segunda-feira, 6 de março de 2017

Ainda na peugada de Sousa Viterbo

Logo a seguir a ter colocado o post anterior, vim a "descobrir" no 1º volume da 5ª série de O tripeiro, um artigo do Dr. Magalhães Basto sobre Sousa Viterbo onde é feita referência ao conto Judas Vingador que em parte transcrevi.

Há ainda um outro trecho deste texto com bastante interessante, mas que numa primeira análise decidira não incluir por se tratar já da parte de ficção.
Ainda assim, sugerido pelo facto de a loja do ficcionado capitão do cantinho ser precisamente na casa onde Henrique de Sousa - o pai de Sousa Viterbo - tivera a sua loja de sirgueiro e retroseiro; e pelo pitoresco da descrição que por ventura não será completamente ficcionada... creio que vale a pena também a incluir neste blogue.

Que foi naquela casa que nasceu esta distinta personalidade não há dúvida pois isto nos diz de punho próprio em tom de gracejo numa carta escrita em 1870:
«Nasci nesta cidade do Porto, largo de S. Domingos, freguesia de S. Nicolau. Se algum dia a minha popularidade chegar a tanto que a câmara da invicta cidade queira mandar colocar uma lápide na frontaria da casa onde nasci, já não o poderá fazer, porque foi deitada abaixo, para se abrir nova rua!!»

(in Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. 29 p. 139)

Local onde se ergueram as casas do cantinho, encostadas ao (agora) Palácio das Artes. A fachada atual não é a original do edifício pois foi necessária reconstruí-la respeitando o alinhamento da nova rua em 1872.
De facto já não havia casa para colocar lápide. Mas a rua que Sousa Viterbo refere em 1870 ainda não estava aberta ao trânsito não obstante todas as demolições já se encontrarem efetuadas incluindo a da casa em que nasceu bem como a sua companheira do lado, que se encostavam ao edifício do Banco de Portugal e conhecidas como casas do cantinho.
Quem comprara lotes de terreno para edificar na nova rua exasperava desde 1865 com a demora do governo (o terreno era nacional pois fizera parte dos Bens Nacionais graças à extinção das ordens religiosas) Apenas em 1871 se tomaram providências nesse sentido e só em 1872 a rua foi finalmente aberta.

Mas a memória de Sousa Viterbo não saiu a perder. Mal sabia ele que em 29 de Dezembro de 1913 a Câmara Municipal, após iniciativa do Ateneu Comercial do Porto, fez descerrar a placa que dava, doravante e para o futuro, o seu nome à artéria que até ali se chamara rua Nova de São Domingos, estando presentes sua viúva e filha. Foram por isso duas as "lápides" e não uma que a Câmara colocou em sua memória.

E desta forma termino, para dar lugar ao segundo excerto do conto de Sousa Viterbo Judas Vingador, onde a loja do capitão do cantinho e seus frequentadores é descrita. Este trecho vem imediatamente na sequência já colocada no post anterior e é, também ele, delicioso de ler, e como o próprio autor diz, não foge muito à realidade do tempo, não obstante se tratar de ficção:

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«Tal é, ligeiramente esboçado, o tablado onde se vão passar algumas cenas desta nossa narrativa, que, embora singela e despida de atavios, se poderá muito bem considerar histórica e quase autêntica.

Descrevamos agora os personagens principais, a começar pelo protagonista, o Sr. Lourenço Dias, mocetão de 28 anos, robusto, sadio, mas sentindo vibrante a paixão do amor, como se o seu organismo tivesse a complexão delicada e nervosa de um pálido Antony.

Lourenço Dias era natural das proximidades de Santo Tirso, donde aos 12 anos viera para o Porto para marçano numa loja de sirgueiro de vestimentas sacras na rua das Flores. Aos 17 anos terminava o seu curso e era investido nas insígnias de caixeiro; uma farpela completa de pano preto, uma gravata e um chapéu alto. Não se imagina o delírio que este acontecimento produzia na alma do neófito, que assim via transformado o balcão na ara da sua liberdade. Por gravata ao pescoço era o mesmo que usar um símbolo de alforria. O escravo, como se ainda estivéssemos na idade média, tornava-se homem livre, como que adquiria a sua dignidade social. Quasi sempre era pelo Natal que este facto se realizava, e o novo caixeiro, despida a sua larva de marçano, lá ia à terra celebrar a sua iniciação, consoar com a família, escaldar o piolho, como vulgarmente se dizia.

