domingo, 29 de janeiro de 2017

Um naufrágio no rio da Vila

Bom, ainda não saímos da zona de Mouzinho da Silveira, pois desta feita pretendo mostrar um escrito curioso de um indivíduo que conheceu o rio da Vila.. digamos que, intimamente....

Como se trata de um registo puramente pessoal, poderão os meus caros leitores não pensar grande coisa dele. Contudo, dado a realidade já extinta de que trata creio que é interessante recupera-lo das páginas da centenária revista em que foi arquivada para as "páginas" deste blogue.
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«(...)

Fui vegetando por esta boa terra, até que, um dia, me domiciliaram numa casa da rua das Flores, que tinha quintal com porta para o Rio da Vila.

Chegou o mês de janeiro (fazia um frio dos demónios) e em todos os teatros havia bailes de máscaras animadíssimos, elogiados por toda a gente, onde, ao que eu ouvia dizer, se me afigurava que seria tal o encantamento, a voluptuosidade, que a tudo quanto era belo suplantaria! Não mais deixou de me assediar a ideia de me transportar àquele lugar delicioso. O baile de máscaras! O baile de máscaras!! Na minha imaginação, só ali se conglobavam todas as delícias!

De mais a mais, eu tinha visto, lá em casa uma coleção de fatos para máscaras, e, entre eles, uma farpela de zuavo... que estava mesmo a calhar cá para o rapaz!

A minha preocupação em achar o meio de realisar aquele ardente desejo, era inabalável.

Tinha já uns amigalhotes, tão bons como eu, e com três deles permutei impressões a respeito dos bailes. Como era de presumir, concordamos logo todos em que estudasse cada um o modo mais fácil de, num determinado sábado, irmos juntos gozar do tripúdio carnavalesco.

Eu projetei, então, a minha saída pelo Rio da Vila, porque em vista da regra do recolheimento, não podia ser de outra maneira. Os meus sócios planearam a saída pela porta da rua, e numa última conferência que tivemos, combinamos que a reunião fosse na rua da Ponte Nova, onde eles iriam esperar que eu aparecesse, visto que a minha saída era a mais receada.

Chegou o almejado sábado, e eu só pensava na hora de poder ir para a minha alcova, e que toda a gente se deitasse, para eu por em prática o meu projeto.

Enfim, às nove horas da noite, já eu estava no meu quarto, já tinha apanhado o fato e só esperava a oportunidade de me por ao fresco.

Pouco depois, revia-me eu, cheio de bazófia, vestido de zuavo, com um enorme bigode, parecendo-me até que tudo em volta de mim era argelino.

Quanto (sic) vi que era ocasião, desci ao quintal, e, num passo cadênciado, como cá imaginei que devia caminhar um destemido zuavo, segui, ovante, até à porta do Rio da Vila. Coragem de soldado...macanjo!

Ali apareceu logo um empecilho: foi o estafermo da porta que não abria nem pelo diabo; mas à força de empurrões com toda a gana, lá consegui uma greta, por onde, de esguelha, me escoei.

Eu já disse que esta cena se passava no mês de janeiro; portanto, o rio, naquela ocasião, corria caudaloso, pelos seus afluentes, de diversas espécies de líquidos, mais ou menos densos, com os seus sólidos à mistura.

Não obstante o volume líquido, estava eu muito persuadido de que o leito do rio seria facílimo de transpor, e, por isso, foi com toda a afoiteza - afoiteza de zuavo, e zuavo uniformisado! - que avancei uns passos em frente da porta de saída; mas, mal diria eu que bem triste, cruel e vergonhosamente seria logo reprimida a minha audácia.

Naquele fundo havia um acomulamento de limo, talvez coevo dos godos, e à superfície daquelas cachopos, estava aderente uma camada escorregadia sobre que se não podia firmar um pé.

Ao segundo ou terceiro passo que tentei dar dentro de água, sem que me fosse possível evita-lo, fui, de repente, precipitado naquele amálgama tenebroso, onde, ao querer encontrar um apoio que me sustivesse, só dava com substâncias massudas e viscosas, que ora se me escapavam, ora se me desfaziam nas mãos! Um horror!
O trajeto (aproximado) do rio da Vila que o Sr. L. C. percorreu na sua agonia lodosa surge aqui representado a amarelo. Por curiosidade, no tracejado a preto e branco, represento uma viela que ia da rua da Ponte Nova ao rio da Vila, onde terminava  abruptamente. Hoje ainda é visível do ar mas foi absorvida há muito pelos edifícios que repartia.
À maneira que, em porfiada luta, eu esbracejava, para que a corrente me não arrastasse, mais repetidas vezes mergulhava e me sentia envolto em fragmentos de matérias consistentes, exquisitamente moldadas, que se remexiam comigo, em todos os sentidos, sem que, por modo nenhum, eu pudesse resistir à impetuosidade daquela enxurrada!

Que tremendo desastre!

Aquilo é que foi ver-me entre as dez e as onze, porque, precisamente a essa hora é que eu sofria esse suplício!

Ora calculem, se podem, a minha crítica situação: retrogradar não era possível, porque já estava muito afastado do ponto de partida, e mesmo a força da corrente não deixava; grtiar por socorro, isso nem pensa-lo, porque era, a meu ver, a maior desgraça!...

