terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Largo de S. Domingos (quase) inédito

Foi com alegre surpresa que encontrei no O Comércio do Porto Ilustrado um conto de Sousa Viterbo de 1899, onde o mesmo refere a sua cidade berço e mais especificamente o seu lugar berço, o largo de S. Domingos. Francisco Marques de Sousa Viterbo foi um portuense ilustre mas que viveu a maior parte da sua vida na capital. Tendo nascido em 1845 na freguesia de São Nicolau, veio a falecer em 1910 em Lisboa e aí se encontra sepultado no Cemitério dos Prazeres. Mesmo quando a partir 1879 foi perdendo progressivamente a visão, nem por isso deixou de ser um trabalhador incansável legando-nos várias obras de elevada qualidade e erudição (algumas podem ser lidas aqui).

Este singelo conto que nos legou nas páginas da revista do jornal O Comércio do Porto creio que não se encontra editado em mais lado algum. O interesse especial que ele encerra, a um nível pessoal, é a descrição maravilhosa que o autor faz do local da cidade que mais profundamente tenho estudado.

Abaixo transcrevo a parte inicial desta obra, precisamente aquela que nos pinta o quadro do palco onde se desenrola grande parte da ação e que por conseguinte precede a parte ficcionada. Grande parte da ortografia foi atualizada. Incluo também alguns comentários em rodapé, sobre pormenores que encontre pertinentes.

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JUDAS VINGADOR
(Quadro de costumes portuenses)

« O largo de S. Domingos era, há 50 anos um dos mais íngremes e tortuosos da cidade da Virgem. Era e é, porque, apesar de todas as modificações que tem sofrido, ainda hoje é irregularíssimo, cheio de esquinas e de cantos, de modo que bem se lhe poderá aplicar o ditado – quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita(1).

Ao centro ornava-o um chafariz, que foi demolido, construindo-se, em seu lugar, uma fonte ao lado, em arco, sob umas casas do Sr. Araújo, que tem loja de papel, o mais antigo estabelecimento deste local. Na casa que confina com esta, ao canto, havia uma loja de droguista, de que era proprietário um sujeitinho magro, bom homem, Manoel António Figueira, apaixonado amador de livros, que competia com os mais afamados bibliófilos portuenses, o Souza Guimarães, o Vieira Pinto, o Carlos Lopes e o visconde de Azevedo, que morreu com mais um grau no seu título.

Uma das imagens que ilustra este conto e que mostra o chafariz ainda no largo (que hoje se encontra atrás da Câmara Municipal). É pouco provável que o chafariz tenha co-existido com o edifício à esquerda.

Contíguo com o extinto convento dos frades, que deram o nome ao largo, havia uns prédios que foram demolidos para abertura de uma rua e que formavam um dos mais afamados recantos do sítio. Era ali a loja do capitão do cantinho(2). Ás vezes, à porta, em manhãs estivas, sentava-se a tomar o refresco o Lobo da Reboleira, um dos mais curiosos e excêntricos tipos de ricaço portuense. Rico e avaro. Era todavia dotado de certa ilustração e perspicácia natural. Contam-se dele, até anedotas e ditos engraçados, mais do que engraçados, de uma ironia mordente. Uma ocasião, indo ele da praça com uma pescada, encontrou-se com um titular de fresca data que lhe disse:

- Ó Sr. Lobo, então não tinha quem lhe servisse de moço?
- Que quer V. Exa.? Desde que os moços de esquina se fizeram fidalgos, não temos outro remédio senão servir-nos a nós próprios!(3)

Defronte, à direita, quem vinha da rua de S. João, havia um renque de casarias de madeira, que foram deitadas a terra e substituídas por outras de pedra, de boa aparência.

Àquele tempo, o largo de S. Domingos quasi se poderia dizer o coração da cidade, porque nele vinham desembocar as duas artérias de mais movimento: a rua das Flores e a rua de S. João(4). Em dias de mercado, sobretudo às terças-feiras, a animação ali era extraordinária, de um pitoresco indescritível, de um ruído insurdescente, de um aparato deslumbrante, pela mistura e confusão dos ruídos, das vozes, dos pregões, dos costumes, dos animais e dos homens. Poucos animatógrafos apresentariam um quadro de mais sensacional impressão.

