domingo, 19 de março de 2017

O Porto do século XII

Continuando a mostrar algumas descrições da cidade do Porto, a desta postagem é talvez a mais difícil (por se encontrar em latim) se bem que a mais sucinta pois quem a escreveu não estava propriamente de visita "turística" e não se desprende muito em falar no burgo, aliás parcas palavras lhe proporciona. Contudo considero-as muito importantes dado que é a primeira vez na história escrita que se fala da cidade sem ser nas fugidias notícias dos cronicões antigos asturo-leoneses (onde portucale urbe se confunde muitas vezes com a região que lhe tomou o nome) ou no foral de D. Teresa (cuja autenticidade embora aceite pelos modernos historiadores, é-o sem provas irrefutáveis) ou mesmo a sua confirmação por Afonso Henriques (este mais tendente a ser considerado falso, não obstante a importância que tem para a toponímia existente aquando da suposta falsificação).

Com efeito, esta descrição vem já desde os século XII! Foi escrita pelo célebre Osberno e está incluída na sua De expugnatione Lyxbonensi de 1147 que relata a conquista de Lisboa. A armada que transportava este nobre até à Terra Santa passou pela costa de Portugal e aportou ao Porto sem dúvida para se abastecer de mantimentos e proceder a reparações nas embarcações, se necessário.
Afonso Henriques terá enviado emissários ao Porto com uma carta para ser lida aos cruzados por forma a que estes o ajudassem na conquista daquela que é agora a nossa capital. O bispo do Porto, D. Pedro Pitões, pediu aos cruzados que subissem lá acima perto da sua igreja a ouvir missa, não perdendo a oportunidade para lhes brindar com um sermão que se traduziu para o Portugal da época como crucial. Dizia ele, mas afinal para quê irem à Terra Santa, em risco de ficar pelo caminho, quando podiam recuperar terras aos infiéis já ali, quase às portas de suas casas? O valor que Deus lhes daria seria o mesmo pois os mouros de lá não eram diferentes dos daqui! Dito e feito assim conseguiu levar Pedro Pitões a água ao moinho do nosso primeiro rei...

Capitel pré-românico em depósito no Museu de Arte Sacra do Seminário Maior do Porto. Possivelmente originário da primitiva igreja da Sé de origem asturiana (foto: Revista de Arqueologia, nº 10)

Eis o excerto referente à nossa cidade (as explicações seguem mais abaixo):

« Habet littus maris ab insula usque ad Portugalam fluvius Ovier, super quem civitas Tude; post hunc fluvius Cadivia, supra quem civitas Braccara; post hunc fluvius Ava, supra quem ecclesia Beati Tyrsi Martyris; post hunc fluvius Leticia; post hunc fluvius Doyra, supra quem Portugala, ad quam ab insula venimus circiter horam diei nonam. Dicta autem a portu Gallorum, habens jam annos reparationis suae circuiter octoginta; desolata ab introitu Maurorum, et Moabitorum. habet autem portus a meridie arenas salubres, a prima rupe in introitu usque ad aliam rupem infra, habentes in latitudine passus duodecim ab extremi recessus margine, in quibus involvuntur aegroti, donec mare superveniens eos abluat, ut sic sanentur. Ibidem vero testatus est episcopus praedecessorem suum sanatum a livore simili leprae. De hujusmodi arenis, quod sint in Hispania, in historiis Romanorum invenitur.

Cum autem pervenissemus ad portum, episcopus una cum clericis suis nobis obviam factus est (...).

His auditis, cum esset jam hora decima, usque in crastinum distulimus respondendum, ut pariter qui in navibus erant omnes mandata regis audirent, et ab episcopo absolutionem peccatorum et benedictionem susciperent. Reliqua diei pars cura rerum familiarium consumpta est. Summo mane, ex omnibus navibus in summitate montis in coemeterio episcopii, coram episcopo omnes convenimus; nam ecclesia, pro quantitate sui, omnes non caperent. Indicto ab omnibus silentio, episcopus sermonem coram omnibus lingua Latina habuit, ut per interpretes cujusque linguae sermo ejus omnibus manifestaretur (...)»