Enfim, fui-me esforçando quanto pude, fui galgando aqueles cachopos, fui evitando, o mais possível, a passagem pelas guelas... daquilo, líquido ou sólido (e sempre passou qualquer coisa) e assim me aguentei - que remédio! - até ver... eu sabia lá o quê!

Mas, oh fatalidade! O caso, de repente, tornou-se ainda muito mais tétrico! Sucedeu que, no meu barafustar, me fui aproximando tanto de um açude, que eu não sabia existir ali, que repentinamente, faltando-me os pés, faltando-me as mãos, e não sei se mais alguma coisa, senti-me ir, de escantilhão, por um declive, que parecia arremessar comigo prás profundas do inferno!

Então, sim! Então houve um minuto em que me vi seriamente atrapalhado!...

Quando parou aquele diabólico movimento rolante do meu corpo, achava-me lá em baixo, nos Aloques da Biquinha!...

Não sei nada do que se passou, durante aqueles momentos em que rebolei; sei só que, quando cheguei aos Aloques, o vistoso gorro, e o façanhudo bigode, que me completavam o garboso donaire de zuavo, tinham ido pela água abaixo - naufragaram!

Ali, porém, já me considerava liberto de perigo, em sítio propício a uma imediata retirada; portanto, procurei ver algum ponto por onde podesse sair daquele atascadeiro, e - oh! maravilha! - eis que lobriguei, sobre as alpondras da margem direita, os três meus associados, atónitos e em atitude protetiva.

Que alegrão! Que suprema ventura para este pobre naufrago!

Rapidamente se me improvisaram socorros, e pouco depois, saltava eu para junto dos meus colegas, carecente de lhes ouvir palavras de conforto, pelas torturas que eu tinha passado, e de que lhes ia fazer exata narrativa.

Aqueles manganões, porém, vendo o estado lastimoso em que eu me apresentava, de braços pendidos, tudo pendido, tudo encharcado, tudo a tresandar, - largaram a rir, a rir, sem me dirigirem uma única frase consoladora, e sem, ao menos, quererem chegar-se a mim!... Que bárbaros!

E ali estava eu exposto, a tiritar, tal e qual:

À meia noite
Saiu de um cano
..............
O Crispiniano.

Por fim, lá se fartaram de rir à custa da minha desgraça, e eu pude relatar-lhe todas as fases da crise aflitiva por que passei.

Comoveram-se, e, então, resolvemos empregar todos os esforços para eu regressar a casa. Assim, depois de apreciados diferentes alvitres, assentou-se em que fossemos pelo túnel do lado da rua do Souto, observar se seria possível passar pelo fundo dos quintais das casas da viela do Anjo, na margem esquerda do Rio da Vila, até ao ponto fronteiro à porta da casa onde eu tinha de regressar, a ver se lá poderia atravessar o rio.

Subimos, pois, umas escadas que iam ter à rua da Ponte Nova, seguimos pela viela do Anjo, voltamos à rua do Souto e lá entramos no túnel.

Eu, cada vez mais tiritante, com a farpela empastada e grudada á pele, lá seguia os outros, cabisbaixo e acabrunhadissimo!

O baile, esse já nem passava pela ideia: má hora em que eu tive tão infortunada lembrança!

Chegamos aos quintais da viela do Anjo, e, por uma felicidade enorme, podemos atravessa-los, pela beirinha do rio, até defronte da porta, por onde eu tinha saido como um altivo zuavo, e pretendia depois entrar como... um indecente pingão.

Uma vez ali, não havia tempo a perder: era preciso completar a obra.

Efetivamente, depois de tomadas umas ligeiras precauções, e de eu recuperar ânimo, até onde pode ser, fiz uma atrapalhada investida...

recuei, tomei folego... tornei a investir, formei um salto, tornei a recuar... - mas por fim, empertigado, todo arrogante - zás! - dei um pulo, com todo o meu arreganho e... fui cair, de cócoras, próximo da porta.

Ali, engatinhei um bocado, enfureci-me, esperneei com todo o meu vigor e intrépidez de que podia dispor em tão difícil conjentura, e... finalmente estava salvo!

Alcancei a soleira da porta, voltei-me, de lá, para os companheiros, enviei-lhes um punhado de saudações, e fui encerrar-me no dormitório . de onde não devia ter saído.

Deixo, agora, cá só para mim, o que se passou a respeito da farpela de zuavo, que foi preciso desaparecer, como sucedeu ao gorro e ao bigode.

Ora, creio ficar bem demonstrado, que foi retumbante aquele meu batismo na rapioca; mas saiba-se também que, por falta de vocação, não correspondi ás atrações. É verdade que, depois de saber da facilidade com que podia sair do túnel, por lá passei muitas vezes, mas... com certo recato, quando o rio levava pouca água e... sem vestuário de máscara

(...)

C.L.»

de O tripeiro (ano 3, p. 50-51)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O Motim das Maçarocas

Creio que as pessoas que se dedicam a conhecer a história da nossa cidade conhecerão ou pelo menos já ouviu ou leu em tempos, algo sobre este motim. Foi, ao que parece, uma sublevação do povo contra a opressão fiscal imposta por Filipe III (IV de Espanha e último dos nossos Filipes) que necessitava sempre e cada vez mais, de dinheiro para o negócio do socorro da Índia, ou seja, defender as possessões portuguesas do Indico.