O largo de S. Domingos, se era um dos focos mais ativos do comércio portuense, era também o ponto obrigado de todas as grandes cerimónias. Os cortejos reais, nas entradas da cidade, as cavalgadas carnavalescas, as procissões mais solenes, tudo desfilava por ali. Pelo tempo das romarias nada mais curioso que ver passar os ranchos dos devotos campesinos, com os seus trajos peculiares, variadíssimos segundo as localidades. Os ricaços, a cavalo nas suas mulas, levando as mulheres ao peito ostentosas tabuletas de ourives; os monstruosos corações de filigrana e os crucifixos de ouro, pendentes de grilhões. Os pobres, a pé, numa alegria doudejante, bailando sempre, ao som das violas, das rebecas e dos clarinetes, levando às vezes, no centro do grupo, uma extensa vara, no extremo da qual um bonifrate fazia os seus exercícios acrobáticos. A filarmónica acompanhava-se então de um coro de gargalhadas, soltado pelo rapazio que acudia ao espetáculo.

Antigamente o largo era calçado por enormes lajeas (sic) de granito como lapides sepulcrais de túmulos de gigantes. Um dia de madrugada, os moradores acordaram com um ruído estranho e com uma visão sinistra. Era o batalhão dos grilhetas, isto é, dos encarcerados da Relação, que vinham levantar o lajeado, brita-lo, e reduzir o piso ao novo sistema de macadam. Então eram os condenados que trabalhavam nas obras públicas, de onde lhe vinha o nome vulgar de calcetas. Se no dia de hoje presenciássemos outra vez aquelas cenas repugnantes, se víssemos chegar o grupo dos miseráveis, algemados de pés e mãos, evocados como números e não como homens, tratados como animais inferiores, que nunca tivessem tido a noção de dignidade, por certo que soltaríamos um brado de indignação ou uma frase de tédio pelo menos, e não trautearíamos saudosamente, na melopeia da tristeza, na melancolia das cousas santas, a chanson du bon vieux temps! »


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(1) - A irregular regularidade que agora tem foi obtida em 1845 após a demolição do murinho de S. Domingos e a remoção do chafariz de S. Domingos. Algumas das pedras do murinho foram usadas na construção de uma fonte na rua do Bonjardim, esquina com a de Sá da Bandeira (agora Sampaio Bruno).

(2) - Eram duas casas conhecidas como casas do cantinho pois que estavam ali como que aconchegadas à parede do edifício do Banco de Portugal (antigo convento dominicano) e ligeiramente mais recuadas que as restantes. Essas casas encontravam-se no local onde existira o lado norte do transepto da igreja dominicana e também a sacristia de uma antiga capela da mesma igreja bem como a capela de Nossa Senhora das Neves. A rua a que Sousa Viterbo se refere é a rua agora com o seu nome que até 1913 se chamou rua Nova de São Domingos, que atravessa solo anteriormente ocupado pela igreja velha, a sacristia velha, o claustro e outras dependências do convento dominicano.

(3) - Nas séries mais antigas de O Tripeiro encontram-se outras versões desta história, bem como outras relacionadas com o mesmo personagem.

(4) - Mouzinho da Silveira só foi rasgada entre 1875-1877.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Onde era o Sério?

Confesso que embora esta questão volta e meia pairasse na minha mente, só recentemente procurei responder a ela a mim mesmo. Mas não foi difícil de lá chegar.

Curiosamente todas as referências que consultei sobre o local apontavam o mesmo como sendo na rua Antero de Quental, todavia sempre me pareceu muito vaga e inexata esta designação: um lugar não é uma rua, sobretudo uma rua grande como a referida. As ruas são posteriores aos lugares e serviam, quando o automóvel não era omnipotente neste planeta, para pôr em contato sítios, lugares, póvoas, casais, enfim aldeolas ou "micro urbanidades" que nos arredores do Porto não faltavam! Mas é verdade que o local ficava algures ao longo daquela rua, ou seja, na estrada para Braga.