Lourenço era de uma humilde família de lavradores, cuja propriedade não lhes dava para o sustento, tendo o pai de empregar-se muitas vezes, para adquirir o indispensável, no amanho da terra dos outros. Não tinham outro filho e toda a sua ambição era que ele fosse para a cidade, onde faria fortuna, onde enriqueceria como um brasileiro. Os pobres pais já não eram crianças quando o filho lhes apareceu pela primeira vez de cartola. Imagina-se facilmente a sua alegria. Eram, todavia, achacados e os rudes trabalhos tinham-nos consumido. Não duraram muitos anos e não conseguiram ver o filho subir às alturas que tanto haviam sonhado. No entanto o filho auxiliou-os quanto possível e não lhes faltou nada na doença e à hora da morte.

Aos 25 anos o Lourenço estava órfão, cheio de mocidade, de saúde e rico de esperanças. Era trabalhador, de bons modos para com todos, bemquisto, simpático. Tendo vendido os pequenos bens que possuía na terra, com algumas economias mais, resolveu estabelecer-se, tomando uma loja de sirgueiro e retrozeiro no largo de S. Domingos. Um amigo emprestara-lhe uns centos de mil reis que lhe faltavam para efetuar a transação e para o giro mercantil.

Era modesto o estabelecimento de Lourenço, e se estava um pouco decadente ao tomar conta dele, em breve lhe soube readquirir o crédito, de modo que era uma das lojas a retalho do sítio que fazia mais negócio. Lourenço ora estava à banca, como sirgueiro, ora vendendo ao mostrador.  A sua freguesia era sobretudo das aldeias circunvizinhas, num raio de duas a três léguas. Ás terças-feiras a concorrência de mulheres do campo era extraordinária, vindo muitas deixar ali em depósito as boroas de milho, que os parentes, geralmente carpinteiros e pedreiros, vinham depois buscar para consumo de toda a semana. À noite a gaveta vergava sob o peso da patacaria. O apuro não era inferior a dez moedas.
A loja do Lourenço podia servir a um curioso de folklore de interessantíssimo observatório etnográfico. Ali se viam os mais variados trajos, que em volta do Porto quasi diversificam de aldeia para aldeia. O principal fornecedor de Lourenço era um negociante do mesmo largo, de alcunha o Carinha de Santo, mas à loja vinham oferecer grande variedade de produtos das industrias caseiras, muitas das quais se extinguiram ou estão em completa decadência. As sanjoaneiras, ou habitantes da Foz e Matosinhos, traziam camisolas de algodão, luvas grosseiras e outros artefactos idênticos. De outras terras, fabricadas por homens ou mulheres, vinham linhas brancas e tingidas, fitas de linho, botões de osso, cordas de tripa ou de arame para viola, colchetes de arame batidos a martelo, etc. Podia formar-se um pitoresco museu industrial de todos estes produtos, que quasi desapareceram por completo, graças à concorrência implacável das máquinas.

Francisco Marques de Sousa Viterbo ( da Wikipedia )

A loja do Lourenço era frequentada continuadamente por três indivíduos, que se diziam seus amigos, e que efetivamente lhe eram dedicados, e que nas longas noites de inverno, faziam dali o seu club ou soalheiro. Lourenço estava à banca trabalhando, tecendo cordões ou fabricando qualquer outra obra da sua especialidade; os marçanos e o caixeiro arrumavam a loja. A cena era alumiada por velas de cebo, ou por alguns candeeiros de azeite, porque o gás só fizera a sua entrada no Porto na aclamação de D. Pedro V, e o petróleo, o gás liquido, como lhe chamavam, só se vulgarizou mais tarde. Tinha o quer que fosse de fantástico aquela comesinha e burguesa Valbruga. Um dos personagens mais salientes, pela sua figura e pela sua idade, era o Francisquinho cego, cujo apelido lhe viera de um defeito visual, que quasi lhe obscurecera completamente a vista. Victor Hugo, se o houvera conhecido pessoalmente, tomara-o para modelo de Quasimodo. Como se não lhe bastara a cegueira, manquejava de uma perna. Apoiado a um bordão, conhecia-se de longe o seu andar característico pelo bater rítmico do pau. Era alto, de uma estatura avantajada, e quando se espreguiçava e se estendia de encontro à ombreira da porta, tomava as proporções de um gigante. Dir-se-ia que era elástico. Trazia quasi sempre não mão um lenço vermelho, que sacudia de um modo peculiar. Quando o agitava com mais violência e rufava na caixa de rapé, era sinal de cólera; a tempestade estava eminente. Era empregado na alfândega, onde batia o selo e nas quartas-feiras cantava no Lausperenne dos Terceiros de S. Francisco. Um artista e um filósofo.