Todos os autores que a ele se referem desde os inícios do séc. XX até hoje, vão busca-lo sobretudo a Agostinho Rebelo da Costa, que viveu quase duzentos anos depois dele. Contudo o que muita gente desconhece é que a fonte principal do autor da Descrição topográfica e histórica da cidade do Porto terá sido Manoel Pereira de Novaes, beneditino que passou a maior parte da sua vida na Galiza, mas portuense de origem e que aqui terá passado muita da sua juventude. Não se julgue que Novaes é contemporâneo dos acontecimentos uma vez que ele escreve pelos anos 80 do séc. XVII e estes deram-se ainda nos anos 20 do mesmo século. Quando muito seria um jovem de tenra idade. Me parece que a sua narrativa não poderia ter vindo da memória... Seja como for, dada a descrição cheia de colorido e pormenor que faz da sublevação, leva-me a crer tivesse consultado pessoas que presenciassem os factos que abaixo se vão ler.

Uma advertência: pelo menos a data de 1628 estará erradamente atribuída. Segundo informação que colho da História da Cidade do Porto, coordenada pelo Prof. Damião Peres e publicada pela Portucalense Editora, ter-se-á dado o caso no ano seguinte.

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Sigamos então Manoel Pereira de Novaes:
«(…) por el año de 1628, llegò Don Francisco de Lucena, Secretario del Consejo de Estado de Portugal, que residia en Madrid, mandado por el mesmo Real Consejo a efecto de poner en esta ciudad de o Porto cierto impuesto y tributo, que llamauan el Real de Agoa, y, por otro estilo, de las Massarocas.

De lo qual, por la sospecha que yà corria en el pueblo, que temia se lleuasse a execusion este nuebo tributo, se leuantò tan grande aluoroto y mouimiento popular que apenas, sin euidente peligro, se pudo escapar el mesmo Don Francisco de Lucena y vno hijo suyo, que le acompañaua, acogiendose ambos al conuento de Santo Domingo, y de alli, por la huerta deste monasterio, a la huerta de San Francisco, y alli se puso en mayor y màs notorio peligro; porque el pueblo, lleuado de la sospecha, e de vn furor indomito, ciego y sin discursso, se ajuntò a la puerta deste conuento, assi de la iglesia, como a la de la Portaria, y con tanto desacato al sagrado deste monasterio, que quasi se atreuiò a romper la de la portaria, que sale a la calle que baxa a los Baños, y con tanta intrepidez, que, como digo, quasi la huuo arrombada para entrar en la clausura del conuento; e lo hisiera sin duda alguna si no fuera Don Francisco de Saa y Menezes, Camarero Mayor de su magestad, y Conde de Penaguiam y Matosiños, que, como es Alcalde y Capitan General de las armas de la ciudad, se puso luego a cauallo, mandò tocar caxas y juntò las banderas de milicia de los vezinos, y, con esta buena disposicion, y mandar que, desde la portaria del counento hasta la plaça de la Ribera y embarcadero del caiz, estuuiessen las companias de la ciudad puestas en ala, con sus mosquetes e arcabuzes calados y ceuados, de vna parte y otra de las calles, y mandar que las barcas del passaje del rio con los vergantines y bateles de todas las naos estuuiessen de prompto para el passaje, sacò del monasterio a Don Francisco y a su hijo, y, lleuandolos por medio de las companias que estauan animadas a las calles y ruas, les passò de la otra parte de la ciudad y puso en el monasterio de la sierra, sin peligro alguno; y luego mandò que los mesmos barcos y bateles y esquifes de la ciudad se passassen allà, a Villa Nueba, iuitando assi que los del motin no tuuiessen en que se pudiessen atreuer al passar de la otra banda.
Sítio onde Lucena e seu filho poderão ter atravessado a cerca do horta dominicana (D) para a franciscana (F). A linha marcada aponta sensivelmente o local onde existia o muro divisório.
Puesto assi Don Francisco de Lucena y su hijo en el monasterio de San Saluador de la Sierra, que es de Canonigos Reglares de San Agustin de la Congregacion de Santa Cruz de Coimbra, fuè visitado de nuestro obispo, Don Fray Iuan de Valladares, y de los señores de la camara; porque estes no tuuieron influxo en este atrebimiento, porque todo ello procediò en todo lo màs asqueroso y vil de la plebe, y sin cabeça, nin disposicion, solo guiados de su libertad y de lo primero que se les puso en la aprehencion de su indiscreto furor; con que, ciegos obraron esta inaduertida insolencia, con que los senadores de la ciudad le quisieron boluer a ella para poner en execucion el orden del real consejo, lo qual no quiso haser el mesmo señor Don Francisco de Luçena.
Portaria do convento e entrada da Igreja franciscana, onde os revoltosos se terão aglomerado (a portaria não era ainda esta mas o local é o mesmo).
Nuestro señor obispo se offreciò a lo mismo, como tan interezado en la amistad, que el secretario Lucena tenia com Mendo da Mota Valladares, su hermano, que era oydor del mesmo real consejo, y le offreciò su palacio que el Lucena no acceptò; no por desconfiança del praelado, que bien conocia su sinceridad, sinò por obuiar algun otro peligro que acarreasse el tienpo, como assi luego aconteciò; porque los amotinados, como gente indomita y cerril, cerrando los ojos al discursso, buscando barcos en San Iuan da Foz, Ouro y Maçarellos, passaron el conuento de la sierra, a tienpo que estaua visitando a Don Francisco de Lucena el Corregedor, Pedro Ferraz de Nouaes, y el Iuez de Fora.

