quarta-feira, 31 de maio de 2017

O filme mais triste que conheço sobre o Porto

O título não sofre exagero; pois deu-me uma grande tristeza misturada com revolta na alma quando vi este filme.

Não é apanágio deste blogue divulgar vídeos ou fotografias per si, contudo não pude deixar de ceder ao impulso de aqui registar este video do Sr. A. S. Tavares disponível no youtube, até porque se encontra de algum modo relacionado com as duas postagens anteriores.


Este pequeno filme de 49 segundos serve, quanto mais não seja, para que nunca se esqueça este crime patrimonial. Sinto-me pessoalmente lesado por aquela geração não me ter permitido desfrutar de um edifício que seria atualmente sem sombra de dúvida um ex-libris da cidade.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O órgão de tubos do Palácio de Cristal (2)

Se atrás vimos como se compunha este instrumento que por perto de 80 anos teve lugar cativo lá ao fundinho da nave central do extinto Palácio de Cristal, vamos agora partir para a parte mais difícil desta jornada: o seu triste desaparecimento.

(Os apontamentos abaixo foram também eles coligidos do artigo de L. A. Esteves Pereira, mencionado na entrada anterior.)

No ano de 1935 quis a Câmara Municipal proceder à reparação do órgão. Para isso aceitou, em julho, várias propostas de afinadores e construtores nacionais e estrangeiros. A própria casa que construíra o instrumento quase cem anos antes se disponibilizara para trazer um técnico ao Porto, por forma vistoria-lo e apresentar então a sua proposta.

Não obstante todas elas terem sido avaliadas, certo é que o restauro nunca teve lugar, e assim permaneceu o instrumento mudo por mais uns bons anos.

A nave central num postal do início do século passado. Ao fundo, ainda imponente, podemos ver o órgão (foto AHMP)

Em 1947 a Câmara do Porto fez vir à cidade um técnico de uma firma lisboeta João Sampaio, Lda, com o intuito de examinar e avaliar o órgão e de seguida apresentar a sua proposta. Esta firma foi consultada por indicação do diretor do Conservatório Nacional, Dr. Ivo Cruz.

As notas que se vão ler abaixo são do sócio gerente da firma, Eng. José Ramos Sampaio, e são a constatação e uma evocação da miséria a que aquele instrumento havia chegado:

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«(...) Fomos ao Palácio. Não nos queriam deixar entrar, sendo necessário para isso mostrar a carta em que a Câmara me participava a aceitação das condições para eu fazer a dita vistoria.

Logo atrás de mim veio um outro guarda que disse depois que tinha ouvido a conversa e vinha para auxiliar em qualquer coisa.

Depois de por uma escada de madeira, restos de um escadote improvisado e termos improvisado e termos subido para o estrado do órgão, despimos os casacos e vestimos os fatos de macaco (eu e o Mário). Entramos lá dentro levando eu a pasta com os apontamentos.
O exterior do edifício também num postal do início do século passado. Quem sabe terá sido por este lado que o órgão foi sendo peça a peça subtraído? (foto AHMP)

Fiquei espantado quando vi que tinham desaparecido todos os tubos. O Mário só encontrou um minúsculo, fino como metade de um lápis e que estava caído e quase não se via, por isso escapou. Não havia mais. Nos secretos todos, (exceto nos dos Pedais) não havia um tubo de madeira no lugar. Tinham sido todos tirados do lugar para facilitar o roubo e estavam amontoados sobre os secretos. Nos secretos laterais da pedaleira tinham ficado no lugar os tubos grandes de madeira e os funis (só os funis) dos tubos de palheta (os pés de chumbo com as palhetas desapareceram).

No secreto surdina (todo dentro de uma caixa expressiva) tinham tirado várias réguas expressivas para entrarem lá dentro e fazer a mesma devastação.

Era horrível o aspeto daquilo. Restavam os tubos da fachada, receavam talvez que se visse a falta.

Não escondi a minha revolta mesmo diante do guarda que estava lá com a gente, tendo eu até chamado a sua atenção para os sítios que pisava e onde podia estragar alguma coisa.

O homem disse-me que aquilo estaria assim há muitos anos! Respondi que não pois eu mesmo lá estivera havia 12 anos e não faltavam senão poucos tubos.

Contou-me que alguns empregados que estiveram já se tinham ido embora. um até tinha ido para a Venezuela!

Os teclados e registos têm à frente umas portas envidraçadas. Estavam fechadas à chave.

No outro dia visitei o Diretor dos Serviços Culturais, na Câmara...