O núcleo primitivo da cidade do Porto atual, a quantidade e altura dos torreões é sem dúvida fantasiosa. A porta que se vê é a porta das Verdades que antes se chamava porta das Mentiras. Este núcleo viria posteriormente a ser conhecido como O Castelo. (foto: pormenor de uma foto da História da Cidade do Porto, Portucalense Editora).

Do discurso do bispo:
«(...) Ista enim nostra, quam cernitis, olim inter celebres, nunc ad instar parvuli reducta viculi, jam nostra memoria multoties a Mauris spoliata est. Verum enim ante hoc septennium ab eis adeo afflicta est, ut ab ecclesia Beatae Mariae Virginis cui, Dei gratia, qualiscunque deservio, signa, vestes, vasa, et omnia ecclesiae ornamenta, captis clericis aut occisis asportarent. Sed et ex civibus captivus, et ex circumquaque jacentibus territoriis, usque ad ecclesiam Beat Jacobi Apostoli, innumeros fere in patriam suam secum transtulere, non sine nobiliorum nostrorum sanguine; igne et gladio caetera consumentes omnia. (...)»

As naus com os cruzados chegaram a 16 de junho de 1147 ao Douro. O bispo logo lhes foi apresentar cumprimentos, lendo-lhes a carta de D. Afonso Henriques. Na manhã do dia seguinte subiram todos ao alto do monte da Penaventosa onde existia a igreja e o Paço Episcopal.
Notar que nesta época a igreja não era a românica que agora lá vemos e o Paço estava a séculos de ser o atual. Tratar-se-ia de uma quase ermida pré-românica (talvez do tamanho da antiga igreja de Cedofeita) sendo que, como eram muitos os cruzados, o sermão foi proferido no "cemitério do bispo", que alguns autores creem não se referir propriamente a um cemitério, mas a uma espécie de claustro onde bispo e cónegos viviam ainda que nele devessem existir os enterramentos dos prelados.

O claustro velho da Sé do Porto, local do antigo "cemitério do bispo"? (foto: Monumentos).

O cruzado não levou do Porto recordações pormenorizadas em boa parte porque não existia matéria para tal, pois o Porto do século XII era apenas um humilde burgo do tamanho de uma aldeia muralhada como muitas que ainda subsistem no nosso país. Na sua memória reteve apenas os banhos medicinais nas areias das margens do rio e do discurso de Pedro Pitões:
«Esta nossa cidade, que tendes diante dos olhos, famosa outrora e hoje reduzida a humilde lugarejo, lembramo-nos de que foi muitas vezes saqueada pelos mouros. Ainda há sete anos eles a invadiram e roubaram da igreja da Virgem Santa Maria, em que Deus me colocou, os sinos, paramentos, vasos e ornamentos sagrados, além de cativarem ou matarem os clérigos.» (in História da cidade do Porto da Portucalense Editora).

Assim verificamos que a nossa cidade, se valor tem por ser a segunda cidade do país, mais valor lhe devemos dar ainda pois subiu a pulso: de um quase apagado lugarejo transformou-se na segunda cidade mais importante do país, fruto do seu suor, que é como quem diz do comércio do trato marítimo e onde não jogava a seu favor uma barra adversa e hostil que só com a construção do porto de Leixões já quase na nossa época, deu tréguas a tanta gente, mercadoria e cascos, que foram engolidos pelo mar e pelas pedras da foz do Douro. A grandeza da cidade do Porto deve-se a ela própria, como sobressai do contraste entre o Portugala de Osberno e a cidade moderna de hoje.

domingo, 12 de março de 2017

João de Barros e a sua descrição do Porto

Creio que a maioria das pessoas desconhece a obra Geografia de Entre Douro e Minho... de João de Barros, que nos dá talvez a mais antiga descrição da cidade do Porto, muito antes de Manoel Pereira de Novaes ou Agostinho Rebelo da Costa. Esta obra sobrevive em 4 cópias manuscritas, uma das quais a original do autor que se encontra em depósito na biblioteca portuense. Bem mais sucinta do que os dois outros nomes referidos, ainda assim é uma pequena janela para o Porto do início do século XVI, numa época em que a cidade se esforçava por urbanizar o restante da sua área intra muros; fosse com novas ruas, fosse com novas construções do clero regular ou edifícios públicos.