De suerte que del tropel y estrondo de los tumultuosos no tuuo otro remedio el secretario Lucena y su hijo sinò de metersse a dentro del bosque de la tapada del conuento y passarsse a Quebrantones, y aqui, montado a cauallo se partieron desconocidos a Madrid, a dar quenta al consejo del lançe del sucesso, que fuè notable en el desalino y desacato, acompañandole el mesmo Iuez de Fora y Corregedor.
Mosteiro dos Conegos Regrantes de Santo Agostinho, onde Lucena se refugiou e dali fugiu, pelo bosque, em direção a Quebrantões, a salvo da populaça.
En esta ocasion deste tumulto, no estaua en la ciudad el Gouernador de la Chancilleria, Diego Lopez de Souza, Conde II de Miranda, que, a estar, no sè como passara tan leuemente el castigo deste motin tan ciego y indiscreto; porque aunque se castigò, no fuè con la acrimonia que merecia este popular y soez atreuimiento. 
Nuestro obispo se huuo con notable dolor de sentimiento; pero, no lo pudo remediar, aunque despues, con cartas para su hermano, Mendo da Mota de Valladares, y para el Praesidente del Consejo, Don Carlos de Aragon, en que intercedia por la ciudad, y su indemnidad, fuè de mucha consequencia, para que el castigo tuuiesse termino, y no se passasse adelante en el castigo de los delinquentes, con que se le deue, a el, el poco cazo que se hizo del delito. (...)»
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E assim voltou para Madrid o enviado de Filipe III...

Com efeito e aparentemente, a admoestação de Filipe III nem existiu, apenas chegando ao Porto uma carta felicitando os do Concelho pelo modo como haviam defendido a vida do seu enviado, particularmente no que toca "ao excesso que alguuns moços e povo miudo commetterão".

Terá tudo acontecido como o pinta Novaes? Quem o poderá firmar com plena certeza hoje? A história é feita e contada pelos sobreviventes sejam eles pessoas, relatos ou documentos. E este é o relato mais antigo do suposto motim, ao qual como atrás referido, todos os outros vão beber e por vezes estropiar.

Quem quiser tomar conhecimento de uma outra revolta no Porto contra o governo de Filipe III poderá ler este trabalho. Este aconteceu já nas vésperas da conjura de 1640 que veio a eleger de novo um monarca português.

domingo, 22 de janeiro de 2017

A capela do Calvário Novo e duas fotos intrigantes...

A capela do Senhor do Calvário erguia-se no local onde hoje se encontra a entrada do parque de estacionamento privado do Palácio da Justiça. Praticamente adjacente a ela encontrava-se a casa da Roda dos Expostos - triste reflexo de uma expressão social felizmente erradicada - e ao lado desta esteve o Mercado do Peixe no local onde se haviam já erguido outrora os celeiros da cidade. Confuso o leitor? Nada que as fotos não resolvam!

Local onde esteve a capela do Calvário Novo (foto SIPA). À esq. temos a íngreme rua Dr. António de Sousa Macedo (Ex-Travessa do Calvário) e a rua do Dr. Barbosa de Castro (Ex-Rua do Calvário).

Pormenor de uma panorâmica anterior, pelo menos, a 1864. 1- Celeiros da cidade onde mais tarde existirá o Mercado do Peixe também já desaparecido; 2 Roda dos Expostos (antigo Hospício dos Capuchos); 3 - Capela do Calvário; 4 - Reitoria da Univ. do Porto (em construção); 5 - Paredão das Virtudes; 6 - Igreja da Graça e Colégio dos Meninos Orfãos que viriam a ser demolidos para dar lugar a grande parte do edifício da Reitoria.
Neste pormenor de uma panorâmica dos anos 20 ou 30 do séc. XX vemos quase os mesmos edifícios (mantive a numeração), contudo o n.º 1 é agora o Mercado do Peixe, demolido nos anos 50 do séc. XX.

Neste extracto de uma planta do AHMP, vemos os edifícios que tenho vindo a referir com a indicação para melhor localização do local, da capela das Taipas (a) e o hospital de St. António (b).

Outro extrato de uma planta, desta feita a de Telles Ferreira de 1892, onde se vêm os edifícios em questão.
Mas, centrando a vossa atenção na capela, pude consultar a obra de 1972 de Bernardo Xavier Coutinho (História documental da Ordem da Trindade) onde consta um documento curioso para a história desta capela e sua confraria. Diz assim:

«ORIGEM DA CAPPELA E CONFRARIA DO CALVARIO NOVO
Teve principio a capella e confraria do Senhor do Calvario Novo com o titulo do Bom Jesus de Bouças pela via sacra que principiava na Senhora da Esperança - o Calvario Velho foi onde hoje se acha a Igreja e Convento das Carmelitas  [lado sul da Praça Guilherme Gomes Fernandes] - havia huma simples cruz de pedra quadrada antiguissima e nella uma imagem de Christo pintada junto a huma cerca de terra dizima a Deos. Consta do Prazo que fez à Camara João Baptista Ferreira, em 1683 haver já a Capellinha do Senhor, como se vê das confrontações, crescia em augmento esta Confraria de sorte que, no anno de 1700, fizerão huns Estatutos confirmados e sugeitos ao Ordinario. Tendo grande devoção, Magdalena da Cruz Campobello, da Villa de Guimarães com o Senhor, fez o contracto de doação à Confraria, em 1703, com a obrigação de lhe fazerem huma Caza junto à Capella que julgo ser a terra da cerquinha da dita Magdalena da Cruz, para a dita viver .... Consistia a Capella naquelle tempo ser pequena, baixa, com hum alpendre de fora e huma Caza ao pé da Fabrica e Ermitão...