Voltámos [para Lisboa] no rápido da tarde.

Assim se perdeu uma bela obra e nós um possível trabalho.»

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Ou seja, o órgão estava já irremediavelmente perdido...

Assim, graças à egoísta ratonice de alguns que viram ali presa fácil para o ganho de alguns escudos; se perdeu um instrumento que ainda hoje poderia estar a fazer as delícias dos ouvidos portuenses, mesmo que não no local onde fora originalmente instalado, por também este ter sido vítima de um crime de lesa património perpetrado por quem dele deveria cuidar!

domingo, 21 de maio de 2017

O órgão de tubos do Palácio de Cristal (1)

O muito recordado Palácio de Cristal, monumento ingloriamente desaparecido, tinha no fundo da sua nave central um estrado onde se poderia instalar uma orquestra com grande número de instrumentos e no fundo deste habitava um órgão de tubos magnífico, se não no som pelo menos na monumentalidade.

Os apontamentos que abaixo apresento não foram originalmente compilados por mim, mas sim por L. A. Esteves Pereira, e apresentados na revista O Tripeiro de dezembro de 1972. Para aqui traslado as informações sobre a composição do instrumento, bem como informações sobre o seu desaparecimento; que aliás antecedeu vários anos a destruição do edifício e não terá ocorrido de uma assentada, por assim dizer.

Sigamos então aquele autor:

«Os seus 2750 tubos repartiam-se por quatro secções correspondentes a quatro teclados manuais e mais uma seção correspondente ao teclado da pedaleira. Os quatro teclados manuais possuíam 56 notas (dó 1 ao sol 5) e a pedaleira 32 notas (dó 1 a sol 3). O conjunto de tubos era repartido do seguinte modo:

1.º teclado - Órgão do Coro - 8 registos;
2.º teclado - Órgão do Principal - 13 registos;
3.º teclado - Órgão do Expressivo - 12 registos;
4.º teclado - Órgão do Sola - 4 registos;
Pedaleira - Órgão do Pedal - 7 registos.

Ao todo 44 registos sonoros, mais 6 registos de acoplamentos, a saber:

Acoplamento Coro/Pedal;
Acoplamento Principal/Pedal;
Acoplamento Expressivo/Pedal;
Acoplamento Solo/Pedal;
Acoplamento Expressivo/Principal;
Acoplamento Expressivo/Coro.

A nave central do edifício vendo-se (mal) ao fundo o órgão de tubos (foto AHMP)

A caixa expressiva onde estavam encerrados todos os tubos do 3.º manual (órgão expressivo) era fechada por réguas que, em dois grupos de 10, fechavam as duas janelas anteriores e que se moviam com toda a facilidade, por meio de um pedal de expressão.

A transmissão do movimento das teclas até às válvulas dos tubos era completamente mecânica, assim como o movimento dos tirantes dos registos.

O ar comprimido era fornecido por 3 foles paralelos, com um volume total aproximado de 8 m3, com bombas diagonais acionadas manualmente por alavancas.

A fachada era constituída por tubos pertencentes aos registos dos Principais de 8 a 16 pés abertos, havendo no órgão do pedal, um registo de 32 pés, tapado, em madeira. As quatro torretas da fachada eram constituídas por 5 tubos, além de um plano central de 11 tubos e dois laterais de 9, cada.»

O autor continua referindo a possível disposição que o instrumento tinha, mas que não lhe permitia tomar como definitiva umas vez que os elementos de que dispunha «já se encontravam prejudicados pelo mau estado de conservação em que o órgão se encontrava, à data em que foram colhidos». Aliás no final desta sua hipótese de disposição, o mesmo autor refere: «Entre parêntesis vão os nomes equivalentes, em inglês, que teriam sido os originais e que estavam, na sua maior, parte já ilegíveis, quando estas notas foram tomadas.» Opto por não colocar aqui a disposição aventada pelo autor, remetendo o leitor interessado para aquele número da secular revista O Tripeiro.

Apenas mencionar que o autor, aquando da sua inspeção ao instrumento verificou a existência da seguinte inscrição:

Este órgão foi reformado e afinado por técnicos da minha casa nos meses de abril e maio deste ano.
Porto 25 de maio de 1916

Memória que havia sido colocada pelo fabricante de pianos e órgãos A. Gomes de Faria, estabelecido na Rua de Regeneração, n.º 25[1].

Segundo o que escreve I. de Vilhena, Barbosa a pp. 11 do Arquivo Pitoresco de 1866: «Este soberbo órgão (...) foi fabricado em Londres por J. W. Walker, que o apresentou na exposição universal que se realizou na mesma cidade no ano de 1862, onde obteve prémio. Custou uns quatro contos à sociedade do Palácio de Cristal portuense.»