Notar que este João de Barros foi escrivão da câmara de el rei D. João III e do seu Desembargo e não deve ser confundido com um outro João de Barros celebrado pela sua Gramatica da Língua Portuguesa e as Décadas da Ásia.

A ortografia do texto foi atualizada na sua maioria, deixei apenas como no original as divergências face à moderna que possam indicar pronúncia diferenciada da nossa (mas tendo presente que no português falado daquela época existiam bastantes diferenças que não transparecem na ortografia). Em relação às afirmações de João de Barros, embora algumas delas sejam menos exatas, quis-me imiscuir de as corrigir dado o objetivo desta postagem: dar a conhecer a um maior número de pessoas este texto.

As imagens que acompanham o texto são extraídas da gravura de Pier Maria Baldi, de época posterior mas ainda assim as mais chegadas a João de Barros.

§§

«E começo na cidade do Porto, que é cabeça da comarca, e digo que é uma cidade mui notável e das principais deste reino, pelas cousas insignes que tem, a qual está junto ao rio Douro, hua légua do mar, onde chegam todas as naus e navios que vem de toda a parte a ela. Esta cercada de muro de cantaria mui forte, que se fez em tempo de el-rei D. Fernando, deste reino, no qual há trinta torres fortes e altas e doze portas e postigo por onde se serve. Tem também, onde está a See, outro muro velho que a cerca, onde primeiro soía ser a cidade. A See foi começada pela rainha D. Tareja, mulher do Conde D. Anrique, e ali fez uma doação ou instituição em latim, onde se chama filha do glorioso Afonso, emperador das Espanhas, o qual, posto que assi se chamasse, não se fez dele eleição nem coroação. Depois, a rainha Dona Mafaldra, sua nora, mulher de el-rei Dom Afonso Anriques, acabou aquela See e lhe dotou muitas rendas, onde ela tinha singular devação, porque achara, ali, em hu silvado, hua fermosa imagem de Nossa Senhora, a que ora chamam, por esta causa, Nossa Senhora da Silva, e no tesouro da See estão muitos atavios, que esta rainha aí deixou, de sua pessoa, assim como toucados, lenços, camisas, que não são assi sumptuosos como os de agora.

Tem esta cidade preeminência e excelência que pode fazer os homens fidalgos e nobres; porque os reis passados lhe concederão previlégio que os que fossem cidadãos dela tivessem os previlégios que naquele tempo tinham  os Infanções e ricos homens, os quais, segundo a mais certa interpretação, eram senhores de terras, de conselho do rei, sem título de duques nem de condes, porque ainda naquele tempo se não costumavam tanto na Espanha.
O belo monte e o morro da Vitória: 1- a porta do Olival, 2- a porta Nova ou Nobre, 3- os conventos de S. Francisco (esq.) e S. Domingos (dir.).

Em Trás-os-montes há hu conselho que chamam Aguiar, e tem hua aldea junto ao rio Tâmega, em hu bosque, e, como quer que os reis dessem tão grandes previlégios aos que povoaram terras hermas, diz o foral daquela aldea que, quando o rico homem for ao rio fazer troviscada, que eles lhe dem hua merenda de porretas com vinagre; sem mais outro foro; assi, que rico homem he senhor das terras cujo previlégio os cidadãos do Porto tem. Outro previlégio tem esta cidade muito grande, o qual é que nenhu grande senhor possa nela viver nem menos pousar, senão três dias, do qual previlégio pesou muito aos senhores que naquelas cidades tem suas terras, porque desejaram muito viver aí em tanto que alguns clérigos fidalgos procuravam haver benefício na See para com isso poderem aí viver, os quais cidadãos, consentem enquanto bem vivem e não alvoroçam a terra. E foi esta boa consideração dos antigos conforme ao que diz Aristóteles nas Políticas, o que também el rei D. Fernando mandou em seu tempo que se guardasse em Lisboa, como se contem em sua corónica. É cidade enobrecida de muitos e mui nobres templos, assi como a See, que é de abóboda mui forte, com torres altas que a cidade tem por divisa, com Nossa Senhora no meio, porque as scripturas antigas lhe chamam de Santa Maria, tem nobres claustras e é melhor aposento para o bispo que pode haver em outra parte. Está na See o corpo do mártir São Pantaleão, que, maravilhosamente, de Grecia por mar ali aportou. Está em uma caxa de prata dourada, de muito preço, e a cabeça anda apartada para visitar os enfermos. Está também ali hu braço de São Vicente, que se trouxe de Lisboa, e assi outras muitas relíquias.