Em o anno de 1703 emprazarão os Mordomos à Camera a terra para reedificarem o corpo da Capella com o alpendre por Prazo fateuzim ... acabarão o corpo da Capella em 1705 e continuarão a obras de 1737 ... Em 1734 forão inquietados pelos Religiozos vezinhoos capuchos, alem das demandas, em pedirem a Capella ao Rey o Senhor D. João Quinto. Em 1737 fizerão os assentos ao redor da Capella e outras obras, tudo á custa da Confraria, como se vê de huma pedra nella esculpida que diz: Esta obra assim cazas como pateo e assentos se mandou fazer à custa das do Calvario Novo anno 1737.

A capela e adjacências nos inícios do século XVIII.
Em 1739 para 1740, se tirou a cruz de pedra e se pôz na Sachristia; se colocarão as Imagens que tinhão mandado fazer em vulto do Senhor Crucificado, e morto.

Não se descuidarão os Capuchos em verem de que modo havião de uzurpar a Capella, de sorte que começarão a miná-la pela parte de traz que confina com a sua Cerca, e movendo-se pleitos sobre isto se fez vistoria que se julgou por sentença ... e de que dipois rezultou fazer-se o paredão. Da parte da Viella intentou o Galvão fazer humas Cazas terreas encostado ao muro do paceio e Logradouro da dita Capella e fazendo-se vistoria, se julgou ser a terra do Publico ....

Em 1784 tornaram a pedir a Capella os Capuchos à Raynha a Senhora D. Maria primeira, vindo a informar responderão até o anno de 1787 por motivo de que fizerão o contracto de transacção com a Ordem [da Trindade].»
A capela no fim do século XIX ou início do XX, já reduzida a armazém.
Com efeito, a Ordem da Trindade foi erecta na capela da Batalha (também já desaparecida) em 29 de junho de 1781, transferindo-se para a do Calvário em 26 de Novembro de 1786. No processo aglutinaram a confraria do Calvário: «... por isso fizerão aquelle comtracto, com os da Comfraria do Calvario, de tomar conta, e posse da Capella e todos os mais Bens, ficando a Comfraria extinta, emtrando para Irmãos terceiros todos que erão, e possuiô a dita Comfraria ... declarando somento que no dia da Festa da Santíssima Trindade no qual costumavam Festejar o Senhor do Calvario farião comemoração do mesmo Senhor....»

Mas os vizinhos Capuchos não deixaram de azucrinar a cabeça, agora à Ordem da Trindade. E assim pediram ao Chanceler Governador Roberto Vidal da Gama que lhes dispensasse a capela para nela poderem confessar. Este acedeu ao pedido e «...forão os Padres com offeciais de Justiça com hum comfencionario para emtravar a Capella ao que acodio o Reverendo Capellão que nella se achava actualmente e a pontapés sacodio tudo pella porta fora...»

A igreja da Trindade, na verdade, poderia nunca ter sido erguida no local onde hoje se encontra, caso os Capuchos não tivesse feito de tudo para ficar com aquela capela... Pois que a Ordem, querendo construir uma igreja maior, obteve uma provisão para emprazar terreno até à face da rua e com esse espaço mais o seu terreno próprio, teria área suficiente para uma igreja de tamanho mais decente, em acordo com o número de Irmãos. No entanto logo os Capuchos armaram desordem: «... e trabalhar já a respeito de votar pedra - na testada já com o embargo sobre o tilheiro da Cal de firmar sobre a parede da parte do Caminho, e no mesmo fazendo-se o aliserse sahirão com paus nas mãos para darem em alguns trabalhadores e Bemfeitores que depois do dia andavão no alicerse a tirar emtulhos para adiantamento da obra...». Os Capuchos vieram argumentar junto da rainha que aquela igreja era desnecessária por haver muitas à volta, que seria sumptuosa e assim esvaziaria os cofres da Ordem... E a ordem saiu para «que se conservasse tudo no Estado antiguo».

E assim, querendo os da Trindade se defender, «tractouse de mostrar a verdade porem como esta he mansa e anda de Vagar» os Irmãos já não conseguiram reverter a situação.
A antiga capela nos anos 30 do séc. XX, pouco antes da demolição. Notar que já se haviam rasgado quatro portais no seu rés-do-chão, fruto de uma utilização de décadas como edifício comercial. A seu lado a Roda dos Expostos (2) e o Mercado do Peixe (1) ao lado.
Assim, o sonho de construir ali uma igreja, tão ampla como a da Trindade que agora temos, esfumou-se e após as últimas alegações dos Capuchos que diziam que na abertura dos alicerces já tinham morrido 3 homens, deu ordem para «emtupir» esses mesmos alicerces o Juíz dos Orfãos da cidade e quando a Ordem da Trindade requerer um local para arrumar a pedra lavrada, «respondeo que a metesse pella Igreja Dentro...».