Esta designação de lugar do Sério ou sítio do Sério apenas surge referenciada, segundo creio, a partir dos inícios do século XIX para deixar de se ouvir falar dela aí pelos finais do mesmo século. Mas deve ser seguramente anterior, embora não existam nos arquivos da Câmara Municipal muitas plantas que nos mostrem este lugar: apenas uma anterior (1823) e outra posterior (1839) ao cerco do Porto. Contudo é de uma planta disponível no sítio da B.N.D. - excelente para conhecer os arredores do Porto naquela época - que podemos melhor localizar aquele local, tal como era por alturas do cerco do Porto.
Ei-la:
Parcial de uma planta feita a partir da de Balck de 1813, mas acrescentada com os arredores do Porto nos anos trinta do mesmo século [para norte da linha escura ficavam os miguéis (absolutistas), para sul os malhados (liberais)].
Imagem do googlemaps da mesma área na atualidade.
Por razões de simplificação, coloco aqui a legenda:
1 - Monte Pedral, atualmente do monte resta o local do quartel dos Bombeiros e as Piscinas da Constituição por trás deste (a);
2 - Rua do Capitão Pombeiro;
3 - Rua do Vale Formoso;
4 - Rua Antero de Quental (antigamente rua da Rainha)
5 - Quinta do Lindo Vale, agora Parque do Covelo onde estão as ruínas do edifício da quinta e sua capela anexa.

Hoje este local está reduzido a mero cruzamento urbano, regulado pelos muito reguladores semáforos, muitas vezes um caos nas horas de ponta. Enfim, nada de novo aqui... (Mas qual é o lugar, que nunca mais o mostras, pergunta o leitor já um pouco "em pulgas"! Calma... Como referi é um cruzamento banal).

Ecce Loco:
Imagens da tarde de hoje, que nos mostra o cruzamento da rua Antero de Quental, Capitão Pombeiro e António Cândido: o sítio ou lugar do Sério!
Foi durante o cerco do Porto que o Sério teve os seus quinze minutos de fama na história de Portugal. Aqui existiam duas baterias liberais: a de D. Maria II a poente da estrada e a de D. Pedro a nascente. No local terão existido também dois aquartelamentos de tropa, mas tudo estruturas de caráter provisório. Comparando a planta acima com as fotos do local na atualidade, podemos verificar que era sobretudo no lado nascente, onde estão os edifícios da residencial e do toldo vermelho, que se encontrava o descampado de uma dessas baterias.

No dia 9 de Abril de 1833 as tropas miguelistas tentaram ocupar o monte do Covelo, que naquela altura ficava em "terra de ninguém", contudo foram obrigados a abandonar aquele sítio por uma ação comandada pelo Coronel Pacheco auxiliado pelo Major Pimentel, que fez dividir em duas colunas cerca de 400 a 500 homens: uma aproximando-se pela estrada da Aguardente (estrada para Guimarães, agora rua Costa Cabral e rua do Lindo Vale) e outra pela estrada do Sério (Antero de Quental?). Postos os migueis em fuga, os barris e ferramentas ali encontrados que estavam a ser usados para montar o reduto, foram logo usados pelos liberais para o mesmo efeito.

Muro que aparenta ser a secção mais antiga da rua Capitão Pombeiro (coevo da guerra civil?). Todas as edificações novas desse lado da rua estão recuadas por forma a alargar os passeios (uma exigência da Câmara sem dúvida) mas ainda um punhado delas permanecem neste alinhamento.
Recordo-me de algures num jornal dos anos 70 do século XIX ter lido uma notícia que referia o Sério como sendo um "caso sério" de negligência por parte da Câmara face ao terrível estado em que aquela estrada, atravessada por inúmero trânsito inclusive diligências para Braga, se encontrava. O macadam deveria estar mesmo num desmazelo total.

Mas quando morreu verdadeiramente este micro-topónimo? E quantos como ele já "pereceram"?

domingo, 19 de fevereiro de 2017

As eleições para o Colégio Eleitoral e o vapor Porto

Não, não estou a falar das eleições americanas, coisa despropositada e descabida neste blogue! Este Colégio Eleitoral refere-se às eleições no nosso país. A título de exemplo e para os curiosos destas matérias embora não querendo fazer qualquer ensaio sobre história da política, aqui vão uns parcos dados de como se efetuavam as eleições, nomeadamente no segundo semestre de 1845 em plena vigência do cabralismo.

Com efeito, em 26 de junho a Câmara publicou um edital dividindo a cidade em quatro assembleias municipais da seguinte forma:

1ª Assembleia: Igreja da Sé Catedral - compreendendo as freguesias da Sé, São Nicolau e São Pedro de Miragaia;

2ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora do Carmo - compreendendo as freguesias de Nossa Senhora da Vitória e quase toda a de Cedofeita e parte da freguesia de Massarelos;

3ª Assembleia: Igreja de Nossa Senhora da Lapa - compreendendo as freguesias de Paranhos, Bonfim e Campanhã, várias ruas de Santo Ildefonso e a parte restante da freguesia de Cedofeita;

4ª Assembleia: Igreja Matriz de São João da Foz - compreendendo as freguesias da Foz e Lordelo e parte da de Massarelos.

