domingo, 21 de maio de 2017

O órgão de tubos do Palácio de Cristal (1)

O muito recordado Palácio de Cristal, monumento ingloriamente desaparecido, tinha no fundo da sua nave central um estrado onde se poderia instalar uma orquestra com grande número de instrumentos e no fundo deste habitava um órgão de tubos magnífico, se não no som pelo menos na monumentalidade.

Os apontamentos que abaixo apresento não foram originalmente compilados por mim, mas sim por L. A. Esteves Pereira, e apresentados na revista O Tripeiro de dezembro de 1972. Para aqui traslado as informações sobre a composição do instrumento, bem como informações sobre o seu desaparecimento; que aliás antecedeu vários anos a destruição do edifício e não terá ocorrido de uma assentada, por assim dizer.

Sigamos então aquele autor:

«Os seus 2750 tubos repartiam-se por quatro secções correspondentes a quatro teclados manuais e mais uma seção correspondente ao teclado da pedaleira. Os quatro teclados manuais possuíam 56 notas (dó 1 ao sol 5) e a pedaleira 32 notas (dó 1 a sol 3). O conjunto de tubos era repartido do seguinte modo:

1.º teclado - Órgão do Coro - 8 registos;
2.º teclado - Órgão do Principal - 13 registos;
3.º teclado - Órgão do Expressivo - 12 registos;
4.º teclado - Órgão do Sola - 4 registos;
Pedaleira - Órgão do Pedal - 7 registos.

Ao todo 44 registos sonoros, mais 6 registos de acoplamentos, a saber:

Acoplamento Coro/Pedal;
Acoplamento Principal/Pedal;
Acoplamento Expressivo/Pedal;
Acoplamento Solo/Pedal;
Acoplamento Expressivo/Principal;
Acoplamento Expressivo/Coro.

A nave central do edifício vendo-se (mal) ao fundo o órgão de tubos (foto AHMP)

A caixa expressiva onde estavam encerrados todos os tubos do 3.º manual (órgão expressivo) era fechada por réguas que, em dois grupos de 10, fechavam as duas janelas anteriores e que se moviam com toda a facilidade, por meio de um pedal de expressão.

A transmissão do movimento das teclas até às válvulas dos tubos era completamente mecânica, assim como o movimento dos tirantes dos registos.

O ar comprimido era fornecido por 3 foles paralelos, com um volume total aproximado de 8 m3, com bombas diagonais acionadas manualmente por alavancas.

A fachada era constituída por tubos pertencentes aos registos dos Principais de 8 a 16 pés abertos, havendo no órgão do pedal, um registo de 32 pés, tapado, em madeira. As quatro torretas da fachada eram constituídas por 5 tubos, além de um plano central de 11 tubos e dois laterais de 9, cada.»

O autor continua referindo a possível disposição que o instrumento tinha, mas que não lhe permitia tomar como definitiva umas vez que os elementos de que dispunha «já se encontravam prejudicados pelo mau estado de conservação em que o órgão se encontrava, à data em que foram colhidos». Aliás no final desta sua hipótese de disposição, o mesmo autor refere: «Entre parêntesis vão os nomes equivalentes, em inglês, que teriam sido os originais e que estavam, na sua maior, parte já ilegíveis, quando estas notas foram tomadas.» Opto por não colocar aqui a disposição aventada pelo autor, remetendo o leitor interessado para aquele número da secular revista O Tripeiro.

Apenas mencionar que o autor, aquando da sua inspeção ao instrumento verificou a existência da seguinte inscrição:

Este órgão foi reformado e afinado por técnicos da minha casa nos meses de abril e maio deste ano.
Porto 25 de maio de 1916

Memória que havia sido colocada pelo fabricante de pianos e órgãos A. Gomes de Faria, estabelecido na Rua de Regeneração, n.º 25[1].

Segundo o que escreve I. de Vilhena, Barbosa a pp. 11 do Arquivo Pitoresco de 1866: «Este soberbo órgão (...) foi fabricado em Londres por J. W. Walker, que o apresentou na exposição universal que se realizou na mesma cidade no ano de 1862, onde obteve prémio. Custou uns quatro contos à sociedade do Palácio de Cristal portuense.»

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1] Esta rua é a continuação da Rua do Almada pela lateral da Praça da República e o quartel, até ao Largo da Lapa.

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