NOTA: Os capuchos que se referem no texto eram os Franciscanos do Vale da Piedade, em Gaia, que resolvendo construir um estabelecimento para a cura dos seus doentes, requereram à camara faze-lo dentro da cidade. Em 1722 foi-lhes concedido um local na praça da Cordoaria, onde segundo Sousa Reis construiram «huma enfermaria ... e de tal forma a levantaraõ que veio a ser hum bom Hospicio bem assente com otimas vistas, annexando lhe dous soberbos armazens de que colhiaõ pingue alugueres». Este edifício, com a extinção das Ordens religiosas em 1734 foi escolhido para fundação da Biblioteca Pública Municipal do Porto, contudo por ser desadequado, no mesmo foi depois estabelecida a Roda dos Expostos.

Nesta foto do AHMP vemos em destaque as traseiras do Mercado do Peixe e ao seu lado, com o nº 2 o edifício da Roda dos Expostos, antigo Hospício dos Capuchos.
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Finalizo com um enigma... As duas imagens que se mostram abaixo pertencem ao AHMP e não estão identificadas quanto ao edifício que representa mas onde se pode claramente verificar que foi na sua origem religioso. Se olharmos com alguma atenção, na parede interna visível existem muitos entalhes onde se colocaram traves por forma a formar um sobrado. Ora uma igreja nunca teria um sobrado, muito menos naquele local, na aproximação à capela-mor(!) pelo que aquele edifício desempenhou no fim da sua vida outras funções...

Tenho para mim, que estas fotos representam a demolição capela do Senhor do Calvário. Ajudou-me também a pensar desta forma a ausência de edifícios por trás, bem como o desnível aparente, que se vê para o edifício que surge á esquerda com a sua claraboia, que parece ser o mesmo que se encontra do outro lado da rua na segunda imagem desta postagem..

Obviamente que nunca ou dificilmente terei certeza deste meu pensar, mas e já agora, pergunto aos meus caros leitores: Estarei a querer ver demais?



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um pouco mais sobre o Largo de S. Roque

NESTA minha postagem me referi ao Largo de Santa Ana, também conhecida como de S. Roque ou do Souto. Hoje recupero, dentro do mesmo assunto, um artigo da Revista o Tripeiro, na sua 1ª série (1908-1911).

A p.124 do vol. 2 diz-nos um certo C. L. se refere a ela nestes moldes:

«... Ora, a escadaria era ornamentada com uns magníficos vasos de granito, muito bem trabalhados, os quais - por arte de berliques e berloques . apareceram, depois, a embelezar, exteriormente, o restaurante "Sentieiro", na rotunda da Boavista. E ainda lá estão expostos à veneração dos fiéis. É o que sei dos despojos do, para mim, saudosissimo largo do Souto.

O largo do Souto!... Parece-me que estou a vê-lo: todo lageado, com a imponente escadaria, a capelinha lá no alto e a fonte ao centro da meia laranja; era mais - em meia tigela; mas era bonitinho, lá isso era!

E a fonte? Que linda! Estou bem certo dela: era formada por uma grande concha de argamassa, que tinha dentro um fedelho de barro, montado num golfinho de pedra com uma bica de ferro na boca, por onde saía melhor água do que a que hoje se vende a dez réis o copo.

Ainda hoje se vê, formando beco, na rua do Souto, uma nesga , com cunhal, que sobejou do que foi preciso gastar, do largo, para talhar a rua do Mouzinho da Silveira.

A nesga referida acima (pertenceriam aqueles parcos degraus ao arranque da escadaria que subia para a capela?) Mesmo por baixo passa o rio da Vila que na verdade só passa por baixo do leito da rua Mouzinho da Silveira no seu percurso mais inferior, num troço antes da rua da Ponte Nova.
O que restava do largo do Souto nos meados dos anos 80 do século XIX (2). O nº 1 indica o edifício da Adega do Olho e o 3 uma casa que se projetava construir no local outrora ocupado por parte da escadaria que subia para a capela, de onde se parece ver ainda alguns restos (reparar na curvatura).
Fronteira àquele beco, está uma porta (n.º 103) com a padieira em arco, que era a entrada de um túnel, por onde se ia ter ao "Rio da Vila", e aos "Aloques da Biquinha", e por onde passou, muitas noites, o ex-traquinas que isto escreve...»
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Esta casa com a padieira em arco ainda hoje se encontra na rua do Souto, sendo uma das poucas que sobreviveu do antigo largo por ser desnecessário expropriar para alinhamento da rua Mouzinho da Silveira (ver abaixo).
Casas sobreviventes do antigo largo do Souto assinaladas de 1 a 4, a casa 2 possuí o arco referido e todas elas fazem hoje parte da rua Afonso Martins Alho.
O rio da Vila parcialmente "à vista" ainda que bastante escondido por uma rede, aquando da obra de requalificação do eixo Mouzinho-Flores. Fotografia de Abril de 2013, na rua Afonso Martins Alho, local onde este passa naquelas imediações (e não o leito da rua do Mouzinho como normalmente se refere.)
Num artigo mais extenso (que transcrevo truncado) um senhor de nome João G. Oliveira e Torres descreve-nos muito bem este largo:

«... Era a praça ou largo do Souto, pelo lado do nascente, de forma semi-circular e encostava-se perfeitamente aos rochedos que formam o alto dos Pelames em seguida ao Corpo da Guarda; e neste lado foi que a Câmara mandou edificar a capela.