Vem agora o tal "colégio eleitoral". Ora este dar-se-ia, segundo um decreto publicado em 28 de abril no seu n.º 28, da seguinte forma: toda a assembleia que compreender mil fogos dá um eleitor, e a que tiver dous mil dará dous e assim progressivamente pelo que no caso do Porto a 1ª assembleia daria quatro eleitores, a 2ª daria cinco eleitores, a 3ª daria quatro eleitores e a 4ª daria dois.

Como referi no início, isto são apenas uns apontamentos soltos para dar uma ideia ao caro leitor de um sistema atualmente caído em desuso no nosso país, mas que era pelo menos à época em que me reporto, o vigente.

E que época! Bernardo de Costa Cabral era já em 1845 muito contestado! De facto para uma pessoa que iniciara a vida política como um humilde advogado, vira o povo a sua riqueza aumentar a olhos vistos, para além das acusações de nepotismo, entre outras... (ver aqui)
Para dar uma ideia do montante gasto pelo seu partido para estas eleições a ocorrer em agosto, refira-se que nada menos do que o vapor Porto foi fretado até ao fim do processo eleitoral. O correspondente do jornal A Coalisão em Lisboa, de onde extraio estes excertos, afetado é claro pela sua "partideirite" escreve desta forma:
António Bernardo da Costa Cabral (via http://www.tcontas.pt/pt/ )
«Amanhã ou depois parte [o vapor Porto] com o José dos Cónegos: o Tibúrcio talvez não vá por impedimento reumático, que se acastelou nos ossos do ilustre pai da pátria; mas vão outros heróis de honrada fama; e honradissimos costumes; até se diz que vai o Ferrugento, e uma chusma de espiões. [O] Porto deve recebe-los bem; que são os seus salvadores. Quem vier ao desembarque, acautele as algibeiras, que nos apertos é que os tais exercitam a sua ligeireza.

Diz-se que o vapor é também destinado ao transporte de tropas; porque no dia das eleições há-de ser necessário esclarecer algumas opiniões obstinadas com o lume das baionetas: para responder a qualquer orador da oposição, serve melhor um granadeiro, do que todos os Cíceros do ministério.

Este serviço do vapor custa mais de três mil cruzados por viagem. Nisto se gasta o dinheiro da nação: e ainda gastam com a mão mais larga: para certo colégio eleitoral oferecem-se até 20 contos de reis por cada eleitor.»

Com efeito, uns dias depois o mesmo periódico anuncia a chegada do Sr. Silva Cabral desta fria forma:

«Ontem ás 10 horas e meia fundeou no rio Douro o vapor Porto, conduzindo a seu bordo o Sr. Cabral (José).

A entrada do barco, o desembarque de sua Exa., e o seu trânsito foram anunciados por foguetes, e repiques de sinos. A receção foi muda, não houve vivas, nem mesmo dos de encomenda.

Se houvesse de ajuizar-se da importância da receção pelo número de carruagens, poder-se-ia dizer que não foi má; porém como a popularidade se julga pelo cortejo pessoal, e não pelo aparato, ou asseio de berlindas, é força confessar que ainda nenhuma pessoa importante (como é hoje pelo cargo que exerce o Sr. José Cabral) teve no Porto uma receção mais chocha. De toda a gente que o acompanhou não nos apontaram, com verdade, seis pessoas que não sejam empregados, que mais ou menos diretamente estejam debaixo da ação do governo.

Fizeram um mau serviço a sua Exa. uns poucos de indivíduos que se lembraram de ornar as suas janelas com cobertores no ato da sua passagem; porque por seu diminutissimo número fizeram realçar mais o dos que olhavam com indiferença ou desprezo a chegada de S. Exa. Consta-nos que apenas haviam três casas com cobertores na rua de S. João, outras três na rua das Flores, e duas na rua do Almada. (...) »

No ano seguinte, em 10 de junho, já após a revolução da Maria da Fonte e da queda em desgraça do cabralismo pela bancarrota do país, o jornal O Nacional pedia à Comissão Municipal liderada por José Passos simplesmente isto:

mudar «... o nome da rua que do largo da Aguardente vai à da Rainha [ou seja a rua 9 de julho, agora rua da Constituição que naquela época ia apenas do Marquês a Antero de Quental] por nos recordar um dia em que Portugal viu a mais infame e vil traição de um valido da coroa - e assim também o nome que se deu à nova rua que no dito largo principia a estrada de Guimarães, que nos mostra quem foi o traidor. Esperamos o deferimento, pois que o povo já mostrou quanto lhe era repugnante a denominação da rua Costa Cabral derrubando o pilar em que se lia essa denominação.»