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1] Esta rua é a continuação da Rua do Almada pela lateral da Praça da República e o quartel, até ao Largo da Lapa.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Sobre o obelisco do Mindelo

Desta vez fujo um bom bocado do propósito deste blogue, que recai sobretudo sobre o centro histórico do Porto e seus antigos arrabaldes...

Após a vitória de D. Pedro IV em 1834, aquela que será por ventura a primeira proposta para erguer um monumento na praia onde teve lugar o desembarque inicial das forças liberais é originária de 1835 e da autoria de J. J. Lopes de Lima, escrita a 31 de janeiro do ano referido. No final, e após apresentação em cortes o projeto «ficou para segunda leitura». O Diário do Porto publicou este texto em 18 de fevereiro, dias após a sua apresentação em cortes por Manuel Passos (ou Passos Manuel, como é mais conhecido desde há muito tempo para cá)

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PROJETO DE LEI

Art. 1.º - Na praia do Mindelo, no lugar aonde se efetuou no dia 8 de julho de 1832 o desembarque do Exército Libertador, comandado por sua Magestade Imperial o senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosissima memória, se elevará uma pirâmide triangular, de construção sólida e doradoura; mas de uma estrutura simples, e económica.

§ 1.º Na frente do lado do mar se lerá em grossas letras de bronze dourado - 8 de Julho de 1832 - e por baixo, em letras menores do mesmo metal, esta legenda:
Eis o dia maior da heroicidade!
Dom Pedro e os seus aqui tomaram terra:
Moveu-se ao Despotismo assídua guerra
E o Reinado nasceu da Liberdade

§ 2.º Na frente que olha para a cidade do Porto, se esculpirá uma lista dos Corpos que desembarcaram, formando a Expedição, sua força, e os nomes dos Senhores D. Pedro, dos seus ministros, dos seus generais, comandantes de Corpos etc.e por cima, em letras de bronze, esta legenda:
Sete mil e quinhentos combatentes
Triunfaram da fome, e dos pelouros;
O Porto o viu... e vos pasmai, Vindouros,
E imitai os seus feitos excelentes.

§ 3.º Na frente do lado do norte se esculpirá uma lista das forças do usurpador (cujo nome se omitirá por desprezo); e por cima, em letras de bronze, a seguinte legenda:
Em luta desigual vencer tirano
Impossível não foi, bem que pasmoso!...
Daqui aprenda o déspota orgulhoso
Quanto podem os brios Lusitanos.

Art. 2.º Para a fundição de todas as letras, e chapas de bronze da pirâmide, será aplicada a grande peça de J. P. Cordeiro, e mesmo, a ser necessário, mais algumas tomadas aos rebeldes, das que fizeram fogo sobre o Porto.

Art. 3.º A direção dos trabalhos para a construção deste monumento, será confiada por o Governo à Câmara Municipal da muito Nobre e sempre Leal Cidade do Porto; incumbindo-lhe igualmente para o futuro o vigiar sobre a sua conservação. À vista da sua proposta o Governo lhe adjudicará desde logo os fundos necessários para se levar a efeito.

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Curioso notar que este projeto prevê uma pirâmide de três faces e com letras de bronze. Mais curioso é ver o simbolismo do grande canhão que D. Manuel trouxe para o Porto ver a sua matéria prima ser utilizada na fundição das letras para este monumento. Este canhão fora arrastado de Lisboa para o Vila Nova de Gaia por várias juntas de bois durante semanas e fora alcunhado de mata malhados, tendo sido tão inútil que cedo os portuenses o elegeram como alvo de chacota.

Em relação ao monumento, este apenas veria a sua primeira pedra lançada em 1840 por iniciativa de António José de Ávila. Às custas de doações através de uma subscrição pública lá se foi lentamente erguendo na Praia da Memória junto à divisão das freguesias de Lavra e Perafita. Concluído em 1864, o concretizado um monumento muito diferente do que acima se descreve e a bem da verdade, para muito melhor a julgar pela projeto.

O monumento na atualidade (foto SIPA)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Como se completou o Jardim de S. Lázaro

Este texto, colhi-o no periódico de 1834 Chronica Constitucional da Cidade do Porto, mais precisamente do dia 14 de Outubro, e abre-nos uma fresta para o Porto de há poucos meses após o fim da guerra, quando as pessoas se começavam a preocupar com a sadia fruição dos seus tempos livres, agora que já não necessitavam de temer por um tiro de canhão não lhes cair dentro de casa...