O mosteiro de S. Domingos edificou a rainha Dona Mafaldra, não a mulher del rei Dom Afonso, que edificou a See, mas hua sua filha, que se chamou também assi; e naquele tempo chamavam rainhas às filhas dos reis e não ifantes, como agora se chamam. E esta mesma fundou o mosteiro de Arouca, onde ela jaz. É este mosteiro de São Domingos de nobre templo e grandes capelas, alpendres e jardins, com tanta água que pode bastar a hua vila. Têm os frades muitas relíquias e hua parte do lenho da cruz; não tem muita rendas, mas tem muitos religiosos.
O núcleo original da cidade (morro da Penaventosa e Ribeira): 1- A Sé Catedral, 2- A porta da Ribeira.

Outro mosteiro há de Santo Eloi, que há quarenta anos que ali se fundou e tem trezentos mil reis de renda. Tem bons jardins e fonte que dentro nasse.

O mosteiro de São Francisco é hu edifício muito singular, grande, claro, aprazível, com grandes hortas e pomares, com muita água que de fora lhe vem.

Há mais, dos muros da cidade para dentro, o mosteiro de Santa Clara, de freiras, que é casa de muita relegião e grande convento de Donas de nobre gestação, ao qual vem muita água, e terá seiscentos mi reis de renda. Este mosteiro foi primeiro fundado onde chamam Entre ambos os Rios, (onde o Tâmega se mete no Douro), nos anos de mil e duzentos, seis légua do Porto, e depois as freiras, por parte de terem e conservarem melhor a relegião, se mudaram ao Porto (…).

E tornando à cidade do Porto, donde afastei o propósito, digo que tem outro mosteiro no arrabalde de Vila Nova, ou banda de além, que é de freiras da ordem de São Domingos, que não há muito que foi edificado por hua duquesa de Bargança que aí jaz. É mosteiro de muitos jardins e águas, e lugar muito fresco, salvo que lhe chega às vezes o Douro, quando vai grande.

Outro mosteiro de freiras da Ordem de São Bento se fez aí, pouco há, por mandado del rei Nosso Senhor, com autoridade do papa para se trasladarem nele quatro mosteiros da mesma Ordem que estavam pelos montes e não pareciam honestos para mulheres, scilicet Vila Cova, Tarouquela, Tuias e Rio Tinto; e este que se fez está dentro na cidade e é casa nobre e de muita água dentro e que tem muitas religiosas e muita renda.
Vila Nova, a serra do Pilar com os Guindais/Codeçal em fundo: 1- o monte onde se estabeleceu o convento da Serra, 2- Vila Nova, 3- Convento de Santa Clara no local dos Carvalhos do Monte.

No cabo do arrabalde de Miragaia [Monchique] fundou outro mosteiro de observância da Ordem de Santa Clara dona Brites de Vilhena, no aposentamento que fez com seu marido, Pero da Cunha, e certo que é hu edifício e assento que cuido que há poucos anos daquela sorte, assi na igreja e retábulo, como nas casas, jardins, pomares e muitas fontes, e tem duas claustras mui singulares e em cada hua sua fonte no meio levantada, afora outras que dentro estão. E certo que esta senhora ornou tanto este mosteiro que com isso deixou de sua grande vertude.

Outro mosteiro mandou tresladar aí, pouco há, el-rei Nosso Senhor, que é o de Grijó, que estava daí duas léguas e é isento imediato ao Papa, que tem muitas igrejas de sua representação, e, por estar mais conjunto à cidade se pôs da banda de além, para o meio dia, em hu lugar alto, de muita vista, por indústria do muito reverendo padre Dom Brás, que hora é bispo de Leiria, que fundou, redondo de arte mui nova, e em lugar donde se vê o mar e a cidade, e o reformou e fez da observância e parece muito melhor e mais próprio a serviço de Deus estar hu tão insigne mosteiro antes ali que em hua aldea, que assi deviam fazer a outros que há na comarca. Valerá a renda deste mosteiro hum conto com a dos cónigos, que são Regrantes da Ordem de Santo Agostinho.