Obviamente que esse deferimento não veio pois que a rua manteve o seu nome...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sacos de café dependurados na Torre dos Clérigos?

Conforme prometido na postagem sobre a Meridiana, coloco aqui algumas palavras que portuenses de há um século atrás (1908) nos arquivaram nas páginas d' O tripeiro sobre um outro mecanismo também ele dependente da Torre dos Clérigos. Tudo começou com uma pergunta colocada por um leitor no n.º 10 deste secular periódico que diz:

«Possuo uma gravura antiga onde se vê a Torre dos Clerigos com dois saccos de café, salvo seja, pendurados fóra da varanda superior, como indicadores de qualquer coisa. Em pequenito ouvi dizer que estava installada uma meridiana da Torre.»

Ora, em relação à Meridiana tem só o leitor que reler o ante-penúltmo post; agora trata-se de dar a conhecer as respostas que a este leitor para que também nós cem anos depois possamos ouvir a explicação por quem ainda conheceu o tema. Para isso recolho parte de três respostas que surgem no número imediatamente a seguir ao da pergunta d' O Tripeiro:

«Não eram saccos de café o que o snr. B. S. vê na antiga gravura que possue, representando a Torre dos Clerigos.
Eram bandeiras, como poderiam ser balões de folha de flandres, ou de zinco pintado. Eu explico:
Até 1856, pouco mais ou menos, o unico meio de transporte para a correspondencia do Porto com a Gran-Bretanha, eram os paquetes da companhia ingleza P. & O. (Peninsular and Oriental), que appareciam á vista da nossa barra de quinze em quinze dias. Os vapores, n'aquella epoca, eram de pequenas dimensões e pouca força, comparados com os que se empregam actualmente na navegação transatlantica; por isso, não se podendo contar, senão approximadamente, com o dia e hora da chegada, e para obtemperar ás conveniencias do commercio, que tinha interesse em receber a correspondencia no dia da chegada, foi combinado, entre a direcção da Associação Commercial e o director do correio, com consentimento da Irmandade dos Clerigos que, logo que, pelo telegrapho commercial, houvesse noticia de estar á vista o paquete, fosse colocado um signal na Torre dos Clerigos, que era avistada de quasi todos os pontos da cidade, avisando os commerciantes para mandarem buscar a correspondencia ao correio, que era então no extincto convento das Carmelitas [...].
A torre numa imagem já posterior à época aqui descrita (pormenor de postal antigo)
Aquelle signal consistia, para os dias de bom tempo, em duas bandeiras com as côres da Companhia P. & O. pendentes de um travessão de cada lado ( norte e sul) do varandim superior da Torre; e, para os dias de chuva, em dois balões de lata, pintados com as mesmas côres.
Os caixeiros, a quem competia o serviço de ir ao correio esperar pela distribuição da correspondencia para a levarem a casa dos patrões, tinham ordem de estar attentos á collocação do signal, nas proximidades da chegada dos paquetes, que principalmente de inverno, demoravam um ou mais dias, o que os fazia arreliar, porque os privava de algumas horas de descanso ou de recreio.
Os paquetes, apesar de pequenos, não podiam entrar a barra do Porto; por isso havia uma catraia do sota-piloto Manoel Francisco, encarregada de ir fóra da barra levar e receber as malas de correspondencia e alguns passageiros, que houvessem de embarcar ou desembarcar e que, n'aquelle tempo, eram raros: pois com o mar agitado era muito arriscada a entrada ou saida da catraia.
Muitas vezes sucedia a catraia entrar ao fim da tarde, obrigando os empregados do correio a irem fazer a separação de noite, serviço esse que algumas vezes levava até ás 10 ou 11 horas.»

De facto nos vários jornais que já consultei na Biblioteca Municipal muitas vezes se vê uma pequena notícia referindo a passagem do paquete. E algumas vezes este nem parava porque o tempo estava mau. Seria a correspondência desembarcada em Lisboa? Tempos muito diferentes, os que hoje vivemos...