O largo representado na planta para a rua do Mouzinho, a amarelo as casas que sobreviveram, a vermelho o local onde agora temos a fonte monumental. Os pontos azuis indicam o rio da Vila.
Era ela exteriormente de forma oitavada e ficava como que encravada na parte central da frontaria; era de boa perspectiva e lindo gosto, e a respeito da qual o padre Rebelo da Costa, que escrevia em 1788, se exprime assim: "... a praça de S. Roque é formada em semi-circulo, lageada de pedra larga e fina, cercada de casas regulares com três andares, de janelas todas iguais e envidraçadas, uma capela feita à romana, que lhe serve de remate; duas bem repartidas escadas com balaústres da mesma pedra fina, vão formar diante dela um largo pátio, debaixo do qual aparece um lindo génio, cavalgado sobre um golfinho, que lança borbotões de água em uma bacia de pedra lavrada em forma de concha, merece alguma estimação do público apaixonado por similhantes obras."

O edifício era todo de pedra lavrada e tinha, por assim dizer, dos corpos: no primeiro sobrepujava-o uma cornija que corria pelas oito faces, e sobre este, mas mais dentro, assentava outro corpo de pouca elevação, que rematava em abóbada, sobre a qual se elevava um formoso zimbório por onde se coava a luz.
...
Ao lado do sul e pegado à capela existia uma pequena sacristia, onde o eclesiástico se paramentava, e em um armário com gavetões se guardavam os poucos paramentos e objetos do culto que possuía, e que pertencia a uma confraria a qual estava a cargo o culto e festividade de S. Gonçalo, confraria composta, na maior parte, de latoeiros que por aquelas proximidades moravam.

Além desta festa, também alguns anos ali se festejou ruidosamente a imagem de S. Vicente Mártir.
(...)
No largo havia feira às terças e sábados, de linho e seus derivados, como: estopa, tomentos e cobertas ás riscas.

Quando dali saiu o mercado os feirantes opuseram-se, e só em presença da guarda municipal é que submeteram a ir para o Bolhão, lugar que a Câmara lhe designou e onde atualmente se conserva.

O largo do Souto antes da hecatombe. A "micro" rua Afonso Martins Alho surgirá do desmembramento da rua do Souto, após o desaparecimento do largo.
Se nos últimos tempos o padroeiro S. Roque teve festa, não sei; o que sei é que as imagens que lá conheci eram: S. Roque, S. Gonçalo, S. Vicente e a Virgem das Dores.
(...)
Falemos agora do edifício.

A pedra, que era de boa esquadria, as escadas e o tanque, tudo foi empregado nas obras da nova rua Mouzinho da Silveira.

Os balaustres foram aformosear a parte superior do arco da fonte da mesma rua, e a água que caía no tanque, dizem ser agora a de uma das suas duas bicas.

A figura de granito que cavalgava o golfinho, e por muitos anos fora o enlevo dos rapazes e talvez o cismar das raparigas, essa dei-me ao trabalho de a procurar, e por fim encontrei-a.

Pouco depois da demolição da capela, era voz pública que aquela estátua fora, por ordem da Câmara, recolhida ao seu edifício, visto que ela era a proprietária de todo aquele monumento; mas passados alguns anos, mandaram-na para um recinto que há junto da casa da Desinfeção Municipal.

Aí me dirigi; mas já a tinham removido para as traseiras das obras em construção, lado norte da Biblioteca Municipal. Entre ruínas de arquitetura e destroços de escultura fui encontra-la; mas em que estado? como diria o poeta: nem sei como de nojo o conte! Estava mutilada, sem cabeça, sem um braço, sem um pé, servindo de calçar um pequeno muro, como coisa de nenhum valor!

A monte, talvez por se julgarem nulidades, ali encontrei brasões mutilados, cruzes lascadas, taças de fontes incompletas, capitéis partidos, e outras muitas peças truncadas que davam o aspeto de um grande cataclismo

A capela e a sua pequena sacristia ao lado. Abaixo da capela o tanque que dava de beber às pessoas às bestas e aos solípedes que por ali passavam (parece um desenho mas trata-se, creio eu, de uma foto).
Houve ideia de se aproveitar a capela e coloca-la em outro lugar; nesse sentido se empenhou uma comissão de influentes religiosos e políticos, com a Câmara para lhe permitir reconstrui-la na rua da Bainharia, lado do sul, no lugar onde depois se construíram dois prédios que naquela rua têm os n.º 40 a 52; mas o terreno tinha de ir à praça, e por essa razão a Câmara não o podia ceder, embora cedesse de boa vontade os materiais da demolição e lhe prestasse todo o auxilio em outro lugar que se escolhesse. Os influentes em vista disto, desistiram do seu propósito.

E assim desapareceu a capela, espalharam-se as imagens, mutilou-se a estátua, tudo se desfez, e deste naufrágio apenas escapou a devoção de S. Gonçalo cuja imagem, colocada na igreja dos frades franciscanos, é um símbolo de fé, uma memória de piedosa crença dos portuenses.»

(1) Como o escultor não tivesse o santo pronto no dia da festa, faltando ao prometido, arranjaram uma outra imagem e modificaram-na, pondo-lhe outra cabeça à semelhança da de S. Vicente!!!)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Um "favor" a Gaia e a fonte do Bonjardim

Vasculhando velhos jornais dou sempre de caras com algumas notícias, artigos de opinião, ou simples notas bastante interessantes. Algumas que desconhecia ou outras que conhecia por terceiros em obras sobre a história da cidade (e que já por algumas vezes comprovei que a informação prestada estava parcial ou totalmente errada!).