O outro era um carvoeiro, o Hermenegildo da rua das Congostas, tortuosa e sombria rua que desembocava, por um lado na rua dos Ingleses, e por outro entre a rua de S. João e o largo de S. Domingos. Foi nesta rua que nasceu e residiu por muitos anos o honrado e saudoso fundador do Comércio do Porto, Manoel de Souza Carqueja. Hoje, das  Congostas só resta o nome.

O carvoeiro havia servido no exército de D. Pedro e fora condecorado, pela sua intrepidez, com a Torre e Espada. Era corneteiro e gabava-se de ter concorrido para se ganhar a vitória da Lixa. Ferido, não desanimava e continuava a tocar a avançar, incitando os seus companheiros. Era outro corneteiro de Badajoz, de mais lendária que autêntica memória.

O terceiro, finalmente, era um tamanqueiro, o S. Gens, que morava aos Caldeireiros e viera estabelecer-se na rua de S. João. Não sabia ler nem escrever, mas recitava de cor as profecias do Bandarra, as do pretinho do Japão e toda a literatura messiânica portuguesa. Era um crente, um fanático, que esperava com entusiasmo a vinda de D. Sebastião, e que não perdia a fé, apesar das manhãs de nevoeiro se sucederem sem lhe trazerem o desejado Encoberto. Os motejadores troçavam-no, mas perdiam o seu tempo, porque ele respondia-lhes triunfante, com a interpretação genuína das tesouras e outras figuras não menos simbólicas e convincentes do profeta de Trancoso.

As conversas versavam quasi sempre sobre episódios da guerra do cerco e da patuleia, contados pelo carvoeiro, que o Francisquinho escutava com prazer intenso, porque era constitucional exaltado, não podendo ouvir falar em miguelistas – esses burros, como ele, no seu intransigente ódio político os qualificava sempre.

Às vezes o terceto transformava-se em quarteto quando aparecia um alfaiate da rua de Belomonte, muito devoto, que andava sempre pelas igrejas e que tinha um filho de dez anos, a quem pegou a monomania religiosa, sendo todo o seu empenho fazê-lo padre, o que pode conseguir finalmente. O pequeno já pregava sermões e quando vinha com o pai, lá impingia o seu panegírico a Santo António, cuja imagem se ostentava num pequenino oratório ao fundo da loja. Servia de púlpito, um banco de madeira, em que se empoleirava aquele Vieira em miniatura.

Naquele tempo poucos eram os lojistas que não reverenciavam o taumaturgo português, acendendo-lhe todas as noites a sua lamparina. No dia 13 de junho era de ver qual deles ostentava mais vistoso trono, coberto com a mais rica toalha, cheios de degraus de castiçais de prata e de jarras de porcelana. As leiteiras e as lavadeiras do Candal, de Oliveira, e de outras povoações dos arredores contribuíam com molhos de cravos e ramos de outras flores.

Lourenço também era devoto do Santo; em mais de uma ocasião crítica, nos transes difíceis da sua paixão amorosa, se apegou a ele, mas como não fizesse o milagre que desejava, nunca mais lhe acendeu a lamparina nem tornou a fazer festa. Pouco faltou para o atirar ao poço!»

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Estou ciente de que se tornou um post bem longo; mas digam lá meus caros leitores se não valeu a pena esta agradável viagem a Porto dos meados de XIX, pela pena de um seu filho quase esquecido na atualidade?

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