Mais duas resposta aqui coloco, não tão completas, mas deveras interessantes:

«O que o snr. B.S. julga ser dois saccos de café, não o são, pois que n'essa epoca a Christina, da Cancella Velha, era a unica que tinha o monopolio do saboroso e aromatico producto, não tendo como rival o café da Brasileira, e por essa razão não precisava de réclame para chamar a freguezia ao seu estabelecimento bem conhecido na cidade e até nas provincias.
São, sim, dois signaes com bandeiras, indicando a entrada ou o estar para entrar vapor ou, como hoje se diz, paquete trazendo correio.»

E para finalizar:

«(...) Os taes dois saccos de café, salvo seja, que era costume exhibirem-se ás vistas do publico, já então respeitavel, dependurados nas extremidades de duas pequenas varas, ou páus, collocadas horizontalmente na ultima varanda da torre dos Clerigos, serviam para annunciar que era dia de paquete, isto é, para prevenir quem tivesse de mandar correspondencia pelo paquete para o estrangeiro, principalmente para o Brasil, que devia entregal-a n'esse dia no Correio Geral, que então era no largo do Correio.»
O "Iberia" de 1836, um dos primeiros paquetes da P & O. (via http://www.pandosnco.co.uk/iberia.html)
Como se vê esta última resposta e a primeira não são propriamente coincidentes. Haverá alguma que fuja à verdade? Ou simplesmente reportar-se-ão a épocas diferentes?

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Carro elétrico 163: a História e a Estória

No Museu do Carro Elétrico encontra-se em exposição um veículo que ostenta o número 163, tratando-se do mais antigo carro elétrico portuense preservado construído de raiz como tal. O seu restauro foi feito com o recurso, entre outros documentos, a uma belíssima fotografia de um carro do mesmo tipo puxando três atrelados no Passeio Alegre. Foi construído pela firma Campos e Moraes (também conhecida como A Constructura), fazendo parte de um lote de 24 veículos construídos entre 1904 e 1906 equipados com chassis Brill e material elétrico Siemens. Os seus bancos eram longitudinais, atravessando o veículo de uma ponta a outra e por isso chamadas de risca ao meio.
Carro elétrico modelo "A Construtora" (de Os velhos eléctricos do Porto - pormenor)
Posta esta pequena introdução vamos ao tema: por alguma razão que desconheço, criou-se o pequeno mito de que o veículo que se encontra em exposição no museu é o 163 da foto; contudo isso muito provavelmente não é verdade. Isto porque a frota de carros elétricos foi até aos anos 50 do século XX renumerada diversas vezes, não existindo registos precisos sobre os seus números anteriores ou posteriores. A ajudar a isto tudo houve um incêndio em 1928 na remise da Boavista, que destruiu bastantes carros e avariou alguns mais.

Vai ainda mais longe o pequeno mito dizendo que este carro foi o que descarrilou e caiu no Douro em Dezembro de 1911, juntamente com um atrelado, matando mais de uma dezena de passageiros. Recentemente deparei-me com um post do blogue do Museu do Carro Elétrico que nos mostra umas imagens surgidas na Illustração Portugueza e que acompanham a notícia do fatídico desastre. A imagem legendada como sendo o carro motor a ser retirado da água não é esclarecedora pois foi tirada de longe, sendo que o chassis está virado no sentido contrário: Mesmo admitindo que seja um veículo idêntico ao 163, nada nos diz (até agora) que fosse precisamente aquela unidade.
O acidente de Dezembro de 1911 no Cais das Pedras (foto Illustração Portugueza via Museu do Carro Elétrico)
A numeração inicial destes carros era 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 68, 69; ou seja nesta numeração nem figura o n.º 163 (será que 63 passou a 163 numa renumeração acrescentando a centena?). Contudo a centena deve ter sido acrescentada ainda muito cedo na vida destes veículos, uma vez que há vários exemplos em fotos e postais do início do século onde estes apresentam já o 1xx.
Um carro elétrico do mesmo modelo do "163" passando Monchique, nos anos próximos da tragédia (de O Comércio do Porto Ilustrado). Por curiosidade refira-se que, o local onde se encontra o edifício em primeiro plano era a horta das freiras.
Com o andar do tempo e com os veículos mais antigos a serem retirados e substituídos por outros novos, aos nossos dias acabaram por chegar apenas dois, já com a numeração final da STCP: o 107, que foi recuperado para o museu com o nº 163 e o 111 que foi adaptado a carro esmeril. Estes dois são os únicos sobreviventes da série original de 24, pelo que qualquer um deles pode ter sido o 163 da fotografia antiga. Contudo e como individualmente apenas existem 4,16% de hipóteses dado terem existido 24 unidades, o mais provável é não ter sido nem um nem outro.