Tem a cidade o arrabalde de Vila Nova, que já disse, cuja parróquia é Santa Marinha, e junto dela está o castelo de Gaia em hu lugar alto e mui aprazível, porque todo aquele monte ao redor é cheio de arvoredos frescos onde há muitas laranjeiras, loureiros e outras árvores que fazem aquele monte muito fermoso, com muitas águas e fontes ao redor. Este castelo é já derribado, que a cidade derribou estando nele hu alcaide que fazia agravos na terra. É tão antigo que dizem que o fundou Caio Júlio César e daí tomou o nome, e ali estavam alguas pedras com o nome de Caio César.

Há outro arrabalde a que chamam Miragaia, porque está defronte de Gaia, de que é parróquia São Pedro, onde está hu hospital do Spirito Santo, com parreiras, jardins e grande fonte.

Outro arrabalde está mais afastado, a que chamam Massarelos, cuja parróquia é o mosteiro de Cedofeita, que é de cónegos seculares da Ordem de Santo Agostinho, que é mosteiro assás deleitoso, de muitas frutas, jardins e fontes, que tem conezias, chantre, mestre-escola e prior, e terá por tudo quinhentos mil reis de renda com a dos cónigos. Haverá trezentos anos que este mosteiro é fundado.
Gaia e Miragaia: 1-uma nesga de Gaia onde no topo existiu o seu castelo, 2- A torre da Marca onde agora temos os jardins do Palácio de Cristal, 3- o arrabalde de Miragaia e bem mais ao fundo o de Massarelos.

Em todos estes arrabaldes e ao redor deles há muitos vales com jardins de laranjeiras, limoeiros e árvores desta nação, em grande número, e outros arrabaldes há menores – da Porta do Olival e de Santo Ildefonso, onde está outra parróquia.

Tem esta cidade muitos hospitais e ermidas de muita devação e terá por todo quatro mil vezinhos. Haverá nela e em os arrabaldes mais de cinquenta chafarizes e fontes e muitas delas tamanhas que hua abastara a hu grande povo.

Duas ruas tem principais – a primeira é a rua Nova, spaciosa e comprida, mais larga que a de Lisboa, e no cabo tem o mosteiro de São Francisco., e aí, logo junto, a praça. Dezia por ela el rei Dom Afonso o quinto que a rua era a sala e as casas eram as câmaras, o mosteiro era a capela e a praça o Jardim. A outra rua mui nobre é a rua nova de Santa Caterina das Flores, que se abriu, pouco há, onde eram hortas e jardins, a qual é mui comprida e tem no cabo o mosteiro de São Domingos com hu fermoso chafariz de muita água, e em cima os mosteiros de São Bento e de Santo Eloi, com outra fonte muito grande, e afora estas há pela rua e junto dela outras cinco ou seis fontes. As casas destas ruas tem todas quintais e jardins mui frescos e hortas que quasi todas tem água com que se regam, e a mor parte destas casas são boas e nobres.

Não achei qual fosse o fundador desta cidade, mas parece que é mui antiga e do tempo dos romanos, assi como disse de Gaia, que também eu vi alguas pedras nesta cidade que tem estas letras: IVLIVS.

Mas que fosse havida por cidade o não acho, salvo do tempo del rei Dom Afonso Anriques para cá.

Tem o termo de nove léguas em comprido, desde Grijó tee cima de Arrifana de Sousa, onde há muitos julgados e coutos de diversas pessoas, e principalmente dos mosteiros. Assi como o couto de Grijó, Pedroso, Avintes, São João da Foz, Rio Tinto, Vairão, Leça, Santo Tirso, Roriz, Bostelo, Paçoo, Vilela, Ferreira, Moreira, que todos são coutos de mosteiros e tem honras de senhores, que são Lourosa, Louredo, Baltar, e tem no termo os julgados da Maia, Aguiar, Penafiel, Gondomar, Bouças e Refojos.»