O texto é longo, mas vale a pena pelo imersão no Porto daquele tempo que nos provoca...

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Todos sabem, e era matéria afluente nas conversações acerca de diversos recreios, quando se tratava de falar em aformoseamento desta cidade, que o único passeio público que podia merecer esse nome, era a alameda e paredão das Fontainhas; passeio que infelizmente, havendo sido uma das belas projeções de Francisco de Almada, peca no defeito capital da proximidade do matadouro geral, que torna o local incómodo, se não mesmo insadio, tanto pelo cheiro, e imundice, quanto pela asquerosa concorrência dos que traficam nesse modo de vida ainda tão fora de polícia e limpeza corporal em seu manejo; pois que se em algum ramo se conhece o atraso de melhoramentos municipais em comparação com Inglaterra, França, Bélgica e Holanda, que tantos emigrados observaram, é decerto nesta parte de similhantes trabalhos no uso dos misteres necessários ao uso da vida![1]

E nem só a natureza do cheiro do assento do matadouro nas costas do passeio, e junto à mãe de água tornam este sítio insalubre e desagradável; a existência de uma fábrica de curtumes de pelicas, com os seus tanque à face de mais de metade da sua extensão, é por outro outro lado a segunda causa de intolerável persistência num sítio com tantas proporções de ser, sem estes inconvenientes, um dos mais próprios a gozar de vistas pitorescas, ou ao longo do rio para o lado de seu tráfico comercial até ao cais por baixo da eminência do antigo castelo de Gaia, ou para o lado de suas ribeiras e vales de Quebrantões, coroados pelos declives em anfiteatro dos outeiros e colinas de Oliveira do Douro e Avintes em diferentes planos e distâncias!
Planta de 1798 do AHMP. Nela se vê o campo de S. Lázaro (A) , onde veio a ser construído o jardim; o matadouro (B) e com a letra D assinalo o local do inicio da Ponte do Infante (para auxílio da percepção do local).
Nesta falta de um passeio público digno da segunda capital do reino, enquanto se não leva a efeito o tão apregoado sistema da remoção do matadouro para o Monte Pedral, e dos pelames para diverso local acomodado, era forçoso lançar mão de outro sítio onde se pudesse formar um passeio que no entanto substituísse aquela insuficiência, cuja duração não se sabe aonde poderá ter seu limite.[2]

O campo de S. Lázaro oferecia uma substituição sofrível em sua posição, como chave da aproximação de duas estradas, a de Valongo à esquerda, e a de Campanhã à direita, direções tão frequentadas aos Domingos e dias festivos para poder ser uma praça aformoseada, capaz de suprir o intento no intermédio em que as Fontainhas se melhoram, ou que um passeio público, digno deste nome, se erige.

A supressão do convento dos frades Antoninhos facilitava ũa das mais apreciáveis regalias, que nestes estabelecimentos se requerem, qual a do serviço do imenso jorro de água, que dando um ar de beleza ao seu centro em tanque majestoso, facilitasse a rega dos arbustos, plantas e flores que adornassem os tabuleiros da sua configuração.

Tentou pois uma autoridade superior desta cidade, o fazer edificar um jardim em frente da livraria pública, criada por decreto do imortal duque regente, de saudosíssima memória, assim como da Galaria de Pinturas que se fundou com a denominação de Ateneu D. Pedro; fundações estabelecidas na parte superior e inferior do edifício do referido convento de Santo António da Cidade, concedido pelo governo para obras de tão transcendente utilidade.[3]
Edifício do antigo Asilo de Mendicidade, que resulta da adaptação do do antigo Matadouro referido no texto (ver também: aqui), edifício bem visível para quem atravessa o rio pela ponte do Infante.
Deu-se pois princípio a esta obra, debaixo da direção do Sr. J. B. Ribeiro, que teve a satisfação de ver no espaço de 3 meses correr água para o espaçoso tanque que se edificou no meio da praça, de que um quarto de configuração se ultimou logo, e de que até hoje, que pouco mais ou menos se contam 7 meses de trabalho, quasi metade está completo, incluindo-se a magnifica escadaria que deve servir de entrada principal do lado da Rua de Entreparedes.

A satisfação que toda a cidade mostrou no andamento desta obra tão popular, manifestou-se desde o princípio na continuada concorrência de todas as famílias do Porto, e de seus habitantes em geral, que todas as tardes, e principalmente nos dias festivos enchem o recinto deste sítio tão aprazível e agradável.

