terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sacos de café dependurados na Torre dos Clérigos?

Conforme prometido na postagem sobre a Meridiana, coloco aqui algumas palavras que portuenses de há um século atrás (1908) nos arquivaram nas páginas d' O tripeiro sobre um outro mecanismo também ele dependente da Torre dos Clérigos. Tudo começou com uma pergunta colocada por um leitor no n.º 10 deste secular periódico que diz:

«Possuo uma gravura antiga onde se vê a Torre dos Clerigos com dois saccos de café, salvo seja, pendurados fóra da varanda superior, como indicadores de qualquer coisa. Em pequenito ouvi dizer que estava installada uma meridiana da Torre.»

Ora, em relação à Meridiana tem só o leitor que reler o ante-penúltmo post; agora trata-se de dar a conhecer as respostas que a este leitor para que também nós cem anos depois possamos ouvir a explicação por quem ainda conheceu o tema. Para isso recolho parte de três respostas que surgem no número imediatamente a seguir ao da pergunta d' O Tripeiro:

«Não eram saccos de café o que o snr. B. S. vê na antiga gravura que possue, representando a Torre dos Clerigos.
Eram bandeiras, como poderiam ser balões de folha de flandres, ou de zinco pintado. Eu explico:
Até 1856, pouco mais ou menos, o unico meio de transporte para a correspondencia do Porto com a Gran-Bretanha, eram os paquetes da companhia ingleza P. & O. (Peninsular and Oriental), que appareciam á vista da nossa barra de quinze em quinze dias. Os vapores, n'aquella epoca, eram de pequenas dimensões e pouca força, comparados com os que se empregam actualmente na navegação transatlantica; por isso, não se podendo contar, senão approximadamente, com o dia e hora da chegada, e para obtemperar ás conveniencias do commercio, que tinha interesse em receber a correspondencia no dia da chegada, foi combinado, entre a direcção da Associação Commercial e o director do correio, com consentimento da Irmandade dos Clerigos que, logo que, pelo telegrapho commercial, houvesse noticia de estar á vista o paquete, fosse colocado um signal na Torre dos Clerigos, que era avistada de quasi todos os pontos da cidade, avisando os commerciantes para mandarem buscar a correspondencia ao correio, que era então no extincto convento das Carmelitas [...].
A torre numa imagem já posterior à época aqui descrita (pormenor de postal antigo)
Aquelle signal consistia, para os dias de bom tempo, em duas bandeiras com as côres da Companhia P. & O. pendentes de um travessão de cada lado ( norte e sul) do varandim superior da Torre; e, para os dias de chuva, em dois balões de lata, pintados com as mesmas côres.
Os caixeiros, a quem competia o serviço de ir ao correio esperar pela distribuição da correspondencia para a levarem a casa dos patrões, tinham ordem de estar attentos á collocação do signal, nas proximidades da chegada dos paquetes, que principalmente de inverno, demoravam um ou mais dias, o que os fazia arreliar, porque os privava de algumas horas de descanso ou de recreio.
Os paquetes, apesar de pequenos, não podiam entrar a barra do Porto; por isso havia uma catraia do sota-piloto Manoel Francisco, encarregada de ir fóra da barra levar e receber as malas de correspondencia e alguns passageiros, que houvessem de embarcar ou desembarcar e que, n'aquelle tempo, eram raros: pois com o mar agitado era muito arriscada a entrada ou saida da catraia.
Muitas vezes sucedia a catraia entrar ao fim da tarde, obrigando os empregados do correio a irem fazer a separação de noite, serviço esse que algumas vezes levava até ás 10 ou 11 horas.»

De facto nos vários jornais que já consultei na Biblioteca Municipal muitas vezes se vê uma pequena notícia referindo a passagem do paquete. E algumas vezes este nem parava porque o tempo estava mau. Seria a correspondência desembarcada em Lisboa? Tempos muito diferentes, os que hoje vivemos...

Mais duas resposta aqui coloco, não tão completas, mas deveras interessantes:

«O que o snr. B.S. julga ser dois saccos de café, não o são, pois que n'essa epoca a Christina, da Cancella Velha, era a unica que tinha o monopolio do saboroso e aromatico producto, não tendo como rival o café da Brasileira, e por essa razão não precisava de réclame para chamar a freguezia ao seu estabelecimento bem conhecido na cidade e até nas provincias.
São, sim, dois signaes com bandeiras, indicando a entrada ou o estar para entrar vapor ou, como hoje se diz, paquete trazendo correio.»

E para finalizar:

«(...) Os taes dois saccos de café, salvo seja, que era costume exhibirem-se ás vistas do publico, já então respeitavel, dependurados nas extremidades de duas pequenas varas, ou páus, collocadas horizontalmente na ultima varanda da torre dos Clerigos, serviam para annunciar que era dia de paquete, isto é, para prevenir quem tivesse de mandar correspondencia pelo paquete para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, que devia entregal-a n'esse dia no Correio Geral, que então era no largo do Correio.»
O "Iberia" de 1836, um dos primeiros paquetes da P & O. (via http://www.pandosnco.co.uk/iberia.html)
Como se vê esta última resposta e a primeira não são propriamente coincidentes. Haverá alguma que fuja à verdade? Ou simplesmente reportar-se-ão a épocas diferentes?

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