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ainda na peugada de Sousa Viterbo

Logo a seguir a ter colocado o post anterior, vim a "descobrir" no 1º volume da 5ª série de O tripeiro, um artigo do Dr. Magalhães Basto sobre Sousa Viterbo onde é feita referência ao conto Judas Vingador que em parte transcrevi.

Há ainda um outro trecho deste texto com bastante interessante, mas que numa primeira análise decidira não incluir por se tratar já da parte de ficção.
Ainda assim, sugerido pelo facto de a loja do ficcionado capitão do cantinho ser precisamente na casa onde Henrique de Sousa - o pai de Sousa Viterbo - tivera a sua loja de sirgueiro e retroseiro; e pelo pitoresco da descrição que por ventura não será completamente ficcionada... creio que vale a pena também a incluir neste blogue.

Que foi naquela casa que nasceu esta distinta personalidade não há dúvida pois isto nos diz de punho próprio em tom de gracejo numa carta escrita em 1870:
«Nasci nesta cidade do Porto, largo de S. Domingos, freguesia de S. Nicolau. Se algum dia a minha popularidade chegar a tanto que a câmara da invicta cidade queira mandar colocar uma lápide na frontaria da casa onde nasci, já não o poderá fazer, porque foi deitada abaixo, para se abrir nova rua!!»

(in Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. 29 p. 139)

Local onde se ergueram as casas do cantinho, encostadas ao (agora) Palácio das Artes. A fachada atual não é a original do edifício pois foi necessária reconstruí-la respeitando o alinhamento da nova rua em 1872.
De facto já não havia casa para colocar lápide. Mas a rua que Sousa Viterbo refere em 1870 ainda não estava aberta ao trânsito não obstante todas as demolições já se encontrarem efetuadas incluindo a da casa em que nasceu bem como a sua companheira do lado, que se encostavam ao edifício do Banco de Portugal e conhecidas como casas do cantinho.
Quem comprara lotes de terreno para edificar na nova rua exasperava desde 1865 com a demora do governo (o terreno era nacional pois fizera parte dos Bens Nacionais graças à extinção das ordens religiosas) Apenas em 1871 se tomaram providências nesse sentido e só em 1872 a rua foi finalmente aberta.

Mas a memória de Sousa Viterbo não saiu a perder. Mal sabia ele que em 29 de Dezembro de 1913 a Câmara Municipal, após iniciativa do Ateneu Comercial do Porto, fez descerrar a placa que dava, doravante e para o futuro, o seu nome à artéria que até ali se chamara rua Nova de São Domingos, estando presentes sua viúva e filha. Foram por isso duas as "lápides" e não uma que a Câmara colocou em sua memória.

E desta forma termino, para dar lugar ao segundo excerto do conto de Sousa Viterbo Judas Vingador, onde a loja do capitão do cantinho e seus frequentadores é descrita. Este trecho vem imediatamente na sequência já colocada no post anterior e é, também ele, delicioso de ler, e como o próprio autor diz, não foge muito à realidade do tempo, não obstante se tratar de ficção:

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«Tal é, ligeiramente esboçado, o tablado onde se vão passar algumas cenas desta nossa narrativa, que, embora singela e despida de atavios, se poderá muito bem considerar histórica e quase autêntica.

Descrevamos agora os personagens principais, a começar pelo protagonista, o Sr. Lourenço Dias, mocetão de 28 anos, robusto, sadio, mas sentindo vibrante a paixão do amor, como se o seu organismo tivesse a complexão delicada e nervosa de um pálido Antony.

Lourenço Dias era natural das proximidades de Santo Tirso, donde aos 12 anos viera para o Porto para marçano numa loja de sirgueiro de vestimentas sacras na rua das Flores. Aos 17 anos terminava o seu curso e era investido nas insígnias de caixeiro; uma farpela completa de pano preto, uma gravata e um chapéu alto. Não se imagina o delírio que este acontecimento produzia na alma do neófito, que assim via transformado o balcão na ara da sua liberdade. Por gravata ao pescoço era o mesmo que usar um símbolo de alforria. O escravo, como se ainda estivéssemos na idade média, tornava-se homem livre, como que adquiria a sua dignidade social. Quasi sempre era pelo Natal que este facto se realizava, e o novo caixeiro, despida a sua larva de marçano, lá ia à terra celebrar a sua iniciação, consoar com a família, escaldar o piolho, como vulgarmente se dizia.

