arredores do Porto nos anos trinta do mesmo século [para norte da linha escura ficavam os miguéis (absolutistas), para sul os malhados (liberais)].
Imagem do googlemaps da mesma área na atualidade.
Por razões de simplificação, coloco aqui a legenda:
1 - Monte Pedral, atualmente do monte resta o local do quartel dos Bombeiros e as Piscinas da Constituição por trás deste (a);
2 - Rua do Capitão Pombeiro;
3 - Rua do Vale Formoso;
4 - Rua Antero de Quental (antigamente rua da Rainha)
5 - Quinta do Lindo Vale, agora Parque do Covelo onde estão as ruínas do edifício da quinta e sua capela anexa.

Hoje este local está reduzido a mero cruzamento urbano, regulado pelos muito reguladores semáforos, muitas vezes um caos nas horas de ponta. Enfim, nada de novo aqui... (Mas qual é o lugar, que nunca mais o mostras, pergunta o leitor já um pouco "em pulgas"! Calma... Como referi é um cruzamento banal).

Ecce Loco:
Imagens da tarde de hoje, que nos mostra o cruzamento da rua Antero de Quental, Capitão Pombeiro e António Cândido: o sítio ou lugar do Sério!
Foi durante o cerco do Porto que o Sério teve os seus quinze minutos de fama na história de Portugal. Aqui existiam duas baterias liberais: a de D. Maria II a poente da estrada e a de D. Pedro a nascente. No local terão existido também dois aquartelamentos de tropa, mas tudo estruturas de caráter provisório. Comparando a planta acima com as fotos do local na atualidade, podemos verificar que era sobretudo no lado nascente, onde estão os edifícios da residencial e do toldo vermelho, que se encontrava o descampado de uma dessas baterias.

No dia 9 de Abril de 1833 as tropas miguelistas tentaram ocupar o monte do Covelo, que naquela altura ficava em "terra de ninguém", contudo foram obrigados a abandonar aquele sítio por uma ação comandada pelo Coronel Pacheco auxiliado pelo Major Pimentel, que fez dividir em duas colunas cerca de 400 a 500 homens: uma aproximando-se pela estrada da Aguardente (estrada para Guimarães, agora rua Costa Cabral e rua do Lindo Vale) e outra pela estrada do Sério (Antero de Quental?). Postos os migueis em fuga, os barris e ferramentas ali encontrados que estavam a ser usados para montar o reduto, foram logo usados pelos liberais para o mesmo efeito.

Muro que aparenta ser a secção mais antiga da rua Capitão Pombeiro (coevo da guerra civil?). Todas as edificações novas desse lado da rua estão recuadas por forma a alargar os passeios (uma exigência da Câmara sem dúvida) mas ainda um punhado delas permanecem neste alinhamento.
Recordo-me de algures num jornal dos anos 70 do século XIX ter lido uma notícia que referia o Sério como sendo um "caso sério" de negligência por parte da Câmara face ao terrível estado em que aquela estrada, atravessada por inúmero trânsito inclusive diligências para Braga, se encontrava. O macadam deveria estar mesmo num desmazelo total.

Mas quando morreu verdadeiramente este micro-topónimo? E quantos como ele já "pereceram"?

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