O "163" já devidamente restaurado, à parte o lanternim e a caixa de destino (foto de https://hiveminer.com/ - pormenor).
O "163" ainda em serviço, como 107 e já muito descaracterizado do seu aspeto original (foto de https://hiveminer.com/ - pormenor).

Não é portanto taxativo que o exemplar que se encontra no museu seja quer o da foto, quer o do acidente, sendo mais provável que não seja esse o caso. Ainda assim continua a ser, para mim, um elétrico precioso pela antiguidade e por ser original.

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NOTA:
Muita desta informação colhi pessoalmente dos meus encontros com o Sr. Ernst Kers que é para mim a pessoa que melhor conhece a história da frota de carros elétricos da CCFP/STCP. Para saber mais sobre estes veículos: The trams of Porto

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A meridiana da Torre dos Clérigos

Já ouvira há tempos falar deste mecanismo que esteve instalado no topo da Torre dos Clérigos, sobretudo dos escritos arquivados por quem ainda dela se lembravam, nas antigas páginas d' O Tripeiro. Pela meridiana acertaram os portuenses, durante décadas, os seus relógios. Depois de subsistir na torre durante largos anos, esteve a engenhoca instalada na casa mais alta (qual?) da rua 31 de Janeiro, onde ainda existiu durante pouco mais de um ano.

Nos apontamentos recolhidos n' O Tripeiro não recolhiqualquer referência à data em que havia sido instalada, por isso foi com grande alegria que descobri o texto escrito pelo próprio autor do automatismo no jornal O Nacional. Este vem datado de Maio de 1846 mas surge apenas publicado em Julho. Ainda nesse mês, no dia 13, o presidente da Comissão Municipal, José Passos juntamente com  Filipe José de Almeida, Martins dos Santos e Ribeiro Pereira ali se deslocaram em vistoria.

Eis então o relato sobre o funcionamento do mecanismo, pelo punho do seu autor.


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«Snr. Redactor, - Nem tudo será eivado do phrenesi do seculo, nem tudo será politica no nosso reino. Nesse vortice immenso em que giramos, onde mais vezes se batem as paixões que os interesses do paiz, tambem alguma cousa ha-de surgir de verdadeira utilidade. O Porto acaba de fazer uma adquisição desta especie, e por fortuna minha coube-me a mim o seu desempenho. Ahi tem elle uma meridiana sonante, ahi tem ele por tanto satisfeita uma das suas grandes necessidades.

A simples meridiana é uma maquina demasiado comprehensivel e de facil obra, mas não assim se este instrumento se encarrega de transmittir a hora que marca para um ponto longinquo por meio do toque de sinos. A meridiana que hoje tem o Porto pratica isto.

Acha-se ella colocada no magnifico e a todos os respeitos muito apropriado edificio da torre dos Clerigos, e a seguinte é a descrição abreviada do seu maquinismo e effeitos.

Passando o sol pela linha norte-sul da cidade (segundo a fraze ainda hoje recebida) um de oito delgados cordões feitos de quatro fios de retroz preto, que se acha na mesma linha, se queima quando ferido pelo foco de uma lente, e immediatamente pelos espaço de quasi dous minutos, se faz ouvir um repique em muitos sinos, e a detonação de um morteiro. Isto se passa na altura de 52 metros, ou pouco mais ou menos 235 palmos acima da baze da torre, e portanto dá aviso à maior parte da cidade de quando é o seu verdadeiro meio dia, e convida a todos para que regulem os seus relogios talvez duzentas e tantas vezes por anno que tantos são os dias presumiveis em que a atmosfera do Porto deixa ver a face do sol, devendo ao mesmo tempo fazer-se uso das tabuas d’equação, que muito bom seria, snr. redactor, se um qualquer periodico nos desse a sua publicação de futuro para mais commodidade dos habitantes.