Lourenço era de uma humilde família de lavradores, cuja propriedade não lhes dava para o sustento, tendo o pai de empregar-se muitas vezes, para adquirir o indispensável, no amanho da terra dos outros. Não tinham outro filho e toda a sua ambição era que ele fosse para a cidade, onde faria fortuna, onde enriqueceria como um brasileiro. Os pobres pais já não eram crianças quando o filho lhes apareceu pela primeira vez de cartola. Imagina-se facilmente a sua alegria. Eram, todavia, achacados e os rudes trabalhos tinham-nos consumido. Não duraram muitos anos e não conseguiram ver o filho subir às alturas que tanto haviam sonhado. No entanto o filho auxiliou-os quanto possível e não lhes faltou nada na doença e à hora da morte.

Aos 25 anos o Lourenço estava órfão, cheio de mocidade, de saúde e rico de esperanças. Era trabalhador, de bons modos para com todos, bemquisto, simpático. Tendo vendido os pequenos bens que possuía na terra, com algumas economias mais, resolveu estabelecer-se, tomando uma loja de sirgueiro e retrozeiro no largo de S. Domingos. Um amigo emprestara-lhe uns centos de mil reis que lhe faltavam para efetuar a transação e para o giro mercantil.

Era modesto o estabelecimento de Lourenço, e se estava um pouco decadente ao tomar conta dele, em breve lhe soube readquirir o crédito, de modo que era uma das lojas a retalho do sítio que fazia mais negócio. Lourenço ora estava à banca, como sirgueiro, ora vendendo ao mostrador.  A sua freguesia era sobretudo das aldeias circunvizinhas, num raio de duas a três léguas. Ás terças-feiras a concorrência de mulheres do campo era extraordinária, vindo muitas deixar ali em depósito as boroas de milho, que os parentes, geralmente carpinteiros e pedreiros, vinham depois buscar para consumo de toda a semana. À noite a gaveta vergava sob o peso da patacaria. O apuro não era inferior a dez moedas.
A loja do Lourenço podia servir a um curioso de folklore de interessantíssimo observatório etnográfico. Ali se viam os mais variados trajos, que em volta do Porto quasi diversificam de aldeia para aldeia. O principal fornecedor de Lourenço era um negociante do mesmo largo, de alcunha o Carinha de Santo, mas à loja vinham oferecer grande variedade de produtos das industrias caseiras, muitas das quais se extinguiram ou estão em completa decadência. As sanjoaneiras, ou habitantes da Foz e Matosinhos, traziam camisolas de algodão, luvas grosseiras e outros artefactos idênticos. De outras terras, fabricadas por homens ou mulheres, vinham linhas brancas e tingidas, fitas de linho, botões de osso, cordas de tripa ou de arame para viola, colchetes de arame batidos a martelo, etc. Podia formar-se um pitoresco museu industrial de todos estes produtos, que quasi desapareceram por completo, graças à concorrência implacável das máquinas.

Francisco Marques de Sousa Viterbo ( da Wikipedia )

A loja do Lourenço era frequentada continuadamente por três indivíduos, que se diziam seus amigos, e que efetivamente lhe eram dedicados, e que nas longas noites de inverno, faziam dali o seu club ou soalheiro. Lourenço estava à banca trabalhando, tecendo cordões ou fabricando qualquer outra obra da sua especialidade; os marçanos e o caixeiro arrumavam a loja. A cena era alumiada por velas de cebo, ou por alguns candeeiros de azeite, porque o gás só fizera a sua entrada no Porto na aclamação de D. Pedro V, e o petróleo, o gás liquido, como lhe chamavam, só se vulgarizou mais tarde. Tinha o quer que fosse de fantástico aquela comesinha e burguesa Valbruga. Um dos personagens mais salientes, pela sua figura e pela sua idade, era o Francisquinho cego, cujo apelido lhe viera de um defeito visual, que quasi lhe obscurecera completamente a vista. Victor Hugo, se o houvera conhecido pessoalmente, tomara-o para modelo de Quasimodo. Como se não lhe bastara a cegueira, manquejava de uma perna. Apoiado a um bordão, conhecia-se de longe o seu andar característico pelo bater rítmico do pau. Era alto, de uma estatura avantajada, e quando se espreguiçava e se estendia de encontro à ombreira da porta, tomava as proporções de um gigante. Dir-se-ia que era elástico. Trazia quasi sempre não mão um lenço vermelho, que sacudia de um modo peculiar. Quando o agitava com mais violência e rufava na caixa de rapé, era sinal de cólera; a tempestade estava eminente. Era empregado na alfândega, onde batia o selo e nas quartas-feiras cantava no Lausperenne dos Terceiros de S. Francisco. Um artista e um filósofo.