Por outro lado se tem manifestado esta popularidade de aprovação, nos imensos presentes com que tem sido brindado o jardim, como já em outra ocasião mencionamos a respeito do Sr. L. S. de C. - modernamente temos a mencionar acerca dos Srs. M. L. C. e seu filho – J. J. de F. - J. L. - M. F. S. - A. P. d’A. - J. G. R. N. - D. J. R. G. - e do próprio jardineiro, e de outras muitas pessoas e famílias, que tem ofertado arbustos, flores, e sementes, em tal quantidade, que  sua variedade e profusão se tem feito notável e rica.

Mas tanta prosperidade do jardim, está balanceada pelas ocorrências sobre vindas, e é preciso ou acudir-lhe, ou ver perder-se no espaço de poucas semanas o fruto de tantos meses, e as esperanças da permanência deste recreativo passeio!

É alheio deste lugar a investigação das causas, e dos motivos porque os meios, que tem servido até agora, para por o jardim no estado em que se acha, pararam de repente! Consola-nos contudo a esperança, de que assim como as obra da Livraria Pública, e do Ateneu pararam, sendo natural que o governo não queira que elas venham a aumentar o anexim de que no Porto tudo fica em começo, ou fica torto – venha a olhar por isto, porque o povo necessita de instrução e recreio, e o Porto merece que tais obras principiadas tenham o seu andamento e conclusão.

Deixando porém a Livraria, e o Ateneu, como obras mais gigantescas, e que por si falarão altamente por orgão da necessidade de acudir ao edifício arruinado pelas obras em projeto, e que a não acabar-se, ameação prejuizo mais iminente – do que se imagina…

Tratemos do nosso jardim, que bem nosso lhe podemos chamar pela posse de concorrermos ali, nós todos os habitantes do Porto, que estamos no hábito da sua diária, e contínua fruição.

Se lhe não acudimos, ele perece; e o modo de lhe acudir é fácil, e acessível a todas as famílias e amadores deste recreio.

Está aberta uma subscrição puramente particular, de 480 rs. por cabeça, para costear, e beneficiar, tanto quanto seja possível, com o fundo resultante, o estado, e melhoramento do jardim.

O mesmo Sr. J. B. Ribeiro, sabemos que se presta a coadjuvar com a sua direção o progresso das obras em andamento, e no fim de cada mês se darão contas públicas por nossa intervenção, para se saber que a mesma economia se emprega neste objeto.
O jardim de S. Lázaro num conhecido postal do início do século passado. Vê-se também o antigo Recolhimento das Orfãs, já com a sua ala nascente construída bem como a Rua de S. Victor logo a seguir, que também se encontrava já alinhada desde a Praça das Flores em direção à Av. Rodrigues de Freitas.
O meio de se darem contas públicas sem se usar dos nomes de pessoas, que talvez tenham melindre de que seus nomes sejam referidos, é seguir o método usado em países estrangeiros: cada subscritor ou seja mencionado com letras iniciais, ou com o anónimo, tem o seu n.º de algarismo, e por eles assim se nota o total da receita, para que cada pessoa vendo o seu número, saiba que a sua quantia entrou legitimamente, e teve  a saída na despesa respetiva.

O Sr. J. B. Ribeiro é o próprio tesoureiro, e sabemos que as obras  já desde o principio deste mês correm por conta da subscrição particular.

É a primeira vez que entre nós se pratica este método de auxílio a obras públicas; e esperemos que ele seja tão profícuo, quanto é útil o seu fim.

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1 - Nas Fontainhas construíram-se, no século XVIII, a alameda e o matadouro (só terminado em 1808). Para esta zona foram também transferidos os aloques da Biquinha, ou seja, a suja indústria dos curtumes que por séculos se manteve no local onde hoje temos a  fonte monumental da Rua Mouzinho da Silveira.
2 - Esta transferência viria a ocorrer umas décadas depois, para o local onde atualmente se encontra a Direção de Ambiente da câmara, na Rua de São Dinis.
3 - Nos seus primeiros anos a biblioteca municipal ocupava apenas o andar superior do edifício onde ainda hoje se encontra, sendo que por baixo se encontrava o Ateneu, que, nada tendo que ver com a instituição que hoje dignifica este nome; levantou durante uns bons anos o estandarte de museu municipal (foi este museu que em 1838 cedeu o lavatório da sacristia do convento dominicano para o Jardim de S. Lázaro onde ainda está; obra fina feita para interior mas exposto à inclemência do tempo há quase duzentos anos!).