Não foi diferente com o Periódico dos Pobres no Porto referente a Julho e Agosto de 1846 que consultei. Os mais atentos à data verão que se está mesmo, mesmo antes da guerra civil da Patuleia (a segunda guerra civil num espaço de uma dúzia de anos) mas já depois da revolta da Maria da Fonte. Pelos relatos dos jornais se vê que por toda a cidade existiam caceteiros, termo usado contra os indivíduos ou grupos de indivíduos que agrediam gratuitamente os seus opositores (chegaram a matar um militar de alcunha O fajardo).

E no meio desta convulsão um jornal diz-nos que tudo está calmo, o outro que não se pode andar na rua por causa dos ratoneiros e caceteiros... Enfim, a luta entre Cartistas e Setembristas estava ao rubro e o pavio já quase todo queimado...

No meio de tudo isto surgem as eleições para a comissão municipal. Dirigia-a José Passos, irmão do mais célebre Passos Manuel, comprometido em gerir as contas da Câmara com muita cautela dado a penúria que existia nos cofres do concelho. Foi reconduzido no cargo em Agosto sendo o mais votado, com menos de 800 votos (poucos tinham direito a votar naquela época).

Durante o período que antecede esta votação, surgem no periódico referido (e opositor) umas pequenas achegas sobre a gestão da Câmara, a seu ver más decisões. Eis alguns excertos:

“Quem não senão ele [vereador Pinto da Silva] compreenderia a necessidade da fonte do Bonjardim? Quantas pessoas ou bestas tem sido vítimas de sede por não poderem alcançar uma gota de água das fontes da Praça de D. Pedro, largo de S. Bento das Freiras, e rua da Madeira pela desmesurada distância em que se acham?! Pode-se ter inveja aos habitantes desde o Bolhão para cima, que vivem na abundância d’água.: queira Deus que eles não sejam tão ingratos da solicitude do Sr. Pinto da Silva, no dia 30 deste mês, com os visinhaes da fonte do Bonjardim conta ele seguro, e muito mais porque o sr. Fiscal projeta macadamisar essa rua, e faça-lhe justiça, é um plano gigantesco, depois do qual ninguém se atreverá a borrar o nome do Sr. Pinto, o ela ter sido calcetada há muito pouco tempo, o ter-se gasto nisso bons e muitos patacos; o haverem muitíssimas outras em muito pior estado, isso são cousas que não entram em linha de conta: em fim é a rua do Bonjardim, e há-de parecer-se com o seu nome, ou o Sr. Pinto da Silva não há-de morar nela!”

Será esta a fonte do Bonjardim do artigo de opinião? Ficava na esquina da Rua do Bonjardim (à esquerda, agora Rua Sá da Bandeira) com a Rua de Sá da Bandeira (à direita, agora Rua de Sampaio Bruno). Por curiosidade, ao fundo não vemos "céu aberto" pois ali encontra-se a fachada nascente do antigo edifício da Câmara Municipal  elogo ao virar da esquina, mas já fora da imagem existia a capela dos Reis Magos

O anónimo continua a apontar a gestão, a seu ver ruinosa, do município pela comissão municipal, nomeadamente à extinção do imposto dos carros que de Gaia entravam na cidade e dos que da cidade para Gaia iam…, assim “a casinha da ribeira levantou-se, e com ela um prejuízo para o município do Porto de 60$ a 70$ - que rendia semanalmente”. E ironiza com o facto de a Câmara de Vila Nova não ter levantado o mesmo imposto para os carros que ali entravam vindos de Ovar. 

Convém esclarecer que a supressão deste imposto advém de um acordo entre os dois municípios em que ambos se comprometeram a suprimir as casinhas onde o mesmo se taxava, à entrada da ponte pênsil. Contudo, e aqui está a queixa de quem escreve, esse imposto rendia bastante aos cofres portuenses, bem mais do que aos gaienses por razões óbvias, pelo que não compreendia a decisão. Embora José Passos tenha explicado quando tomou posse, que a taxação dos carros quando entravam nas barreiras da cidade era já suficiente não havendo por isso necessidade de os sobretaxar.

Uns dias depois o anónimo continua a sua crítica: “E porque será que se planisão obras novas, deixando as principiadas e no coração da cidade! A obra de S. Domingos [rebaixe do murinho iniciado no ano anterior] merecerá desprezo, enquanto que a nova fonte do Bonjardim, próxima e muito próxima de outras, tantos obreiros contem que parece acabar-se antes da posse da Câmara a eleger!” Mais continua: “Será decente aos olhos do público praticar a avilês com que ontem [23 de Agosto] se mudava a pedra do largo e da obra de S. Domingos para a fonte do Bonjardim? Será isto economia, ou andará a pedra fazendo via sacra por economia do cofre?”

Não nos podemos esquecer que isto das opiniões de jornais, é sempre bom ouvir as duas partes. Neste caso a outra parte era o jornal O Nacional, que arrancara em maio, sendo na prática o mesmo que A coalisão apenas com o nome mudado (ele próprio o diz no seu número 1). Mas isso ficará para uma próxima vez.

É esta postagem uma pequena fresta para bisbilhotar o Porto daquela altura, outras mais irei abrindo por aqui se aos meus leitores interessar e eu as conseguir elaborar de forma concisa...