O outro era um carvoeiro, o Hermenegildo da rua das Congostas, tortuosa e sombria rua que desembocava, por um lado na rua dos Ingleses, e por outro entre a rua de S. João e o largo de S. Domingos. Foi nesta rua que nasceu e residiu por muitos anos o honrado e saudoso fundador do Comércio do Porto, Manoel de Souza Carqueja. Hoje, das  Congostas só resta o nome.

O carvoeiro havia servido no exército de D. Pedro e fora condecorado, pela sua intrepidez, com a Torre e Espada. Era corneteiro e gabava-se de ter concorrido para se ganhar a vitória da Lixa. Ferido, não desanimava e continuava a tocar a avançar, incitando os seus companheiros. Era outro corneteiro de Badajoz, de mais lendária que autêntica memória.

O terceiro, finalmente, era um tamanqueiro, o S. Gens, que morava aos Caldeireiros e viera estabelecer-se na rua de S. João. Não sabia ler nem escrever, mas recitava de cor as profecias do Bandarra, as do pretinho do Japão e toda a literatura messiânica portuguesa. Era um crente, um fanático, que esperava com entusiasmo a vinda de D. Sebastião, e que não perdia a fé, apesar das manhãs de nevoeiro se sucederem sem lhe trazerem o desejado Encoberto. Os motejadores troçavam-no, mas perdiam o seu tempo, porque ele respondia-lhes triunfante, com a interpretação genuína das tesouras e outras figuras não menos simbólicas e convincentes do profeta de Trancoso.

As conversas versavam quasi sempre sobre episódios da guerra do cerco e da patuleia, contados pelo carvoeiro, que o Francisquinho escutava com prazer intenso, porque era constitucional exaltado, não podendo ouvir falar em miguelistas – esses burros, como ele, no seu intransigente ódio político os qualificava sempre.

Às vezes o terceto transformava-se em quarteto quando aparecia um alfaiate da rua de Belomonte, muito devoto, que andava sempre pelas igrejas e que tinha um filho de dez anos, a quem pegou a monomania religiosa, sendo todo o seu empenho fazê-lo padre, o que pode conseguir finalmente. O pequeno já pregava sermões e quando vinha com o pai, lá impingia o seu panegírico a Santo António, cuja imagem se ostentava num pequenino oratório ao fundo da loja. Servia de púlpito, um banco de madeira, em que se empoleirava aquele Vieira em miniatura.

Naquele tempo poucos eram os lojistas que não reverenciavam o taumaturgo português, acendendo-lhe todas as noites a sua lamparina. No dia 13 de junho era de ver qual deles ostentava mais vistoso trono, coberto com a mais rica toalha, cheios de degraus de castiçais de prata e de jarras de porcelana. As leiteiras e as lavadeiras do Candal, de Oliveira, e de outras povoações dos arredores contribuíam com molhos de cravos e ramos de outras flores.

Lourenço também era devoto do Santo; em mais de uma ocasião crítica, nos transes difíceis da sua paixão amorosa, se apegou a ele, mas como não fizesse o milagre que desejava, nunca mais lhe acendeu a lamparina nem tornou a fazer festa. Pouco faltou para o atirar ao poço!»

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Estou ciente de que se tornou um post bem longo; mas digam lá meus caros leitores se não valeu a pena esta agradável viagem a Porto dos meados de XIX, pela pena de um seu filho quase esquecido na atualidade?