Não obstante estar a meridiana collocada fóra da torre: e distante da máquina que tange os sinos, cousa de 50 palmos [11m], e esta afastada delles uns 102 [22,44m], o que tornou um pouco dificil a communicação deste lado; tudo se venceu, e uma vez truncado o cordão que se expoz á acção dos raios solares convergidos pela lente, os sinos tocam, echôa o morteiro, e a peça que contem os 8 cordões foge da sua posição, para depois de dar tempo á deslocalisação do fóco, vir offerecer, por um outro movimento que faz sobre o seu eixo, um novo cordão que no outro dia ha-de repetir esta mesma scena. E porque são 8 os cordões, e 8 tambem os dias de corda que aquella maquina tem, só depois de sectionado o ultimo cordão, é que é preciso refaze-la de novos cordões, e de nova corda que é necessario dar-lhe.
Pormenor de uma imagem de Frederic Flower que mostra a Torre dos Clérigos na altura em que a meridiana ali se encontrava instalada.
Se alguma meridiana semelhante a esta existe na Europa ou na America, eu não tenho disso conhecimento, e se as leis da mecanica não fossem circumcriptas a certos respeitos, e por isso mais faceis de se repetirem os seus resultados do que é possível renovarem-se as figuras do Kaleidoscopo, eu não teria duvida em sustentar que de certo outra meridiana igual não ha, por isso que ella é de minha pura invenção, e execução no mais delicado de suas partes. E ainda me lisongeio, que tão feliz fui em suas combinações, que nenhuma me falhou, e não tive que perder uma unica peça, salvo as que engeitei por menos consistentes, e ainda algumas outros em consequência do novo acordo tomado para serem tangidos mais sinos, e não um só.

Convencido como estou de que a minha obra é de inquestionavel utilidade, não quererei para mim o exclusivo dos ganhos que d’ahi possam provir; e por isso direi que o Porto a deve à Ex.ma. Camara municipal que a mandou fazer, aos seus commissionados, os Ill.mos snrs. Antonio Alves de Sousa Guimarães, e Manuel Joaquim Gomes Guimarães que comigo trataram; a s. Exc.ª o snr. bispo da diocese, aos Ill.mos mesarios da irmandade dos clerigos e seu secretario o Ill.mo snr. D. Francisco da Piedade Silveira, que prestaram o edificio, e finalmente aos meus amigos os Ill.mos. Snrs. Francisco Joaquim da Silva Natividade, João Vieira Pinto, Luiz Ferreira de Sousa Cruz, que particularmente me prestaram todo o auxilio de que careci para a levar a cabo, e outras mais pessoas que muito me obsequiaram, e que por não ser nimiamente prolixo deixo de mencionar, e a quem peço desculpa, e agradeço.

Sou, snr. redactor, de V. muito attento venerador e criado,
Verissimo Alves Pereira -  Porto 10 de Maio de 1846»

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Os Tripeiros que este aparelho conheceram e eram ainda vivos em 1908 escreveram nas páginas d' O Tripeiro várias notas das quais destaco a seguinte:

«... a tal meridiana, era um morteiro, carregado com pólvora grossa, chamada de pedreira, por ser da tal que servia para carregar os tiros abertos por meio de broca nas pedreiras, e que cheirava mal a tres kilometros de distancia, e proximo d'esse morteiro estava colocado um pequeno aparelho com uma lente cujos raios á hora do meio dia convergiam para o rastilho que estava á entrada do ouvido do morteiro, inflammavam a polvora d'elle, e zás... púm-úm-úm!

Toda a gente que trazia relogio no bolso, puchava por elle, não para saber se era meio dia, que annunciava o tal púm!, mas para vêr se os jornaes que traziam a equação do tempo, prevenindo do minuto ou segundos em que o morteiro fazia púm, antes ou depois do meio dia verdadeiro, falavam certo.

Escusado será dizer que nos dias em que não havia sol a descoberto, não havia meio dia.

Tres, quatro, ou mais dias de chuva ou de nevoa, como acontece durante o inverno, e a respeito do meio dia... nicles!

Ora como o tal púm ao meio dia fazia estremecer as pedras da tal varanda onde collocavam os taes páus com os saccos de café (salvo seja) e  ia-as desconjuntando pouco a pouco, resolveu quem d'isso tratava, supprimir o ta púm! com grave desgosto para os pedreiros e carpinteiros principalmente, que tinham grande sympathia pelos relogios de sol, que só regulavam quando havia sol, mas que elles colocavam sobre uma pedra, para quando désse o tiro na torre dos Clérigos, irem vêr se estavam certos!...»

Extraído de uma correspondência de um senhor que simplemente assinou F e que apareceu n' O Tripeiro, ano 1, p. 176.

NOTA: A observação sobre os paus e o sacos de café fica - prometo! - para o próximo post. Acreditem que é deveras interessante para sabermos mais um pouco de como se regulava o mundo do século XIX com os seus sucessivos avanços tecnológicos, mas ainda com bastantes limitações!